Conforme prometi no reveillón da Beira Rio

A famosa Av. Beira Rio, em Imperatriz/MA, é palco do reveillón mais famoso da cidade. Como tal, deve ser palco de promessas infinitas, que virão a ser cumpridas ou não ao longo do ano. Algo comum em viradas. Nas proximidades da Beira Rio fica o Boteco do Frei, bar charmosíssimo com palco idem.

Mas por que o blogueiro estaria falando em reveillón em pleno meio de ano? Para avisar-lhes que hoje à noite quem toca no Boteco do Frei é o mui talentoso Djalma Lúcio, que apresenta o show Conforme prometi no reveillón, em que canta coisas de seu ótimo epônimo, dos tempos de Catarina Mina (banda que integrou com Bruno Azevêdo e Eduardo Patrício), inéditas e covers.

Hoje, Djalma Lúcio (voz, guitarra) será acompanhado por Thierry Castelli (bateria) e Sandoval Filho (contrabaixo). Aos que me leem da capital do Maranhão do Sul fica a dica, imperdível, detalhes abaixo:

Interrompemos nossa programação

Hoje à noite falei por cerca de duas horas com alunos da disciplina Jornalismo Cultural, ministrada pela professora Joanita Mota, da UFMA, sobre minha atuação, experiências, influências etc., etc., etc.

Estava vendo Flamengo e São Paulo na tevê, secando a ambos, quando um sms me alcança: a queridamiga Micaela me avisava que o Criolina havia levado, no Prêmio da Música Brasileira, o troféu de melhor álbum, por Cine Tropical. É o segundo ano consecutivo que o título fica com maranhenses: em 2010 quem levou foi Zeca Baleiro, pelo duplo O coração do homem bomba.

Eu, que havia resmungado no post anterior, digo o seguinte: é aquela coisa: o prêmio não é o fim, mas se ele vem… bem vindo! Eu não podia deixar de interromper minha programação, vencer o cansaço e dar a notícia.

No Maranhão isso se chama “quebrar a castanha da língua”.

Longa vida ao Criolina, a música do Maranhão está em festa!

Dá-lhe, Criolina!

[Antes um aviso: isso não é jornalismo: é tietagem! Ah, o tempo: impediu-me de transcrever e publicar uma entrevista-lenda-inédita com o duo, para engrossar o caldo de sua torcida. Rolará em breve, fiquem ligados, poucos mas fieis leitores]

Confesso que não sou o cara mais crente em grandes prêmios tipo o Oscar, Grammy ou o de Música Brasileira. Não consigo não ver com desconfiança. Primeiro que o número excessivo de categorias sempre parece querer justificar alguma premiação sem merecimento. Quantos filmes, diretores, atores e compositores antológicos passaram em brancas nuvens nesta ou naquela edição do Oscar? Quantos escritores geniais morreram sem o Nobel de literatura? Por que Vargas Llosa demorou tanto a recebê-lo? O que justifica até hoje Saramago ser o único autor de língua portuguesa a ter recebido um? E nenhum brasileiro? A meu ver faltam critérios. Rabugice minha? Não creio.

Bom, mas hoje é dia de deixar ranzinzices de lado e torcer pelo “casal mais charmoso da música brasileira”, já saudado por Zeca Baleiro (olha aí um excelente nome que não figura entre os finalistas do Prêmio da Música Brasileira de 2011, do que era mesmo que estávamos falando?) como “o melhor acontecimento da música maranhense nos últimos vinte anos”, o Criolina (foto).

Não que o Criolina precise da chancela de algum prêmio, grande ou pequeno. A seleção de Telê Santana de 1982 não ficou para sempre nas memórias e corações dos brasileiros que assistiram ou não aquela fatídica copa?

O Criolina concorre em duas categorias e entre seus concorrentes/finalistas não há nada melhor que seu trabalho: original, sincero, autêntico, talvez até mesmo por ser gestado sem pressa e/ou preocupações com mercado, prêmios e quetais. O páreo é duro: mesmo a, er, “crítica”, er, “especializada”, é, às vezes, de um terrível mau gosto.

Torço pelo Criolina, mas não serei pego de surpresa se em vez de seu Cine Tropical, o melhor álbum escolhido for Cabaret do Rossi, de Reginaldo Rossi, ou 30 anos ao vivo, do Roupa Nova. Ou se a melhor dupla, em vez do Criolina, for Victor e Léo. Ou, pasmem, eles ainda estão vivos e ainda concorrem, Zezé Di Camargo e Luciano.

A premiação acontece hoje. Detalhes e lista completa de categorias e finalistas aqui.

Um ano de Biotônico, hoje

 

Os cérebros do Biotônico

O rádio vai à tv. Modo de dizer: tudo na internet. Hoje (5) os brothers Celso Borges, Otávio Rodrigues e Zeca Baleiro (em ordem alfabética e fotográfica) apresentarão ao vivo dos estúdios da TV Uol o Biotônico, “o seu programa de rádio na rede”, como apregoa um dos slogans/vinhetas do programa “de branco, de índio e de preto”.

A transmissão tem início às 17h. É o 32º. programa do trio webradialista. O Biotônico vai ao ar quinzenalmente e nesta edição serão apresentados duas listas pra lá de nickhornbianas: as 10 melhores cantoras de óculos de todos os tempos e as 10 letras mais bizarras. Mas só se vendouvindo pode crer: com certeza tem muita surpresa pra você!

Música, poesia, curiosidades, bate-papo, descontração e inteligência: é a fórmula do Biotônico. Ouça! E hoje, em especial, veja! A quem não puder assistir no horário da transmissão, a edição de aniversário será gravada e como todas as outras do programa ficará disponível para audições posteriores.

“Gerô e Nunes do Acordeom

tão lá em cima
tão com Deus fazendo um som”.

Gerô e Nunes do Acordeom ‘tão também na letra da música nova da Negoka’apor, cujo videoclipe você assiste abaixo.

Agendinha de Beto Ehongue, vocalista do grupo, em projetos paralelos: dia 12, às 20h, no Espaço Ímpar (Jornal O Imparcial, Rua Assis Chateaubriand, nº. 1, Renascença), com o poeta Celso Borges, no show A palavra voando, recentemente apresentado por eles nos três Centros Culturais Banco do Nordeste (mais detalhes por aqui em breve); e dia 14, com os Canelas Preta (sic, grupo do qual também é vocalista) às 22h no Odeon Sabor & Arte (Rua da Palma, Praia Grande).

Os ingressos custam R$ 20,00 para ambas as apresentações.

Vamos amar

Há uns dias caí num programa da TV Brasil que exibiu o clipe abaixo (que eu não conhecia, confesso). Sempre gostei dessa música, Façamos (Vamos amar), versão do genial Carlos Rennó para música de Cole Porter, magistralmente gravada por Elza Soares e Chico Buarque em Do cóccix até o pescoço, excelente disco da diva.

O apresentador do programa falava algo acerca da “safadeza” da letra e comentava como caíram bem as ilustrações de mestre Angeli para o videoclipe. Concordo. Tirem suas próprias conclusões:

Em dois vídeos,

três bons motivos pr’aqueles que ainda não decidiram ir ao show de Andreia Dias, logo mais no Novo Armazém (Rua da Estrela, 401, Praia Grande): Asas, Bode e O fio da comunicação, três músicas dela, as duas primeiras no primeiro vídeo, esta última também já gravada pela Donazica, ótima banda de que faz parte, ao lado das também talentosíssimas Anelis Assumpção (que acaba de lançar disco solo) e Iara Rennó.

Anotem aí o serviço: Show de Andreia Dias, hoje (15), às 21h. Participação especial: Criolina. Discotecagem: Pedro Sobrinho e Natty Dread (não sei se antes, pra criar o clima, ou depois, enquanto pedimos as saideiras). Exposições fotográficas: PanorAMO São Luís, de Ghustavo Távora, e Vibrações, de Marcos Gatinho, além de uma de artes plásticas de Alex Soares. Os ingressos custam apenas R$ 15,00. A apresentação integra o projeto Fora do eixo, com que a cantora está percorrendo o país. A produção local é do Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Andreia Dias será acompanhada pelos músicos Edinho Bastos (guitarra), George Gomes (bateria) e João Paulo (contrabaixo).

“O micróbio do samba” e a pulga tirada de detrás da orelha do blogueiro

[Este texto (resenha? Crítica?) é dedicado a Alberto Jr., André Sales e Reuben da Cunha Rocha, que me instigaram a ouvir mais e melhor o disco novo de Adriana Calcanhotto, em provocações via tuiter, blogue e messenger. E a Silvério Pessoa, que em 2002 lançou O micróbio do frevo, por sua vez dedicado ao genial Jackson do Pandeiro, cuja obra foi ali regravada.]

O micróbio do samba [Minha Música/Sony Music, 2011, R$ 24,90 em média], novo trabalho de Adriana Calcanhotto, como o título entrega completamente dedicado ao gênero de Noel Rosa e Cartola, para citar apenas dois de uma constelação de craques, é um dos mais instigantes discos recentemente lançados nesse Brasilzão de meu Deus.

Não é um disco fácil, daqueles pelos quais você se apaixona à primeira audição. A primeira sensação, surgida antes mesmo de ouvi-lo, é de ansiedade: a gaúcha demora a lançar discos, quiçá maturando-os, e qualquer anúncio de disco da autora de Esquadros causa rebuliço, seja voltado ao público infantil, seja inteiramente dedicado ao samba.

Você ouve falar ou lê um texto sobre e fica naquela, enorme vontade de ouvir logo o tal disco, no rádio, baixando na internet, pegando emprestado ou comprando – este escriba baixou, teve sua relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem, depois comprou o original. Como um remédio controlado – embora O micróbio do samba não careça de receita –, várias doses diárias.

Adriana Calcanhotto é artista completa: compõe bem, canta idem, toca violão ibidem. Admirador de seu trabalho desde Enguiço, a estreia de 1990 – quando o blogueiro era então apenas um menino –, disco que trazia uma regravação de Disseram que voltei americanizada (Luiz Peixoto e Vicente Paiva) e Naquela estação (parceria inusitada de Caetano Veloso, Ronaldo Bastos e João Donato), e lhe garantiu comparações à Elis Regina, e apreciador de samba desde sempre, a receita só podia ser infalível.

Se “se faz samba com pandeiro/ com cavaco e cuíca/ com retinta, tamborim e violão/ entra o surdo, reco-reco/ o afoxé e o apito/ os sambistas, as cabrochas e animação”, como receitava o sábio e saudoso Mestre Antonio Vieira (1920-2009) em Ingredientes do samba, Calcanhotto bota pra quebrar – literalmente – e causa-me a primeira estranheza: um disco de samba quase sem instrumentos/ingredientes de samba.

Aparecem aqui e acolá um cavaquinho (Davi Moraes em Tão chic, a faixa “mais samba” do disco – não por acaso uma de minhas prediletas), um violão (a própria Adriana ao longo do disco, novamente Davi Moraes em Deixa, gueixa), uma cuíca (a própria Adriana em Vai saber?), um prato e faca (Moreno Veloso em Você disse não lembrar); mas predominam o contrabaixo de Alberto Continentino e bateria e percussão de Domenico Lancellotti – Calcanhotto ainda empunha, além de voz, violão, e da já citada cuíca, piano, guitarra, caixa de fósforos e bandeja de chá. Outros convidados são Rodrigo Amarante (guitarra em Já reparô?) e Nando Duarte (violão em Deixa, gueixa).

Dedicada a Marisa Monte, Beijo sem, já havia sido gravada por Teresa Cristina em Melhor assim (2010); a que recebe a homenagem, em Universo ao meu redor (2006), havia gravado Vai saber?, em O micróbio do samba dedicada a Mart’nália. Ouvi-las com pressa nos induz a crer que as gravações das intérpretes de Calcanhotto são melhores; (re-)ouvi-las com atenção nos faz percebê-las apenas diferentes. Se as gravações da autora soam mais “secas”, aplaudamos o “charme da compositora” – talvez aquilo que nos faz adorar gravações de músicas de, por exemplo, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues em suas próprias vozes.

Adriana Calcanhotto assina todas as faixas do disco, Vem ver em parceria com o lendário Dadi (baixista d’A Cor do Som). Outro grande trunfo deste belo disco é tirar as mulheres dos papeis subservientes a que desde sempre estiveram relegadas no universo em geral machista do samba, Ai, que saudade da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves) e Amor de malandro (Francisco Alves e Ismael Silva) talvez os exemplos mais emblemáticos. As letras de O micróbio do samba dão voz e vez às mulheres, talvez até demais. Alguns marmanjos certamente não gostariam de ouvir versos como “te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ o meu coração é verde e rosa/ (…)/ tá na minha hora” (Tá na minha hora) nas bocas das suas meninas.

Música brasileira: terra fértil

Pitanga em pé de amora, bela estreia de quinteto paulista em disco homônimo

Tão fértil é a música brasileira que até Pitanga em pé de amora (2011) é capaz de nascer. Com formação mais ou menos chorística, o quinteto não se prende, no entanto, a um único gênero. Passeia com desenvoltura por diversas brasilidades, a partir da urbaníssima São Paulo.

Angelo Ursini (clarinete, flauta, saxofone), Daniel Altman (voz, violão sete cordas), Diego Casas (voz, violão), Flora Poppovic (voz, percussão) e Gabriel Setúbal (trompete) – com todos se revezando, aqui e ali, nas percussões – vão de choro, xote, frevo e mais, às vezes com o devido gênero batizando a faixa a ele dedicada. Recém-adultos, os moços e a moça do quinteto esbanjam talento e versatilidade. Se é moderno pé de amora dar pitangas, amoreiras e pitangueiras têm raízes e dessas o quinteto não abre mão.

O disco homônimo de estreia do grupo está disponível na íntegra para download em seu site – lá é possível baixar também algumas faixas gravadas ao vivo. Amostra grátis, vale a pena ouvir antes e comprar depois, belo projeto gráfico embalando as composições do Pitanga em pé de amora, todas autorais – Diego Casas assina todas as faixas sempre em parceria com alguém do grupo, só Flora Poppovic não compõe, e nem precisa, cantando como canta.

Pitanga em pé de amora é grupo que já nasce maduro, pronto para a fruição. Ouvidos de bom gosto, brindai! Tenham pressa, embora não haja risco nenhum destes frutos apodrecerem.

Chorinhos e chorões – Edito agora (15h20min) o post para trazer para cá um aviso deixado por Ricarte Almeida Santos na caixa de comentários deste modesto blogue: em seu Chorinhos e Chorões de domingo (5), às 9h, o sociólogo-radialista apresentará aos ouvintes o disco sobre o que acabamos de escrever um pouco aos poucos mas fieis leitores deste humilde blogue.

O vinil vive

DJs ainda usam os bolachões para embalar os que se aventuram nas pistas de dança. Brasil tem a única fábrica da América Latina

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

Falecido no último dia 27 de março, o multiartista pernambucano Lula Côrtes deixou em seu legado o mais raro e mais caro vinil do Brasil: Paêbirú, disco duplo com duplo acento que dividiu com o paraibano Zé Ramalho em 1975. A gravadora Rozenblit, de Recife, responsável pelo lançamento da obra-prima que inauguraria a psicodelia brasileira, ficava às margens do Capibaribe e naquele ano uma enchente levou a maioria das cópias: sobraram apenas cerca de 300, hoje disputadas a tapas e a preço de ouro em sebos Brasil e mundo afora – chega a custar 5 mil reais.

Uma edição em cd chegou a ser lançada por um obscuro selo alemão, sem o mesmo charme. O disco duplo tem seus lados representados por elementos da natureza: terra, água, fogo, ar. É facilmente encontrado para download na internet. Mas o bom e velho vinil ainda exerce fascínio – e isso não é privilégio de Paêbirú.

Vinis de valor – Há vários discos bem valorizados, em lojas físicas ou virtuais, além de colecionadores que comercializam os velhos bolachões. “Entre os brasileiros eu citaria o Racional, de Tim Maia, e os discos de Dom Salvador. Os mais caros que comprei foram de Willie Lindo e de um baixista jamaicano chamado Loyd Parks. Custaram cerca de 300 reais, cada”, afrma o DJ Joaquim Ferreira, da Rádio Zion.

Joaquim, 47, coleciona vinis desde os 16 anos, um hobby que virou “profissão”: ele discoteca há 18 anos.

“A minha opção pelo vinil é a paixão pela música antiga produzida no Brasil e no mundo. De velhos nomes da música popular brasileira temos dificuldade em conseguir bons discos em CD. Em geral as gravadoras não têm mais interesse em lançar este material”, continua.

As agulhas são, para ele, um material de trabalho precioso: Joaquim não usa CDs em suas discotecagens – nem ninguém da Rádio Zion, coletivo de DJs integrado por ele, Marcus Vinicius e outros.

Franklin Santos usa CDs. Mas só quando não encontra vinis. “É uma dificuldade encontrar tudo que se quer em vinil, às vezes é preciso recorrer ao CD. Mas quando tenho o material em vinil, ele é a prioridade. Vinil sempre!”, entusiasma-se. Sua paixão é tanta que carrega tatuado em si um toca-discos.

Jornalista, professor universitário e DJ, Pedro Sobrinho usa CDs mais comumente: “Mas usar os vinis de vez em quando é trabalhar com um artigo de luxo”.

Ele e Franklin concordam em relação às vantagens do CD: a portabilidade, o peso reduzido e a possibilidade de gravação de compilações específicas, para serem usadas em determinadas ocasiões. “Por outro lado, o som do vinil, quando tocado em um equipamento decente é infinitamente melhor que o CD. Além das capas e encartes, maiores e mais bem trabalhados”, comenta Franklin.

Coleções – “A última vez que eu contei, tinha cerca de 4 mil vinis, entre LPs, EPs e compactos. Mas só tenho coisas que me interessam, nenhum disco está ali só para ocupar espaço”, Joaquim Ferreira contabiliza sua coleção. A de Franklin é menor, mas nada desprezível: cerca de 1.500 vinis. Da coleção de Pedro Sobrinho o mais raro é o disco do Bumba meu boi de Pindaré, com a toada Urrou do boi, de Coxinho, que depois seria alçada à condição de “Hino do Folclore do Maranhão” por lei estadual. “Existe obra prima mais rara na música popular brasileira?”, indaga-se, acerca da controversa faixa – Bartolomeu dos Santos, o Coxinho, falecido há 20 anos, nunca recebeu um centavo de direitos autorais.

Onde comprar – Eles dão o caminho das pedras para outros colecionadores: compram tanto em sebos em São Luís quanto fora, em viagens ou pela internet. “Hoje ligo para meus fornecedores, que se tornaram amigos”, conta Franklin. Joaquim recomenda sites como o nacional Mercado Livre e os estrangeiros ebreggae, vpreggae e reggae record. “Apesar do reggae dos nomes dos sites, é possível encontrar discos de funk, soul, jazz, rock e até mesmo música brasileira”, afirma.

Em São Luís os pontos de “pescaria de pérolas” são comuns: a banca do Adriano (João Paulo), a de Seu Domingos (Praça Deodoro) e os sebos Poeme-se (Praia Grande), Chico Discos (Afogados, Centro) e Papiros do Egito (Sete de Setembro, Centro).

Francisco de Assis, o Chiquinho, proprietário do Chico Discos, não consegue contabilizar a quantidade de vinis vendidos: “Não há uma média. Há dias em que não se vende nada, mas tem dias que um colecionador chega aqui e sai com 20, 30 vinis debaixo do braço. Varia muito”.

“Não chega a 80 por semana”, Moema Alvim faz a mesma conta. A professora universitária aposentada abriu o Papiros do Egito como um hobby há mais de 20 anos. Por lá os vinis mais caros são os de reggae e merengue, com preços semelhantes aos de uma raridade como um vinil de Violeta Parra, autora de Gracias a la vida, que pode ser levado por 30 reais.

A fábrica – Sediada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, a Polysom é a única fábrica de vinil da América Latina. A empresa iniciou suas atividades em maio de 1999. Depois fechou as portas, por conta de uma série de dificuldades – pouca demanda, cancelamentos de pedidos, dívidas – sendo reaberta em 2008, após ser adquirida e reformulada por sócios da Deckdisc, seus atuais proprietários.

“Quando topamos entrar nessa verdadeira cruzada que foi a reativação da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil”, arrisca João Augusto, um de seus fundadores.

A Polysom pode ser conhecida em seu site e interessados podem ficar por dentro de suas novidades nas atualizações do twitter. Os vinis fabricados por ela podem ser adquiridos na loja virtual Sete Polegadas, alusão a uma das medidas dos discos (LPs têm 12 polegadas). Lá são encontrados nomes como Secos & Molhados, Chico Science & Nação Zumbi, Tom Zé, Ultraje a Rigor, Titãs, Rita Lee, Jorge Ben, Fernanda Takai, Pitty e Cachorro Grande. Mesmo com o frete grátis, o preço é, ainda, salgado: os compactos custam, em média, 30 reais; LPs podem chegar a 85.

O leque deverá ser ampliado: algumas gravadoras têm demonstrado interesse em relançar em vinil títulos de seus catálogos. “Estamos falando de um catálogo infindável de discos inesquecíveis”, afirma João Augusto. E arremata: “Vou me emocionar muito no dia em que a Polysom produzir os discos do Rei, Roberto Carlos”.

Fora do Brasil nomes como White Stripes, Arctic Monkeys, Radiohead, Foo Fighters e Beach Boys recentemente lançaram trabalhos em vinil.

Pérolas e esmeraldas – Alguns vinis têm a sorte de ganhar reedição em cd. Tornam-se conhecidos da meninada mais nova, antenada. Mas logo voltam ao ostracismo, as tiragens, em geral, pequenas. No começo dos anos 2000 o então baterista dos Titãs Charles Gavin deu início a um árduo trabalho de pesquisa que recolocou diversos títulos brasileiros de primeira importância nas prateleiras das lojas de discos país afora. Raridades como Todos os olhos e Se o caso é chorar, de Tom Zé, Revólver e Ou não, de Walter Franco, Novos Baianos F. C., dos Novos Baianos, além de títulos de Carlos Daffé, Belchior, Guilherme Arantes e muitos outros. Dois vinis em um cd, com reproduções dos encartes e textos de críticos, contextualizando os trabalhos.

Outros discos não têm a mesma sorte, caso da passagem do compositor Chico Maranhão pela gravadora Marcus Pereira, que lançou, entre outros, nomes como Cartola, Papete, Diana Pequeno e Canhoto da Paraíba. De Maranhão, discos como Gabriela (1974), Lances de agora (1978) e Fonte nova (1980), além da estreia dividida com Renato Teixeira, em 1969, ainda anseiam chegar à era digital.

Jorge Benjor irá refazer, ao vivo, o disco Tábua de esmeraldas (1974). Tido por muitos como o melhor disco de sua carreira, é o último em que Benjor – à época apenas Ben – se acompanha tocando violão, instrumento que trocaria pela guitarra. A ideia de regravá-lo em show partiu de um fã, que criou um perfil no site de relacionamentos Facebook pedindo por isso. Ganhou em pouco tempo mais de cinco mil seguidores e convenceu o autor de Os alquimistas estão chegando os alquimistas à empreitada. Não se sabe ainda se o registro ao vivo será lançado em vinil, CD ou em ambos.

Mais

Em busca do vinil
Onde encontrar vinis em São Luís

Banca do Adriano (João Paulo).
Banca do Seu Domingos (Praça Deodoro, ao lado da Biblioteca Pública Benedito Leite).
Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande – (98) 3232-4068)
Papiros do Egito (Rua Sete de Setembro, Centro – (98) 3231-0910).
Chico Discos (Rua dos Afogados, 384-A, altos, Centro – (98) 8812-3433).
 
Raros
Um pouco mais sobre alguns discos raros citados ao longo da matéria

Paêbirú (1975) – Zé Ramalho e Lula Côrtes: Experiência psicodélica nordestina em disco duplo. Tornou-se raridade após uma enchente em Recife levar quase toda a tiragem embora. Sobraram apenas cerca de 300 exemplares – nascia o mito.

Racional (1975; um segundo volume foi laçado no ano seguinte) – Tim Maia: Disco renegado em vida por seu autor, Racional fez a cabeça de muito músico brasileiro. Tim descobriu-se alvo de picaretagem (pelo líder da seita Racional Superior) e até falecer, em 1998, não autorizou reedições do disco. Relançado pela Trama, trouxe CD extra que imitava os chiados do vinil. Atualmente 15 discos do “síndico” são vendidos em coleção que chegará semanalmente às bancas de revistas. O brinde é um inédito Racional Volume 3 para quem comprar a coleção completa.

Lances de agora (1978) – Chico Maranhão: Gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro, no Centro Histórico de São Luís. Como os outros títulos do compositor maranhense na gravadora Marcus Pereira, Lances de agora amarga o ineditismo em formato digital.

[O Imparcial, 5/5/2011]

Paródia é coisa séria

Com um terceiro CD no forno, Alberto Trabulsi concedeu entrevista a O Imparcial. Falou de seus trabalhos e abordou assuntos espinhosos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

À redação de O Imparcial chegou o boato: Alberto Trabulsi (foto) estava com o baú cheio de novas paródias. Era preciso conferir. Sinal dos tempos, via Facebook, pegamos o seu contato de Messenger, por onde ele concedeu entrevista ao jornal. O boato não se confirmava, mas não íamos interromper a entrevista.

Cantor e compositor formado em Educação Física – e atualmente também acadêmico do 5º. período de Direito – Trabulsi completa 40 anos neste maio. Por cerca de uma hora e meia ele conversou com O Imparcial sobre arte, políticas públicas, gestão cultural e… paródias.

Paródias – “Eu faço todo ano, duas ou três, em média, para o bloco [Herdeiros do Aldemir] desfilar no carnaval. Mas só nesse momento. Tudo ficou mais conhecido depois do sucesso nacional de Wilson Vai [versão dele para I Will survive]. O público em geral não conhece. Só os integrantes do bloco. Tem pelo menos umas 20 que são desconhecidas de todos. São paródias de músicas conhecidas. Só troco a letra e às vezes dou um toque mais animado pra gente poder desfilar e dançar no carnaval, mas conservo o mais original possível.

Por exemplo: Você tinha…, em cima de Burguesinha, e Biba do cunovíneo, em cima de Mina do condomínio, de Seu Jorge fizeram sucesso, pois estavam em voga ano passado. São sempre músicas que estão fazendo sucesso, principalmente na TV, ou clássicos da música brasileira. Mas é preciso perceber uma coisa: todas têm duplo sentido porque a gente sai travestido sempre de mulheres. Outra que fez sucesso esse ano foi Eu quero é mostrar meu bofe na rua, em cima do clássico Eu quero é botar meu bloco na rua [do capixaba Sérgio Sampaio]”.

Trabalho sério – “As paródias são meu lado folião irreverente… que só funciona quando o carnaval se aproxima. O resto do ano faço minhas canções. São dois discos lançados [Antes que a poesia acabe, de 1998, e O silêncio, de 2002] e um no forno, precisando ser lançado”.

Maranhão: carnaval e São João – “Esses eventos [os períodos carnavalesco e junino] se transformaram numa corrida ao ouro. Há pessoas que se alimentam exclusivamente desses períodos e passam o ano inteiro reclusas, sem produzir nada de interessante em benefício da música e das pessoas que ainda querem a música como um alento prazeroso da vida.

Eu ando triste em pensar no destino dos artistas autorais do Maranhão, que se resumem apenas ao Maranhão, pois essa nem de longe é a mais viável via para o tão almejado sucesso”.

Os artistas e os poderes públicos – “O que acontece é que se vive na expectativa de o poder público fazer tudo pelo artista, mas o poder público deve estar em beneficio da população como um todo e apenas inserir a música, a arte, em um projeto maior. Não ficar apadrinhando uns e outros, porque isso exclui tanto o artista que está por vir, como o público que anseia por diversidades. Penso, utopicamente, num momento em que depois de tantas reviravoltas, a gente vai poder voltar às rádios, às praças, aos teatros”.

Uma paródia aos gestores, pelos 400 anos da Ilha – “Eu teria que fazer uma paródia de Geni e o zepelim [de Chico Buarque]ou mesmo de Faroeste Caboclo [da Legião Urbana, cita referindo-se ao tamanho das letras das músicas] para citar tudo que quero. Mas estou num projeto maior e mais audacioso, participando de um livro de fotografias de Meireles Jr., que irá retratar a cidade sobre todos os ângulos merecidos através de fotos e textos”.

Os 8 milhões da Beija-Flor – “Essa grana poderia ser aplicada em vários projetos, separadamente, com muito mais resultado social, que um dia de desfile. Mas o que acontece, e assim até concordo, é que se quisermos ser homenageados, temos que pagar. O carnaval é a festa mais popular do Brasil, logo é o maior outdoor também. Nós merecemos várias outras homenagens. Se parar por essa aí, vai ser um fiasco”.

[O Imparcial, 6/5/2011]

o “grammophone” de tereza pineschi

[primeira classe, jp turismo, jornal pequeno, hoje]

Cantora carioca niteroiense pesquisa e grava lundus, maxixes e polcas – os pais do samba – em agradável e gracioso disco de alto valor histórico.

por Zema Ribeiro*

Nascida em 1944, a carioca niteroiense Tereza Pineschi, bióloga de formação e profissional do canto há vinte anos, estréia graciosamente em disco com “O teu grammophone é bão[Por do Som/Atração, 2005, R$ 20,00], que leva como subtítulo “A música brasileira entre 1830 e 1910”.

As catorze faixas remontam os primórdios do samba; estão lá os pais do brasileiríssimo gênero: lundu, maxixe e polca, num minucioso trabalho de pesquisa que registra, agora, pérolas inéditas.

O encarte traz as grafias originais da época – vide o “grammophone” do título, entre outras – e respeita as partituras, executadas com maestria por Carlos Almada (flauta e arranjos), Queque Medeiros (bandolim), Jorge Mathias (contrabaixo) Rodrigo Paciello (violão) e a voz de Tereza Pineschi, que concebeu o disco a partir do livro “Feitiço Decente”, de Carlos Sandroni.

O didatismo está presente, mas sem chatices: notas sobre as origens dos gêneros que compõem o disco, imagens de um Rio de Janeiro que já não existe, e pinturas de nomes como Johann Moritz terminam de enfeitar o singelo biscoito.

Há momentos de pura diversão. Bons exemplos são as faixas “Quem é pobre não tem vícios” (“Quem é pobre não tem vícios / deixe-se de namorar / se as moças cantam assim / como pode o pobre amar”, reza a letra) e “Sou batuta…” (Um maxixe bem dançado / o prazer sabe excitar / quem o dança apaixonado / fica logo a palpitar / maxixando bem a geito (sic) co’ uma dama appetitosa (sic) / eu a junto contra o peito / e minh’alma inteira goza…”).

* correspondente para o Maranhão do site Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com