O irrotulável Luiz Melodia

Foto: divulgação

 

Foi mais fácil para a crítica e a indústria rotularem-no de maldito, como o fazem com qualquer um que não se enquadre a seus ditames. Ora, que ousadia, um negro descido do morro de São Carlos, Rio de Janeiro, não querer fazer samba. Ou não se limitar a fazer isso, destino natural de todo preto que se meta com música, ao menos era/é o que pensavam/pensam – e diziam/dizem – à época/ontem, hoje e sempre.

Consciente de seu papel e lugar, mesmo rotulado de maldito, Luiz Melodia (7/1/1951-4/8/2017) fez um dos discos fundamentais da história da música popular brasileira, daqueles que entram em qualquer lista de melhores em todos os tempos: Pérola negra, de 1973, era pura ousadia, desde a capa, pura ironia, desde o título.

Em 1971, nos lendários show e disco Fa-tal – Gal a todo vapor, Gal Costa lhe revelaria o talento ao Brasil, ao gravar justamente aquela que viria a ser a faixa-título de seu álbum de estreia. Além da tropicalista estão entre seus intérpretes Arnaldo Antunes, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Cássia Eller, Elza Soares, Jards Macalé, Jussara Silveira, Maria Bethânia, Mart’nália, Pedro Luís, Renato Braz e Virginia Rosa.

Entre seus grandes sucessos estão Magrelinha, Estácio, Holly Estácio, Juventude transviada, Farrapo humano, Congênito, Fadas, Ébano e Presente cotidiano. Sua gravação para Codinome Beija-Flor (Ezequiel Neves/ Cazuza/ Reinaldo Arias) obteve grande êxito radiofônico, tendo integrado a trilha sonora da novela global O dono do mundo (1991). Entre as “flores em vida”, recebeu homenagens de Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, outros artistas, como ele, rotulados de malditos. O primeiro, com participação especial do homenageado, ofereceu-lhe Doce melodia (Luiz Melodia) (1982); o segundo, Quem é cover de quem? (1993).

Somente em 2007, com Estação melodia, ele dedicou um disco inteiro ao samba. Mas aí, independentemente de rótulos, já podia fazer o que queria – no fundo, sempre foi assim. Seu disco mais recente é Zerima (2014). Luiz Melodia tinha 66 anos e estava se recuperando de um transplante realizado para combater um câncer de medula.

Agora sabemos por onde anda Belchior

O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução
O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução

 

“Se você vier me perguntar por onde andei/ (…)/ de olhos abertos lhe direi”: que falta faz um Belchior nestes tempos tenebrosos que vive o Brasil. Desaparecido há alguns anos, o bardo cearense faleceu esta madrugada em Santa Cruz do Sul/RS, destino final deste “jovem que desce do norte pra cidade grande”, “há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa”

O bigode mais importante da música brasileira já estava afastado de palcos e estúdios há alguns anos, mas é fato que sua obra nunca o deixou desaparecer por completo – o que não acontecerá nem agora, quando de sua subida – e nunca deixou de traduzir o Brasil à perfeição, “amar e mudar as coisas me interessa mais”.

“O passado é uma roupa que não nos serve mais”, mas parece que teimamos em usar, mesmo rota e apertada, que o diga o golpe em curso, que falta faz a mira do sobralense apontada para este estado de coisas, atendendo ao pedido de hashtags e blocos de carnaval: fora, Temer! Volta, Belchior! “Com fé em Deus, um dia/ ganha a loteria/ pra voltar pro norte”.

“O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias”, declarou o governador do Ceará Camilo Santana (PT) em uma rede social.

“Nossos ídolos ainda são os mesmos” e sexta-feira passada, quando Gildomar Marinho, radicado no Ceará, subiu ao palco para uma canja durante a apresentação de Wilson Zara no Buriteco Café, pedi-lhe que tocasse Conheço meu lugar, a minha preferida (escolha difícil) do repertório de Belchior: “o que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”.

Triste, me pego tentando sorrir de obituaristas que ainda caem na velha piada do quilométrico nome falso que Antonio Carlos Belchior (só isso!) inventou em entrevista à turma do Pasquim.

Mas “não há motivo para festa/ a hora é esta/ eu não sei rir à toa”. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco” que gasta os poucos trocados com discos, livros e jornais. Agora sabemos por onde anda Belchior. Sua volta pode ser impossível. Sua permanência, não: “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”.

Que venham as homenagens, a mais aguardada, certamente, o lançamento da biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, do jornalista Jotabê Medeiros, setembro que vem. “Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo)/ Desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto/ E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto/ Que a terra lhe seja leve”.

Obituário: Serralheiro

 

Em torno da consolidação da cena reggae em São Luís há muito de lenda, hipérbole e imodéstia. Mineiro radicado no Maranhão desde a década de 1960, Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro – nome artístico herdado de sua antiga profissão, será? –, é um dos pioneiros na introdução do gênero jamaicano em festas em São Luís. “Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo”, declarou, falando de si mesmo em terceira pessoa, em entrevista ao jornalista Felipe Larozza, publicada há cinco dias.

Sem falar uma palavra de inglês, Serralheiro esteve em Londres 28 vezes e na Jamaica 17 vezes. “Sou o cara que tem mais coragem no mundo”, bravateou ao mesmo jornalista. “Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu”.

O dono da mítica Voz de Ouro Canarinho – nome de uma de suas radiolas – era um colecionador inveterado, mas gostava de exclusividade – reza a lenda que ao comprar um disco, raspava os que ficassem nas lojas para que ninguém mais tivesse as músicas que tinha. Não repetia música em suas discotecagens. Uma que mereceu destaque foi sua aparição na Virada Cultural paulista, em 2011 (veja o vídeo que abre este obituário).

O DJ Tarcísio Selektah, que há alguns dias havia usado as redes sociais para solicitar doações de sangue a Serralheiro, manifestou-se sobre a perda. “O reggae nacional de luto. Faleceu em São Luís o DJ/radioleiro mais antigo do Brasil”, lamentou.

“Com profundo pesar comunico o falecimento do “Carrasco” Serralheiro. O reggae do Maranhão está de luto”, declarou o DJ Ademar Danilo usando outra alcunha pela qual era conhecido o discotecário, que chegou a ser seu parceiro na equipe África Brasil Caribe.

Especialista em reggae, o jornalista Otávio Rodrigues, o Doc Reggae, declarou: “Fico triste, porque era meu amigo, e lamento muito, porque parte da história se vai sem um bom registro” [leia depoimento completo e exclusivo no fim deste obituário].

Serralheiro faleceu hoje (29), aos 70 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há cerca de um mês. Estava internado no Hospital Carlos Macieira. Que esteja com Jah! Como, aliás, sempre esteve!

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Assista trailer de Sintonizah, documentário de Lecuk Ishida e Willy Biondani (com depoimento de Serralheiro):

 

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A GENTE VAI FICANDO MAIS SOZINHO

OTÁVIO RODRIGUES

Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt
Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt

 

Conheci Serralheiro ainda em 1988, ano em que meu Cabral interior descobriu o Maranhão. Lembro que ele se recusou a posar pra uma foto, estava montando a radiola. “Ah, mas tô todo lambudo!” Meio que se apresentou dizendo que amava o reggae mais que tudo. “Gosto tanto de reggae que até dói no sangue”, disse, apontando as veias do braço. Eu não conseguia entender como aquele sujeito simples, quase rústico, de mãos grandes e com textura de lixa, conseguia ser tão refinado nas seleções musicais.

E com um apelido desses, que me levava a pensar nos artistas jamaicanos, que em sua maioria afirmam ter trabalhado como welders (soldadores) antes de iniciarem a carreira artística.

No dia em que deixei a Ilha, ele me apareceu com uma insuspeita fita cassete. “Gravei pra ti. Agora tu me manda umas pedras também.” A caminho do aeroporto, no fusca do Boaventura do Bairro de Fátima, coloquei a fita pra rodar e, ali de pronto, vi que a parada era séria (o Boaventura quase não me ouvia falar, só prestava atenção na fita). Com o tempo, estabelecemos um intercâmbio – mas com as regras dele. Eu enviava umas pedras do meu acervo, com total exclusividade, ou seja, eu não podia passar pra mais ninguém, nem tocar no rádio nem nada; e ele mandava umas dele também, que eu deveria manter no cofre e a sete chaves. Com o tempo, percebi que o acordo era imensamente bom pra ele, mas continuei com a brincadeira durante certo tempo – acho que, no fundo, eu adorava mesmo as cartinhas que vinham junto com o material.

Mais tarde, quando morei em São Luís, ele me virou a cara. Atônito, descobri por outros qual tinha sido a razão: eu reportara na revista Bizz a viagem que ele havia feito a Londres, levando uma fitinha com frases em inglês gravadas por Fauzi Beydoun: “Good morning!  I want to buy reggae records”, “I need a hotel” e outras básicas assim, pra que ele se salvasse em terras estrangeiras. Ficara ofendido com isso, não percebendo a admiração contida no relato. Demorou pra que fizéssemos as pazes.

Serralheiro morava na Rua da Salina, no João Paulo, lugar pouco percebido pela maioria, incluindo o poder público. Para um paulista classe média, caminhar por uma rua na qual o esgoto corre a céu aberto, como nos tempos coloniais, era uma experiência incomum. Imaginar que ali vivia um dos maiores DJs do Maranhão, um superstar, era uma incongruência sem tamanho. Na casa simples, repleta de discos fabulosos, eu pensava nas histórias que haviam me contado. Que Serralheiro costumava ir ao Rio e São Paulo atrás de discos e, quando encontrava algo realmente bom, comprava todas as unidades do mesmo álbum pra que nenhum outro gaiato tivesse acesso. E que, assim como Lee “Scratch” Perry fez com o próprio estúdio, um dia acordou e tacou fogo num monte desses ótimos discos. A esposa, ouvi dizer também, reclamava que a geladeira vivia vazia, que ele gastava tudo em reggae. Quem sabe a verdade?

Fico triste com a partida dele. Era meu amigo. Lamento ainda que sua história não tenha sido resgatada completamente, penso eu, e faço aqui um mea culpa. De onde ele vinha? Trabalhou com ferro mesmo? Como e onde começou no reggae? Guardarei pra sempre, porém, a imagem dele trabalhando de costas n’A Voz de Ouro Canarinho, manipulando o pause nos tape-decks durante toda a noite, quase sem olhar para o público, arrancando uivos de êxtase a cada tijolo.

A verdade é que, junto com Pai Euclides e o professor Carlos Lima, Serralheiro compunha meu panteão de santos maranhenses. O tempo passa, não tem jeito, a gente vai ficando mais sozinho. Descansem em paz, meu velhos.

Amigos, artistas e intelectuais reafirmam grandeza de Adalberto Franklin em sua despedida

Adalberto Franklin durante sua posse no IHGM. Foto: Elson Araújo
Adalberto Franklin durante sua posse no IHGM. Foto: Elson Araújo

 

Faleceu ontem (2) em Imperatriz, o jornalista, escritor, historiador e bacharel em Direito Adalberto Franklin Pereira de Castro (Uruçuí/PI, 28/4/1962 – Imperatriz/MA, 2/3/2017), imortal da Academia Imperatrizense de Letras (AIL), de que é fundador, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM). Foi ainda o primeiro presidente da Fundação Cultural de Imperatriz (FCI), secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Gestão Pública de Imperatriz e secretário de Comunicação Social da Prefeitura de Açailândia/MA. Teve ainda destacada atuação junto a movimentos da Igreja Católica.

Piauiense de nascimento, Adalberto Franklin mudou-se ainda criança para o Maranhão, onde morou em Balsas, depois estabelecendo-se em Imperatriz, em que construiu o legado vastíssimo de dedicação à cultura do Maranhão, em particular da região tocantina. Fundou a Ética Editora, que deixa um valioso catálogo. Foi também fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), em Imperatriz, pelo qual concorreu, em 2012, à Prefeitura Municipal, mesmo ano em que havia recebido da Câmara Municipal o título de cidadão imperatrizense, pelos relevantes serviços prestados à cidade, sobretudo no campo cultural – foi um dos inventores do Salão do Livro de Imperatriz (Salimp), um dos mais bem sucedidos eventos literários do Maranhão.

Nunca buscou riqueza, tendo seguido firme na busca por um mundo justo – coisa de idealistas e abnegados, estes seres infelizmente cada vez mais “fora de moda”. Uma prova deste exemplo pode ser encontrada em seu site, quando disponibilizou seus livros Breve história de Imperatriz (2005) e Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz (2008) para download gratuito, por ocasião de um concurso público realizado pelo município. Alegava que “nem todos podem comprar, principalmente os menos favorecidos financeiramente e os que, desempregados, estão buscando um emprego estável”, comentando ainda os baixos índices de leitura no Maranhão e a insuficiência de bibliotecas públicas, temas que sempre lhe preocuparam.

Adalberto Franklin sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) quando participava de uma reunião na AIL, no último dia 9 de fevereiro. Desde então estava internado na UTI de um hospital particular em Imperatriz. Diabético, havia passado por cirurgia cardíaca recentemente. Sofreu uma pneumonia durante a internação, apresentando um quadro de melhora, mas não resistiu. Seu corpo será velado ao longo desta sexta-feira na residência da família e o sepultamento acontecerá amanhã (4), às 9h, no Cemitério Campo da Saudade, em Imperatriz.

Diversos amigos, artistas e intelectuais manifestaram pesar pelo falecimento de Adalberto Franklin. “Perda lamentável”, declarou o compositor Josias Sobrinho. “Literatura maranhense de luto. Deixa-nos um grande guerreiro político e ativista das grandes e justas causas: Adalberto Franklin”, manifestou-se o compositor Joãozinho Ribeiro, dando dimensão de sua grandeza. Para a assistente social Rose Teixeira, “Adalberto Franklin eternizou-se pelas suas obras, grande perda”. Procurado pelo blogue para um depoimento, o músico Wilson Zara devolveu uma pergunta: “como se descreve uma tristeza enorme?”.

“Um homem casado com as letras e profundamente apaixonado por nossa história. Bastava uma simples manifestação de interesse pela nossa literatura e já se tornava uma pessoa especial para Adalberto Franklin. Onde tiver espaço para os bons, lá é o lugar desse grande Ser Humano”, manifestou-se o poeta, compositor e escritor Zeca Tocantins, autor de diversos livros publicados pela Ética Editora, fundada por Adalberto Franklin.

“Destaca-se como o mais competente e consistente pesquisador da história imperatrizense e regional, para qual dedicava grande parte de seu tempo, talento, esforço, saúde e outros recursos. Publicou diversos livros, nas áreas de História, Economia, Religião, Metodologia. Editou mais de 1.000 livros de autores imperatrizenses, regionais, estaduais e nacionais. Deixa vários livros em fase de conclusão, pesquisa, projeto e reedições”, pontuou o jornalista Edmilson Sanches.

“Sinto um impacto no peito cada vez que perdemos pessoas que lutam, brigam e contribuem de forma significante e até mesmo contundente com a cultura e a boa arte. Nos últimos cinco anos perdemos muitos colegas, alguns deles, Ribamar Fiquene, Luiz Brasília, Papete, Neném Bragança, e agora o meu amigo, parceiro e admirável Adalberto Franklin. Estou muito triste. Logo agora que, numa conversa pessoal, demostrou alegrias com a ideia e me ofereceu ajuda no que fosse necessário para juntos realizarmos a volta do Faber [o Festival Aberto Estância do Recreio]  um dos maiores festivais brasileiros, realizado nos anos 1990. Descanse em paz, meu irmão! Você fez sua parte e deixou um legado na literatura, cultura e arte. Imperatriz chora!”, declarou com exclusividade a Homem de vícios antigos o secretário municipal de Cultura de Imperatriz, o músico Chiquinho França.

“Temos certeza que Adalberto Franklin está entre os que combateram o bom combate e acabaram a sua carreira, guardando a fé. O combate em prol da transformação da sociedade, a carreira rumo ao desenvolvimento com justiça social e a fé em Deus e na força do nosso povo”, afirmou o Diretório Municipal do PT de Imperatriz, em nota.

O Governo do Maranhão também emitiu nota de pesar, reconhecendo a trajetória de Adalberto Franklin “como escritor e editor, além de ativo militante político ligado às causas da democracia”.

O cantor e compositor Gildomar Marinho resume bem a grandeza de Adalberto Franklin, seu companheiro de militância política desde a década de 1980. “Percebe-se a importância de alguém que parte ao tentarmos definir quem de fato partiu. O político? O literário? O historiador? O economista? O humanista? Pessoalmente, amigo é a definição mais precisa para Adalberto Franklin. Daqueles em que um simples bate papo converte-se em uma verdadeira aula de vida. Homem de mil livros. Incentivador voraz da pesquisa e do registro de cada detalhe da história, em especial, de Imperatriz e Região Tocantina, terra que abraçou como sua. E, bem mais que pesquisa e registro, ele próprio é parte dela. Em minha lembrança estará para sempre o companheiro de militância, sempre presente nos movimentos populares, das lutas sindicais, da defesa vigorosa pela terra para todos em uma terra sem lei, retrato de um pedaço do Maranhão sangrento do último quarto do último século do milênio passado. Adalberto fez da vida sua profissão de fé. E, sendo um homem de fé, decerto alcançará a vida eterna. Falando nisso, vale um registro: sua generosidade o fez partícipe de inúmeros trabalhos acadêmicos e literários, o que reforça a franciscana frase “é dando que se recebe”, já que ficará imortalizado também aqui por esta terra por seu legado, sua história, sua luta e por seus registros a iluminar futuras gerações. Trazendo a lume o adágio de que ninguém é insubstituível, fico a imaginar quantos Aldalbertos seriam necessários para suprir a imensa lacuna que sua partida provoca, especialmente nestes tempos sombrios em que a sombra da mediocridade paira sobre esta Nação. Resta aferrarmo-nos ao seu sonho, seu ideal, sua utopia e, sobretudo, à sua luta. Adalberto Franklin. PRESENTE!”, declarou com exclusividade ao blogue.

Ferreira Gullar: um vazio impreenchível

O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress

 

“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.

Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.

Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.

O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.

Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.

Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.

Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).

O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.

Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].

“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.

Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.

Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.

Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:

Obituário: Veloso

Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru
Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru

 

Nunca entrevistei Veloso. A última vez que o vi foi no Cafofo da Tia Dica. Na ocasião, presenteou a mim e ao compositor Cesar Teixeira, com quem eu bebia no bar por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, com exemplares do mais recente disco da Máquina de Descascar’alho, agremiação carnavalesca que completou 30 anos no último carnaval.

Indaguei-lhe quanto custava e ele respondeu-me que o importante era fazer o disco rodar e tornar mais conhecida a música, o carnaval e a cultura da Madre Deus. O Fuzileiros da Fuzarca completava 80 anos e eu havia acompanhado Cesar, jornalista de formação, em algumas entrevistas.

A vida é a arte do encontro: nem Cesar escreveu sobre os 80 anos do Fuzileiros, com cuja velha guarda deve fazer um show em breve, nem eu sobre os 30 da Máquina.

Patrimônio madredivino, como nomes como Cristóvão Alô Brasil, Marciano, Henrique Sapo e Caboclinho, José de Ribamar Gomes Veloso (9/9/1948-13/8/2016) morreu ontem, aos 67 anos, vítima de cirrose hepática.

Artesão, compositor, percussionista, produtor, decorador e intérprete, trazia na memória sambas inéditos da velha guarda da Madre Deus, de nomes como os citados – parte desta riqueza se perde com ele.

Além da Máquina de Descascar’alho – que realizou um grandioso cortejo pelas ruas da Madre Deus em sua homenagem – Veloso fundou grupos como o Regional 310, Boi Barrica, Bicho Terra e C. de Asa. Era um dos agitadores do evento mensal Tezão de Velho, no Largo do Caroçudo, na Madre Deus – a edição de hoje foi cancelada em respeito ao luto da família, do bairro e da cultura popular maranhense.

Silvério Costa, o Boscotô, parceiro de grupos como o Regional 310 e a Máquina de Descascar’alho, lembra a importância do amigo. “Veloso estava sempre de bom humor, era querido por todos, por sua irreverência, suas histórias e ideias inovadoras. Com ele se vai um pedaço importante de nossa memória”, lamentou.

Autor de hits do carnaval do Maranhão como A laska e Barreira sanitária, parceiro de Erivaldo Gomes em Malementa, durante muito tempo hit bastante apreciado pelos frequentadores da semanal A vida é uma festa, do poeta-músico ZéMaria Medeiros, entre outras, Veloso deixou quatro filhos, entre eles o cavaquinhista Kauê Veloso.

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OBITUÁRIO: JOMAR MORAES

O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial
O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial

Faleceu na manhã de hoje o escritor vimarense Jomar Moraes (6/5/1940-14/8/2016), presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) por 11 mandatos, autor de livros como Guia de São Luís, O físico e o sítio, Graça Aranha e Vida e obra de Antonio Lobo, entre outros.

Segundo informações, Moraes tinha problemas renais e durante a madrugada uma crise afetou seu coração. Há quase um ano ele doou sua biblioteca, com cerca de 40 mil volumes, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição na qual formou-se bacharel em Direito e recebeu o título de Doutor Honoris Causa.

Obituário: Papete

Papete em clique de Marcio Vasconcelos
Papete em clique de Marcio Vasconcelos

A despeito das controvérsias, da aura mítica e das diversas lendas em torno do LP Bandeira de aço [1978], desde sua feitura, iniciativa do desbravador Marcus Pereira, até os dias atuais, e já lá se vão quase 40 anos, Papete (8/11/1947-26/5/2016), falecido ontem, após meses de batalha contra um câncer de próstata, acabou por tornar-se uma das vozes mais importantes da cultura popular do Maranhão.

Bandeira de aço foi o disco mais lembrado da música popular produzida no Maranhão desde 1972 em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Papete contribuiu para tornar nacionalmente conhecidos ritmos como o bumba meu boi, o tambor de crioula e o tambor de mina, entre outros. Será para sempre lembrado como um grande intérprete de clássicos do cancioneiro do Maranhão, particularmente o do período junino.

Como percussionista acompanhou artistas de outras searas, entre os quais Almir Sater, Chico Buarque, Diana Pequeno, Dominguinhos, Erasmo Dibell, Jane Duboc, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a apresentadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Veronica Ferriani.

Não à toa muita gente costuma se referir a clássicos de nomes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota, Sérgio Habibe – os quatro gravados por ele em Bandeira de aço –, Chico Maranhão, Donato, Humberto de Maracanã, Manequinho e Ronald Pinheiro, entre muitos outros, como “aquela música de Papete”. O que pouca gente sabe é que Papete compunha muito raramente, embora tenha sido parceiro de nomes como Celso Borges e Chico Saldanha.

Há um ano lançou o livro Os senhores cantadores, amos e poetas do Bumba meu boi do Maranhão, com CDs e dvd revelando o pesquisador que ele já era antes mesmo da obra, que conta com músicas, depoimentos e fotografias – realizadas por Marcio Vasconcelos.

Seu último disco de carreira foi o duplo Sr. José de Ribamar e outras praias [2013], cujo título aludia ao nome de batismo do bacabalense, José de Ribamar Viana, e à sua versatilidade, registrando um leque amplo de compositores – mas voltando às origens: o segundo disco era uma regravação de Bandeira de aço, com a ordem das faixas alteradas.

Obituário: João Madson

João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão
João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão

 

Conheci João Madson há quase década e meia, ali pelas imediações do Bar de Seu Adalberto (Praia Grande), onde, à época, acontecia o evento semanal A Vida é uma Festa!, capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, há tempos transferido para a Companhia Circense de Teatro de Bonecos. Já era uma lenda do underground local, sempre acompanhado de um copo, um cigarro e um sorriso.

“Se melhorar, estraga”, sua voz talhada pelos vícios respondia sempre ao invariável “como vão as coisas?” que eu disparava toda vez que o reencontrava, sempre impecável cavanhaque (a antiga foto em p&b que ilustra este post é exceção), amarelado de fumo, ele, há décadas, radicado em São Paulo.

Chegamos a trabalhar juntos, na Faculdade São Luís, onde ele prestava consultoria ou coisa que o valha em marketing; tinha formação em jornalismo e publicidade e equilibrava-se entre as áreas e a música, sua paixão.

Compositor menos conhecido do que deveria, é autor de um punhado de clássicos, ao menos para mim. Um exemplo é Sinhá Madona, sucesso de Rogéryo du Maranhão, lembrada pela jornalista Andréa Oliveira, ao lamentar em uma rede social o falecimento do artista, vítima de enfisema pulmonar, na madrugada de ontem (16), aos 62 anos. O compositor registrou a música com adesão de Gabriel Melônio em São João Madson Com Vida, último disco gravado por ele, em 2003.

“Dorme em sono perfeito/ minha antiga cidade/ sinhá, vou buscar o dia/ antes da claridade// Corre, Sinhá Madona/ bem de frente da janela/ vem ver como é bela a lua/ que se esconde no coqueiro/ vem ver como é bonito/ meu boi dançar no terreiro”, diz a letra. O cd é recheado de participações especiais: Didã, Rosa Reis, Alê Muniz, Erivaldo Gomes, Eliésio, entre outros.

Em shows recentes a cantora Alexandra Nicolas anunciou que gravará O segredo do coco. “Essa, quem me ensinou a cantar foi Didã” – intérprete da música em São João Madson Com Vida –, geralmente anuncia, antes de começar: “Tira o coco do coqueiro/ bota pra quebrar/ tira o leite desse coco/ que eu quero tomar/ rala o coco, soca o coco/ pra cunhã coar/ que o segredo do coco é peneirar// O segredo do coco é o leite/ o azeite na hora de apurar/ é o cheiro cheiroso na cozinha/ cunhãzinha preparando o jantar// Traz tucupi/ traz tacacá/ taca o coco na cuia/ pra cunhã coar”, diz a letra.

Uma vez irrompeu Bagdad Café adentro, em plena Praia Grande, cantando Stalone Strauss, cujos vocais divide com o sobrinho Alê Muniz no disco derradeiro: “Me dê um tom e um tema/ que eu vou cantar um poema/ um roteiro pra cinema/ enredo de carnaval// Me dê um tipo e um trato/ que eu faço mesmo é no ato/ só me assine um bom contrato/ que eu quero é virar o tal// E vou gravar um cd/ do bom da eme pê bê/ para estourar no Japão// Você só vai me ver/ em clipes da eme tê vê/ no Domingão do Faustão// E vou trocar o meu nome/ por outro que se consome/ um nome comercial/ um nome bem estrangeiro/ só pra ganhar mais dinheiro/ vou ser Stalone Strauss”, transbordava irreverência.

Em 2005 venceu o Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação, com seu Frevo na chuva: “E foi aí que eu te achei na chuva/ foi um barato muito legal/ você toda molhadinha/ só entrou na minha/ por que era carnaval// E era frevo na chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ você no meu guarda-chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ Venha, vamos botar pra moer/ eu e você fazendo o frevo ferver”.

É dele também um dos mais astutos jingles de propaganda político-partidária que já ouvi: quando candidata a prefeita em 2004, Helena Heluy (PT) tinha como adversários Ricardo Murad, João Castelo e Tadeu Palácio. Madinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, mandou bem: “Não quero Murad Castelo/ nem mesmo erguer Palácio/ amo demais São Luís/ eu quero é ser feliz/ é 13 de cima abaixo// Helena, o Lula lá já falou/ eu voto em quem vale a pena/ por isso eu voto em Helena/ pra nossa ilha do amor” – cito de memória, a exemplo das outras letras lembradas neste post.

Este obituário traz alguns poucos exemplos da genialidade de João Madson. Sua perda é, em si, uma tragédia. E revela outra: nossa falta de cuidados com a memória, em tempos virtuais. Experimentem “dar um google” com o nome dele (o que fiz, à cata de foto para ilustrar esta singela homenagem póstuma): as ocorrências são insignificantes (inclusive demorei a publicar este texto em busca de foto decente para ilustrá-lo).

Yesterday!

O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015. Foto Marcia Carvalho
O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015). Foto Marcia Carvalho

 

CESAR TEIXEIRA*

Enfim, Nauro Machado venceu sua olimpíada. Aos 80 anos conseguiu romper a corda umbilical de um espaço que, segundo ele próprio, não era seu, “mas do universo” – para a surpresa da Morte, na outra ponta da corda, depois de ver seus planos estratégicos caírem por terra.

O poeta retornou à casa Paterna não como um filho pródigo arrependido, que recebe de prêmio um novilho cevado, mesmo porque não desperdiçou a sua herança, nem abandonou sua cidade como na parábola. Ao contrário, desde a publicação de Campo sem Base, em 1958, não parou de escrever. Foram 37 livros de poesia, além de antologias, ensaios e artigos.

Era esse o seu ofício, e São Luís a sua inspiradora oficina, não obstante o inferno burocrático das repartições públicas. Para tanto, adaptou-se ao cardápio da dor, do sofrimento e até mesmo do “escárnio da (…) província”, a fim de eliminar o homem ilusório e edificar o poeta.

Compartilhava líricas alfarrobas (menos as dos porcos) com prostitutas e artistas amaldiçoados nos becos da Praia Grande e do Desterro, e saudava deus e o mundo com a expressão “meu poeta, meu cabo de guerra”, fosse um deputado ou um chofer de táxi.

“Yesterday!” era sua palavra de ordem, ou melhor, seu canto de guerra inacabado, quando as fartas doses de Santo Antônio dos Lopes sem mel faziam transbordar no poeta uma mistura de alegria e dor – naufrágio íntimo no esôfago da alma, que nos tornaria cúmplices e irmãos de infortúnio.

Somente John Lennon ou o Marinheiro Popeye poderiam nos salvar. E tudo foi ontem.

Nauro Machado retornou ao útero de Deus, “feliz e sofrido, mas verdadeiro”, por ter preenchido o seu espaço com a sua poesia, feito a areia fina de uma milagrosa ampulheta, após consumir toda uma existência e completar-se. Estava morto e reviveu: o filho pródigo agora pode caminhar com seus próprios pés.

Até breve, meu poeta, meu cabo de guerra!

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor

Nauro Machado: uma existência consumida pela poesia

 

Todos os sábados o poeta visitava seus pais. Morador do Centro em alguns intervalos da vida, eu mesmo encontrei-o várias vezes no percurso. Às vezes, apenas cumprimentávamo-nos e ele seguia seu caminho; às vezes atrasava-se para o compromisso semanal, quando esticávamos a conversa, sobre temas os mais diversos. O curioso é que a morada de seus pais é o Cemitério do Gavião, no bairro da Madre Deus.

“Não há poesia experimental sem vida experimental”, ensinou-nos Roberto Piva, outro grande. E eu via naquele gesto do poeta, pura poesia. Cumprimentava-me, como de resto a quase todo mundo, “meu poeta!”. A expressão “meu poeta, meu cabo de guerra!”, cunhada por ele, é, até hoje, usada por este obituarista e alguns conhecidos, como saudação.

Nascido em São Luís do Maranhão em 2 de agosto de 1935, Nauro Diniz Machado faleceu na madrugada de hoje (28), aos 80 anos. Tinha hérnia no intestino e há poucos anos lutou contra um câncer no esôfago, período lembrado em Esôfago terminal, seu penúltimo livro, lançado em 2014 – o último, O baldio som de Deus, foi publicado em setembro passado.

Nauro era casado com a também poeta Arlete Nogueira da Cruz, com quem teve um filho, o cineasta Frederico Machado, cujo Infernos, que abre este post, é um retrato cinematográfico do pai, abordando sua dedicação à poesia, a boemia, o alcoolismo e sua relação com a cidade natal. Narrado pelo próprio poeta, o enredo do filme é construído sobre alguns de seus poemas.

No primeiro poema, O parto, de seu primeiro livro, Campo sem base [1958], Nauro Machado já prenunciava suas quase seis décadas restantes: “Meu corpo está completo, o homem – não o poeta./ Mas eu quero e é necessário/ que me sofra e me solidifique em poeta,/ que destrua desde já o supérfluo e o ilusório/ e me alucine na essência de mim e das coisas,/ para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,/ trazer-me à tona do poema/ com um grito de alarma e de alarde:/ ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.

O velório de Nauro Machado está acontecendo na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro), sede da Academia Maranhense de Letras (AML), da qual não era membro por opção. O sepultamento acontece amanhã (29), às 10h, no Cemitério do Gavião.

Obituário: Pai Euclides

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

 

“Ninguém imagina que alguém que dança como ele dançava pode um dia morrer de infarto”, lamentou minha esposa, a meu lado no carro, após ler a notícia num grupo de whatsapp. Depois do susto e antes do comentário, murmurou, triste: “Pai Euclides morreu”.

Euclides Menezes Ferreira ou Euclides Talabyan era o líder religioso da Casa Fanti-Ashanti, localizada no Cruzeiro do Anil, bairro da periferia da capital maranhense. Tinha 78 anos e estava internado no Hospital Carlos Macieira desde a última sexta-feira (14), após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Faleceu ontem (17) à tarde.

Fundada em 1958, a Casa Fanti-Ashanti, ligada à nação jeje-nagô, está sediada no Cruzeiro do Anil desde 1964. Além de ser um dos mais importantes terreiros de culto afro do Brasil, é mais que um templo das religiões de matriz africanas: constitui-se em verdadeiro patrimônio cultural brasileiro, um celeiro de manifestações da cultura popular do Maranhão.

As vidas de Pai Euclides e da Casa Fanti-Ashanti confundiam-se, tendo partes registradas em obras como o livro-documentário Pedra da memória, da musicista e pesquisadora Renata Amaral, e a exposição Zeladores de voduns, do fotógrafo Márcio Vasconcellos. Ainda na década de 1990 o antropólogo Hermano Vianna visitou a casa, mostrando sua riqueza cultural para todo o país, através do projeto Música do Brasil, exibido pelo canal MTV.

Incorporando o caboclo Corre-Beirada, Pai Euclides era o principal autor das toadas do Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestação sediada na Fanti-Ashanti. Por lá também é possível ver e ouvir, nas diversas festas realizadas na casa ao longo do ano, o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Pajelança, Samba Angola, Mocambo, Canjerê, Festa do Divino, Baião de Princesas e o Tambor de Taboca. As duas últimas tiveram cds gravados pelo projeto Turista Aprendiz, desenvolvido pelo grupo musical A Barca. O Bumba Meu Boi Garotos do Cruzeiro teve disco lançado em 2009, fruto do Prêmio Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, produzido e dirigido por Renata Amaral.

“Adeus, dona da casa/ São João já deu as ordens/ temos que nos despedir/ dê-me um aperto de mão/ também quero agradecer/ com gosto por nos servir”, versa a toada Despedida (Euclides Menezes Ferreira), no citado disco.

Em dezembro passado, por iniciativa do então vereador Nelsinho Brito (PT), Pai Euclides foi agraciado com a medalha Simão Estácio da Silveira, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de São Luís.

A partida de Pai Euclides é uma perda irreparável para a religiosidade e a cultura maranhenses. Certamente continua vivo entre nós, no legado e na memória.

Obituário: Bebé

 

Há mais de 10 anos ouvi falar pela primeira vez em Bebé: ao lado de Wilson Zara e Gilvandro Martins, seu nome aparecia entre os autores de Zaratustra, canção inspirada na obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra.

“Aborrecido de minha sabedoria/ desci a montanha solitariamente/ carregando os anos seculares/ e os rios que nascem/ nas linhas da palma da minha mão/ abelha enfastiou-se do mel/ o sol baixou às profundezas/ retornei ao meu corpo-espírito/ e voltei a ser homem”, começava a letra. Filosoficamente, fazendo jus à obra inspiradora, continuava: “tudo tem o seu ocaso/ da imensidão dos astros/ ao brilho frágil de uma vela/ tudo é vão/ outro corpo em minha cama/ uma rosa na janela/ minha torpe consciência/ o que é o homem, senão, uma ponte entre o animal e o super-homem”.

Depois conheci sua Fátima, uma verdadeira pérola, incluindo todas as licenças poéticas ao longo da letra, que transcrevo completa a seguir, gravada, entre outros, por Daffé e Tom Cléber: “Esses teus olhos prateados/ feito o céu todo estrelado/ é tão bom de se olhar/ neles tem tantos segredos/ que de olhar inté dá medo/ mas me faz assossegar// Se pra eu ele espia/ meu cabelo se arrepia/ bate forte o coração/ me contento em só olhar/ esses olhos cor de mar/ que nunca vão ser meus, não// Ai, meu Deus, eu não desejo/ dela o corpo, nem os beijos/ só peço uma coisa só:/ não deixe nunca eu viver/ longe desses olhos que/ faz minha vida melhor”

Só estas três obras-primas já lhe valeriam lugar entre nossos grandes compositores. Incluo na conta, Beijo e beliscão, outra parceria com Zara, em cuja companhia Bebé aparece cantando, no vídeo que abre-ilustra este post, por ocasião de uma participação do artista no extinto Terça Cultural, projeto outrora sediado no auditório do Memorial Maria Aragão, na praça homônima, em São Luís.

Mais de cinco anos se passaram até conhecê-lo pessoalmente. Pessoalmente é modo de dizer: fui jurado do III Festival João do Vale de Música Popular, produzido por seu parceiro Wilson Zara, em dezembro de 2008, quando existia o Circo da Cidade – ainda não era chamado Circo Cultural Nelson Brito nem havia sido varrido do mapa. Na ocasião Bebé levou o troféu de melhor interpretação, por sua Reticência. No geral, a música ficou em segundo lugar no certame.

Bebé tinha aparência frágil. Cantou sentado, acompanhando-se ao violão, salvo me traia a memória, as muletas encostadas na cadeira, para agilizar sua saída do palco após sua apresentação – não andava sem elas, vítima de paralisia infantil.

Nascido Raimundo Alberto Teixeira Moraes (1º de fevereiro de 1963 – 19 de julho de 2015), Bebé faleceu no último domingo, vítima de leucemia. Grajauense, venceu várias edições do FEMUG, um outrora famoso festival de música de sua cidade natal, por que passaram nomes como Luís Carlos Pinheiro, Daffé, Wilson Zara, Neném Bragança e Clauber Martins, entre outros.

Bebé deixa a viúva Larissa Barros e três filhos: João Ramon, Raimundo Alberto Teixeira Moraes Segundo (o artista não usou Filho ou Junior, como é usual, ao registrar o filho do meio) e José Felix. Seu corpo foi sepultado segunda-feira (20) no Parque da Saudade, no Vinhais, na capital maranhense.

Obituário: Apolônio Melônio

 

Apolônio Melônio (23 de julho de 1918 – 2 de junho de 2015) tinha poesia até no nome. Nenhum outro bumba meu boi tinha nome mais apropriado para (res)guardar os seres mágicos que habitavam aquela Floresta, em especial os cazumbás. Tamanha foi sua devoção à Floresta que o grupo tanto era chamado Boi da Floresta como Boi de Apolônio. Faleceu na noite de ontem (2), aos 96 anos, vítima de insuficiência renal após duas semanas internado.

Dessa vez é verdade, após duas barrigadas: uma há poucos dias, fruto do irresponsável jornalismo nosso de cada dia, que publica sem checar; outra, há muito tempo, em 1954, quando um jornal listou-o entre as vítimas do Maria Celeste, navio em que trabalhava – foi estivador –, que afundou após um incêndio.

“Mestre Apolônio havia escapado espetacularmente, prendendo o fôlego e mergulhando por metros e metros sob a superfície do mar em chamas. Nos intervalos do fogaréu sobre as águas, emergia para respirar. Assim conseguiu alcançar a Beira Mar”, lembrou recentemente o cineasta e professor universitário Murilo Santos, em uma rede social.

Nascido em São João Batista – outra predestinação, nascer em lugar com nome de santo junino – Mestre Apolônio veio para São Luís em 1939. Há 42 anos fundou o Boi da Floresta. Antes, com o saudoso Coxinho, foi um dos fundadores do Boi de Pindaré, do mesmo sotaque do grupamento que agora perde seu líder.

“Apolônio foi muito grande em tudo. Fez um trabalho lindo na Floresta, que segue. Tem que ter investimento no bumba meu boi o ano todo, para gerar renda, lazer, turismo, conhecimento”, defendeu a jornalista Giselle Bossard, diretora e roteirista de Brincando na floresta [Brasil, 2014, 30 min.], que ilustra este obituário, documentário curta-metragem sobre o boi e seu amo. Ela é favorável à garantia de um auxílio-saúde e um valor mensal para os mestres de cultura popular a partir de determinada idade. “Estes mestres precisam, levam uma vida pesada”, defende.

Em 2007 Mestre Apolônio foi um dos contemplados com o Prêmio Culturas Populares Mestre Duda 100 anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura (MinC). Traduzindo as necessidades apontadas por Bossard, à época, o dinheiro do prêmio custeou um tratamento de saúde do artista.

Minha homenagem a Humberto de Maracanã

Foto: Murilo Santos
Foto: Murilo Santos

 

Conheci mais de perto Humberto de Maracanã no início da década de 1970, quando eu integrava o grupo Laborarte. Nesse período percorremos várias comunidades do interior da ilha de São Luís apresentando o espetáculo João Paneiro, escrito por Tácito Borralho e Josias Sobrinho. A peça, encomendada pelas Irmãs de Notre Dame de Namur, Barbara e Anne Caroline, que atuavam na área, iniciou a discussão sobre a implantação dos grandes projetos que atingiram as comunidades.

Humberto foi uma das lideranças importantes nesse debate. Algum tempo depois, em 1982, fui convidado pelas mesmas Irmãs de Notre Dame de Namur, para documentar as ações da Associação de Lavradores do interior da ilha de São Luís, onde Humberto exercia forte militância. Nesse período não faltaram oportunidades de acompanhar o Humberto compositor e cantador.

A foto registra meu candidato a vereador pelo PT nas eleições de 1982. O grande cantador de boi Humberto de Maracanã reuniu em torno de seu veículo de campanha, esposa e filhos. Humberto não se elegeu. Entretanto, a campanha rendeu uma bonita toada.

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Texto e foto roubados do perfil de Murilo Santos no facebook.

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Humberto Barbosa Mendes (2 de novembro de 1939 – 19 de janeiro de 2015), o Humberto de Maracanã, faleceu na tarde de ontem, aos 75 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos. Havia sido internado dias antes, por conta de diabetes, tendo chegado a amputar uma perna.

Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura. Autor da antológica toada Maranhão, meu tesouro, meu torrão, além de liderar o centenário grupo de bumba meu boi que lhe deu sobrenome artístico, integrava o coletivo Ponto BR, ao lado de outros mestres e bambas (Éder “O” Rocha, Henrique Menezes, Renata Amaral, Thomas Rhorer, Walter França e Zezé Menezes), considerado melhor grupo regional no Prêmio da Música Brasileira de 2012.

Obituário: Neném Bragança

“Meu Deus, me deixe ficar mais uns dias/ dias que digo alguns anos/ anos assim não mais que uns 26”. As preces que Neném Bragança [Bragança/PA, 19 de março de 1960 – Imperatriz/MA, 15 de janeiro de 2015] cantou em Os milagres (Erasmo Dibell) não foram atendidas: vítima de um câncer de palato contra o qual lutava há cerca de um ano, o cantor faleceu nesta madrugada.

Os milagres abre o recém-lançado cd/dvd de Neném Bragança, segundo volume da série Som do Mará, produzido por Chiquinho França, que inaugurou-a. O câncer de Neném, aliás, foi descoberto quando o artista se preparava para entrar em estúdio e foi submetido a um tratamento dentário.

O trabalho é um apanhado de sucessos colecionados por Neném Bragança ao longo dos anos, composições autorais e clássicos da música do Maranhão, como Prisma (Carlinhos Veloz), Bela Mocidade (Donato), Agosto (Nando Cruz), Grades (Zeca Tocantins), Plenitude das palavras (Neném Bragança) e Ilha magnética (César Nascimento), entre outras. Ave de arribação (Javier dy Mar-y-abá) seu maior sucesso, encaixa-se nas três categorias – no fim das contas a música é também de Neném, será dele a interpretação para sempre lembrada.

Há poucos dias, em uma roda de amigos, comentávamos a situação da saúde de Neném e a torcida coletiva por sua pronta recuperação, enquanto ouvíamos um exemplar em vinil do festival Tribo (1989), que reunia nomes como Zeca Baleiro, Nosly, Renata Nascimento, Luis Carlos Dias, Neném Bragança e Tutuca, entre outros. Foi o último quem comentou: “Pra mim a música que ganhou é essa aqui [aponta para Ave de arribação na capa do vinil]: foi a única que tocou em rádio”, declarou. Na mesma ocasião, ganhei de presente, do amigo e fiel leitor Otávio Costa, o volume dedicado ao cantor da série Som do Mará.

Neném Bragança ficou conhecido como “papa festivais” entre os amigos, tantos os troféus acumulados em certames país afora, em especial no entorno da região que o acolheu. Artista iluminado, trazia a luz no sobrenome de batismo, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. Tinha 54 anos. Sua Plenitude das palavras pode lhe servir de epitáfio: “quero a plenitude das palavras/ chegará a hora da verdade/ e aí? O que vai ser de mim e de você?”. Ou Ave de arribação: “o certo é que acaba, como todas as folias/ o certo é que passa, como passa uma euforia/ (…)/ não, não vou deixar meu coração perder a luz”.