“Para cada craque há um escritor ou poeta correspondente” e para todos há Xico Sá

A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução
A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução

 

Xico Sá é o nosso melhor cronista esportivo desde Nelson Rodrigues – seu padrinho espiritual, ao lado de Edgar Alan Poe, que empresta nome ao agourento corvo com que seca adversários e graúdos.

As linhas entre a literatura e o jornalismo em seu fazer cotidiano são tão tênues que dão nisso: A pátria em sandálias da humildade [Realejo Edições, 2016, 228 p.; R$ 33,60], cujo título obviamente refere-se ao vexame brasileiro em casa, na última Copa do Mundo, os 7×1 da derrota para os alemães.

O livro é uma coletânea de sua produção nos últimos pouco mais de 10 anos, com textos publicados na Folha de S. Paulo e El País, um sobre – pasmem! – uma vitória do Íbis (na extinta revista 10), além de um inédito, incluindo missivas ao jogador-pensador-doutor Sócrates, seu saudoso colega de Cartão Verde, programa da TV Cultura cuja bancada integraram juntos.

Os textos de Xico Sá sobre o ludopédio não se encerram nas quatro linhas e é aí que ele triunfa, como se fosse aquele jogador que além de jogar bonito ainda marca os golaços de uma vitória por goleada.

Para Xico Sá, futebol é sociologia, através do qual tenta explicar e entender o Brasil, é também filosofia e psicanálise de botequim. Ele esbanja categorias ao citar filmes, livros e canções, ao comentar política. Nunca soa pedante, nada soa excessivo neste livro que agradará até mesmo quem não gosta de futebol.

Os textos sobrevivem ao prazo de validade do jornal impresso e ao embrulhar peixes do dia seguinte. Ao relermos, revivemos dramas, na vitória e na derrota. Com a categoria habitual do cronista, que escreve como se, qual Sócrates, desse um passe de calcanhar, deixando o leitor na cara do gol.

Seu consultório sentimental também está aberto ao longo das páginas, seja em cartas abertas que endereça a craques como Neymar, Adriano, Ronaldo e o próprio Sócrates, seja ao tratar do futebol em âmbito conjugal.

A coletânea A pátria em sandálias da humildade acompanha o período de três Copas do Mundo, incluindo o vexame do Mineirão. Xico humaniza a tragédia. Aliás, não é só esta elite futebolística que interessa ao cronista, muito pelo contrário: num livro bom por inteiro, os melhores textos são justamente sobre times e campeonatos menos nobres, a série D, a Lampions League, onde os fracos não têm vez.

“A noite de 10 de novembro de 2016, depois de um 3×0 contra a Argentina de Messi, vai ficar marcada no calendário freudiano do torcedor brasileiro como o dia em que ele jogou fora a tarja preta de um luto que parecia sem fim. Dois anos e quatro meses depois do tragicômico 7×1, neste mesmo Mineirão, mesmo o mais chic dos playbas e a mais grã-phyna das neymarzetes saíram do estádio mascando o torresmo da superação”, anota no inédito Rumo à estação Finlândia, camarada Tite, acertadamente otimista, sobre a já garantida vaga para a Copa na Rússia ano que vem.

Que venham ainda muitas Copas, séries A, B, C e D, estaduais, amistosos e peladas em várzeas. A pátria em sandálias da humildade é um gol de letra, mais uma prova de que Xico Sá é um craque, longe de pendurar as chuteiras.

Futebol, política e rock n’ roll em debate

 

No geral, nada importa mais para o brasileiro médio que o futebol. Por causa do esporte se morre e se mata, num fanatismo inexplicável. Não à toa o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, no México, em 1970, com Pelé e companhia, foi usado como um reforço ao “ame-o ou deixe-o” travestido de civismo – e cinismo – da ditadura militar. Anos depois, o fim daquela década deu início ao maior movimento de contestação do regime dos generais em um clube de futebol: a Democracia Corinthiana.

O auge se deu em 1982 – quando a ditadura militar brasileira chegava à maioridade – e 83, com o Corinthians ganhando um bicampeonato paulista, com sobras de talento, futebol-arte, elegância e coesão. “Ganhar ou perder, sempre com democracia” era o slogan.

Paraense de nascimento, médico de profissão, socialista por opção, filósofo Brasileiro de batismo, Sócrates era o comandante da guinada à esquerda dentro do clube paulista, em que tudo passou a ser decidido coletivamente, reagindo a outra ditadura que ali se perpetuava, ganhando outras dimensões e conotações.

Os tempos eram outros, o rock brazuca, em seu nascedouro, ainda tinha algo a dizer, estádios não eram arenas, o futebol ainda não era apenas um esquema globalizado de jogadores com salários de cifras incontáveis, fora a publicidade, e ninguém tinha nada a ver com a vida privada dos craques.

Uma fala do apresentador Serginho Groisman sintetiza Democracia em preto e branco – futebol, política e rock n’ roll [Brasil, documentário, 90 min., direção: Pedro Asbeg], filme que resume bem essa história: estão ali os três assuntos do subtítulo, que em geral somos ensinados a não discutir – certamente por ranço da ditadura –, o último por mera questão de gosto (cada um tem o seu). Às vezes a conta era fechada com religião, outro assunto indiscutível – ouvi a advertência muitas vezes na infância e adolescência.

Narrado por Rita Lee e fartamente ilustrado pelo nascente brock e por golaços corintianos da época – torça-se ou não pelo alvinegro do Parque São Jorge, é inegável a categoria daquele elenco –, o filme traz depoimentos de músicos, jornalistas, jogadores de futebol e políticos, para contar um capítulo importante da história recente do Brasil, sob uma ótica bastante original.

*

Acontece hoje (24), às 16h, no auditório Mário Meireles (Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão), a sessão de abertura da mostra Cinema Pela Verdade, que em 2015 chega à sua quarta edição.

Após a sessão, gratuita e aberta ao público em geral, este que vos perturba participa do debate com os professores Luiz Eduardo Lopes (História/ UFMA/ Pinheiro) e Adriana Facina (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/ UFRJ), coordenadora pedagógica do projeto.

Uma zúñiga se abateu sobre o Brasil

Foto: Eitan Abramovich/ AFP
Foto: Eitan Abramovich/ AFP

 

Neymar está fora da Copa. É a notícia mais triste da Copa, até agora. E permanecerá a mais triste, mesmo que a próxima notícia triste seja a de que a seleção brasileira disputará o terceiro lugar.

O Brasil fez ontem, talvez, sua pior partida no mundial. Se não a pior partida, ao menos o pior segundo tempo. Ainda assim demonstrou sua superioridade e bateu a Colômbia por 2×1.

Bater talvez não seja melhor verbo que vencer, afinal de contas, Zúñiga bateu Neymar e terminou com seus sonhos – e o de milhões de brasileiros, ao menos meus, em particular – de terminar artilheiro do torneio e seu melhor jogador.

Bater, no caso, é eufemismo. A joelhada do colombiano nas costas do brasileiro, que terminou por fraturar-lhe a coluna uma vértebra e eliminá-lo da competição, foi, no mínimo, criminosa.

Logo Neymar, o craque do Barça – mas eternamente santista –, que vinha enfeitando a competição com seu talento e suas belas jogadas, devolvendo ao futebol o status de arte de que já parecíamos ter nos desacostumado.

Li e ouvi muitas opiniões acerca da mordida do uruguaio Suárez no italiano Chiellini e sua severa punição. Minha opinião sobre o episódio está dada: a punição é necessária, mas a Fifa pesou a mão (e isto eu já dizia antes do ocorrido ontem).

Brasil e Colômbia fizeram talvez o jogo mais violento da Copa e infelizmente o dado não se traduziu na distribuição de cartões amarelos e vermelhos – Zúñiga sequer recebeu punição. Em determinado momento do segundo tempo a seleção colombiana admitiu ter carimbado o passaporte de volta para casa e, em vez de tentar reverter a situação e garantir ao menos a prorrogação da partida, aprimorou seu arsenal contraditor de qualquer vestígio de “fair play”.

A Fifa precisa punir exemplarmente o jogador colombiano. Se é para comparar, certamente a marca deixada por Suárez em Chiellini já sumiu. Neymar ficará ao menos um mês fora dos gramados. Lamentável não só para a seleção e torcida brasileiras e a Copa do Mundo: lamentável para o Futebol, com F maiúsculo.

Zúñiga, para este que vos perturba, vira, a partir de ontem, sinônimo de tragédia, qual ziquizira, urucubaca, caiporismo e que tais.

Ser Bolívia é preciso!

Em foto roubada do blogue Futebol Maranhense, a formação do Sampaio de 74. Em pé: Benazi, Moraes, Gilson, Lourival, Raimundo e Santos. Agachados: Buião, Djalma Campos, Dionísio, Sérgio Lopes e Airton
Em foto roubada do blogue Futebol Maranhense Antigo, a formação do Sampaio de 1974. Em pé: Benazi, Moraes, Gilson, Lourival, Raimundo e Santos. Agachados: Buião, Djalma Campos, Dionísio, Sérgio Lopes e Airton

Roubo de Xico Sá o título que ele deu, na Folha de S. Paulo, à coluna que comemorava o título do Vasco da Gama na Copa do Brasil em 2011. Troco o nome do heroico português pelo apelido do Sampaio Correa, que logo mais entra em campo, no Albertão, em Teresina/PI, para enfrentar a equipe carioca pela série B do Campeonato Brasileiro.

As equipes enfrentaram-se seis vezes, com quatro vitórias do Vasco, uma do Sampaio e um empate. Já disse, há algum tempo, no éter das redes sociais, que mais importante que o hexa brasileiro na Copa do Mundo é o título brasileiro do Sampaio na série B deste 2014.

Ao que o boliviano roxo e torcedor realista (pode?) Susalvino Viana, meu tio, advertiu-me: devemos torcer pela permanência do tricolor na série B. Para não cair. O Sampaio tem time para isso. Para ser campeão ou subir, não. O mesmo Susalvino havia me dito que seria praticamente impossível o Sampaio passar pelo Palmeiras na Copa do Brasil, do que discordei e a história mais uma vez revelou-me um péssimo comentarista/analista do ludopédio.

Se com prudência ou roxura cabe aos poucos mas fiéis leitores, amigos torcedores e amigos secadores – gracias, again, Xico Sá –, decidir: o importante é empurrar a Bolívia querida à recuperação.

Mas logo um cruzmaltino escrever isso?, decerto alguns me perguntarão. A explicação é simples: quem tem mais chances de voltar à série A (o verbo cabe a ambos os times, já que o Sampaio já figurou na elite do futebol nacional, como veremos adiante)? Certamente o time de São Januário. O que torna cada ponto para a Bolívia querida ainda mais importante e valorizado.

A julgar pelas estatísticas, cruzmaltinos e bolivianos devem sair satisfeitos com uma vitória dos visitantes – o mando de campo é da equipe carioca, punida por aquela briga de torcidas em jogo contra o Atlético/PR –, hoje, em terras piauienses: a única vitória do Sampaio contra o Vasco se deu justamente em 1974, quando a equipe liderada por Roberto Dinamite sagrou-se campeã brasileira pela primeira vez.

Bolívia Querida na TV Brasil, hoje

TV Brasil revive hoje onda tricolor que tsunamiou a Ilha

 

O Sampaio Correia fechou 2013 com o vice-campeonato da terceira divisão, garantindo acesso à série B em 2014, em uma campanha vitoriosa.

A TV Brasil (canal 2 da tevê aberta) exibe hoje, às 13h (horário local), o Especial Bolívia Querida, em que lembrará momentos marcantes da trajetória do time neste ano que se encerra, além dos títulos de 1972 (série B), 1997 (C) e 2012 (D). O maranhense Sampaio Correia é o único time brasileiro campeão em três divisões do futebol nacional.

O programa, de uma hora, tem apresentação e direção executiva do querido Nicolau Leitão e direção de Luiz Arthur Figueiredo e contará com as presenças de ídolos que fizeram parte da história dessas conquistas: Neguinho, zagueiro e capitão em 1972, Toninho, zagueiro em 1997, e o goleiro Rodrigo Ramos, que fechou a meta em 2012 e 2013.

“Ficamos felizes em produzir um programa que valoriza uma história tão interessante, como a do Sampaio, único time brasileiro campeão em três divisões. Além disso, por reconhecer a importância de uma bela campanha, ainda que não tenha sido coroada com o título, como a deste ano”, comenta o apresentador.

O apresentador Nicolau Leitão com os ídolos bolivianos

Um craque das letras

[Íntegra da entrevista publicada hoje no Alternativo, O Estado do Maranhão]

O escritor e jornalista Xico Sá, autor convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, falará ao público sobre jornalismo, literatura e futebol, temas da palestra que fará dia 2 de outubro no Teatro João do Vale auditório da Faculdade de Arquitetura. Na entrevista concedida aO Estado ele abordou ainda cinema, a viagem que fará à Espanha, a obra de Bruno Azevêdo e arriscou um palpite sobre a ascensão do Sampaio Correia à série B

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Nascido no Ceará, formado jornalista em Pernambuco, Xico Sá há muito está radicado em São Paulo. Já desfilou seus textos, dos mais elegantes da literatura e do jornalismo brasileiros, por veículos como Veja, Folha de S. Paulo, Playboy, Trip, TPM, V e muitos outros.

É autor de livros tão diversos como Nova Geografia da Fome – parceria com o fotógrafo Ubirajara Dettmar, que percorreu os caminhos iniciais do Programa Fome Zero no Brasil –, Modos de Macho e Modinhas de Fêmea, Se um cão vadio aos pés de uma mulher abismo, Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias e o mais recente, Big Jato, espécie de autobiografia inventada que virará filme em breve (leia um trecho).

Também se aventura com a mesma elegância e desenvoltura por terrenos difíceis como o consultório sentimental – o que fez no Saia Justa, do GNT, e continua em seu blogue, hospedado no site da Folha de S. Paulo – e na crônica esportiva – aos sábados os leitores da mesma Folha deliciam-se com seu inconfundível jargão, “amigo torcedor, amigo secador”.

Outras aventuras de Xico dão-se ainda no campo da música e do cinema. O jornalista é parceiro de bandas como a mundo livre s/a e estrelou videoclipes de Sidney Magal [Tenho] e Junio Barreto [Passione], além de ter feito pontas como ator em filmes como Crime Delicado (baseado no livro homônimo de Sérgio Sant’anna) e O cheiro do ralo (baseado idem em Lourenço Mutarelli).

Convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, Xico Sá estará numa mesa mediada por este jornalista, no Teatro João do Vale auditório da Faculdade de Arquitetura (Rua da Estrela), dia 2 de outubro (quarta-feira), às 18h. Ele falará sobre Literatura, jornalismo e futebol. Por e-mail, o candidato a galã da 7ª. FeliS concedeu a entrevista a seguir a O Estado.

O Estado do Maranhão – Quais as expectativas para um retorno à São Luís, desta vez, finalmente, na condição de autor convidado do maior evento literário do Maranhão?
Xico Sá – Voltar à São Luís é bom de qualquer jeito. Até quando eu viajava ao Maranhão apenas como repórter, para trabalhar, já era bom, imagina agora, quando poderei trocar uma ideia com os leitores e, quem sabe, conquistar novos olhos e atenções para minhas crônicas e livros. Não vejo a hora.

Big Jato é um romance que funcionaria bem também como um livro de contos. Em tempos de redes sociais, em que as linhas que dividem palco e plateia, formadores e consumidores de informação estão cada vez mais tênues, você é um dos que joga nas onze: é Jornalista com J maiúsculo, cronista esportivo, consultor sentimental, ator e galã. Como diz o título da biografia do Simonal escrita por Gustavo Alonso, também convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís: é preciso ter suingue pra não morrer com a boca cheia de formiga? Só o suingue salva. Minha história sempre foi assim, uma viração danada, tenho a peleja nordestina n´alma. Já fui de tudo nessa vida: vendedor de passarinho, garçom, porteiro de cabaré, vendedor, fiscal de trânsito no Recife etc. Agora essa vidinha burguesa tá é uma moleza. Doce de mamão com coco. Gosto dessa embolada de fazer de um tudo ao mesmo tempo. Coisa de artista moderno [risos].

Seu mais novo livro é mais ou menos uma autobiografia inventada, isto é, mescla realidade e ficção em torno de um caminhão limpa-fossas, o personagem título. Nessa salada literária eu penso em cinema, no que você já atuou como roteirista e ator. Big Jato daria um ótimo filme, concordas? Rapaz, o livro foi adaptado e será filmado no próximo ano pelo diretor Claudio Assis [de Febre do Rato, Amarelo Manga etc.]. O roteiro está pronto e agora só falta um pouco ainda da grana, mas já vai entrar em fase de captação.

Sua passagem pela FeliS é uma espécie de última escala no Brasil. Fale um pouco do que vai fazer na Espanha [o autor viaja para lá logo após a 7ª. FeliS]. O que trará de lá na mala e no bolso? Tenho uma ligação muito forte com a literatura picaresca espanhola, muito parecida com tudo que a gente faz no Nordeste em matéria de narrativa. Do cordel ao mar das nossas histórias orais. No Big Jato uso muito desse traço. Estou indo para uma pequena temporada estudar esse tema na Espanha. No próximo ano, no entanto, vou para ficar um ano.

Você assinou a quarta capa dA Intrusa, de Bruno Azevêdo e já o apontou como o maior escritor em atuação no Brasil. Na 7ª. FeliS ele lançará Baratão 66 [nota do blogue: a hq será lançada somente em novembro], graphic novel em que uma casa de depilação durante o dia funciona como puteiro à noite. O que acha da ideia, seja na ficção seja na realidade? Bruno Azevêdo é um dos maiores, sem dúvida, talvez o mais moderno e invocado dos nossos narradores, com múltiplos recursos e uma formação que junta o erudito, o popular e toda a bagaceira do que se convencionou a chamar de brega no Brasil. Ainda não me curei ainda da paixão pelA Intrusa e o cara já me lasca esse Baratão 66. Acompanho com prazer e curiosidade a trajetória desse rapaz.

Amigo torcedor, amigo secador! Sua palestra na FeliS tem como tema “Literatura, jornalismo e futebol”. Nestes campos, quais são as suas principais referências, seus escritores, redatores e jogadores de cabeceira? Tem saído coisa muito boa na literatura contemplando o universo do futebol. O que mais me empolgou ultimamente foi o livro Páginas sem Glória, do Sérgio Sant´Anna. Genial o conto homônimo sobre um craque amador que experimenta o sucesso rápido no Fluminense e depois cai em desgraça de novo no subúrbio carioca. Ando às voltas com um personagem de futebol no romance que estou escrevendo. Não é obrigatoriamente um livro sobre futebol, mas o personagem principal é um angustiadíssimo goleiro na hora do gol, como na canção do Belchior.

Este ano o Sampaio Correia sobe? Tomara Deus. Merece pela performance que mantém desde o ano passado. Estou na torcida boliviana e bolivariana.

Meu personagem da semana: Fluminense

“Não se diga, porém, que faltou alegria à nossa franciscana vitória de domingo. E pelo contrário: houve alegria até demais. Quando acabou o jogo, a torcida invadiu o campo. Vi garotos, de lábio trêmulo e olho rútilo, apalpando um Pinheiro, ou um Waldo, como se um ou outro fosse um César conquistador. Era a vitória que nos subia à cabeça e nos transfigurava. Dir-se-ia uma euforia de campeonato do mundo. E já que um feito tão humilde nos parecia tão deslumbrante, eu me convenci, de vez, que o Fluminense era, de fato, o coitadinho do ano”.

*

Nelson Rodrigues em crônica de 11 de outubro de 1958 (o título é o que roubo ao post). Está no calhamaço O berro impresso nas manchetes (Agir, 2007).

Copio o trecho final da crônica, que falando de outra coisa, começa assim: “Um amigo meu, “pó-de-arroz” doente, faz o exagero melancólico”. Abaixo, um amigo meu, “pó-de-arroz” doente, num exagero captado até pelas câmeras da Rede Globo:

Rogério Tomaz Jr. conta os títulos brasileiros de seu tricolor carioca

A ele, que engraçadamente ilustra o post, e a outros ilustricolores, Cinthia Urbano, Gisele Brasil, João Pedro Borges, Luís Antônio Câmara Pedrosa e Márcio Jerry, dedicamos o Nelson Rodrigues acima, com os parabéns pelo título, nada melancólico, nada coitadinho. Fred explica!

O acarajé em tempos de copa

Charge de Carlos Latuff sobre o episódio gaúcho

Na madrugada de hoje ouvi em um telejornal que baianas serão impedidas de vender acarajés próximo a estádios durante a Copa do Mundo que terá o Brasil como sede em 2014.

Imediatamente lembrei-me da polícia gaúcha partindo para cima de jovens que protestavam contra a privatização de espaços públicos em Porto Alegre. Resumo da ópera: a prefeitura cede praças para a Coca-Cola administrar e a mais famosa marca de refrigerantes do mundo faz alguns chafarizes, instala um mascote inflável da copa e lucra (bastante) em cima disso.

Não tenho detalhes da proibição da venda de acarajés nas proximidades de estádios baianos, se já ocorre, se vai ficar para quando a Copa chegar. Escrevo aqui com base no que ouvi na tevê, ainda meio grogue de sono, enquanto escovava os dentes ou passava uma água no rosto ou arrumava qualquer outra coisa.

Outra coisa em que pensei foi que a proibição do acarajé certamente vai favorecer as redes multinacionais de fast food, que certamente poderão instalar barraquinhas padronizadas, vendendo comida padronizada para gente padronizada. Ou vocês acham que gente fora do padrão, econômico principalmente, vai ter chances de chegar aos estádios ou ao menos perto deles?

A Copa do Mundo no Brasil não será uma copa para os brasileiros, ou ao menos não para os brasileiros médios, não para os que Lula e Dilma tiraram da miséria e fizeram ascender à classe média. Os ingressos supercaros deverão fazer com que muitos aficionados por futebol continuem assistindo ao esporte como se a copa fosse na África do Sul, no Japão, nos Estados Unidos, na Espanha ou em qualquer outro lugar do mundo: pela televisão. Brasileiros nos gramados e arquibancadas serão os jogadores da seleção, a comissão técnica, autoridades e celebridades; fora, próximo dos estádios, se muito, flanelinhas, se mesmo estes não forem também importados. Colados à tevê, torcendo para o Brasil resolver de vez o trauma de 1950, os outros quase 200 milhões, não poucos já mandados para longe dos estádios durante suas construções e reformas.

Por último e não menos importante, na verdade a primeira coisa em que pensei, de que lembrei: para que diabos servem títulos como o de patrimônio cultural imaterial disso e daquilo outro? Se não servirem para proteger patrimônios como o ofício das baianas do acarajé em tempos de copa servirão para nada.

Privatização gaúcha dos espaços públicos e proibição baiana do acarajé têm entre si mais que “meras coincidências”

Sampaio/MA 4 x 0 Comercial/PI

No Nhozinho Santos, pela série D do Campeonato Brasileiro, Sampaio Correia repete o placar da final da Eurocopa, em que a Espanha bateu a Itália por 4 x 0. Time maranhense sonha com vaga na série C.

Este blogue homenageia a torcida boliviana com a foto de um brincante do Boi da Fé em Deus, captada no dia de São Pedro (29), no Canto da Cultura, Praia Grande.

Que os santos do mês de junho abençoem o Sampaio ao longo de sua caminhada!

Este post é dedicado a meu tio Susalvino Viana e toda sua família boliviana que foi ao Gigante da Vila Passos conferir de perto a goleada.

 

Contradição e vacilos: Pelé e nossos meios de comunicação

“Pelé calado é um poeta”, afirmou há algum tempo o hoje deputado estadual carioca Romário sobre o rei do futebol. Tem razão! O talento que sobrava aos pés do mineiro de Três Corações falta-lhe ao usar a boca. A cabeça só não é de todo desprezada pelos muitos gols que fez usando-a.

“Pelé pede que brasileiros deixem rivalidades de lado e torçam pelo Corinthians”, diz a manchete do ESPN/MSN Esportes. Trecho da matéria, mais à frente: “Para justificar o seu ‘pedido’, Pelé ressaltou a rivalidade entre Brasil e Argentina”.

O “poeta” caiu em contradição.

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PUXANDO A BRASA PRA SEU JACARÉ

O projeto Música e Memória terá mais uma edição realizada amanhã no Teatro Apolônia Pinto, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), a partir das 19h30min, com entrada franca. Quem se apresenta por lá é o Instrumental Pixinguinha.

O release da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado correu redações e a blogosfera. Ontem mesmo este blogue recebeu e-mail da direção do MHAM e quase imediatamente respondeu, perguntando se se trataria de uma apresentação do Instrumental Pixinguinha, único grupo de choro da Ilha com disco gravado, ou uma homenagem coletiva a um dos pais da música brasileira. O texto recebido não deixava clara coisa ou outra e não obtivemos resposta até agora.

Diversos veículos, como de praxe, copiaram e colaram o texto sem se preocupar com nada. Na página da Elo, catei dois vacilos, se é que podemos dizer assim. Vejamos: “Atualmente, músicos como Paulinho da Viola, Paulo Moura e Turíbio Santos, e grupos de música instrumental preservam o choro, renovando constantemente este estilo musical”. Quase nenhum problema, não fosse o “Paulo Moura”: o exímio clarinetista faleceu em 12 de julho de 2010.

E Abraçando Jacaré, homenagem de Pixinguinha ao cavaquinista pernambucano Antônio da Silva Torres (o Jacaré abraçado pelo mestre, que inspirou ainda o nome do grupo carioca homônimo à música); no release copied and pasted, a música virou Abrasando Jacaré. Eu nem vou botar o sic entre parênteses.

Prezado amigo Afonsinho

O “prezado amigo Afonsinho” que Gilberto Gil cita na clássica Meio de campo, acima na soberba interpretação de Elis Regina, agora é colunista da revista CartaCapital, do que todos já sabiam.

Em sua coluna de estreia ele cita a canção. Semanalmente na Pênalti, coluna outrora ocupada por outro médico, outro craque da bola e da palavra, Sócrates, a quem a estreia é dedicada/dirigida.

Maranhão metáfora Moto Club

Pela TV Difusora assisti ontem ao clássico de maior rivalidade no futebol maranhense, que terminou com a vitória do Sampaio Correia sobre o Moto Club por 3 a 2. Terminou é modo de dizer: a partida teve seu final antecipado de forma ridícula, com o rubro-negro deixando o campo 15 minutos antes do fim do jogo, para evitar tragédia maior: uma goleada. A derrota era praticamente inevitável, disso sabíamos antes mesmo de os times entrarem em campo; uma goleada, mesmo faltando apenas um quarto de hora para o apito final, era muito provável.

O time tricolor demonstrou infinita superioridade durante o tempo em que a bola esteve em disputa. A defesa do Moto não existe e nos aproximadamente 75 minutos de bola rolando, três de seus jogadores foram expulsos, o que deixou a superioridade boliviana ainda mais evidente.

A postura da equipe motense foi de um extremo desrespeito para com a torcida rubro-negra, que ao longo dos últimos meses tem carregado o time nas costas. Com rifas, bingos, doações e esmolas é que se têm pagado os salários dos jogadores. Como foi acintosa também a declaração de público pagante – pouco mais de três mil torcedores, segundo a Federação Maranhense de Futebol. Na opinião do comentarista José Raimundo Rodrigues, motense de carteirinha, eram mais de 10 mil e a FMF estava debochando do torcedor maranhense. Houve um bate-boca no ar entre ele e Antonio Américo, presidente da FMF, o outro comentarista.

Há um ar ridículo, aliás, na transmissão futebolística local. Se Zé Raimundo torce descaradamente pelo Moto, mesmo que apontando as muitas falhas do time, onde elas existem, o segundo comentarista é sempre pior: ontem era o presidente da FMF, noutro jogo um deputado e por aí vai; é sempre uma autoridade, mas nunca no assunto. O patrocínio é quase exclusividade do Governo do Maranhão, com quase nada de iniciativa privada. E com o vexame motense de tirar o time de campo antes da hora ontem, a tendência é piorar. O campeonato maranhense entra na sua fase semifinal com o Moto Club na corda bamba para o bastante provável rebaixamento.

Personagem do vexame, Kléber Pereira converteu um pênalti, insuficiente para livrar seu time do ridículo fim
Metáfora – A atitude do time do Moto Club ontem foi ridícula e desrespeitosa. Ponto. Com os próprios motenses que, repita-se, têm carregado o time nas costas. Com os maranhenses que gostam de futebol. E com todos os maranhenses, já que mais um motivo para uma chacota nacional foi dado.

Mas cabe aí uma reflexão: presidido por Sarney Neto, um dos braços da família-polvo no ramo do futebol, o Moto Club foi abandonado à própria sorte. Vivendo de esmolas, os jogadores sem saber se teriam como pagar as contas de água e energia elétrica, o colégio dos filhos, sequer se conseguiriam por arroz e feijão na mesa. O que resta a fazer? Tirar o time de campo!

Vejam se não é o que faria, se pudesse, e faz, quando pode, grande parte do povo maranhense? Quando pega um ônibus com destino ao corte de cana ou à construção civil, em grande parte em condições análogas à de escravo. Eis a metáfora: Sarney Neto é vocês sabem quem, manda de fora, raramente aparece, tem suas vantagens e não está nem aí para a devoção e o sofrimento do torcedor, o Estádio Nhozinho Santos é o Maranhão e o Moto Club é o povo maranhense.

Sócrates, brasileiro

Ontem fui ao Chorinhos & Chorões, como entrega a foto acima, em que apareço com o titular do programa Ricarte Almeida Santos e os compositores Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha. A tríade foi entrevistada pelo primeiro, divulgando o show Rosa Secular II, que apresentam sábado que vem (10), às 21h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais).

O show é mais ou menos uma reprise de Noel, Rosa Secular, que apresentaram ano passado e, a pedidos, no comecinho deste ano – e que está concorrendo na categoria “melhor show” no Prêmio Universidade FM, a maior premiação da música produzida no Maranhão.

Digo mais ou menos por que, desta feita, além de Noel Rosa também serão homenageados outros bambas centenários, Assis Valente, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago e Nelson Cavaquinho, além dos saudosos e eternos maranhenses Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil, Dilu Mello, João Carlos Nazaré e Lopes Bogéa. O show contará com as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro, como eu já disse aqui.

Mas não é disso que quero falar: ao adentrar o estúdio da Rádio Universidade FM ontem, a primeira notícia que recebi foi bastante triste: a subida (ontem, 4) de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, vulgo Dr. Sócrates (1954-2011) – avesso a computadores em fim de semana, salvo raras exceções, não fui atrás de ler uma linha sobre o assunto e escrever isto aqui é a primeira coisa que faço nesta manhã de segunda-feira, após o Corinthians ter conquistado seu quinto título nacional (também ontem, 4).

Um jogador cerebral. Um dos fundadores, em plena ditadura brasileira, da Democracia Corintiana, que levou também para dentro das quatro linhas a luta pela redemocratização do país. Em campo ou fora dele, Sócrates nunca deixou de pensar.

Participou de duas copas do mundo, em 1982 e 86, sem ter vencido nenhuma. Azar das copas! Sócrates era a tradução humana da frase-pergunta que abre Catatau, o romance-ideia de Paulo Leminski: “que flecha é aquela no calcanhar daquilo?” Quem o viu jogar ou viu videotapes – dá um google aí no youtube agora! – sabe do que estou falando.

Colunista da CartaCapital, comentarista da TV Cultura, apresentador do Canal Brasil, o paraense era do tempo em que o esporte bretão e a mídia não fabricavam ídolos milionários da noite para o dia. Talvez por isso – ou não – ele tenha se dividido entre o futebol e a medicina. E depois ocupado os meios de comunicação de forma crítica – no último canal, nem sei se seu programa chegou a ir ao ar, gestado já em meio às complicações de saúde que o matariam ontem (4).

Em meio à geral, em geral acrítica, de torcedores, jogadores, dirigentes, cartolas e outros, Sócrates era voz dissidente, que despejava críticas e elogios a quem os merecesse, sendo ácido ou doce, conforme a necessidade. Não erraram seus pais quando batizaram-no com nome de filósofo.

Uma grande perda para o futebol e a inteligência nacionais, num dos raros casos em que essas duas categorias conseguem se conciliar. Descanse em paz, Doutor Sócrates! E que seu exemplo – necessário – possa ser seguido por mais gente por aqui.

Em sua memória e homenagem deixo a sinfonia de pardais abaixo, que ouvi e fotografei hoje pela manhã, antes de sair de casa.

P.S.: atualizo o post às 13h23min para recomendar, sobre o assunto, a subida do doutor, três belos textos: dois de Ronaldo Bressane e um de Xico Sá.

P.S.2: e às 8h55min do dia 6, este de Marcelo Montenegro.

O anticorintianismo

XICO SÁ

Amigo torcedor, amigo secador, nunca se amou e se odiou tanto o Corinthians como nesta semana. Jamais o anticorintianismo, nem mesmo nas participações do time na Libertadores da América, foi tão extremado.

Tudo conspira contra o time do Parque São Jorge. Vi gente que não se interessa por futebol desde a Copa de 1950 tramando pelos botecos contra o Corinthians. Nunca a colônia portuguesa foi tão gigante e vascaína em todo país.

Mesmo sabendo que as condições históricas e objetivas estão dadas: o título do Nacional dificilmente escapará dos proletários da zona leste de São Paulo. A cidade está partida, e o anticorintianismo faz do corintiano mais fundamentalista.

O palmeirense pede a bola da honradez, estufa o peito e roga: se depender do Palestra os “gambás” conhecerão o mais dantesco dos infernos no próximo domingo.

Toda essa turma do contra faz o corintiano buscar mais passionalidade pelo time, cota de paixão roxa que julgava ser impossível. O corintiano foi buscar no miocárdio batimentos a mais para enfrentar a decisão de domingo. Acima do bem e do mal no seu poleiro metafísico, meu estimado corvo Edgar graceja: “Que vença, e não só nesta semana, o azarão completo”.Não é o caso agora. Não há zebras em jogo, advirto o lazarento. “Que triunfe, então, o inesperado”, diz o bicho, covarde e sem palpite.

Secador de nascença, gestado em um castelo mal-assombrado do amigo Roger Corman, o corvo não tem jeito. É mais um a incorporar o espírito do anticorintianismo que reina em SP agora.

A corrente do agouro está formada. Nunca vi tanto vascaíno desde a chegada das caravelas do heroico português.

A missão do secador, todavia, não é moleza. Além do Gigante da Colina ter que afogar o Flamengo, seu mais temível adversário, o Corinthians tem que perder o arrojo, sua marca no certame, no derradeiro confronto do ano.

A vida de um corintiano sempre esteve mais para o mata-mata, um desafio diário, um dragão por dia sob a espada de Jorge. Este foi o espírito alvinegro na mais punk jornada dos pontos corridos.

Resta agora ao amigo mosqueteiro amaciar o coração para o domingo, mandando uma do Cartola para afastar o agouro do anticorintianismo: “E com raiva para os céus/ Os braços levantei/ Blasfemei/ Hoje todos são contra mim”. Sim, deve haver o perdão, como reza o mesmo samba.

[Vascaíno, reproduzo acá o texto do grande Xico Sá no caderno de esportes da Folha de S. Paulo de hoje. Acesso ao original mediante senha para assinantes]

O Santos é o novo campeão

Não à toa um verso do hino do Santos batiza este post. Não sou santista, mas isso não me impediu de vibrar e torcer pelo alvinegro da Vila Belmiro na noite de ontem, quando o time brasileiro derrotou os uruguaios do Peñarol por 2×1, conquistando seu terceiro título na Libertadores da América, o 15º. título brasileiro no certame, desde sua existência, iniciada em 1960 – o negro dourado do Uruguai, aliás, seu maior vencedor. Triste, triste foi a pancadaria que sobrou, comportamento típico do Peñarol, típico de quem não sabe perder. O Santos foi superior na bola, dentro das quatro linhas, e fora delas, ao esquivar-se, na medida do possível – verás que um filho teu não foge à luta – do cenário grotesco de incivilidade generalizada, da parte deles, que serviu apenas para enfeiar o espetáculo que teve direito até mesmo a Pelé correr pelo gramado puxando o técnico Muricy Ramalho pelo braço.

Torci pelo Santos não por ser “o Brasil na Libertadores”. Bobagem! Sorte a nossa: não era o Galvão narrando ou teríamos ouvido essa frase sabe-se lá quantas vezes. Há times pelos quais você não torceria mesmo que ele pusesse o uniforme da seleção e fosse disputar a Copa do Mundo. Torcer pelo Santos é ler poesia escrita com os pés e com a cabeça – e, por que não dizer, com o coração.

Neymar e Ganso, membros da Academia Brasileira de Passes de Letra

Ver Ganso, Neymar, Elano, Arouca e cia. jogando, é ter de volta o prazer do futebol-arte, há tanto tempo esquecido em nome do futebol de resultados – joga-se feio, mas faz-se gol, é o que importa para os burocratas do ludopédio. O Santos mostra que as coisas podem caminhar juntas, que uma não anula a outra, que uma não é oposição a outra.

Depois de um 0x0 na casa do adversário, uma vitória em casa para selar bonito um feito que levou 48 anos para se repetir – o último título santista no torneio sul-americano foi em 1963, quando o Santos sagrou-se bicampeão, algo até então inédito na recém-inaugurada Libertadores, com Pelé ainda jogando.

Não que não dê saudades o Santos de Pelé que nem vi jogar – saudades de um tempo que não vivi e não vi mais que flashes em programas como o Gol – O Grande Momento do Futebol e breves coletâneas montadas em programas outros de esporte. Mas os gritos de gol e de campeão desentalados das gargantas dos santistas espalhados pelo mundo – muitos torcendo pelo Peixe justo por terem visto ou sabido de Pelé jogando – hoje nos permitem falar, em vez de no Santos do Rei do Futebol, no Santos de Neymar, no Santos de Ganso, no Santos de cada um que levou o time ao merecido posto de melhor time das Américas – azar das que não participam da Libertadores.

Torcedores mais otimistas previam, exibindo em faixas ontem no Pacaembu, o tetracampeonato já ano que vem. Eu, que não sou torcedor do Santos, repito, já previa o título do campeonato brasileiro, coroando o Santos definitivamente como a grande equipe brasileira em 2011 – lembremos que este ano o time já foi campeão paulista –, apesar dos tropeços do time no início da disputa nacional, frutos da prioridade dada à Libertadores.

Pena não poder manter o chute: o anúncio da saída de Neymar e a não pouco provável de Ganso parecem ser o início de um desmonte do escrete. O futebol-arte pode voltar a perder este status na Vila Belmiro. Uma pena não só para torcedores do Santos.

Resta-nos torcer pelo núcleo santista que vai à Argentina para a Copa América. Os garotos trocam agora o preto-e-branco pelo amarelo da seleção canarinha. Que venham uruguaios, argentinos, venezuelanos, colombianos, chilenos, peruanos ou quaisquer hermanos e quem mais ousar tirar nossos pés da bola e nossas mãos da taça.