Num país sem memória a ficção refaz a história

Legalidade, de Zeca Brito e Léo Garcia, terá estreia nacional hoje (20), às 19h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) na programação (gratuita) do Festival Guarnicê de Cinema. A estreia mundial aconteceu em abril, no Festival Latino de Chicago, nos Estados Unidos.

O filme costura, a partir de um triângulo amoroso fictício, uma narrativa que remonta ao episódio histórico com que Leonel Brizola, no fim das contas, conseguiu adiar em cerca de três anos o golpe militar de 1964, que acabou por jogar o Brasil numa ditadura militar por 21 anos.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com os diretores e com Sapiran Brito, pai de Zeca, um dos atores que interpreta Brizola, personagem central na trama.

Léo Garcia, Sapiran Brito e Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Como é que foi a receptividade do filme no festival de Chicago?
Zeca Brito – Surpreendente. Incrível como um filme que conta uma história brasileira pode ser universal e pode encontrar reverberações em outras culturas, outras visões de mundo. Chicago é uma cidade muito cosmopolita, então o público que assistiu o filme era de americanos e estrangeiros, pessoas que foram morar nos Estados Unidos, mas que vêm de outras histórias geopolíticas, por exemplo, do Oriente Médio, ou da própria América Latina, a gente pode conversar com uruguaios, com argentinos que residem em Chicago e por conta de ser um festival latino foram assistir o filme, e todos dizem a mesma coisa: algo muito parecido aconteceu em meu país. Que é o reflexo de como o mundo se movimenta, de como os interesses [acentua os dois primeiros “e”, imitando o sotaque de Brizola], de que o Leonel Brizola falava são reais, e é um pouco o que o filme tenta estabelecer. O filme se passa em 1961 e é sobre esse ambiente de guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética e distintas vontades políticas dominavam o mundo e muito daquilo que a gente vivia como história, como processo histórico era influenciado por esses interesses externos. Em Chicago foi muito interessante como isso passou pela percepção do público, essa identificação de como a história se repete, de como a história é parecida. Por outro lado, foi uma questão também que me surpreendeu, eu tava contando pro Léo esses dias, a gente vem, a gente fala muito no filme sobre o aspecto histórico, os personagens históricos. Mas o público mais desinformado da história do Brasil, que é grande parte do público norte-americano, não sabe nada do que aconteceu aqui, primeiro por que nossa cinematografia não chega lá, segundo por que não há muito interesse dos Estados Unidos de olhar para outras culturas, por que já trabalha a sua também como um produto, foi a questão do romance. É um filme que tem um romance que costura a narrativa histórica e esse romance tocou no coração do público e isso também me surpreendeu.

O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa
O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Por que a opção de estrear aqui?
ZB – Interessante. Acho que o Festival Guarnicê é um festival com uma história muito bonita, diferente de outros festivais, sem querer fazer uma crítica específica, ele não é um festival monárquico, de um dono, de uma empresa, ele é um festival que se liga muito com a comunidade civil organizada, partindo de uma universidade [o festival é promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], há 42 anos. Isso no Brasil é muito bonito e importante de ser celebrado nesse momento histórico. A função do cinema tem que ser essa, se aproximar da sociedade civil, cumprir um papel também educativo, falar mensagens importantes, provocar discussões, aproximar nossa memória histórica e também do tempo contemporâneo do que está acontecendo no mundo, mas da nossa realidade cultural, trazer esses debates pra sociedade. Esse festival, nesse sentido, já é muito sério, por estar ligado, a uma instituição do saber. E segundo, a gente vive um momento político, não foi à toa que a gente escolheu Chicago, que é uma cidade ligada à causa operária, aos direitos trabalhistas, e é uma cidade que recentemente elegeu uma mulher, negra, LGBT, prefeita [Lori Lightfoot]. De alguma maneira isso pontua que a gente está num território que tem espaço para as discussões que a gente está propondo no nosso filme e acho que o mesmo se revela no tempo contemporâneo com o Flávio Dino, que é uma referência para um pensamento aberto, de como deve ser a construção da cidadania, do encontro humano, principalmente partindo da luta contra as desigualdades sociais. A gente tem que trabalhar também essa questão de como a sociedade se traduz politicamente. Estar num território com um pensamento tão aberto a questões da história, questões que nosso filme trata, questões da sociologia que nosso filme trata, isso a gente vê publicamente que há uma sinalização de política pública mesmo, que vem a calhar com o que a gente está querendo discutir.
Léo Garcia – A gente começou a escrever essa história em 2007, 2008, mais ou menos, e naquela época era impensável falar em ditadura militar. Tu encontrava dois ou três malucos, mas era algo “ah, já passou”, e aí quando a gente está lançando o filme pairam no ar nuvens cinzentas e o filme ganha outra importância, tem, digamos, outra virtude, que é lembrar um passado recente, que as pessoas já esqueceram, o que foi a ditadura militar. Apesar de o filme se passar antes da ditadura, o Brizola já estava combatendo um princípio de golpe, ali em 1961. Ele consegue, mas depois em 1964, infelizmente…

O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa
O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa

Dá até pra dizer que o golpe foi adiado por essa ação.
LG – Foi, com certeza!
Sapiran Brito – O golpe era contra ele. Ele tava na rua, tava na boca do povo, “cunhado não é parente, Brizola presidente!”, não tinha outro. Era o grande nome entre os progressistas, não tinha outro. Estava praticamente eleito pelo povo. Pelas ações, pelas atitudes, pelo momento. A CIA [Agência Central de Inteligência do governo americano, na sigla em inglês] tentou, não conseguiu a primeira vez, mas na segunda… por detrás de tudo sempre está a CIA. Sempre estão os interesses norte-americanos, através da CIA, que me desculpe a expressão, mas costumeiramente compra os nossos deputados. Costumeiramente. Ele conseguiu segurar o golpe, conseguiu evitar o golpe, mas terminou o mandato como governador, foi ser deputado, e não tinha os meios físicos e materiais e o poder que tinha como governador para tentar deter os golpistas de 1964. Por que infelizmente o nosso país é construído de golpe em golpe. Agora tivemos o golpe branco contra a presidenta Dilma e tivemos um complô da mídia e do parlamento contra o presidente Lula, nada mais que outro golpe branco. E de golpe em golpe nós vamos. E Leonel de Moura Brizola significa o anti-golpe, a voz da resistência, a voz do progressismo, a voz daqueles políticos corretos que ainda resistem. Cinco por cento, mas ainda temos, na classe política, uns cinco por cento de homens retos, honestos e verdadeiramente brasileiros, sem nacionalismo, sem xenofobia, questão de amar o Brasil. Quero lembrar só uma coisa: Brizola não era um gaúcho. Darcy Ribeiro escreveu uma bela crônica sobre o Brizola, dizia “Brizola, um filho do povo brasileiro”, por que ele era preocupadíssimo e envolvido com toda a questão. Um grande problema nacional é o problema da dominação do Brasil. O Brasil é dominado. E nós sabemos por quem. Dominado pelo capital, que se organiza basicamente em Wall Street. E o Brizola representa essa voz de rebeldia contra isso. O Brizola, que foi tachado de comunista, não tinha nada de comunista. O Brizola era um progressista, um socialista embrionário. Tanto que a Internacional Socialista o elegeu vice-presidente, ele não sendo presidente do país. E esse cargo, em memória dele, ainda está na mão do partido dele, o PDT, hoje representado pelo Carlos Lupe. O PDT tem cadeira na Internacional Socialista, mesmo o Brizola não sendo declaradamente um socialista, mas era um socialista, por que era um progressista e um nacionalista sem xenofobia.

O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa
O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa

O que significou para o senhor interpretar o Brizola no filme?
SB – Ah, uma grande emoção. Primeiro que eu vi o negócio nascendo, pelas mãozinhas deles, pelas cabecinhas deles [aponta para Léo e Zeca]. Aí quando eles notaram que eu tinha alguma semelhança com o velho, que eu conhecia muito, por ser amigo dele, de frequentar a casa, falar ao telefone, abraçar e conversar com ele com intimidade em diversas ocasiões, eu ajudei a construir o que o Léo e o Zeca roteirizaram. E que fique claro o seguinte: eu não estou no filme por que sou filho do Zeca [risos] ou amigo do Léo, é que eles viram uma semelhança com o Brizola, que eu não posso negar: é uma espécie de osmose, de tanto eu gostar, eu acabei ficando parecido com o velho e tento pensar e agir como ele, por que eu também sou político. Além de artista, ator, diretor de teatro, eu também sou político. Me honra, sobremaneira, representar, mesmo eles me dando pouco espaço [risos], mas é simbólico honrar a memória do velho. E é uma satisfação saber da oportunidade do lançamento desse filme. Eles não previram, eles não têm bola de cristal, nenhum dos dois é Nostradamus, mas parecia que estavam prevendo: “ah, vamos lançar durante o outro golpe”. E estamos aqui honrando a memória de Leonel Brizola.

É curioso que o filme anterior de vocês é sobre Tarso de Castro [A vida extra-ordinária de Tarso de Castro], que é outro combatente da ditadura e também um brizolista.
ZB – E que estava na Legalidade.
LG – De certa forma influenciou um pouco o roteiro do Legalidade. Ele não só estava na Legalidade, como ele foi, a gente conta no filme, um episódio, uns 20 dias antes da Legalidade, o Brizola conheceu o Che Guevara em Punta del Este, um encontro da OEA [Organização dos Estados Americanos] e o Tarso cobriu isso. Várias coisas acabaram se mesclando, a gente estava rodando o Tarso e acabando de escrever o roteiro.
ZB – Quando a gente terminou de filmar o Tarso e foi filmar o Legalidade, o que acontece é que eu acho que tanto personagens que são personagens do filme do Tarso inspiraram personagens do Legalidade. O Flávio Tavares, o Carlos Bastos, pessoas que estão no filme do Tarso de Castro e que são a síntese do Tom e do Luís Carlos, que são os personagens fictícios que a gente criou. São muitos personagens reais, a gente fez uma pesquisa, até interessante, tu vai assistir o filme e vai ver, a gente colocou nos créditos finais todos os livros que a gente pesquisou para criar essa história de ficção. Ela é toda costurada por episódios reais, mas cabe a cada um de nós ir a fundo para ver a veracidade daquela coisa no sentido de que a costura é poética. É uma obra poética, como se fosse o [poeta grego] Hesíodo estar contando a guerra e não estar falando da guerra como ela é, mas está se baseando em fatos que aconteciam e que aconteceram para poder sintetizar de forma poética a guerra. O que a gente fez no Legalidade foi isso. A gente leu muito sobre tudo o que havia sido produzido em termos de pesquisa científica, da academia, e bibliografia, livros sobre episódios históricos, depois entrevistamos autores, o Juremir Machado, o Flávio Tavares, mas primeiro a gente partiu do livro deles, mas entrevistamos, e entrevistamos familiares, amigos, o Carlos Araújo, que inspira nosso personagem comunista, mas vai acabar sendo trabalhista. O próprio [Luís Carlos] Prestes foi ser presidente de honra do PDT, tem essa costura histórica e a gente coloca esses elementos no filme. Tem o personagem trabalhista, que é o Brizola, tem o personagem comunista, que é o Luís Carlos, como essas ideologias vão se encontrar com o campo oposto, que é alguém que está corrompendo a constituição. Alguns deputados, no campo do poder legislativo, e alguns militares, o chefe da Marinha, o chefe da Aeronáutica, que não queriam permitir o Jango [João Goulart] voltar ao Brasil e assumir a presidência, porém, aí é interessante como a história é complexa, a Legalidade só foi possível com a adesão do Terceiro Exército, que era a maior força militar brasileira: 120 mil homens, que estavam no Rio Grande do Sul. Brizola foi tão persuasivo, conseguiu levar tão profundamente a mensagem, mobilizar a população civil, que aqueles soldados que estavam no Rio Grande do Sul aderem à Legalidade, rebelando-se à ordem inclusive de bombardear o Palácio [Piratini, sede do governo gaúcho], que partiu de Brasília, então acontece esse contragolpe. Aí o Jango vem, aí o que acontece: a coisa estava tão inflamada que era mais conveniente que o Jango viesse pra apaziguar, por que o Brizola ia sim subir e tomar o poder. Aí o Tancredo [Neves] vai até Punta del Este, faz uma negociata básica, histórica, e resolve, para que não haja derramamento de sangue, “vamos estabelecer um pacto de silêncio você volta e assume o parlamentarismo, não fala nada, não faz discurso, fica quietinho, acalma o Brizola, silencia o Brizola, a gente vai silenciar o Exército lá em cima, Aeronáutica, Marinha”… Nisso os navios de guerra já estavam no porto do Rio Grande, toda a frota aérea já estava mobilizada para bombardear o Rio Grande do Sul e acontece esse acordo de paz, que foi um desfecho, pro Brizola foi um pouco frustrante, mas um ano depois, através de um plebiscito, se reconstitui a democracia, que dura dois anos e acaba com o golpe, em 1964.
LG – É legal por que tem todo esse aspecto político, mas nosso roteiro tem camadas. Uma pessoa que, digamos, não tem nenhum conhecimento de história pode assistir o filme e vai acabar desfrutando pelo menos da história de amor, vai entender o enredo, vai saber que existiu esse momento tão importante da história. Eu acho que tem essa virtude o roteiro que a gente trabalhou. Quando essa história começou, em 2007, mais ou menos, eu e Zeca bem jovens, Zeca estava acabando o primeiro longa dele, O guri, eu ainda não tinha nem um longa filmado, e o Zeca veio com essa história: “ah, o meu pai sempre falou que a Legalidade renderia um filme”, eu nem conhecia o Sapiran, nem lembrava da Legalidade, eu tinha estudado no colégio, assim [estala os dedos] talvez numa tarde… aí eu comecei: que Legalidade é essa? Li um livro e falei: “cara, rende um filme, vamos escrever?”. “Vamos!” E começou, naquela época a gente tinha o sonho de lançar em 2011, nos 50 anos da Legalidade. Ledo engano. Cinema no Brasil nada é tão fácil. Um dia eu quero convidar o Zeca pra fazer umas quatro, cinco horas, pra gente mostrar nosso roteiro desde o início. Do primeiro argumento o tanto que mudou, a gente foi enxugando personagens, mudando, tinha um circo, quatro irmãos viraram dois. Um roteiro tinha um diálogo de 15 páginas entre dois palhaços, eu falei: “Zeca, não sei se a gente vai ter tempo pra isso” [risos], queríamos fazer uma coisa mais [o cineasta italiano Federico] Fellini, mas enfim, a gente foi se acertando.
ZB – Esteticamente é um filme bem atemporal. Interessante o fato de a gente ter achado que ele deveria ter sido lançado em 2011 e não conseguimos, só filmamos em 2017 e estamos lançando agora em 2019, mas a construção do roteiro, apesar de se passar em 1961, é um filme que joga com a história, com o fato de ter essa construção poética, personagens fictícios. De algum momento essa história já aconteceu em outros momentos antes, aconteceu depois. A gente diz: é a prévia de 1964, depois 1964 aconteceu mesmo. Mas pode ter acontecido agora, em 2016.
SB – Já tinha acontecido antes, com Getúlio [Vargas].
ZB – E esteticamente ele flerta com o melodrama, tenta buscar essa raiz brasileira, que às vezes o cinema olha com certo preconceito, essa matriz que vem da televisão, da telenovela, como elemento estético, para se trabalhar a história, ela se relaciona muito com a história, no sentido de que a história brasileira é um pouco uma telenovela. A narrativa histórica. Às vezes a realidade é tão engenhosa, que parece surpreender, daqui a pouco cai o avião do desembargador, do primeiro ministro, coisas que não existem no Brasil, mas estão aí toda hora.
LG – Alguém viu um corte do filme e falou: “não, os militares nunca iam fazer isso”, mas está ali, foi assim que aconteceu.
ZB – Exatamente. É por isso que a gente bota todos os elementos históricos sem citar, mas lá no final, para que essas pessoas tenham o trabalho de ler esses livros.
SB – Enfrentamos um grande problema: é um país sem memória. Todos nós enfrentamos, jornalistas, todos nós. Ninguém lembra o que aconteceu há cinco anos. Não vai lembrar o que aconteceu há 50. Não tem a mínima informação. O filme contribui pra isso. Não chega a ser um filme histórico, mas pode chamar a atenção para que a juventude desperte para esse tema e vai encontrar outras histórias de muitos e muitos golpes que esse país sofre.

Essa abordagem de algum modo é curiosa por que a gente vive a era das fake news, que ao fim e ao cabo foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E vocês viram o jogo ao contar um capítulo da história do Brasil através de uma ficção, o que é uma solução supercriativa.
ZB – É uma coisa que está aí desde que o mundo é mundo, que se chama romance histórico. Quem não leu O tempo e o vento [do gaúcho Érico Veríssimo] ou E o vento levou… [da norte-americana Margaret Mitchell]. Ambos são romances históricos que viraram filmes e que contam uma história. A história do Rio Grande do Sul foi contada em O tempo e o vento, a história da guerra de secessão nos Estados Unidos foi contada em E o vento levou… Estou dando dois exemplos, mas poderiam ser outros.
LG – Ao fazer isso a gente altera alguns detalhes, a gente cria personagens fictícios que fazem coisas importantes, mas isso é normal de qualquer dramaturgia.
ZB – A dramaturgia histórica é assim. É a síntese da história. A gente tem a responsabilidade de esperar 50 anos do episódio, poder ler todos os livros, poder comparar as perspectivas históricas, poder colocar diferentes pontos de vista em cena. Por isso é um romance. A gente tem a visão dos Estados Unidos, a visão da CIA, que parte de uma jornalista do Washington Post, de alguma maneira…
LG – Olha o spoiler… [risos].
ZB – A gente não tem o personagem real por que a CIA não revelou esses documentos, mas hoje a gente sabe que a CIA espionava o Brizola.
SB – Já revelou.
ZB – Já, mas a gente não sabe quem era o espião, a gente tem o relatório.
SB – Daqui a 50 anos vamos saber.
ZB – Daqui a 50 anos vamos saber, talvez. Mas a questão é que depois do Che Guevara o Brizola era o homem mais vigiado na América Latina. Como é que a gente vai construir isso historicamente? A gente tem essa informação, mas tem que ser através de personagens fictícios, a própria questão da Legalidade, como a gente tem muitos personagens reais, você precisa sintetizar cinco personagens reais em um personagem fictício. O que aconteceu é real. Essa que é a questão do Legalidade. Você tem compromissos históricos com personagens históricos. Tudo que o Brizola diz no filme são falas do Brizola durante a vida que estão ali na boca dele. Claro, tem uma ou outra cena de intimidade que a gente consultou a família: “isso aqui ele falaria dessa maneira?”. “Ah, sim”. É uma síntese de um discurso, colocado de uma maneira mais coloquial, mais íntima, como ele falava com a esposa, coisas assim. Mas os personagens históricos, os discursos do Brizola são os discursos que ele fez na época. Então tem essa costura entre personagens históricos com discurso histórico real e uma construção poética que é o lirismo da dramaturgia clássica que está aí desde a Grécia antiga.
SB – Uma coisa a ser ressaltada na ação do Brizola é que foi a primeira vez no mundo que alguém usou a comunicação para organizar um levante. Nos dias que correm é a maior barbada, mas naquele tempo, o grande veículo era o rádio. Tevê não tava ainda em cadeia, não tinha as afiliadas, tevê era uma coisa muito incipiente ainda. Ele foi o cara que despertou pra comunicação, pra fazer um levante através da comunicação, quando ele criou a Rede da Legalidade, que começou lá no porão [do Palácio Piratini], depois foi pra Goiás, Paraná, foi crescendo, crescendo, só não entrou em São Paulo, mas no resto do país se formou a Rede da Legalidade. Então, esse fator, o tino desse cara, de se dar conta do uso da mídia, da comunicação, a seu favor, a favor da sua ideia, do seu projeto, é fundamental, pouca gente observa isso.
ZB – É muito interessante. Ele tinha o dom da oratória. Toda sexta-feira ele falava num programa de rádio, ele se comunicava quatro, cinco horas, as pessoas às vezes dormiam, de tanto que ele falava, dormiam, acordavam e ele tava falando.
SB – Que nem o Fidel [Castro] e o Mao [Tsé Tung].
ZB – Quando ele se dá conta de que tinha um golpe em curso ele escreve um comunicado e manda pra todas as rádios. Aí acontece um fato, que era sintomático do golpe, que o exército imediatamente manda fechar todas as rádios que haviam lido o manifesto, em que ele dizia: “Jango está na China, está sendo impedido, temos que nos mobilizar para que seja respeitada a constituição”. As rádios são fechadas, a única que não é fechada é a Rádio Guaíba, por que era um pouco mais conservadora, de alguma maneira tinha uma outra visão política, não aceitou ler o manifesto, não foi fechada. No dia seguinte ele confisca o transmissor da Rádio Guaíba, traz pro palácio e transforma a secretaria de comunicação na secretaria de segurança, digamos assim. Ele bota todo aparato da brigada militar a serviço do resguardo da comunicação. Resguardar a torre da Ilha da Pintada, transforma o palácio num grande forte de comunicação, onde ele bota os transmissores na rua pro povo que tava na frente ouvir o discurso dele, começa a discursar, discursar, produção artística, poesia, jogral, em torno disso, os dias vão passando e só discurso não dá, [o ator Paulo César] Pereio, [a poeta] Lara de Lemos, fazem o Hino da Legalidade, aquilo começa a ser tocado ininterruptamente.
LG – Vai mobilizando todo o Brasil, “olha não vamos deixar ter esse golpe”.
ZB – Mobiliza a sociedade civil inteira no sentido de dizer: “o que temos aqui?”. “A brigada militar”. “Quantos contingentes?”. “Tantos”. “Isso aqui não dá nada”. “O que a gente tem?”. “O povo na rua”. “Quantas mil pessoas estão na rua?”. “As pessoas precisam se armar”. Aí ele estabelece um jogo de guerra civil pela constituição. Quem tem arma pega sua arma e vem pra rua. Ninguém tinha tanta arma, ele pega todas as armas de estoque do palácio e distribui pra sociedade civil. Vai na Taurus, pega todo estoque de armas da Taurus, a Taurus que hoje tá com as ações lá em cima, distribui pra população todas as armas e “nós vamos enfrentar o exército brasileiro, vai ser brasileiro contra brasileiro, por que a gente tem que preservar a única coisa que a gente tem que é o voto democrático popular”. Jango Goulart havia sido eleito com mais votos que Jânio Quadros, numa época que as eleições eram separadas, vice e presidente.
SB – Não podia ser mais legítimo.
ZB – Só que na verdade isso tudo era um jogo de cena, as armas do palácio não tinham balas, as balas eram da revolução de 30, estavam todas estragadas. Ele vai jogando com o limite, pra ver o que ia acontecer, e tentando segurar, segurar, segurar, pro Jango voltar e o Jango não vinha.
LG – Não tinha informação direito de onde é que ele tava, tava em Nova York, ele vinha a conta-gotas, parava em Lima…
ZB – Até começar a guerra eles não precisam saber que elas não atiram [risos].
LG – Triste pensar que tem uma avenida em Porto Alegre chamada Castelo Branco. Fizeram uma votação, vereadores conseguiram mudar pra Legalidade. Aí quiseram mudar, “não, por que tem uma pracinha chamada Legalidade”. Aí virou avenida da Legalidade e da Democracia. Agora, em tempos [de] Bolsonaro voltou a se chamar Castelo Branco.

Sério?
LG – Agora vamos recomeçar, pra voltar a ser Legalidade, é sintomático, não?
ZB – Se a gente quer lutar, tem que lutar por educação, no Brasil hoje.
SB – O Castelo era o menos golpista deles. O Castelo saiu do Ceará pra detonar o golpe, o AI-5 do Costa [e Silva], por que o compromisso moral do Castelo com a nação era da eleição em dois anos. Ele saiu, teve que sair, passou pro Costa e Silva e o Costa e Silva deu um golpe dentro do golpe. E ele decolou e caíram o avião dele.

A personagem da Cléo Pires é jornalista.
SB – É uma espiã disfarçada.
ZB – Spoiler!
SB – Apaga, apaga [risos]. Quem sabe ele não é um espião da CIA? [gargalhadas].

Ou pelo menos da Abin [risos]. Recentemente houve esse episódio do The Intercept vazando as conversas do Sérgio Moro. Queria saber a opinião de vocês sobre a importância do jornalismo e da liberdade de imprensa no mundo e principalmente no Brasil sob a égide de Bolsonaro.
LG – Estou aguardando o episódio de hoje da Vaza Jato.
SB – O filme deles sobre o Tarso reflete muito bem isso. O Tarso sempre disse que não tínhamos uma imprensa livre, é uma imprensa submissa, uma mídia submissa, infelizmente. Claro, tem CartaCapital, tem Caros Amigos, tem umas revistas, uns jornais que não estão no topo do consumo, que são as vozes resistentes. Agora os demais? [Fala com desdém:] Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, Record, tudo isso está a serviço do capital. O jornalista de um desses órgãos que quiser ser libertário, da grande mídia, que quiser falar a verdade, está desempregado. Não só desempregado como o chefe liga pras outras redações e diz: “não contrata fulano, que ele complica”. Nosso jornalismo, infelizmente, está amordaçado. O que salva agora? As redes sociais, as agências independentes.
LG – Pro bem e pro mal. Hoje em dia as pessoas recebem notícias pelo celular e ninguém quer saber se é verdade, se não é. Mas fake news passa.
SB – Passa. O cara vai quebrar tanto a cara dando mancada, que uma hora ele vai procurar uma fonte confiável. E existem fontes confiáveis. A própria grande mídia agora está ficando responsável [risos], está sentindo a concorrência. Desde o tempo do [Assis] Chateaubriand que a grande mídia é golpista, que derruba, se apropria, e manda no presidente.
LG – A gente aborda, no próprio Legalidade, não só a Cléo Pires é uma brasileira que mora em Washington. A gente tem um triângulo amoroso, são dois irmãos, um deles trabalha no [jornal] Última Hora. Todo envolvimento dos jornalistas naquela época na Legalidade é fundamental. Eles fazem parte do plano do Brizola, era um jornalismo muito mais ativista, digamos.
ZB – Tem duas questões, fazendo relação com The Intercept. Primeiro, a questão da investigação e dessa responsabilidade que o jornalismo brasileiro talvez precise retomar, de depender menos do release, das notícias prontas, mas de ir atrás não só da visão oficial. Até no filme isso é engraçado, por que de alguma maneira os meios de comunicação de nosso filme estão a serviço do Brizola, eles são a voz do Brizola, a voz de uma liderança, mas de uma liderança que eles conheciam intimamente. Isso é uma questão. Ele não tinha como governante, esse distanciamento que os governantes costumam ter da imprensa. O Brizola tomava café todos os dias com os jornalistas para falar sobre o que estava acontecendo, chamava, não se negava a responder nenhuma pergunta, não era uma pessoa que fugiria de uma pergunta. Ele sabia a importância da imprensa para se manter ligado ao povo, ele tinha essa relação com o povo. “A grande massa, as pessoas que estão muito distantes, todos precisam saber do que estou fazendo”, pra ser cobrado também. Ele dava a cara a tapa, deu grandes exemplos em vida pra poder fazer as coisas que fez. Ele fez a reforma agrária, mas ele doou uma fazenda que ele tinha, foi a primeira fazenda, que ele doa, da família. Mas ele soube jogar, no episódio da Legalidade, com a imprensa como um elemento de guerra.
LG – Isso o Brizola jovem, por que o Brizola mais velho, depois…
ZB – Vai comprar briga com a imprensa.
LG – E o fato de o Brizola ter brigado com a Globo significou que ele nunca foi presidente do Brasil. O exílio também fez muito mal pra ele.

Como é que vocês têm acompanhado esse ataque sistemático às artes, à cultura e ao pensamento pelo governo Bolsonaro?
SB – É o que se esperava dum fascista. Não pode esperar do fascismo outra coisa a não ser isso. O [ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph] Goebells, o número um do [Adolph] Hitler, dizia: “quando eu ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar da pistola”. Indiretamente, eles odeiam, eles também têm vontade de sacar a pistola e matar todos os artistas, por que o artista é rebelde, o artista fala, o artista é independente, além do quê a cultura e a arte servem para o esclarecimento do povo, e eles não querem, querem o povo burro.
LG – Ignorante como eles.
SB – Eles não têm carinho nenhum, têm profundo desprezo pela cultura. E é aí que está o nosso papel: resistirmos. Por que isso passa. Essa onda de fascismo, de direitismo, existe em todo o mundo, não é só no Brasil, eles estão surfando na onda, a direita botou as garras de fora e está tendo seu momento. Até por culpa da esquerda, vamos aprofundar, que fracassou em muitas coisas. Acontece que a hora é deles, não é a nossa hora, não é a hora dos progressistas, não é a hora dos esquerdistas. Nesse momento nós temos que resistir, aguentar, por que muda, claro que muda, não sei se vai durar 10 ou 20 anos. Mas de repente alguém pode cair do cavalo.
LG – Vale falar que o filme é em memória de nosso ator, que acabou falecendo, infelizmente, que interpreta o Brizola, o Leonardo Machado.
SB – Foi o último trabalho dele.
ZB – O Léo é o protagonista, junto com o Sapiran ele faz o Brizola, a maior parte do filme ele conduz a trama, é um grande ator do Rio Grande do Sul, deixa um legado importante. Todos os diretores dos últimos 20 anos em algum momento trabalharam com ele. Não chegou a ver o filme pronto, viu um corte, enfrentou um câncer e nos deixou precocemente. Mas fez o filme com uma entrega absoluta, com paixão, buscou o papel, a gente estava buscando um ator, estávamos caindo no canto da sereia de que para chamar público tínhamos que ter atores do eixo Rio-São Paulo, em grande evidência na televisão.
LG – Mas tu tinha uma pulguinha, queria um Brizola gaúcho.
ZB – É, num primeiro momento a gente achava. Mas ele buscou o papel, me procurou, chegou ao teste caracterizado, era mais forte do que o próprio filme a vontade dele de fazer o filme. Fez lindamente, conduz o filme com uma baita responsabilidade, as falas reais do Brizola, teve um processo de caracterização, mudou o cabelo, colocou lente de contato, engordou um pouco para fazer o filme, é um ator muito completo, tanto pelo aspecto físico, disposto a transformações, quanto pela parte de equipamento vocal, tinha uma voz muito bonita, muito volume, pros discursos do Brizola isso foi muito importante, uma capacidade também de ser muito generoso, conviveu muito com o Sapiran, foi pra Bagé, fez um laboratório de um mês antes, saiu um pouco da cidade, para buscar essa raiz do Brizola, que era um homem rural, um colono, um homem do campo. Foi conviver com o Sapiran para os dois criarem o mesmo personagem. O filme, agora que eu falei esse negócio do campo, tem uma outra questão importante que a gente foi buscar: o filme se passa todo em Porto Alegre, mas estabelece um relação histórica com São Borja, com a raiz desse trabalhismo brasileiro que nasce com Getúlio Vargas num território que é Brasil mas que tem como origem de colonização a cultura espanhola, a figura do caudilho, e principalmente a questão da justiça social que fez parte da utopia jesuítica guarani. São Borja é uma cidade que nasce da colonização espanhola jesuítica, e foi o grande centro da justiça, os tribunais guaranis aconteciam em São Borja. Em 1680 já existia a ideia de reforma agrária, de divisão igualitária da terra, isso vai estar no subconsciente do Getúlio, do Brizola, e o filme tenta também flertar com esse passado espanhol que fez o Rio Grande do Sul, que está nas missões, tem um elemento do nosso filme que é inspirado no Darcy Ribeiro, antropólogo, que está na região das missões, em São Miguel das Missões, trabalhando com os indígenas, e vai pra Porto Alegre, mobilizado pela Legalidade, também mostrando essa mobilização que o Brizola fez no interior do estado. Então, pra falar um pouco das raízes do Brasil, que passa pelo elemento indígena, pelo elemento negro, pelo elemento português e pelo elemento espanhol, também no caso do Rio Grande do Sul.

Foi todo rodado em Porto Alegre?
ZB – O filme teve locações em São Miguel das Missões, também em Torres, mas representando Punta del Este, mas a história em si se passa em Porto Alegre.

No começo da entrevista você fez um elogio ao Guarnicê. Nesta edição foi inaugurada uma mostra chamada Cinema Político. O que você achou da iniciativa?
ZB – Eu achei fantástico, o festival tem que ter um compromisso com a sociedade. A gente vive um momento no Brasil onde as instituições, onde o próprio sistema político, como a sociedade vê a política, precisa ser discutido, pensado, a gente precisa repactuar com a sociedade, com a política. Há hoje uma ojeriza, um preconceito muito grande do cidadão com a classe política, por conta do desgaste da corrupção, que é real e que é histórico. A gente esteve no Museu de Arte Sacra hoje à tarde e há uma frase de Padre [Antonio] Vieira, numa de suas pregações, falando de como a corrupção está presente e é genuína do ser humano e é preciso combatê-la, não é questão apenas de ser brasileira, ela existe em toda parte, mas de alguma maneira no Brasil, por conta de nosso processo histórico, a mancha da corrupção se tornou maior do que a vontade civilizatória de fazer política por parte do cidadão. A gente precisa reaproximar o cidadão da política. A sociedade, no seu mais alto grau de caminhar, de pacto social, precisa da política, precisa da participação política. Mas não necessariamente da figura do grande líder, e é essa que é a questão que o Brizola entende, que aquilo tudo só seria possível envolvendo todos os cidadãos e fazendo com que as pessoas se apropriassem daquela causa, lessem a constituição, entendessem por que estavam lutando por aquilo. Como artista a gente também tem um compromisso de aproximar a política da discussão cidadã. A política é estrutural na sociedade, voltamos pra Grécia antiga. Há sociedades que conseguiram avançar, inclusive pra que a gente pudesse ter um processo civilizatório que deu origem ao renascimento, que deu origem à modernidade, ela se baseia na política.
SB – Há um preconceito contra a política em essência. Quando tem um festival que abre uma janela importante para um filme político, é importante, é um avanço. O Guarnicê tem conteúdo, tem pensamento, é um festival de pensamento. O festival que ele [aponta para Zeca] é coordenador tem isso também. É arte, mas é arte para pensar.

Qual é o festival que você coordena?
ZB – Tanto eu quanto Léo, de alguma maneira nós criamos janelas para poder propagar a arte cinematográfica brasileira, mas também refletir sobre nossas áreas, eu na minha atuação na faixa de fronteira e o Léo como roteirista. O Léo criou em Porto Alegre, o Frapa, o Festival do Roteiro Audiovisual, que é hoje um dos maiores, acho que é o maior da América Latina, e eu criei em Bagé e Livramento o Festival de Cinema da Fronteira, que já tem 11 edições. Ano que vem eu não vou participar, vou assistir. Mas fui o idealizador. O Frapa está chegando à sétima edição.

Qual a previsão de estreia do Legalidade no circuito exibidor?
ZB – Dia 12 de setembro ele vai estrear no Brasil. [Distribuição da] Boulevard Filmes, que distribuiu o Tarso também, distribuiu o Glauco do Brasil, meu outro filme.

Como vocês avaliam o atual momento do cinema brasileiro em que filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, e Marighela, de Wagner Moura, têm concorridas estreias internacionais, com ampla repercussão, mas não estreiam no Brasil?
LG – Eu acho que o Bacurau vai acabar estreando. O Marighela tá complicado, eu estou lendo, está complicado, a distribuidora ficou com medo da repercussão. O Marighela é diretamente contra o Bolsonaro. Eu não vi o Bacurau, mas imagino que seja uma coisa não tão direta, é óbvio que o discurso está ali, mas uma pessoa tosca não vai se sentir agredido, como o Bolsonaro, diferente do Marighela, que é um cara que combateu a ditadura. Eu acho que o Bacurau vai entrar em cartaz, deve entrar bem, espero que faça um bom público.
ZB – Eu acho que ambos os filmes escolheram estrear em festivais estrangeiros, é uma política que os realizadores brasileiros têm tido, não agora, mas há muitos anos, por que muitos desses festivais exigem que seja première mundial. Estreiam fora por que não têm espaço no Brasil? Não é verdade. Estreou fora por que os realizadores brasileiros preferem estrear fora, criar expectativas, ganhar prêmios fora, e depois estrear nos festivais nacionais. Acho difícil que ambos os filmes, de realizadores de prestígio, com os elencos que têm não sejam selecionados em festivais brasileiros. Provavelmente a gente vai ver agora no segundo semestre, os dois filmes em Gramado, Brasília, em algum desses festivais, Rio, São Paulo, eles vão estar nesses festivais. A questão do lançamento comercial, hoje no Brasil, tem dois caminhos: ou é investimento de uma grande distribuidora, e aí isso não é uma questão de perseguição política, é uma questão de capital. A gente vê que o capital pode, por exemplo, como a Netflix, lançar um filme sobre o impeachment da Dilma, por que o capital não tem esquerda nem direita, ele vende pra esquerda e pra direita.
LG – A Netflix fez O mecanismo [de José Padilha].
ZB – A mesma Netflix que fez O mecanismo faz Democracia em vertigem [de Petra Costa]. Então o capital é um grande balaio, que tem uma oferta que é o comunismo, o neoliberalismo, está tudo ali em oferta. O outro mecanismo é o Fundo Setorial do Audiovisual. O Legalidade é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o Marighela também. O Fundo Setorial do Audiovisual, na medida em que você aprova o financiamento da realização, a distribuição é suporte automático. Se eu quiser recorrer, eu posso ter recursos do mesmo fundo pra distribuir o filme.
LG – Até o ano passado. Agora tá tudo meio turvo.
ZB – Qualquer filme que está sendo lançado esse ano comercialmente teve que fazer esse processo ano passado. Imagino que qualquer filme que tenha optado pelo Fundo Setorial do Audiovisual ele terá o lançamento, imagino, garantido. A sociedade civil organizada que lutou pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que lutou pela transparência, pela governança de um fundo que é gerido por um banco público, aliás, o BRDE foi criado pelo Brizola [risos]. O que existe é uma dominação estrangeira das salas. Vingadores estreou em 800 salas. Há um preconceito contra o cinema nacional, isso existe e isso o Bolsonaro está fazendo questão de acentuar, é uma questão que a gente já vêm lutando há muitos anos e é função nossa, como imprensa, como artistas, formar público, lutar contra essa dominação estrangeira.

Serviço

Divulgação
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Plural e desnuda

Retrato: Camila Neves

 

“Uma vez minha mãe falou que ele era primo do meu avô. Mas eu nunca chequei isso, não lembro se essa é a informação certa [risos]. Mas vou perguntar pra ela”. É com essa imprecisão acerca de seu parentesco com o escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) que começa minha conversa com Bia Sabino (27), cantora carioca que estreou no mercado fonográfico ano passado, com Ecos [independente, 2018], um dos discos mais verdadeiros da temporada – ao longo da entrevista ela me encaminharia uma mensagem de texto da mãe: “Oi, filha. De acordo com a tia Aparecida, ele era primo primeiro de pai. Temos parentes dele em Resplendor/MG”.

Sabino não é o único parente famoso da moça, mas ela não carece de parentes importantes à guisa de cartão de visitas. “Tem um moço da minha família que bem fez o Hino da Independência. Imagina se as pessoas esperassem que eu fizesse músicas parecidas com as dele”, diverte-se, referindo-se a Evaristo da Veiga (parente de seu bisavô) – Francisco Manoel da Silva, autor da melodia do Hino Nacional, fundou o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, que precedeu a Escola de Música da UFRJ, era parente de sua bisavó, ela acrescentou após consulta a sua vó. “Os dois pais da minha vó, por parte de pai; a família da minha mãe tem raízes indígenas, eu tenho certeza que tinha uma galera da batucada lá, mas esses não estão nos livros de história [risos]”.

Sobre a sinceridade a que me referi, digo que percebo um desnudar-se, uma carga autobiográfica em seu trabalho. Ela concorda: “Acredito que isso aconteça mesmo, sabia? É o que faz a arte. Eu não entendo como alguém consegue cantar ou compor “vestido” [risos]”. Ela mesmo se corrige: “até entendo. Mas não me move”.

A cantora durante o show de lançamento de Ecos. Foto: Camila Neves

Bia Sabino já compõe há algum tempo, mas só agora, após um processo de crowdfunding, conseguiu botar seu bloco na rua – a campanha de financiamento coletivo bateu todas as metas. “Eu espero que o caminho seja longo mesmo, às vezes me sinto meio atrasada, tendo escolhido me jogar nesse caminho meio tardiamente, já que a música sempre esteve presente”, me revela a geóloga de formação, que ao longo da entrevista, realizada durante cerca de dois meses através de chat de rede social e aplicativo de mensagens, revelará ser várias: está concluindo uma pós-graduação em Naturopatia. “Parece que são coisas distintas, mas tudo reverbera nas minhas músicas”, revela-se.

A conversa com Bia Sabino transcorreu entre afazeres diários do repórter e da artista, entre aulas de pós-graduação, shows, viagens, feriados, apresentações circenses – é acrobata e professora de acrobacia – e tudo o mais que sua pluralidade lhe permite.

Pergunto-lhe se encara a música como profissão ou hobby. “É definitivamente uma profissão. E agora estou tentando encontrar os caminhos para viver essa realidade. Por que eu quero espalhar uma mensagem, sabe? Eu tenho algo a dizer”, diz. “Mas ao mesmo tempo eu tenho que tocar em barzinhos etc. para conseguir viver aqui”.

“Eu faço poemas desde MUITO pequena [grifo dela]. Minha mãe guardou umas coisas muito engraçadas disso. Aí quando eu tinha uns 10 anos eu percebi que eram músicas, na verdade”, puxa o fio das origens. “Acho que isso da idade é construção social, né? A gente vê vários artistas incríveis começando tão novinhos, fazendo sucesso aos 20 [gargalha]. Sei que sou super jovem, mas ao mesmo tempo fico querendo ter tomado essa decisão antes [risos]”.

A garota prodígio torna às origens: “Eu entrei pro coral do colégio aos cinco anos, o que é até uma história engraçada, por que não podiam babies como eu. Só que eu queria MUITO cantar [grifo dela]. E aí fui falar com a coordenadora, arrastando minha mãe… ela disse que se o diretor deixasse eu podia ir. Aí fui falar com a tia Rute, falei que me comportaria, que queria muito cantar… Então o limite antes era de 10 anos de idade, eu desci para cinco. Era meio precoce”.

E continua: “Fiz 11 anos de coral, mais ou menos. No meio disso comecei a aprender violão sozinha. Depois entrei no [curso de] violão clássico da [escola de música] Villa-Lobos”. Ela não chegou a se formar no instrumento, mas estudou durante um tempo. Digo que é uma história incrível e ela retruca: “tem que ouvir minha mãe contando essa história. É muito bom [risos]”.

Indago-lhe sua opinião sobre artistas mirins. “Eu era uma criança muito engraçada, ficava pensando na vida. Quando eu era pequena eu tinha uma certa pena desses artistas crianças, eu lembro do Molecada [grupo de pagode mirim], achava que eles não aproveitavam a infância. Eu não gostava da Sandy. Acho que ela tem uma voz incrível, mas não me move muito. Mas vou falar que adorava cantar Imortal [versão de Imortality, de Barry, Robin e Maurice Gibb] e A lenda [de Nando, Kiko, Ricardo Feghali] com a Sandy [e Júnior] por que podia gritar [risos]. E detestava Xuxa, achava muito infantil”.

“Eu tinha muitas composições, várias coisas que estavam meio engasgadas e eu queria colocar pro mundo justamente por considerar que demorei pra fazer isso. Sempre toquei minhas músicas para amigos, família, mas gravar seria outro nível de espalhar as mensagens que eu queria. Fui conversando com pessoas à minha volta, fiz algumas enquetes no instagram, botava alguns trechinhos, isso para a primeira parte do disco, as seis primeiras músicas; a segunda parte, as sete músicas a partir de Quem olha de fora, eu fiz todas num retiro, cada dia compus uma música e isso foi uma das forças-motrizes para eu lançar o disco, esse caminho que eu fiz por essas músicas, esse retiro de autoconhecimento, foi superimportante, e decidi que elas deveriam estar todas no disco”, revela sobre o repertório do álbum de estreia.

“Eu estava aprendendo a fazer leitura de aura, é uma técnica que se desenvolveu fora do Brasil, mas quem trouxe é uma moça que é uma das líderes lá de Piracanga [comunidade em Maraú/BA]. Eu fui por que estava muito perdida no sentido profissional, estava trabalhando direto na empresa, não tava fazendo o disco, não tava cantando tanto quanto eu gostaria, e sabia que esse não era meu propósito, que eu não tinha nascido para ficar atrás do computador [risos]. Eu sabia disso, mas me faltava uma força de dar esse passo, tomar essa decisão. Fui para esse retiro para entender esse processo, as autossabotagens que eu tava fazendo na minha vida. E tinha zero viés de fazer isso, de compor, eu tinha vindo de um período de seca musical bizarro. Eu compus Jabuticaba e depois que eu fiz Jabuticaba começou o processo de fazer a música tomar uma proporção bem maior do que tava tendo. Era um retiro sobre chacras, centros energéticos que representam setores da nossa vida, digamos. Cada dia do retiro você trabalhava um chacra. No primeiro dia já foi: “nossa, quero compor uma música sobre o que estou sentindo”. No segundo dia a mesma coisa e cada dia eu fui fazendo uma música. Foi incrível. No final eu apresentei, à capela, não tinha violão, eu estava fazendo as coisas e gravando minha voz no celular. Foi sensacional, eu senti que precisava gravar isso, estar lá com as pessoas me deu muita, muita força para fazer isso acontecer”, prossegue sobre o retiro.

Com sua trupe de circo Bia Sabino integra uma banda, em que ela desenvolve uma pesquisa a partir de se apresentar no ar cantando. “Cantando mesmo, não é playback”, faz questão de frisar. A banda se apresenta mensalmente, com o espetáculo Parangolé.

Sobre influências ela diz que acha que foram um “pouco doidas”. “Quando eu era pequena meus pais ouviam muito Michael Jackson, eu podia ficar o dia inteiro assistindo os vídeos e ele cantando, e eu adorava as coisas que meus pais ouviam, que era Bee Gees, Genesis, Queen, ouvia muita coisa assim. No Brasil eles gostavam mais dos rockzinhos, ouviam Legião Urbana, minha mãe adorava Ney Matogrosso, Roberto Carlos, apesar de que eu não peguei muito a referência do Roberto Carlos. Depois eu comecei, no colégio, por conta do coral, aula de música, comecei a conhecer por mim, eu tive várias fases. Comecei a gostar muito de punk rock, ia a saraus de bandas locais aqui no Rio e a galera fazia um som bem parecido com, sei lá, CPM22, depois comecei a conhecer o lado clássico da música de compositores mais antigos. Nisso eu já gostava muito de bossa e samba, apesar de que eu não me desenvolvi no violão nesses ritmos, mas peguei uma cadência. Aí comecei a ouvir muito Ed Motta, Tim Maia, essa parte meio soul, eu gosto muito de soul, MPB, Marisa Monte, e claro umas divas internacionais que eu sempre escutei, Aretha Franklin, Nina Simone, Joss Stone, mais velha agora já, Amy Winehouse, tem uma banda também que eu adoro, Morcheeba, o nome da moça que canta é Skye Edwards, adoro o jeito que ela canta. Foram muitos ritmos diferentes da MPB, reggae, rock, soul, blues, adoro blues e jazz. Elis, como que eu esqueci de falar da Elis Regina? Amo a Elis Regina desde bem mais nova, Novos Baianos. Cara, foi uma mistura bem doida, não sei se te respondi ou se deixei mais confuso [risos]”, desfia o rosário.

Comento que é um caldeirão vasto, muito interessante e despido de preconceitos, e ela manda uma mensagem de texto completando: “e eu fui econômica: Tom Jobim, Vinicius [de Moraes], Bob Marley, amo muito Bob Marley, Soja, Lauryn Hill, Cazuza. Música boa não tem endereço, né?”.

Ecos. Capa. Reprodução

“Acho que estou em um momento tentando amadurecer isso, todos esses amores da música, transmutar isso em uma unidade, que, em essência, acaba tendo muitas facetas. O que ainda é um retrato de mim, talvez, geóloga, circense, cantora e terapeuta”, arrisca-se, quando proponho-lhe o exercício de relacionar as referências ao resultado de Ecos. “Ou só Bia [risos]”.

“Acho que eu fiquei revoltada quando disseram que eu tinha que escolher uma carreira só pra ter sucesso. Mas também, o que é sucesso?”, provoca-se/nos.

Pergunto-lhe sobre referências em outros campos para além da música: literatura, cinema. “Não esperava por essa pergunta, sabia? Acho que é a primeira vez que eu entro nesse campo conversando com um jornalista [risos], gostei. Por que fez muito parte da minha vida. Eu tenho um negócio com histórias. Eu amo histórias. Se eu começo a ler uma história ou assistir um negócio que eu gosto muito, eu não consigo parar. Foi assim na minha adolescência, eu li muitos livros, tive a sorte de ter, no colégio a gente tinha a ciranda de livros, tinha muito livro legal, e ao mesmo tempo, eu lembro que uma vez, eu morei em muitos apartamentos, apartamentos alugados e tal. Num desses apartamentos o antigo morador era um editor da Globo, algo do tipo, e tinha um armário cheio de livros, nossa, eu li muito, muita Agatha Christie, Harry Potter [série de J. K. Rowling], amava, minha vó me dava muitos livros, A menina que roubava livros [de Markus Zusak], O caçador de pipas [de Khaled Hosseini], adorei o Dan Brown. Sempre li muito mas nunca fui muito específica de um autor, tem vários escritores que fizeram parte da minha vida. Eu gosto muito de livros de fantasia, tem muito isso de jornadas de autoconhecimento, eu gosto muito disso. Eu leio muito, gosto muito de ler, ultimamente tenho lido muito para a pós, medicina vibracional, umas coisas mais direcionadas. Tenho lido menos do que gostaria”.

Continua: “cinema é a mesma coisa, tenho certa compulsão por histórias. Acho que mal ou bem todo mundo começou com a Disney. Eu adoro desenho animado. Os desenhos animados sempre vão para esse lugar de passar uma mensagem positiva e eu me identifico muito com isso. Não sei, eu não sou muito cult do cinema, não sou essa pessoa que tem vários filmes alternativos na rota. Eu gosto muito de ficção, fantasia. O senhor dos anéis [de Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien], eu adoro, gosto muito mesmo, mas é uma saga, fica meio nesse lugar, uma saga de autoconhecimento. Eu gosto muito de filmes que tiram um pouco a gente da realidade, que mostram esse mundo extraordinário, que na verdade é o que a gente vive só que não vê. Eu gosto dessas histórias que trazem, que te tiram dessa superfície que eu acho que muitas vezes a gente escolhe viver no nosso mundo. Eu adoro assistir filme, estou sempre buscando alguma coisa nova, tem dia que eu quero ver uma coisa boba, tem dia que eu tou com vontade de ver documentário sobre saúde, espiritualidade, ou sobre o tempo, eu gosto muito de documentários científicos, acho que muito por conta do background geológico, eu gosto de assistir coisas sobre física, tempo, física quântica, realidades alternativas, buracos de minhocas [risos]”.

A primeira vez que Bia Sabino saiu de casa foi quando foi morar na Austrália, onde passou um ano. Ao voltar, morou seis meses sozinha em Santa Tereza e há cerca de dois anos mora em Botafogo com o namorado. A viagem internacional, realizada por conta da faculdade, também tem a ver com seu disco de estreia.

“O disco tem uma música em inglês, foi uma música que eu fiz lá. Estar fora me fez ver quem eu era, já, quem eu realmente era. Quando a gente vive em algum lugar por muito tempo acaba se prendendo a rótulos. Eu era filha de alguém, amiga de alguém, cresci dessa tal maneira, e às vezes você muda e não consegue encontrar espaço para ser quem você é, justamente por que você se prende aos rótulos, você acaba pensando “poxa, se eu fizer tal coisa, se eu falar tal coisa, talvez eu não seja mais amiga dessa pessoa”, e a gente gosta de preservar nossas relações, mas muitas vezes isso acaba fazendo mal pra gente. Quando eu fui pra Austrália eu tive esse espaço, eu percebi que eu já tinha mudado muito, tive espaço de crescer, minha independência, ver o que eu realmente queria, o que a Bia queria pra vida, isso foi muito engrandecedor. Se você reparar a letra de Carry on é basicamente sobre isso, descobertas, ver o mundo com outros olhos, outra perspectiva e me ver com outra perspectiva. Ir para a Austrália definitivamente foi um turning point na minha vida, sem dúvida alguma”, revela.

“A ideia inicial seria algo bem cru, não ia ter tantos instrumentos, ia ser voz, violão e percussão”, remonta as primeiras ideias para Ecos. “Entramos com o baixo, eu e o Glaucus [Linx], meu produtor musical, que entrou nessa empreitada e também surgiu de maneira mágica na minha vida. Ele conhecia o Pedrinho, que foi o baixista, Pedro Leão, um superbaixista, toca com muita gente boa, tocou com O Rappa, e o PC [Andrade] da percussão, que foi também um amigo do Glaucus, no caso. Violão fui eu quem gravei, voz, eu e Glaucus produzimos alguns sons já gravados, tipo cuíca, a gente optou por usar os gravados, por que não tinha dinheiro para contratar tantos músicos. Demoramos a gravar por que cada hora era uma música nova, um problema, cheguei a perder seis pistas de voz, um amigo meu de tempos [Leonardo Elger] tocou violão em Jabuticaba, o Yann [Vathelet] tocou percussão, ele é francês, já não está mais no Brasil”.

Jair Bolsonaro já havia sido eleito mas ainda não havia sido empossado enquanto conversávamos, mas não deixamos de falar de política. “Política é um assunto polêmico. Toda essa crise política no Brasil não é nada que me surpreenda. Tem um tempo que eu vejo política da mesma maneira que eu passei a ver futebol, no sentido dos times. Eu não acredito mais que existam partidos diferentes, acho que tem pessoas que lutam por coisas diferentes, mas as crises políticas no Brasil não são novidade, e pra mim isso não tem especificamente a ver com um partido, mas com o tipo de sociedade que somos, como a gente escolhe viver. Tem até um documentário muito legal, Kymatica [de Ben Stewart], que é uma coisa meio doida, até, que basicamente ele fala que guerras acontecem, guerras terminam, políticos ascendem, decaem, partidos, por que como sociedade a gente nunca buscou curar o que precisa ser curado, a doença social, no sentido de que a gente valoriza coisas que não têm valor e desvaloriza coisas que têm valor, a gente se repete em ciclos, a roda do Samsara, o famoso karma, a gente repete os mesmos ciclos sociais como humanidade há milênios. Acho que tem muito a ver isso com o fato de eu ser geóloga. Quando você estuda geologia você perde um pouco essa individualidade, “ai, partido tal”, você acaba olhando o mundo com uma outra visão, de 4.6 bilhões de anos, e a terra como um super organismo e não a gente com nossa pequena mente. Eu vejo que o que está acontecendo é o reflexo da sociedade que a gente é, o que a gente valoriza como sociedade, dos valores que a gente busca. Eu fiquei muito chocada com essa última vitória da presidência, do Bolsonaro. Eu acreditava que como sociedade a gente estava valorizando outras coisas, valores humanos mesmo. Isso foi o que mais me chateou nas eleições, não foi partido tal ter ganhado ou partido tal ter perdido, mas entender que a mente social está num lugar que eu não esperava, de intolerância. Hoje em dia eu vejo a política dessa maneira, um reflexo do estágio de consciência da sociedade. É até o que eu quero, o que eu tento colocar nas minhas músicas, outro lugar, um olhar pra dentro. Não dá pra mudar o que tá fora sem mudar o que tá dentro. Durante muito tempo na minha vida eu me coloquei muito nesse lugar do tipo “ah, tá tudo errado no mundo, o que eu posso fazer?”, enquanto a gente tem as nossas pequenas corrupções diárias, sabe? Você é parte de tudo o que você não gosta que está acontecendo, politicamente, socialmente, ambientalmente. Onde você faz a sua parte para mudar isso? Aí eu comecei, em vez de ficar pirando com a política e as coisas que no momento estão fora de meu alcance, a mudar as minhas pequenas atitudes. Por exemplo, no que eu posso, hoje em dia, eu não minto pra nada, sou sincera comigo em primeiro lugar, por que quando você mente para o outro você está mentindo para si mesmo. Então, furar fila, tento não furar fila, andar no acostamento, coisas assim”.

Sobre a extinção do Ministério da Cultura, completa: “eu tou achando isso uma doideira. A gente já tem tão pouco incentivo cultural aqui no Brasil, musical, na cena do circo, a gente tem até umas iniciativas muito boas, mas tá tudo muito decadente, mas falta muito incentivo para que coisas novas surjam, espaço para a cultura, e mais uma vez isso tem muito a ver com a sociedade que somos”.

A divulgação do disco, revela, tem sido uma de suas maiores dificuldades. “Eu não sou muito boa nisso, até estou fazendo um curso agora, para ver se melhoro” – mais uma faceta de Bia Sabino. “Eu não sou boa em vender, eu não consigo me enxergar como um produto, mas todo mundo diz que tem que ser assim”, continua a cantora, que também assina o design de seu próprio site (e desenha as próprias tatuagens).

O show de lançamento de Ecos aconteceu em um espaço da Fundição Progresso e teve um público de cerca de 300 pessoas. Bia Sabino cantou, tocou e fez acrobacias. Durante a conversa ela anunciou novo clipe [Loba, que acabou saindo antes da publicação da entrevista]. Ela pretende circular pelo Brasil e atualmente estuda criar as condições para tanto.

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Ouça Ecos:

O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

O barato pesado de Siba

Não mexe comigo que eu não ando só. Foto: José de Holanda

O Bloco Bota Pra Moer, capitaneado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, percorrerá o Circuito Beira-Mar, oficial do Governo do Estado do Maranhão, dia 4 de março (segunda-feira de carnaval), às 16h. O convidado do bloco, em seu segundo ano, é o cantor e compositor eterno novo baiano Moraes Moreira, que ganhou uma homenagem da dupla, Demorô Moraes, composta em parceria com o poeta Celso Borges.

O Bota Pra Moer realiza amanhã (23), às 17h, ensaio aberto na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). O Criolina terá como convidados o grupo Divina Batucada, o dj Jorge Choairy e o pernambucano Siba.

Embarcando para o Maranhão o convidado ilustre conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos sobre sua participação na temporada pré-carnavalesca de São Luís, política e seu disco novo, que lança em maio ou junho. Siba disponibilizou hoje nas plataformas digitais um single do novo trabalho, a faixa Barato pesado.

Barato pesado. Capa do single. Foto: José de Holanda

Siba, como se deu o convite e qual a sua sensação em voltar ao Maranhão para uma apresentação na temporada de pré-carnaval?
Quem me conhece sabe que eu tenho uma longa história de amor com o Maranhão. Cada vez que eu tenho uma oportunidade de ir aí é sempre um momento especial pra mim. O convite se deu através de minha relação de admiração e amizade com o Alê e a Luciana do Criolina. Foi um convite de surpresa, agora, muito próximo do carnaval, a possibilidade de ir aí cantar com eles, viver um pouco dessa [temporada] pré-carnavalesca de São Luís, que eu nunca tive a oportunidade de ver. Vai ser duplamente especial para mim dessa vez.

Como será sua participação e qual o set list previsto?
Eu vou cantar coisas minhas que têm relação com o carnaval, especialmente frevos, A bagaceira, Canoa furada, A velha da capa preta, Bicharada, esse repertório que dialoga diretamente com o carnaval, não poderia ser diferente.

O folião Siba é representado na letra de A bagaceira? “Pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”?
A bagaceira é meio autobiográfica, do meu carnaval de juventude, muito novo, brincando como folião mesmo, sem nenhum vínculo mais direto com a tradição do carnaval que eu fui depois elaborando. Então, quando eu era um garoto de subúrbio em Olinda eu brincava de mela-mela e depois, mais pra frente, tomar uns goles, e sair na sexta e voltar na quarta-feira, esse foi o meu carnaval folião por alguns anos. Depois eu me envolvi com o carnaval, primeiro com o maracatu, e depois profissionalmente como cantor e compositor, e aí deixei esse lado folião para outros momentos, por que já não dava mais para ser no carnaval. Embora eu não sinta falta por que eu gosto muito de fazer carnaval, de atuar e construir o carnaval, de cima do palco. É um momento muito especial, de muita intensidade pra mim.

Em seu disco mais recente [O ouro do pó da estrada, Deck, 2018] Elba Ramalho gravou José, faixa inaugural do Mestre Ambrósio. O que você achou do registro e o que ele significa para você, enquanto compositor?
José é uma música muito importante pra mim, do repertório do Mestre Ambrósio, do primeiro disco [1997], uma música que eu cantei, sei lá, mais de 12 anos a fio, que foi a história da banda. Na voz de Elba ficou incrível, especial, ela é uma intérprete fabulosa, segue sendo uma intérprete única, de voz imediatamente reconhecível, uma marca muito forte na música nordestina e brasileira. Pra mim foi uma honra também de ter essa versão na voz dela. Me deu até vontade de cantar a música novamente no repertório, quem sabe agora eu bote ela de volta na minha lista.

Mais do que nunca o carnaval será uma espécie de escape da realidade. Como você tem acompanhado o cenário político e o que espera do Brasil sob a égide dos militares eleitos em outubro?
Olha, eu não gosto de dizer que o carnaval é escape da realidade, eu acho que o carnaval é a realidade intensificada. É onde a gente coloca pra fora o que há de melhor e pior da nossa realidade, concentrado em comportamento, em fantasia, em música, em expressão. Eu acho o carnaval muito importante para a saúde de nosso país, por que ele é central de nossa cultura e de nossa dinâmica de vida em sociedade. Você me pergunta o que eu espero do Brasil militarizado como ele está: eu sou bastante pessimista, acho que o governo atual é um desastre, um desastre caótico, uma família envolvida com milícia, um trato caótico do governo, cada um diz uma coisa uma hora, um vereador diz o que o presidente tem que fazer, é uma coisa realmente muito complicada. Parece vir dos próprios militares as vozes às vezes mais balanceadas, o que pra mim não é uma vantagem. Na verdade, a gente lutou muito para ter uma democracia de direito, e agora vê a volta dos militares, eu não vejo com bons olhos. Eu espero estar errado, mas eu acho que a gente tem aí um longo período de incertezas pela frente.

O que o fã clube pode esperar de Siba em 2019? Vem disco novo por aí?
Tem sim um disco novo, agora, estou preparando ele. Hoje nós lançamos nas plataformas digitais, um single desse disco, se chama Barato pesado, é uma música que tem muito a ver com o carnaval, por isso que a gente se apressou em lançá-la logo, podem procurar e ouvir. É uma música muito especial para mim, ela é talvez prima-irmã dA bagaceira e está aí pra todo mundo ouvir. O disco sai em maio ou junho, não quero adiantar muito sobre ele. O que eu tenho de melhor pra adiantar está na música que eu lancei hoje, dá para ouvir e ver qual é a pegada do disco. Até já! Estou indo para o Maranhão agora.

Pedro Luís Melodia

Vale quanto pesa. Capa. Reprodução

 

Antes de falecer, Luiz Melodia deu aval a Pedro Luís para um show em homenagem ao repertório de Pérola negra, disco de estreia do artista descoberto por Gal Costa, que quebrou diversos paradigmas ao ser lançado, em 1973.

Pedro Luís circulou com o espetáculo então intitulado Pérolas negras, expandindo o repertório a outros clássicos de Luiz Melodia e a canções gravadas por ele, de compositores como Getúlio Cortes e Zé Keti.

O artista, que ganhou projeção à frente de grupos como A Parede e Monobloco, disponibilizou nas plataformas digitais na última sexta-feira (14), Vale quanto pesa [Deck, 2018], álbum que dedica ao repertório do filho de Oswaldo Melodia.

Pedro Luís regravou 80% do repertório de Pérola negra e acresceu músicas como Juventude transviada, Cara a cara e A voz do morro (Zé Keti), a única do repertório não assinada pelo homenageado, equilibrando-se entre um molho a la Melodia, reforçado pelo naipe de metais, e sua própria personalidade musical, não convencional qual o tributado.

O resultado é um disco-tributo feito por um fã confesso que certamente teria aprovação do ídolo homenageado. Por telefone, de São Paulo, Pedro Luís falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Retrato: Nana Moraes

Vale quanto pesa começa com um deslocamento: você tira uma música da condição de integrante do repertório do Pérola negra e ela passa a dar título a teu álbum. O que motivou essa escolha?
Vale quanto pesa é uma das canções do Pérola negra, que é o primeiro álbum do Melô, que eu resolvi homenagear pela importância que ele tem não só pra mim, como para a história da música brasileira, onde está se fundando um momento, final dos anos 60, começo dos anos 70, onde os autores começam a assumir um protagonismo como intérpretes da própria obra, junto com a coisa da MPB, está se formando isso. Até os anos 50, especialmente, intérpretes eram intérpretes e autores eram autores, basicamente. Era difícil que tivesse as mesmas funções uma mesma pessoa. Então esse disco é fundante nesse sentido de ser dessa época e também de revelar um senhor compositor, muito peculiar na sua maneira de fazer poesia na canção e também um grande intérprete, com uma voz muito agradável, muito única, e que pra mim chegou muito cedo, na minha casa, no começo da adolescência. Meu cunhado, que trabalhava na indústria fonográfica, sempre trazia as novidades pra gente, antes delas chegarem às lojas, os vinis, os k7s, e foi um espetáculo, uma surpresa muito agradável ouvir esse disco tão variado e com tanta personalidade. Variado no sentido até de gêneros musicais, soluções de arranjos, o que na hora pra mim não foi decodificado, a não ser pelo embevecimento de estar vendo uma obra tão interessante que depois eu fui entender que era por que era tão variada e intensa e linda musicalmente. Ano passado eu resolvo homenagear esse disco, peço permissão a Melodia, que me perguntou o quê que eu estava esperando para fazer isso, e quando eu vou montar de fato um show, começo a pensar numas versões daquelas canções de forma a lhes reverenciar, mas que não estivesse fazendo cover delas. Reverenciar na estrutura, alguns riffs, algumas coisas dos arranjos são importantíssimas e marcantes, e quando eu vou montar isso definitivamente para apresentar então no show, marcado no Blue Note em abril desse ano, era muito pequeno, mesmo com o repertório todo e até ampliando um pouco as formas, botando algumas partes, botando solos dos músicos que eu convoquei para fazer essa missão comigo, não dava o tempo de um show. Dava o tempo de uma performance de 35 minutos no máximo. Então eu comecei a puxar outras canções do Luiz que pra mim eram importantes ou canções de outras pessoas que ele tivesse interpretado de uma maneira definitiva e comecei a montar esse repertório e comecei a chamar de Pérolas negras, esse show chamou assim, por contemplar não só o disco Pérola negra, mas também outras pérolas do Luiz. Andou a história e quando eu encontro o Rafa da [gravadora] Deck, e resolvo contar do projeto pra ele, ele acolhe imediatamente o projeto na Deck, marcamos, convenço ele que faríamos de maneira objetiva e conseguiria lançar esse ano ainda, e começamos a trocar ideias e fazer. Fomos pro estúdio, gravamos as bases muito rápido, depois fomos só fazendo detalhes nas duas, três semanas seguintes, gravando as vozes. Simultaneamente a Jane Reis, que foi companheira do Luiz durante 40 anos, está relançando a obra do Melodia, se tornou uma amiga minha, parceira na  realização disso no sentido de aprovar e me dar as devidas bênçãos e informações preciosas que eu uso até no decorrer do show como textos de histórias do Luiz. Eu achei, na verdade, que a Jane relançando a obra do Luiz, não seria muito elegante eu chamar de Pérolas negras, tendo o Pérola negra original, e resolvo buscar com o Rafa, com a Bianca Ramoneda, que é diretora não só do show, comigo, mas é também parceira da concepção visual, diretora artística, resolvemos buscar uma outra história e essa canção acabou tomando um peso tão interessante no arranjo que a gente fez, ela já vinha ao vivo muito interessante, no estúdio ganhou um corpo bem bacana, que a gente achou que era um nome forte, que traria peso e leveza, que é um pouco da concepção visual das pipas, o lance da bicicleta, que são referências das nossas origens de Zona Norte e ao mesmo tempo crianças de uma época em que a pipa e a bicicleta eram das principais brincadeiras. Vale quanto pesa virou um pouco definitivo disto.

Você falou um pouco da importância, da surpresa, do embevecimento que foi ouvir Pérola negra na época do lançamento. Você credita a esse disco alguma responsabilidade por você ter abraçado a música como profissão?
É um dos responsáveis, com certeza, apesar de ali eu não saber ainda. Mas ali eu começo a mergulhar na música. Talvez as primeiras canções que eu comecei a tocar no violão estejam nesse álbum. Estácio, eu e você é uma música que eu toco desde muito jovem, Pérola negra também, Estácio holly Estácio, são canções que fizeram parte de meu primeiro repertório no violão, para tocar nas festinhas, reuniões de amigos, reuniões de escola. E ali funda no meu imaginário uma possibilidade de fazer, de compor, de ser compositor de uma obra muito diversa sem amarras de gênero e que a poesia e a inspiração levassem para onde fosse necessário e não virar um compositor e cantor de samba ou de rock, ou do que quer que seja. Eu passeio por isso toda vez que eu quero. Acho que nesse disco é muito bacana, o Luiz era um fã da jovem guarda, um fã confesso, inclusive está em cartaz um espetáculo [Música romance – uma homenagem à Jovem Guarda] que ele concebeu sobre isso e a Jane conseguiu fazer acontecer, infelizmente ele não esteve para realizar, mas ela pegou a concepção e está conseguindo realizar. Então ele era fã disso, mas ao mesmo tempo fazia um choro como Estácio, eu e você que é uma estrutura de choro super bonita, choro-canção, e na verdade quando ele lança o Pérola negra ele foi questionado por alguns críticos mais xenófobos: “pô, mas um negro do Morro de São Carlos que não faz samba?”, ao que ele respondeu “tudo me interessa”, e esse “tudo me interessa” pra mim é um exemplo, é uma inspiração.

Você acha possível traçar um paralelo entre Luiz Melodia, esse negro que vem do Morro de São Carlos e se recusa a fazer o samba convencional, que seria, digamos assim, a gaveta que o mercado e a crítica reservavam para os negros, com o Pedro Luís, que é também um carioca, mas que faz um samba, um rock, tudo acaba interessando, mas sem ser convencional, por exemplo, nA Parede. Você enxerga isso assim?
Com certeza! Na Parede, no Monobloco, em todas as coisas que eu tenho feito, também em projetos individuais, a gente se dá essa liberdade. Quando a gente estava promovendo o primeiro disco da Parede, a gente fazia umas caminhadas, que a gente chamava de invasões pelas ruas, com percussão e megafone. A gente estava promovendo uma série de shows que a gente ia fazer no Ballroom, aliás, onde eu conheci pessoalmente o Melodia, no show dele, que foi a estreia da casa, eu fui apresentado a ele lá. Eu já era fã há muitos anos, eu já era músico, já estava trabalhando com isso. A gente estava divulgando essa temporada do Astronauta Tupy [1997] e um gringo abordou a gente na praia, a gente panfletando, e perguntou: “what kind of music you play?” [“que tipo de música vocês tocam?” em tradução livre] e o Sidon [Silva, percussionista] prontamente respondeu: “brazilian batucada with rock’n roll pressure” [“batucada brasileira com pressão rock’n roll” em tradução livre] e isso virou uma espécie de conceito, um jargão. Essa expressão aparece no encarte do Zona e progresso [2001], o terceiro disco da gente, uma foto feita num camarim no Japão, “brazilian batucada with rock’n roll pressure” pixada assim num camarim japonês, depois a gente fotografou e botou no encarte do Zona e progresso.

Você gravou o disco com uma banda enxuta, mas tem um rol de convidados bastante extenso, e isso garante, por exemplo, no uso de metais, um molho bem a la Melodia, mas com a cara de Pedro Luís. Por outro lado, você acaba regravando canções que, vamos dizer, têm versões talvez definitivas, nas vozes de Elza Soares, Gal Costa e Maria Bethânia. Qual foi a maior dificuldade de equilibrar tanta influência, tanta referência e reverência e manter tua identidade ao refazer esse repertório?
Eu acho que quando a gente vai regravar canções clássicas e canções que ficaram clássicas em determinadas interpretações, a gente vai ser sempre desafiado, a gente tem que estudar, ir buscar o que reverenciar e o que diferenciar. Foi uma busca. Como a gente foi fazendo muito ao vivo também, os meninos são ótimos, tanto o Élcio [Cáfaro, bateria e percussão], que é um cara super experiente, que tocou com Melodia, tocou também numa banda clássica da Cássia Eller, é meu amigo há muitos anos, quanto os dois meninos bem jovens, o Pedro Fonseca, nos teclados, e o Miguel Dias, no contrabaixo. Eu dei a ideia que a gente fizesse algumas reverências a coisas clássicas dos arranjos, mas buscando uma pegada mais ali desse quarteto que a gente montou, eu na guitarra, às vezes no banjo paraense [e violão], e esse trio enxuto ali de teclado, baixo e bateria. Isso já dá uma coisa diferente, dá uma coisa meio rock, meio jazz, os meninos são bem versáteis nessas linguagens. A gente já tinha uma estrutura, até conversando com o Rafael Ramos, que me convidou para fazer o disco na Deck, e eu o convidei para ser o produtor, e foi um acerto, ele se dedicou muito, encontrou naquele caminho que a gente estava indo, o jeito de fazer aquilo potente. Ao mesmo tempo a gente foi batendo bola dos músicos convidados. Já que a gente estava fazendo um disco de estúdio, a gente podia pegar aquelas estruturas, mas poder se valer de também chamar outros músicos. Quando você está vendo o show, acontece uma interação plateia-música; quando você está ouvindo um disco, se você oferece outras atmosferas, outras texturas, é quase que um cinema, você vai dar outros elementos e esses músicos convidados vieram completar uma coisa muito potente que já tinha nas concepções que a gente criou para essas canções. A gente ficou muito feliz com o resultado. Aqui no Rio a gente conseguiu que quatro dos músicos que foram convidados estejam com a gente nesse show de segunda-feira [o lançamento de Vale quanto pesa acontece amanhã (17), às 21h, no Teatro Net Rio]: o Milton Guedes [gaita], o Marlon Sette [trombone], o Felipe Ventura [violinos] e também o Paulo Rafael [guitarra]. Vai ser bacana, vamos fazer uma costura diferente do show. A gente começa sozinho, vai recebendo, vai acumulando convidados pro final. A gente está bem feliz também de poder entregar nesse show de estreia, para o público, um pouco desse privilégio que a gente teve de ser brindado com o talento desses super músicos que foram lá engrandecer o projeto.

Luiz Melodia já tinha recebido homenagens em vida das quais ele acabou participando das gravações. Lembro, particularmente, de Quem é cover de quem? [do álbum Bicho de 7 cabeças – volume 1, de 1993], de Itamar Assumpção, e Doce Melodia [do álbum Sinceramente, de 1982], de Sérgio Sampaio, que são artistas que como ele acabaram carregando esse rótulo midiático de malditos. O que você acha dessas canções e desse rótulo?
Sensacionais [as canções]. O Sérgio também foi uma grande referência pra mim. O Melodia, o Itamar e o [Jards] Macalé chegaram a fazer um show juntos, dos três malditos. Eu cheguei a ver esse show lá no Rio, numa casa chamada Rio Jazz Club, que era no subsolo do Meridian Hotel, foi muito bom, foi quando eles lançaram Quem é cover de quem?, que é sensacional, bem humorada, daquele Itamar que tinha um humor meio ácido. Eu não sei, eu acho que isso é um título ao mesmo tempo cruel, mas ao mesmo tempo curioso, por que são pessoas que não se entregam àquelas regras muito rígidas do mercado, de terem que se enquadrar num determinado lugar. São muitos caras que são assim.  Se a gente pensar, o [Gilberto] Gil e o Caetano [Veloso] são caras super diversificados também, que podem flertar lá com o rock, com o reggae e com o que se entende mais como MPB clássica, com o samba, só que não sei por que cargas d’água, eles não ficaram com esse estigma, e alguns ficam com esse estigma. Acho que eles souberam lidar bem com isso também. Uma coisa que eu acho que é ruim nisso é não dar a devida dimensão que um poeta, um compositor como Luiz Melodia merece. Ele ficou algum tempo fora do mercado, eu vejo numa geração mais jovem não entender muito quem é o Luiz Melodia, mas ao mesmo tempo reconhecem determinadas canções que estão no inconsciente coletivo, que foram ouvidas por pais ou por avós dessas pessoas mais jovens. Lamento isso, um cara tão precioso, com imagens poéticas tão fortes e originais, seja menos conhecido do que ele merecia pelas gerações mais jovens e espero poder contribuir um pouco com isso, no sentido de entregar essas canções nesse projeto de novo, já nesse mundo dos aplicativos, das plataformas virtuais, e também dos nichos, a gente fez vinil, o cd vai sair também no começo do ano que vem. Então eu espero poder ajudar o Melodia a ter o devido merecimento, que eu acho que outras pessoas estão preocupadas com isso também, a Jane com o cuidado da obra dele, vários projetos em homenagem a ele, o Prêmio da Música [Brasileira] do [Zé Maurício] Machline homenageou ele esse ano, e eu tive o privilégio de cantar Fadas dividindo o palco com Yamandu [Costa, violonista sete cordas] e Hamilton de Holanda [bandolinista] que são meus parceiríssimos. Acho que as reverências que podem vir e projetos podem dar luz a um Melodia que é fundamental. Uma coisa que me impressiona muito são as imagens poéticas das letras do Luiz. Quando eu isolo uma expressão como “vale quanto pesa”, que por acaso é título do disco, ou “devo de ir”, que é de Fadas, ou “se alguém quer matar-me de amor” [risos] e por aí, você vai tirando expressões… em Fadas então, todas as expressões poéticas que você tira dariam nomes a um disco, a um livro, a um projeto, a um filme. É impressionante a força poética que têm as expressões que o Luiz escolhe, e são muito particulares, às vezes você acha meio nonsense, mas se você acha ou não acha não importa, são muito fortes as imagens poéticas, isso é muito bonito de ver.

São literalmente pérolas.
Pérolas, pérolas.

Quando Luiz não se contenta em se fazer o que era esperado, quer dizer, o samba tradicional, e esse gesto acaba contribuindo para o rótulo de maldito, mas isso acaba sendo também, mesmo que inconscientemente, um protesto contra o racismo. Qual é o papel do negro? Naquela época era fazer samba, se a gente olhar as novelas, ainda hoje, é fazer o empregado, o subalterno. Então, infelizmente, após décadas de carreira de Melodia e após seu falecimento, o racismo continua vigente no Brasil. A gente está caminhando para um governo que parece que não vai contribuir com o combate a nada nesse sentido. Você poderia fazer um exercício de imaginação de como o Luiz Melodia se colocaria diante disso? E também qual a sua avaliação desse momento turbulento por que o Brasil passa?
O Luiz era um cara muito discreto no posicionamento político, mas ao mesmo tempo, eu acho que a própria atitude dele de escolher fazer do jeito que ele queria, quando ele quisesse, isso é uma atitude política, de certa maneira. E ter se firmado como um autor, antes mesmo do disco Pérola negra já foi reconhecido por duas das maiores intérpretes da época que continuam a ser duas das maiores intérpretes que o Brasil tem, que são a Gal Costa e a Bethânia, eu acho que isso é que dá força. Depois Zezé [Motta] também, uma cantora negra, que teve uma expressão bizarra ali nos anos 70 e 80, era uma atriz, cantora, personalidade, sex symbol, essas coisas são assim, são fundamentais para que se tire um pouco esse imagem e esse insistente racismo e evidente racismo estrutural, que é aquele que você às vezes não vê, mas que existe, que é no jeito de falar, na condescendência pela metade. O Luiz estaria sofrendo, mas com certeza ele daria uma rajada poética como resposta a isto, como Elza [Soares] nos dá, que se tornou a maior voz política, talvez, artística que nós temos no Brasil no momento, que eu tive o privilégio de fazer a direção musical do espetáculo em homenagem a ela com sete atrizes negras no palco e seis mulheres na banda, que está rodando o Brasil, espero que chegue aí. Foi uma direção musical que acabou dividida com duas das mulheres, uma que é minha assistente de direção já há algum tempo, que é a Antonia Adnet [violonista], que é integrante da banda que a gente montou, e a Larissa Luz, que é atriz convidada, que também tem uma carreira muito interessante, em franca ascensão e que tem uma voz política muito interessante, uma mulher inteligente, ligada. Isso foi muito importante justamente nessa época bizarra em que a gente está mergulhando, ver que ao mesmo tempo espetáculos como esse, onde é política, a voz do negro, das mulheres, está sendo tão bem acolhido, já quase 60 mil pessoas assistiram o espetáculo Elza, que estreou no meio do ano. Com todo esse vendaval que a gente está vendo pela frente, eu até disse esses dias, o Brasil não tem terremoto, não tem maremoto, não tem furacão, mas quem disse que precisa? A gente está vendo essas atrocidades acontecendo pela própria mão do ser humano, a gente não precisa disso. Ao mesmo tempo eu acho que são épocas em que a criatividade, a resistência, a inspiração da gente precisam estar mais ativas pra que a gente continue construindo um país que, em relação ao universo e ao mundo, é jovem e que ainda tem muito que aprender. A gente talvez tenha dado muito por garantido que tinha chegado num lugar razoável de civilidade, mas está vendo que não. Então, nós artistas, você escritor, jornalista, o bancário, o padeiro, o recepcionista do hotel onde eu estou, todos vamos ter uma missão de autoeducação e educação de nossos círculos de convivência e achar o nosso jeito. Ninguém pode achar o nosso jeito a não ser a gente. A gente vai entrar numa época mais complexa agora, onde as forças conservadoras estão aparentemente muito empoderadas, a gente não sabe até quanto, mas estão no momento. Mas como disse o Mujica [Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio], logo após o segundo turno: “não há triunfo que seja eterno nem derrota que seja definitiva”. O mundo vai andando assim, um pouco pra lá, um pouco pra cá, e quem tem que garantir uma média legal pra todo mundo somos nós, cidadãos. Por mais que essa escolha não tenha sido a minha é a escolha que a maioria dos eleitores fez. Triste. Mas vambora, é com isso que vamos ter que lidar e vamos com força, jogando com as armas possíveis pra gente, pra neutralizar as barbáries, as coisas mais radicais, eu acho que tem muita bravata também, a gente precisa entender o que vai acontecer. No que for atroz a nossos olhos e nas práticas de quem está chegando, a gente tem que descobrir as formas de resistência e de impedimento dessas coisas avançarem demais.

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Veja o clipe da faixa-título:

Das escritas do Choro

Chorografia do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Quando José Antonio deixou a maternidade, aos 18 dias, a primeira música que ele ouviu foi a Suíte Retratos, na execução da Camerata Carioca em Tributo a Jacob do Bandolim, de 1979. Não a ouviu completa, pois o percurso da maternidade até em casa, de carro, era menor que o tempo de duração dos quatro movimentos (os “retratos”), que homenageiam Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Não foi por acaso: a homenagem é uma espécie de síntese do Choro, ou pelo menos de suas origens e entre os bambas que tocam no disco está o maranhense João Pedro Borges, o que me enche de orgulho. O disco foi escolhido intencionalmente, redundo.

Sábado que vem (15), às 19h, na Praça Gonçalves Dias, durante o último sarau de RicoChoro ComVida na Praça em 2018, Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e este que vos perturba lançaremos – finalmente! – o livro Chorografia do Maranhão, que reúne as 52 entrevistas com 54 instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão que publicamos como uma série no jornal O Imparcial, entre março de 2013 e maio de 2015.

O lançamento acontecerá em noite especial, não apenas por se tratar da despedida do projeto este ano de seus fiéis seguidores e frequentadores eventuais, mas por que teremos o fino do Choro, a começar pelo DJ Franklin, mais o encontro do Regional Tira-Teima com a cavaquinhista carioca Luciana Rabello – e a participação especial da cantora Alexandra Nicolas.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, nos ensina Mallarmé. Sorte ou acaso, esta celebração é também fruto de bastante trabalho: do trio de autores e do editor Bruno Azevêdo – o livro sai pela Pitomba!, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), com a chancela do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mas voltemos a alguns acasos, chamemos assim. Domingo passado, em conversa no Chorinhos e Chorões, patrimônio do Maranhão e programa bastante citado pelos entrevistados – que os chororrepórteres chamamos chorografados –, o último antes do lançamento, Ricarte Almeida Santos levou dois discos de Luciana Rabello para tocar enquanto conversávamos sobre a Chorografia do Maranhão. Um deles era o lendário Os Carioquinhas no Choro [1977], do grupo homônimo que tinha entre os integrantes a cavaquinhista e seu saudoso irmão Raphael Rabello, ambos então adolescentes. O grupo era uma espécie de embrião do que viria a ser a Camerata Carioca, sob o comando do gaúcho Radamés Gnattali. Quando Serra de Almeida (flautista do Tira-Teima) concedeu a primeira entrevista da série (publicada em março de 2013, mas realizada bem antes, o que dá ainda mais tempo de trabalho, melhor deixar essa conta pra lá), no extinto Kumidinha de Buteko, a capa do elepê decorava a parede e apareceu em uma das fotografias publicadas no jornal.

As pontas se ligam: Luciana Rabello assina a produção musical de Festejos [Acari Records, 2013], estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico, ela que fará uma participação especial durante a apresentação da amiga, um reencontro que promete arrepiar quem conhece o disco e se arrepender quem porventura ainda não (ou correr atrás do tempo perdido, nunca é tarde!).

As pontas se ligam: se, de meu lado, dedico o livro a José Antonio, afinal de contas para quem escrevo tudo o que escrevo, por outro, os irmãos Almeida Santos o dedicam a Raimundo Juruca, seu pai, que lhes ensinou a mais que gostar, a amar o Choro – o que tento fazer com José Antonio, que frequentou sua primeira roda aos nove meses de idade, com as presenças de ninguém menos que Zé da Velha e Silvério Pontes, na edição inaugural de RicoChoro ComVida na Praça, em agosto de 2016, na mesma Gonçalves Dias em que agora o Chorografia do Maranhão será lançado.

Ligam-se as pontas deste emaranhado, com texto de Chico Saldanha nas orelhas, apresentação de Luciana Rabello e posfácio de Cesar Teixeira. São muitas histórias, inclusive as nossas, já que o editor Bruno Azevêdo e o poeta Celso Borges, “testemunha de muito do que o livro diz”, nos entrevistaram para o volume.

Chorografia do Maranhão cumpre uma importante tarefa de mapear e contar as histórias dos personagens que desfilam por suas páginas, mas não só: também de toda uma geografia e afetividade que permeiam o Choro no estado.

Seu lançamento é, ao mesmo tempo, sinônimo de alegria e emoção, de um lado, e, de outro, a sensação de tirar um enorme peso das costas. Foram mais de cinco anos de trabalho entre a entrevista inicial e o livro. Que, convenhamos, com o constante interesse de jovens músicos e a consequente renovação da cena Choro, o que não é privilégio apenas do Maranhão, ainda bem, já nasce defasado: diante do surgimento de novos talentos, um volume dois já se insinua necessário, embora os chororrepórteres não prometam nada, ao menos por enquanto.

Grande parte das entrevistas do livro foi realizada em bares, redutos chorísticos por excelência. É hora de passar a régua, mas insistimos em pedir mais uma e mais um choro, por favor!

O homem-tambor volta à terra do tambor de crioula

Carlos Pial se apresenta amanhã e depois em São Luís. Percussionista conversou com o blogue com exclusividade

Ano passado, o percussionista Carlos Pial fez um dos melhores shows do ano, conforme modestamente elegi, na votação anual para o site Scream&Yell, a que compareço a convite do editor Marcelo Costa.

Foi no circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen. Em um show de música instrumental, Pial botou literalmente o povo para cantar e bater palmas, com o fascínio que exerce sobre a plateia – à qual literalmente adentrou, enquanto fazia soar seus instrumentos.

Bruxo, mago, alquimista. Para além de clichês, estas são palavras que traduzem a atuação de Pial no palco. Maranhense radicado em Brasília, costumeiramente se referem a ele como homem-tambor. Não é à toa.

O músico se reencontra com o público maranhense amanhã (5) e depois (6), com o show Alquimia dos Sons, título do dvd que gravou em Brasília/DF, e com o qual tem percorrido o Brasil, com patrocínio do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

Os shows acontecem às 21h, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca. Pial será acompanhado por Hamilton Pinheiro (contrabaixo), Misael Silvestre (piano e teclados), Westonny Rodrigues (trompete), Agilson Alcântara (violão) e Pedro Almeida (bateria). Quarta-feira (5) o instrumentista terá como convidado o Henrique Duailibe Trio; quinta (6) é a vez do Jayr Torres Trio.

Por e-mail, Carlos Pial conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Marcia Foizer

Pial, onde você nasceu e quais são as suas primeiras lembranças musicais? Quando você começa a se interessar por percussão e decidiu que dedicaria a vida a isso?
Nasci em Tocoíra, um lugarejo ribeirinho entre Viana e Cajari, baixada maranhense. Sou de família tradicional de músicos de sopro, onde até hoje continua a tradição repassada de pai pra filhos. Minha vó por parte de mãe era folclorista e tocava caixa do divino. Nasci no dia 30 de junho, dia de São Marçal, um dia fortíssimo e importante em nossa cultura. Daí imagino que, apesar de toda influência dos metais, o que aflorou mesmo em mim foi a caixa e as catracas que minha vó tocava.

Maranhense radicado em Brasília, você acabou por construir uma das mais sólidas carreiras como percussionista no Brasil, seja em seu trabalho como artista solo, seja como músico a serviço de outros músicos ou ministrando oficinas. Mas a gente sabe que chegar até este ponto nunca é fácil. O que você gosta de destacar nessa trajetória?
Vida de músico sabemos que é difícil, e a do percussionista termina ficando mais difícil por ficar sempre no plano de fundo nos palcos, onde só aparecem os guitarristas, tecladistas, enfim [risos]. Com todo respeito a todos os colegas músicos eu tive uma atitude arriscada e que depois ficou prazerosa demais: a coisa de sair da cozinha e vir pra sala. Mostrando a cara mesmo! Onde comecei a desenvolver minhas composições e ideias que eu vinha desenvolvendo e observando meus ídolos maiores: [os percussionistas] Papete e Naná Vasconcelos. Brasília pra mim foi e está sendo um portal para outros povos, por ser uma cidade super cultural e de bom gosto. Através dela estou nesta turnê e consequentemente em minha cidade, claro!

Alquimia dos Sons tem muito de misturas, mas há uma coerência em teu trabalho, não é um cozinheiro maluco jogando qualquer ingrediente na panela. Como foi conceber este espetáculo?
[Risos] Boa! Mencionei cozinha na resposta anterior. O lugar mais gostoso de minha casa, adoro cozinhar e de repente isso me ajudou a usar os ingredientes certos na hora certa. Desde o início do meu trabalho solo sempre misturei ritmos, ideias, foi realmente resultado de pesquisas de trabalhos de alto nível no decorrer desses anos musicais. Alquimia dos Sons tem um pouco de cada momento que venho percorrendo ao longo de minha carreira.

Títulos como Somambembe, Salsamba, Samba candango e Norjazzteando já dão pistas de algumas fusões que comparecem a tuas composições. O que te inspira?
Então, falei um pouco disso na resposta anterior [risos]. Eu nunca gostei da coisa tradicional, ritmo tal, ritmo tal. Uma coisa é um arroz branco muito bom, outra coisa é um arroz de cuxá. Com a mistura dos ingredientes fica melhor o arroz. Penso assim nas minhas músicas.

Vi sua apresentação na edição de São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival ano passado, que elegi na ocasião como um dos melhores shows do ano. Ali, pode-se perceber o domínio que você tem da plateia, botando o público para fazer coro em um show de música instrumental. A que você credita essa empatia?
Muito obrigado por esse elogio. Respondendo sua pergunta, eu brinco com os amigos que sou um cantor frustrado [risos]. Brincadeira! Assisti muitos shows instrumentais, de jazz e outros, onde o músico sola meia hora e na maioria das vezes o público não entendia nada, ficava bocejando e muitas vezes até ia embora. Eu via muitas vezes as pessoas falando mal da música instrumental, até por não conhecer. Via muito o Naná Vasconcelos interagindo e eu via resultados. Achei que poderia fazer isso também. Terminei fazendo com um estilo próprio, e por onde ando percebo que venho agradando públicos de todas as idades.

Uma coisa que também chama a atenção em teus espetáculos é o uso da tecnologia. Você está ao vivo no palco e já vai gravando e usando essas bases gravadas, dialogando consigo mesmo. Como foi desenvolver essa linguagem?
Dando sempre os créditos do que faço sempre, confesso que aprendi muito bem as dicas do saxofonista maranhense Sávio Araújo [radicado em Portugal], com que dividi o palco durante muitos anos. Ele e novamente o mestre Naná Vasconcelos, com quem tive a honra de passar alguns dias em São Luís, num trabalho. Ele me deu muitos toques e foi pioneiro nessa coisa de um percussionista usar tecnologia. Terminei desenvolvendo minha própria forma de usar esta faceta.

Você já citou Papete e Naná Vasconcelos. Quem são os percussionistas fundamentais para tua formação? Por quê?
Papete, Naná Vasconcelos, Jeca [Jecowski], Erivaldo [Gomes], Airto Moreira, Paulinho da Costa. Por quê? Por que eles são os melhores!

Qual a sensação de voltar a tocar em casa, recebendo como convidados amigos de longa data? O que o público pode esperar destas duas apresentações?
A sensação é maravilhosa! Tocar com Henrique Duailibe, um músico extraordinário, com quem toquei muitos anos. Foi ele quem deu a maior força e gravei meu primeiro CD em seu estúdio. Jayr Torres, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, somos amigos de adolescência eu vi todo seu crescimento musical. Foi no trabalho dele que eu toquei pela primeira vez num show instrumental e isso foi fundamental para meu crescimento no gênero. O que o público pode esperar? Muito suingue, quebradeira e muita emoção. Porque estou levando aqui de Brasília os melhores músicos da cidade e alguns dos melhores do Brasil.

*

Assista Mãe Natureza (Carlos Pial):

O que pensam os artistas maranhenses das eleições de 2018?

No próximo dia 13 de dezembro completam-se 50 anos do Ato Institucional nº. 5, vulgo AI-5, que dava ao ditador de plantão o poder de fechar o congresso nacional e, entre outras arbitrariedades, cassar mandatos de parlamentares. O famigerado AI-5 também suspendeu o habeas corpus e, entre outras mazelas, levou artistas brasileiros ao exílio.

O Brasil vivia os anos mais duros de uma ditadura civil-militar cujas sombras pairaram sobre o país por longos 21 anos. A democracia e a Constituição brasileiras são recentes; a segunda completou este mês 30 anos de promulgada. No entanto, ao contrário de vizinhos sul-americanos que também passaram por regimes autoritários, o Brasil nunca fez seu dever de casa, nunca acertou suas contas com o passado – o que nem de longe poderia ser visto como mero revanchismo.

Quando da votação do golpe que destituiu a presidenta legitimamente eleita pelo voto popular em 2016, o deputado federal Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que de “brilhante” tinha apenas o sobrenome: foi reconhecido como um dos mais sádicos torturadores produzidos nos porões da ditadura. Não à toa o hoje presidenciável fez questão de salientar, na ocasião: “o terror de Dilma Rousseff”.

Em qualquer outro lugar do mundo, Bolsonaro teria saído preso da sessão e muito provavelmente não voltaria ao parlamento, com o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar, no mínimo. Aqui, inchou feito cururu no sal e hoje é, como alertou o articulista Francisco Assis no jornal português Público, em artigo de opinião assim intitulado, “um canalha à porta do Planalto”.

A jovem e frágil democracia brasileira está ameaçada e não faltam avisos. A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) é alicerçada por fake news, cujo combate tem sido ineficaz por parte das instituições. Declarações do presidenciável e cabeçadas entre ele e seu vice, o General Hamilton Mourão (PRTB) têm sido cristalinas sobre o que vem por aí, caso o capitão da reserva seja eleito.

O AI-5, que hoje em dia deveria ser tão somente objeto de estudo em escolas e universidades, volta a sobrevoar nossas cabeças como uma ameaça. O documento, entre outras questões obscuras, estabelecia a censura prévia de música, cinema, teatro, televisão, imprensa e outros meios de comunicação.

Causa-me espécie ver artistas, “as antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound, defendendo a candidatura do pesselista, a despeito de o mesmo, além de todo o exposto, já ter declarado a intenção de extinguir o Ministério da Cultura – ou de entregar a pasta ao ator Alexandre Frota, recém-eleito deputado federal por São Paulo. Mais recentemente foi além e chegou a cogitar destino parecido para o Ministério da Educação.

Homem de vícios antigos enviou um e-mail com quatro perguntas sobre as eleições deste ano a mais de 50 artistas maranhenses ou radicados no Maranhão. Além dos artistas originalmente listados, abriu a consulta através do perfil de seu titular em uma rede social: a quem se interessasse em receber o questionário e participar, o blogue estava aberto. Isto é: apesar de o blogue ter lado e declará-lo – seu titular declarou, nas redes sociais, votos a Flávio Dino (PCdoB) para o governo do Maranhão, e Fernando Haddad (PT) para a presidência da república –, como por aqui somente o fizeram claramente a revista CartaCapital e a versão brasileira do jornal El País, a ideia original era ouvir quaisquer artistas que quisessem se manifestar.

O blogue recebeu apenas 10 respostas, entre os artistas que receberam o e-mail original e os que posteriormente solicitaram participar da entrevista. Curiosamente, todos declararam voto no candidato petista no segundo turno.

Responderam ao blogue os compositores Chico Saldanha [lançou ano passado Plano B, seu quarto disco], Gildomar Marinho [tem três cds lançados, Olho de Boi, Pedra de Cantaria e Tocantes, e dois gravados, Mar do Gil e Porta-Sentidos, a serem lançados em breve], Fábio Allex [lançou os cds Porta-Novas em 2013 e De volta ao passado que nunca vivi, em 2016] e Joãozinho Ribeiro [publicou em 2006 o livro-poema Paisagem feita de tempo; em 2013 lançou o cd Milhões de uns – vol. 1; ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e ex-secretário de Estado da Cultura do Maranhão]; o cineasta Francisco Colombo [seu novo curta-metragem, Avesso, recebeu troféus de melhor trilha sonora, melhor ator coadjuvante e melhor fotografia na mostra competitiva maranhense do 41º. Festival Guarnicê de Cinema]; a artista plástica Babula Rosana [recebeu os prêmios Interações Estéticas e Residência Artística em Pontos de Cultura, e Economia Criativa, do Ministério da Cultura]; a cantora Tássia Campos [com o Trio 123, formado por ela, Camila Boueri e Milla Camões, lançou este ano o EP 123]; o escritor Franck Santos [lançou este ano o volume Poemas para dias de chuva, pela editora paulista Patuá]; e as poetas Samara Volpony [estreou com o volume de poemas Contramaré, ano passado, pela Patuá] e Adriana Gama de Araújo [estreou este ano com o volume de poemas Mural de nuvens para dias de chuva, pela editora Penalux].

Alguns dos artistas convidados a responder as quatro perguntas continuam manifestando nas redes sociais um pró-bolsonarismo baseado em fake news, memes e no discurso de ódio contra o PT e a corrupção, lugares comuns que têm sido a tônica da campanha da chapa militar. Talvez tenham optado pelo silêncio em relação à pequena entrevista por não terem o que defender no programa de governo e discursos de seu candidato em relação aos temas propostos.

A seguir, na ordem em que foram recebidas, as respostas dos 10 artistas às quatro perguntas de Homem de vícios antigos. As respostas enviadas não sofreram edição, tendo passado apenas por revisão, optando o blogue por preservar a íntegra das opiniões.

Homem de vícios antigos – O governador Flávio Dino foi reeleito em primeiro turno. Qual a sua opinião sobre o resultado?

O compositor Chico Saldanha. Foto: Francisco Colombo

Chico Saldanha – Resultado mais que esperado. Flávio Dino soube conduzir melhor a campanha explorando com facilidade a fadiga de material do grupo Sarney. Também passou para a população um sentimento de que tentou, apesar das dificuldades impostas pela crise criada com o impeachment, mudar alguns paradigmas na administração e também escolher  bem as prioridades onde iria investir.

O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá

Gildomar Marinho – Acredito que o trabalho sério, com transparência e o cuidado com a coisa pública ajudam a explicar parte do sucesso desta reeleição de Flávio Dino. O leque de alianças e a boa performance pessoal ajudaram a consolidar o fim de uma era oligárquica, patriarcal, materializado na derrota dos seus representantes no Senado e na Câmara de Deputados. Tenho acompanhado, ainda que à distância, daqui do Ceará, a evolução das políticas públicas, notadamente nas áreas de educação, saúde, segurança pública e políticas afirmativas e de inclusão social. Este conjunto de motivos explica sua vitória, destacando que se dá em momento delicado para a democracia brasileira com a onda conservadora que se avolumou no Brasil.

O cineasta Francisco Colombo. Foto: Eduardo Júlio

Francisco Colombo – Acho que o trabalho foi reconhecido, em que pesem as contradições. Basta de família Sarney!

A artista plástica Babula Rosana. Foto: divulgação

Babula Rosana – Foi um ótimo resultado. Prova que a oligarquia Sarney não tem mais força no Maranhão.

O compositor Fábio Allex. Foto: divulgação

Fábio Allex – É a confirmação de que o Maranhão se libertou, ainda que tardiamente, do atraso personificado pela família Sarney. É o reconhecimento, sobretudo, das realizações que foram feitas no campo social, assim como o forte investimento na área da educação. Reflete o esforço e comprometimento que vem existindo, apesar da profunda recessão econômica do país. O estado entendeu que o caminho de mudanças deve continuar. Trata-se, inclusive, do governo mais bem avaliado do país. Apenas isso justificaria.

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

Tássia Campos – Eu votei nele na primeira e na segunda eleição. Apesar de ter duras críticas à gestão da Sectur [a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão], acredito que prum estado tão pobre como o nosso, o melhor é Dino, pra melhoria dos indicadores sociais e garantia de direitos humanos.

O escritor Franck Santos. Foto: divulgação

Franck Santos – Acho merecido! Eu votei nele na eleição passada e nessa também! Precisamos de renovação, de mudanças no estado e na capital. Como professor, acho que o governador Flávio Dino não se comprometeu ainda como deveria com nossa classe trabalhista, mas votei nele justamente esperando que nesses próximos quatro anos algo mude nesse sentido.

A poeta Samara Volpony. Foto: divulgação

Samara Volpony – O resultado retrata a sua excelente gestão. Destaco a maior participação popular, a educação de qualidade, a transparência e o rompimento com a velha política implantada no Maranhão. Se formos refletir, ainda falta muito para sermos o estado que queremos, mas reconstruir um estado que vivia há meio século nas mãos de uma única família não é das tarefas mais simples. Flávio Dino conseguiu, em quatro anos, retirar aquele retrato vergonhoso do Maranhão, as manchetes que sempre nos noticiavam negativamente, para dar lugar àquelas que nos mencionam como exemplo para o país, como na área de educação, em que nós, professores, temos o salário base mais alto do país, só para citar uma entre tantas.

A poeta Adriana Gama de Araújo. Foto: divulgação

Adriana Gama de Araújo – Acredito que quem detém o controle da máquina pública dificilmente não se reelege. Além disso, a possibilidade de um retorno dos Sarneys ao governo fez com que até os críticos da administração Dino votassem nele. Eu não. Ele poderia ter feito um primeiro mandato com investimentos reais no que se refere à educação. Não fez nada além do que governos anteriores fizeram: pintar paredes e propaganda. Sou professora da rede pública e a única coisa que espero é que desta vez ele cumpra tudo que a lei manda. Reajustes dos salários dos professores e escolas realmente dignas. Valorizar de fato a educação não é achar que o pouco que se faz é muito. É colocar tudo que envolve a educação como prioridade.

O compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: Paulo Caruá

Joãozinho Ribeiro – O resultado reflete, antes de qualquer outro comentário, a ampla aprovação da gestão Flávio Dino, não somente pelo percentual de votos atingidos na eleição em primeiro turno, como pelas políticas públicas que chegaram de forma concreta aos segmentos mais necessitados da população, como saúde, educação, segurança, agricultura familiar e alguns outros serviços públicos básicos, vinculados diretamente às questões da cidadania e aos direitos humanos. Neste aspecto, também tem de ser alvo de destaque a responsabilidade fiscal que não escamoteou os investimentos e assegurou a regularidade de pagamento de salários, a despeito de outros estados considerados ricos que se encontram em situação de penúria, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. A reeleição de Flávio Dino, assegurando a continuidade da gestão, por outro lado representa um tiro de misericórdia na oligarquia Sarney e tudo que ela tem representado em vários campos da vida econômica, política e social do estado. Também representa um desafio sem precedentes para o próprio governo, cujas cobranças devem ser maiores e os compromissos da gigantesca coligação que deve apresentar as suas faturas políticas e administrativas, nem sempre coadunadas com o campo da licitude. Muitos desafios em algumas áreas deficitárias, do ponto de vista estratégico, como é o caso da Cultura e do Desenvolvimento Social também precisarão ser enfrentados.

Homem de vícios antigos – Em quem você vai votar para presidente no segundo turno? Por quê?

Chico Saldanha – Claramente em Fernando Haddad, porque foi na ditadura militar que criei consciência politica e cheguei à conclusão que a ditadura atrasou o país e cometeu uma série de atrocidades contra os direitos humanos. Aliás, fico com o vice-presidente [do marechal Artur da Costa e Silva, entre 1967 e 1969, o mesmo que decretou o AI-5] Pedro Aleixo: “na ditadura eu tenho mais medo é do guarda da esquina” e eu da mulher que chicoteou o carroceiro [referindo-se a uma eleitora de Jair Bolsonaro que, em São Luís, desceu de seu carro e agrediu um carroceiro com seu próprio chicote]. Retroceder 55 anos não faz parte dos meu planos A, B ou C [faz trocadilho com o título de seu disco mais recente]….

Gildomar Marinho – Em Fernando Haddad. Primeiro, pelo que representa sua candidatura, que traz em sua essência o projeto iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva, interrompido pelos implacáveis ataques a partir de 2014, culminando com golpe parlamentar de 2016. A experiência de Haddad no Ministério da Educação em um dos momentos de maior expansão do ensino acadêmico da História do Brasil e sua performance à frente da prefeitura de São Paulo, denotam a figura capaz de enfrentar os desafios da Presidência do Brasil, especialmente neste conturbado momento.

Francisco Colombo – Haddad 13! É o candidato mais preparado, com as melhores propostas. Como se não bastasse isso, ele personifica a democracia e o outro o oposto, o autoritarismo, o fascismo.

Babula Rosana – Fernando Haddad. Por que me identifico com as propostas e para barrar que o outro candidato seja presidente do Brasil.

Fábio Allex – Não desejei essa configuração para o segundo turno. Votei em Ciro Gomes, não como “voto útil”, mas por entender que ele tinha o melhor projeto, além da representatividade que construiu ao longo da sua vida pública. Sou apartidário. Talvez isso me permita ter um olhar mais plural, desprovido de paixões por legenda ou personalidade. Consigo perceber a dualidade do PT, no que se refere ao desenvolvimento do país durante o governo Lula, além da posterior avalanche de corrupção na qual o partido se envolveu, ainda que não tenha sido uma exclusividade do partido. Não há relativização, há fatos. Diante do cenário, voto em Fernando Haddad. Um bom candidato, com boas propostas, que agora herda grande rejeição em virtude do antipetismo aclamado pelo país, mas que, de fato, não traduz o que ele pode oferecer. Ele pode, sim, ser uma continuidade do que foi no melhor momento. Já o candidato do PSL, vejo como a opção mais nefasta que pude acompanhar em uma eleição. É nítida a falta de preparo para assumir um cargo de tamanha importância, da falta de consciência política e social, até mesmo para os seus próprios eleitores, além de não ser menos nítido o discurso de ódio que ele profere. Votar nele virou lema de “combate à corrupção”, o que está longe de ser verdade. Ele é um incentivo para o Brasil se dividir cada vez mais. Porém, infelizmente, levando em conta o panorama, parece que essa realidade só será percebida na prática.

Tássia Campos – Votei no primeiro e votarei no segundo em Haddad. Nem tem dificuldade na escolha. É civilização ou barbárie. Fico com a democracia.

Franck Santos – Haddad, claro! Por que jamais votaria em Bolsonaro ou em quem não me representa como nordestino, gay e trabalhador.

Samara Volpony – Voto no Fernando Haddad e na Manuela D’Ávila. São os candidatos que apresentam o projeto de Brasil que eu desejo neste tempo de ódio e caos em que vivemos. Voto no Haddad porque em sua gestão como Ministro da Educação no Governo Lula permitiu a milhares de jovens terem a oportunidade de entrar numa universidade pelos Programas que criou: Fies, Prouni, pelo Enem. Sem esses programas, certamente, os mais pobres jamais teriam a chance de adentrar no Ensino Superior. Voto no Haddad por seu programa de governo na área da educação, na área da economia, na área da cultura. Voto no Haddad porque a sua proposta para o país contempla aqueles esquecidos socialmente, e eu, como artista e professora, só poderia estar ao lado de quem pensa em um Brasil mais justo e democrático.

Adriana Gama de Araújo – Votarei novamente no Fernando Haddad. Conheço o currículo dele. É um homem competente e com sensibilidade para o que de fato melhora a vida das pessoas: educação e respeito ao meio ambiente.

Joãozinho Ribeiro – Haddad 13, sem nenhuma dúvida! Pelo meu histórico de vida e de luta por uma sociedade mais justa, solidária e com oportunidades iguais para todos, já nem precisaria de justificativas. No entanto, as eleições de 2018 culminam com um processo de disseminação de ódio e violência que pode vir a ser institucionalizado, na figura de um candidato de extrema direita que defende uma pauta de intolerância e de extinção de direitos que a humanidade levou séculos para implementar. Embora com algumas críticas a todo o processo, que impediu que o candidato mais legítimo e aprovado pela população sequer pudesse concorrer às eleições presidenciais, temos que colocar a Democracia acima de tudo, que com toda certeza é o valor maior que está em jogo. O resto pode ser objeto de várias batalhas que se anunciam, mas que devem ter como campo preferencial o Parlamento, as redes, as ruas, os movimentos sociais, tudo dentro do marco constitucional, sem o ativismo jurídico-partidário-midiático, responsável por grande parte da crise política e institucional que hoje vivenciamos no país.

Homem de vícios antigos – Como você avalia as propostas dos dois presidenciáveis para a área cultural?

Chico Saldanha – Para te dizer a verdade acredito que Bolsonaro não tem a mínima noção do que seja projeto cultural, dado ao seu total despreparo para assuntos que não versem sobre violência. Pelas ações e diálogo com os produtores culturais quando esteve na prefeitura de São Paulo, acho que o projeto do Haddad ganha por WO [sigla de walkover, que significa a vitória de um time em razão da ausência do adversário].

Gildomar Marinho – Eu percebo, de um lado, a retomada da Cultura para o centro das discussões, como elemento estratégico de afirmação das diversas identidades da nação brasileira, a perspectiva de retomar as políticas culturais iniciadas no governo Lula, capitaneadas pelo ex-ministro Gilberto Gil, a retomada do planejamento estratégico do País, tendo a cultura como pilar desse desenvolvimento. Por outro lado, vejo na proposta do candidato conservador, a retomada de valores há muito descolados da realidade brasileira, além da promessa velada de extinção do próprio Ministério da Cultura.

Francisco Colombo – Haddad e equipe tiveram sensibilidade para entender que cultura é mais que mero diletantismo. O seu oponente, ao contrário, prega o desmonte das estruturas de fomento. Demonstra, reiteradamente, um desejo de vingança contra adversários, incluindo, obviamente, artistas.

Babula Rosana – Não conheço a fundo as propostas, mas deduzo que as do Bolsonaro devem ser as piores começando pelo convite ao Alexandre Frota para Ministro da Cultura. Por outro lado esse mesmo presidenciável diz que vai acabar com o Ministério da Cultura. Do Haddad, pela continuidade dos trabalhos que o PT já teve na área cultural acredito ser progressista e de continuidade dos projetos e processos democráticos e de repartição equivalente dos recursos e editais por todas as regiões do país.

Fábio Allex – Não dá para comparar, pois apenas Haddad tem proposta nessa área. O que não é surpresa. Inclusive, Bolsonaro tem interesse em acabar com o Ministério da Cultura e transformá-lo em uma secretaria. Contudo, sinto falta de um detalhamento nas propostas do petista. Mas, se colocadas em prática, a princípio, atenderia uma diversidade importante, quando diz que vai retomar o investimento em museus, fomentar espaços para a manifestação de povos indígenas, incentivar a leitura e literatura, regulamentar o direito autoral nos meios digitais, bem como tratar do desenvolvimento e ampliação da produção independente.

Tássia Campos – Bolsonaro quer extinguir o MinC [Ministério da Cultura]. Nem tenho o que dizer.

Franck Santos – Haddad promete rever o Plano Nacional de Cultura, o Sistema Nacional de Cultura e recursos ao Ministério da Cultura, enquanto Bolsonaro até agora não fez ou faz menção às políticas culturais. Um país sem cultura, educação, arte de um modo geral, não é um país!

Samara Volpony – Na verdade, nós temos apenas um candidato que tem propostas para a área cultural: o presidenciável Fernando Haddad. Repudio, enquanto artista que sou, a proposta do candidato Jair Bolsonaro em extinguir o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet e ainda, tratar artistas como “vagabundos”. Seguindo o viés da nossa história, é bastante simbólico que o Ministério da Cultura tenha sido criado no período pós-ditadura militar e agora quererem extingui-lo. Mas não permitiremos esse retrocesso. Quanto à proposta do candidato Fernando Haddad, minha avaliação é bastante positiva. Seu programa de governo prevê uma política nacional para as artes que inclui sua produção, circulação e fomento das áreas, a reestruturação da Funarte [a Fundação Nacional de Artes, vinculada ao MinC], a retomada dos pontos de cultura e memória, priorizar pela Lei Rouanet coletivos da periferia, entre outros. Só podemos avaliar quem tem propostas.

Adriana Gama de Araújo – E Jair Bolsonaro tem propostas para a área cultural? Não vi, não. As propostas do Haddad são muito boas: fazer das manifestações artísticas e culturais um espaço para fomentar democracia, diálogo, diversidade, respeito. Conversar com quem faz e possibilitar caminhos de desenvolvimento e inclusão social.

Joãozinho Ribeiro – Infelizmente, só temos uma proposta para ser avaliada, pois o programa do candidato Jair Bolsonaro sequer dedicou uma linha para essa questão de tamanha relevância para um Brasil que pretende estar acima de tudo, dada a imensa diversidade cultural da nossa nação. Aliás, dos debates e entrevistas que tive a oportunidade de assistir entre candidatos a governador e presidenciáveis, essa questão em raríssimos momentos foi contemplada. Até mesmo no Maranhão, que se destaca pelo grande potencial criativo na área cultural, essa questão passou batida. Em matéria intitulada “Só 5 dos 13 presidenciáveis listam planos para cultura em programas de governo”, publicada na edição de 19 de setembro 2018, do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista responsável pelo texto [o texto era assinado por Eduardo Moura, Isabella Menon, Guilherme Genestreti, Maria Luísa Barsanelli e Maurício Meireles] informava [Joãozinho cita trechos da matéria]: “No acalorado debate desta corrida eleitoral, pouco se ouve falar de cultura. Dos 13 candidatos à Presidência da República, apenas 5 descrevem projetos para a área em seus programas de governo. Poucos programas trazem projetos detalhados para o campo da cultura, alguns deles nem sequer tocam nesse assunto […]. Não há menções à área nas propostas de Jair Bolsonaro (PSL), atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Cabo Daciolo (Patriota) e Henrique Meireles (MDB). Álvaro Dias (PODE) fala apenas em “cultura livre com Cartão Cultura”. José Maria Eymael (DC) lista pontos estratégicos, como “resgate e valorização da cultura e da identidade nacional”, mas não apresenta ações”. Já o programa de Haddad 13 lista um rol de compromissos que representam com legitimidade todo acúmulo de discussões e debates, transformados em planos, projetos e programas, das últimas três décadas, alguns deles inseridos na própria Constituição Federal, e outros refletindo os compromissos internacionais firmados pelo Brasil em tratados e convenções de tal magnitude, assim exemplificados em um trecho do programa [de governo do PT, registrado no TSE]: “cumprir a recomendação da Unesco e aumentar progressivamente os recursos para o MinC, visando alcançar a meta de 1% do orçamento da União”.

Homem de vícios antigos – Como você acompanha e avalia a atual divisão do Brasil, explicitada nas ruas e nas redes?

Chico Saldanha – Igual a você, Homem de vícios antigos, sou do tempo em que a pessoa que trazia dentro de si esse sentimento de raiva, de preconceito, de desrespeito às mulheres e homossexuais tinha muita vergonha de falar isso perto de quem quer que fosse. Por isso, às vezes, fico sem entender como várias pessoas, amigas, por sinal, embarcaram nessa insanidade.

Gildomar Marinho – Acompanho com bastante preocupação, notadamente, quando presenciamos elementos típicos do fascismo, como a intolerância, a desconstrução dos diferentes, o nacionalismo, a xenofobia, a LGBTfobia, com dosagens preocupantes de violência, com mortes e mutilações já registradas. As redes sociais têm se configurado verdadeiros campos de batalhas medievais, em uma espécie de vale-tudo para a aniquilação de seus oponentes que, em muitos casos, são gente do seu próprio sangue. O resultado é esta preocupante escalada da violência. Por outro lado, acompanho uma boa parte da sociedade afirmando-se com incrível senso de justiça, de civilidade e consciência de si e do seu meio. Espero que o bom senso seja vencedor.

Francisco Colombo – Como consequência do golpe político-jurídico-midiático. Desde 2013 a direita se comporta de maneira muito agressiva. Em 2014 não aceitou a derrota de Aécio [Neves, recentemente eleito deputado federal por Minas Gerais] pra Dilma. De lá pra cá, com a participação explícita do judiciário, via [o juiz Sérgio] Moro e Supremo [Tribunal Federal], as coisas caminharam para a ameaça real do fascismo nos empurrando para o precipício.

Babula Rosana – Esquizofrênica. Desinformação, manipulação da mídia e ajuda internacional para o candidato Bolsonaro.

Fábio Allex – É um mal que assola a sociedade, tendo como pauta a intolerância, a qual, no fim das contas, resume-se em uma briga partidária resultante de uma generalização. Enquanto se deveria dialogar com forças diferentes e discutir problemas reais, cai-se nesse embate contraproducente. É algo fortalecido com a figura do Bolsonaro, mas com imensa contribuição do PT. É a busca por uma suposta honra que desonra ainda mais. Só quem perde com tudo isso é o próprio país.

Tássia Campos – Tô assustada com tanta desinformação. Creio que é bem pior que ignorância. A violência está sendo legitimada pelo discurso do tal Bolsonaro. Não acredito em divisão do Brasil, acredito que o fascismo saiu do armário. Ele tava só escondido.

Franck Santos – Acompanho não só com temor como com horror, não só nas redes sociais como no corpo a corpo, com as pessoas próximas, seja nas relações familiares, de amizade ou nos locais de trabalho. Tenho muito medo do que está por vir, tenho medo dos dias sombrios, tenho medo do que possa acontecer às minorias. Tenho estado muito triste e quase deprimido. Também cansado de tentar que essas pessoas compreendam e tenham discernimento para o que é melhor, ou menos pior, para as pessoas dos meus círculos, seja virtualmente ou pessoalmente. O geógrafo Milton Santos já disse muito tempo que há “vários brasis dentro do Brasil” e estamos vendo e sentido isso na pele, olhos e coração.

Samara Volpony – Tenho acompanhado diariamente as redes sociais e também no dia a dia. O que tenho ouvido é um discurso inflamado e a relação com o outro cada vez mais comprometida: de um lado os que votam no candidato A e de outro os que votam no candidato B. As redes sociais viraram palanque do ódio, do rebaixamento do outro, e os que antes eram anônimos ganham fãs, legiões daqueles que concordam com seu pensamento, por mais grosseiro que seja. A minha avaliação é de imenso pesar, porque as pessoas perderam a capacidade de se compadecer, de ter empatia, de ouvir o outro e de pensar no outro. Esses são princípios que aprendi durante minha infância e que vou levar para sempre. As pessoas têm levado esse momento tão delicado, como se estivessem em uma partida de futebol, ainda não se deram conta da imensa responsabilidade que traz o momento, que é um princípio básico de humanidade: pensar no outro.

Adriana Gama de Araújo – O Brasil sofre de uma falta de conhecimento crônica. A nação foi “se fazendo nas coxas” e estas nem eram as do povo. Embora nós a sustentemos, nós não a pensamos. Infelizmente. E com a facilidade da circulação de informação por causa da internet e das redes sociais, as pessoas adquiriram uma falsa noção de conhecimento. Ninguém conhece nada e pensa que sabe de tudo. Política sempre foi para o povo brasileiro sinônimo de “roubalheira” e agora quem está “na mídia” como ladrão-mor é o PT. Uma parte da população decidiu lutar cegamente contra “esse mal”; a outra parte ainda acredita que “a esperança vai vencer o medo” e a corrupção. Estou ao lado dos esperançosos. Justiça cega é suicídio coletivo.

Joãozinho Ribeiro – Para mim, a grande divisão do Brasil deste momento é em grande parte circunstancial, embora não negligencie o perigo do ódio e da intolerância que se avolumaram de 2013 para cá, insuflados, irresponsavelmente, e em grande parte, pela mídia e pelo fundamentalismo religioso, além do ativismo judicial-partidário. Para mim, a grande divisão tem raízes profundas e permanentes na desproporcional desigualdade, que cega as pessoas e que as transformam numa espécie singular de um tipo de analfabetismo inusitado, assim conceituado pelo poeta Mário Quintana: “O maior analfabeto político não é aquele que não sabe ler, mas que, sabendo, se recusa a fazê-lo”. Estamos esquecendo justamente de fazer uma leitura do mundo e de suas grandes expectativas, mergulhados num analfabetismo brutalizado pelo preconceito, pela discriminação e pelo fascismo, ressurgindo em variadas formas em todos os cantos do planeta. Este ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos, as grandes revoltas estudantis de 1968, a Primavera de Praga e o famigerado AI-5, 50; a Constituição da República Federativa do Brasil, 30. Portanto um ano que merece ser prestigiado pela afirmação da cultura da paz e pelo reencantamento do mundo.

Um compositor de grandes canções

Retrato: Mayra Lins. Selo Sesc. Divulgação

 

Em 1985, interpretada por Tetê Espíndola no Festival dos Festivais da Rede Globo, Escrito nas estrelas, parceria de Carlos Rennó com Arnaldo Black, tornou-se para sempre um hit radiofônico, graças à vitória naquele certame. Muita gente até hoje assovia a música, que abre com os versos “você pra mim foi o sol/ de uma noite sem fim”, imortalizados pelos agudos da cantora sulmatogrossense, quase sempre sem saber quem são seus autores.

Nascido em São José dos Campos/SP em 29 de janeiro de 1956, Carlos Rennó é compositor, escritor e jornalista, tendo trabalhado na década de 1980 no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Em 1996 organizou Todas as letras: Gilberto Gil [Companhia das Letras]. Em 2000 assinou a produção artística do disco Cole Porter, George Gershwin: canções e versões [Geleia Geral], com composições do norte-americanos vertidas ao português e interpretadas por nomes como Caetano Veloso, Cássia Eller, Chico Buarque, Elza Soares, Rita Lee e Tom Zé, entre outros.

Carlos Rennó conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. O telefonema aconteceu em agosto, após a entrevista ser adiada algumas vezes diante da agenda apertada do artista, às voltas com novos projetos. O mote: suas canções de letras quilométricas que têm lançado um olhar poético e político sobre diversos temas da realidade brasileira.

Modestamente, digo sem medo de errar: Carlos Rennó é o autor das maiores canções brasileiras do século 21. E não me refiro apenas à extensão de suas letras. Ao blogue ele falou sobre esta faceta mais recente de sua obra, parcerias, política, além de disco e livro que pretende lançar ainda este ano.

Você ficou bastante conhecido graças ao sucesso de Escrito nas estrelas, parceria com Arnaldo Black, gravada pela Tetê Espíndola em 1985, vencedora do Festival dos Festivais da Rede Globo. Outra faceta que merece destaque no campo musical de tua carreira, que a gente sabe que tem outras vertentes, jornalista, escritor, é o trabalho como versionista, sobretudo do cancioneiro americano. Como é que tem sido nos últimos tempos se dedicar a mergulhos de maior fôlego como letrista?
Tem sido a tônica do meu trabalho. Nos últimos anos é um aspecto a se destacar em meu trabalho, a criação de determinadas canções de temática política, escorada em letras longas, algumas bastante longas, como foram os casos de Reis do agronegócio, com Chico César, e também com Chico César, Demarcação já!, que foi gravada por 23 cantores, defendendo a causa indígena principal, que é a de demarcação de terras, e este ano, Manifestação, uma letra também de mais de 100 versos, a exemplo de Demarcação já!, que foi musicada por três parceiros, o Russo Passapusso, do BaianaSystem, o Rincon Sapiência, que fez a parte do meio, que é de rap, ele fez a divisão ali, e o Xuxa Levy, que fez a melodia do refrão e foi o produtor da música, que teve a gravação de 30 vozes. Mais recentemente, saiu o quê?, há duas semanas, Nenhum direito a menos, com o Paulinho Moska, que é uma canção mais curta.

Mais curta, mas ainda assim longa [risos].
É. Considerando a extensão média das canções é notoriamente mais longa. Isso tem marcado meu trabalho nos últimos anos. Antes de Reis do agronegócio teve Quede água, com Lenine.

Eu estava lembrando, além dessas que você falou, de Todas elas juntas num só ser, que não é essencialmente política, mas que a letra também é longa.
É, já é de 2005.

Um aspecto que eu ia destacar nessas tuas composições, é que elas estão entre as maiores, tanto em qualidade quanto em duração, em termos de tempo, fugindo do padrão radiofônico, e de versos, não é uma coisa de uma introdução longa ou um improviso de um músico pelo meio, quer dizer, o tempo que elas têm, as que têm seis minutos, as que têm 10 minutos, elas são o tempo todo cantadas. Então: letras longas, como você já frisou. Isso as coloca, em minha opinião, entre as maiores canções já escritas no século 21 no Brasil.
Em extensão, você quer dizer.

Em extensão e em qualidade, eu arrisco dizer.
Puxa, eu agradeço seu elogio [risos]. Em termos de extensão de versos não há dúvida, não há dúvida. Reis do agronegócio tem 96 versos, Demarcação já! tem 114, Manifestação, 117.

Como foi chegar nesse padrão? Se bem que não dá para falar em padrão por que cada música tem uma história, mesmo elas transitando nessa seara mais política, mas como é que foi pensar nesse formato mais longo?
Eu tinha uma tendência a fazer letras longas, por influência de alguns compositores importantes na minha formação, compositores letristas, como Cole Porter, como Bob Dylan, e mesmo Caetano, Chico Buarque, que têm algumas letras compridas. E aí aconteceu o seguinte: até um período, até metade da minha carreira desenvolvida até hoje, eu mais escrevia letras sobre música pré-existente do que o contrário. E aí eu passei a fazer, a partir de um determinado momento, mais letras sem música, para serem musicadas. E aí nesse processo, influi mais no meu trabalho de compositor a formação literária. A formação e a informação literária, de poesia. E aí eu tendo a fazer letras mais longas, por causa da influência de alguns poetas e de alguns poetas de música, entre os quais eu citei alguns, que tendem a fazer letras longas, ou poemas longos, e versos metrificados. Então minhas letras tendem a ter, quando feitas antes de uma melodia pré-existente, elas tendem a ter um formato fixo de estrofes e de versos metrificados. É o caso de Nenhum direito a menos, por exemplo, são seis sextilhas, não seguindo rigorosamente a regra da sextilha, por que tem rimas emparelhadas, o final do primeiro [verso rimando] com o final do segundo, o final do terceiro com o final do quarto e o final do quinto com o final do sexto. E aí além das seis sextilhas, um verso que é o refrão, então são cinco estrofes de seis versos mais o refrão. No caso de Manifestação também tem uma fórmula rigorosa que eu estabeleci antes de escrever a letra, ou no começo de quando eu estava escrevendo. Tem três partes: a primeira parte, 10 redondilhas maiores, versos de sete sílabas, que é a parte cantada, a melodia, aí vêm duas estrofes de oito versos, são decassilábicas, às vezes dodecassílabos, que é a parte do rap, e aí o refrão, um refrão curto de três versos mais curtos.

Rennó, quando eu te provoquei a falar, o mote eram essas cinco letras longas, incluindo Todas elas juntas num só ser, que é menos política, e no meio saiu Nenhum direito a menos.
Teve também Ecos do ão, com Lenine, além de outras com Lenine, É fogo, isso é só o começo.

Essas que a gente citou, além das que você citou agora, Todas elas juntas num só ser, Quede água, Reis do agronegócio, Demarcação já!, Manifestação, e agora Nenhum direito a menos, todas elas primeiro letra depois melodia feita pelos parceiros?
Isso.

No caso de Manifestação e, antes, Demarcação já!, a experiência de gravar com um grande número de artistas, como é que é arregimentar esses times? Eu acompanho pelas redes sociais e você acaba se envolvendo muito com a produção das faixas. Como é essa experiência?
Eu realmente acabo sendo produtor artístico. Para alguns isso é muito difícil de fazer, não têm paciência para isso. É um trabalho que realmente requer paciência, não só paciência. Eu faço com certa naturalidade. Trata-se de projetos meus, projetos que saíram da minha cabeça, e eu sei que se eu não fizer esse trabalho de convidar um a um os artistas e ficar em contato, com produtor, ir a shows, eventualmente tenho que fazer isso, ir a shows de artistas para falar com eles pessoalmente, o que não é um problema, por que se são artistas que eu quero para um projeto meu são artistas cujo trabalho eu aprecio, então é um prazer ver o show. Mas às vezes isso é por trabalho mesmo. Então é um trabalho trabalhoso esse da produção artística, mas que eu faço por que se vincula a projetos que eu concebi.

No caso de Manifestação, o que veio antes, a letra dela ou a decisão de ela servir às comemorações de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Anistia Internacional?
Ah, não, veio antes a letra. O que aconteceu foi o seguinte: um ano antes eu tinha feito Demarcação já!, na verdade um ano e meio antes eu tinha composto Demarcação já! e vieram umas pessoas, uns ativistas do Greenpeace aqui em casa, para conhecer uma canção minha com [o guitarrista paraense] Felipe Cordeiro sobre hidrelétricas da Amazônia, canção essa que vai sair agora num cd que eu vou lançar com canções minhas em setembro, pelo Selo Sesc, e eles acabaram conhecendo uma gravação demo que eu tinha de Demarcação já! A canção ia ao encontro de uma campanha que o Greenpeace tinha pela demarcação de terras indígenas. Por isso acabou servindo a essa campanha e o Greenpeace se tornou um grande parceiro na produção da música, do vídeo, que ficou maravilhoso, aqueles artistas incríveis. No caso de Manifestação foi a mesma coisa: eu estou escrevendo Demarcação já!, eu comecei a trabalhar em Manifestação. Inicialmente me dediquei quatro meses exclusivamente à feitura da letra e quando eu tinha a coisa em mente e à medida em que fui fazendo a letra, o que eu tinha em mente, dentro do tema, de assunto, de causa, se confirmou. E aí eu vi que aquilo combinava com a campanha da Anistia Internacional por direitos humanos da mesma forma que a letra de Demarcação já! combinava com a campanha do Greenpeace pela demarcação de terras indígenas. Aí eu já conhecia uma ativista da Anistia, a Jandira Queiroz, que eu conheci na casa de uma amiga comum, a cantora Luciana Oliveira, e apresentei pra ela a ideia e ela achou ótima. Eu já tinha inclusive falado um trechinho pra ela da letra, e aí o pessoal da Anistia curtiu e foi ótimo, deu certo. Mas sempre assim: a canção pré-existiu em relação ao projeto, à parceria, à utilização da música para campanhas dessas duas organizações.

A gente vê nessas obras todas que são o mote principal dessa entrevista uma preocupação profunda e constante com a necessidade de uma tomada de posição. Você toca em temas muito sensíveis da realidade brasileira: demarcação de terras indígenas, o esgotamento dos recursos hídricos, são várias pautas pelas quais você passeia nessas canções de fôlego maior. Como você enxerga o papel do artista diante de tantos desmandos? O Brasil vive um momento terrível de sua história, você tem se posicionado. Você acha que o artista tem essa obrigação ou deveria ter? Como você avalia isso?
Eu não acho que o artista tenha obrigação de expressar em seu trabalho uma preocupação, uma visão, uma sensibilidade em relação a esses aspectos da realidade brasileira. Não tem a obrigação disso. Mas ele pode ter, não é? [risos]. No meu caso, sim, existe essa preocupação em comentar poeticamente na arte que eu pratico, a arte da canção popular, que eu considero importante, o que está acontecendo no plano social, político, no Brasil e no mundo.

Entre as participações de Demarcação já! está a Sônia Guajajara, que hoje é pré-candidata a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo Guilherme Boulos. Como você está sentindo esse momento de Brasil, desde que Dilma foi tirada do poder, Temer assumiu e Lula foi preso? Vem uma eleição com uma ameaça real de um candidato reacionário, de extrema-direita. A eventual eleição de Bolsonaro seria o Brasil ter uma nova ditadura, agora pela via do voto.
O Brasil vive um grande retrocesso no plano da mentalidade social e no plano político, econômico. É algo para tirar o que chamam de esperanças, a curto e a médio prazo. É uma onda de direita que vem tomando conta não só do Brasil e isso é muito ruim para o que já foi conquistado e vem se perdendo. A melhor coisa nesse quadro eu acho justamente a candidatura da Sônia Guajajara, pelo que significa, pelo que ela simboliza. Uma candidata indígena e só mesmo talvez uma candidata indígena para ter a consciência ao mesmo tempo social e ambiental que necessariamente um político tem que ter hoje no mundo, não só no Brasil. Particularmente no Brasil por que nós temos aqui caminhando juntas uma desigualdade social abissal e uma devastação avassaladora, coisas a que a nossa sociedade assiste dormindo. Particularmente a devastação ambiental. Não há uma consciência aguda disso e lamentavelmente não há uma consciência disso, nem na esquerda, haja vista governos que tivemos, do PT, de Lula e Dilma, que, se por um lado fizeram totalmente o que um governo tinha que fazer desde o começo da história do Brasil independente, ou seja, olharam e fizeram pelas classes desfavorecidas o que nunca ninguém havia feito, por outro lado, do ponto de vista ambiental, eles foram governos que agiram igualzinho aos governos de direita. Por que, justamente, a sensibilidade ambiental prevalente no PT é uma visão de desenvolvimento idêntica à da direita. Entende? Que não leva em conta o fato de que a natureza se meta, a coisa do crescimento, que é algo tipicamente capitalista. O capitalismo quer sempre indefinida e infinitamente crescer e crescer e crescer. Isso não é mais possível. Tem que se pensar em salvar o planeta, a civilização, a maior parte da humanidade, incluindo os excluídos. Por que se forem incluir os excluídos, como sugere a letra de Manifestação, aí só resta uma coisa: acabar a desigualdade. Pra salvar o mundo é preciso acabar com a desigualdade. De um lado a riqueza, o acúmulo e o desperdício de riqueza pelas classes dominantes no Brasil e no mundo são absurdos. E a gente sabe há muito tempo que o que eles acumulam e desperdiçam daria muito bem para não só para matar a fome dos famintos, mas para dar educação para todos. A conjugação de social e ambiental nunca foi tão premente. Na verdade já é há 20 anos, mas a sociedade assiste à devastação dormindo, como eu disse. Incluindo a esquerda, boa parte da esquerda. Então, nesse quadro, a chegada de uma política como a Sônia Guajajara, que para mim não é vice-presidente, ela é copresidente, junto com o Boulos, essa chegada, pra mim, é pra ser celebrada, por que ela representa uma política de fato feminina, que é a única coisa capaz de salvar nosso futuro de uma característica prevalentemente catastrófica. Uma política feminina, ou seja, que leve em conta [enfático:] a mulher que é a mãe natureza. Mãe natureza por que é mulher. A política desenvolvimentista destrutivista da natureza é uma política machista. E é a que prevalece na esquerda [risos]. Lamentavelmente.

Portanto é tua chapa?
É, é a minha chapa. É em quem eu vou votar no primeiro turno.

Eu queria destacar outro aspecto da Sônia Guajajara. Além de tudo que você enumerou, é maranhense. Qual a tua relação com o Maranhão? O que você conhece daqui, gosta?
Eu fui aí apenas uma vez. Não faz muito tempo, gostei muito. Fiquei assim de voltar, conheci as pessoas que me levaram, muito legais, amigas. Gostei de São Luís, fui a Pinheiro, curti também. Eu gostei muito do que vi e senti aí. Maranhão, da minha amiga Sônia Guajajara [risos].

Poesia – Canções de Carlos Rennó. Capa. Reprodução

Para fechar: essa entrevista demorou um pouco a acontecer, você estava sempre com a agenda lotada, me pedia uma semana, outra. Mas finalmente aconteceu. Essa agenda lotada indica que você está aprontando coisa. O que vem aí de Carlos Rennó, em 2018, 2019?
[Risos] Pois é, eu estou muito ocupado mesmo com a realização de alguns projetos importantes. Um reúne um disco pelo Selo Sesc [Poesia – Canções de Carlos Rennó, R$ 20], comemorando 40 anos da primeira gravação de uma canção minha [Pássaro no cerrado, de 1978]. Vai sair pelo Selo Sesc com vários parceiros, são 16 faixas e parcerias que vão de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola a Lenine, Chico César, Moska, Gilberto Gil, João Bosco, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Moreno Veloso. É um disco que vai sair junto com um livro, pela Perspectiva, com letras minhas, com boa parte da minha produção de letras. Esse livro, por sua vez, vai trazer embutido um álbum digital, com mais cerca de 16 canções, com vários parceiros. Eu estou às voltas com a finalização disso, desse disco e desse livro, com a preparação do show, hoje mesmo nesse momento, desligando o telefone aqui, eu vou estar às voltas com a necessidade de resolver problemas urgentes sobre esse show, a definição do elenco, vai ter uns oito artistas nesse show, então eu estou às voltas com esses trabalhos todos nesse momento [nota tardia do blogue: os shows aconteceram dias 26 – com Moreno Veloso, Chico César, Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola – e 27 de setembro – com Marcelo Jeneci, José Miguel Wisnik, Moreno Veloso, Tetê Espíndola, Ellen Oléria e Rubi – no Sesc Bom Retiro, em São Paulo].

Ouça Poesia – Canções de Carlos Rennó:

As mil almas de Tatá Aeroplano

Tatá Aeroplano lançou seu primeiro disco em 2004, Onda híbrida ressonante, como frontman do grupo Cérebro Eletrônico. O artista voa pelo chão: é um legítimo flaneur paulistano, que curte a cidade a seu modo, tendo estabelecido com a capital paulista uma relação bastante particular – e inspiradora.

De lá para cá vieram outros três discos com o Cérebro Eletrônico (Pareço moderno, de 2008, Deus e o diabo no liquidificador, de 2010, e Vamos pro quarto, de 2013), dois com o Jumbo Elektro (Freak to meet you, de 2004, e Terrorist!? The last álbum, de 2009), outro grupo de que foi vocalista, na persona de seu alter ego Frito Sampler – personagem que já lançou, por sua vez, dois álbuns solo: Aladins Bakunins [2015] e Cosmic Damião [2016].

Alma de gato. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano acaba de lançar o quarto álbum de sua carreira solo: Alma de gato [2018], sucessor de Step psicodélico [2016], Na loucura & na lucidez [2014] e Tatá Aeroplano [2012]. Ou quinto, se contarmos Vida ventureira [2017], que dividiu com a cantora Bárbara Eugênia.

É isto mesmo: entre bandas, solos, alter ego e duo, são 13 discos (em 14 anos), o que o torna um dos mais profícuos operários da música no Brasil. Isso sem contar suas colaborações em discos de outros artistas, tocando, produzindo, fornecendo composições – para ficarmos num único exemplo, a recente produção de Diamantes na pista [2018], estreia da cantora Malu Maria, parceira dele em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, uma das oito faixas de Alma de gato.

Alma de gato é um disco que, por um lado, demonstra o amadurecimento do artista, percebido a começar pelo maior entrosamento com a banda que o acompanha desde o primeiro disco solo. Por outro, mantém o clima bucólico-psicodélico que já é uma espécie de marca de seu trabalho autoral.

“No fim de 2016 mudei de Santa Cecília para o bairro da Vila Romana […]. Esse novo disco que chega está cheio de vivências e experiências de nova fase na cidade de São Paulo”, pontua o artista no release que ele mesmo escreveu. “Batizei o novo álbum em homenagem ao belo pássaro Alma de Gato, que avisto direto pelas ruas e praças da região, e me inspirou a escrever a canção Mil almas de gatos”, continua. O disco é “mais um lançamento de Aeroplano pelo selo não identificado Voador Discos” e “conta com a distribuição digital da Tratore” – a exemplo de toda sua discografia, está disponível para download gratuito em seu site.

Por ocasião do lançamento de Alma de gato, Tatá Aeroplano conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos, a que se refere diretamente.

Retrato: Luiz Romero

Homem de vícios antigos – Tatá, você é um paulistano, homem da metrópole, mas teus discos têm um frescor pastoril, embora urbano, bucólico. Acho que um bom rótulo para teu trabalho, se ele coubesse em um, seria bucólico-psicodélico. Nele, esse equilíbrio entre coisas aparentemente tão díspares, no entanto, soa bastante natural. Como você enxerga isso?
Tatá Aeroplano – Zema , bucólico-psicodélico, tem tudo a ver com a música que eu tenho feito. Eu passei uma boa parte da infância e da adolescência no bairro do Passa Três, um vilarejo na zona rural que fica perto da cidade de Tuiuti, no interior de São Paulo. Também vivi em São Paulo, depois fui pra Bragança Paulista na adolescência e com 18 anos voltei pra morar em Sampa. Eu passei muito tempo vivendo a metrópole, mergulhado na cidade, nas noites, escutando sons de todos os tempos, assistindo shows de todas as galeras que vêm morar na cidade, artistas, amigos. Porém, sempre vivi em São Paulo como se eu estivesse vivendo no sítio, de uma forma simples, nunca tive carro, sempre gostei de caminhar e com isso estabeleci uma relação interiorana dentro da cidade, caminhando dia e noite. Hoje, quando tenho uns dias mais tranquilos, passo uns dias na natureza, observando pássaros, conectado com uma essência que eu nunca perdi e que me guia até hoje. E quando estou em São Paulo, vivendo agora na Vila Romana, faço altas caminhadas com a Malu [Maria, cantora e parceira], andamos seis quilômetros pra pegar um cine ou simplesmente curtir o movimento da Avenida Paulista.

Alma de gato é nome de um pássaro, mas também pode ser entendido como a essência do felino, libertária, com seu tempo todo particular. São ângulos possíveis de ouvir este teu novo disco?
Sim, total, Zema. Quando eu comecei a observar o pássaro Alma de Gato foi caminhando por Sampa. Eu ainda não tinha reconectado minha essência espiritual com os pássaros e um dia eu fui participar de um ensaio no estúdio do Guilherme Kastrup [percussionista], que fica no Alto da Lapa, e no quintal da casa dele tem uma vegetação linda com várias árvores e pela primeira vez eu prestei atenção numa Alma de Gato que pulava de galho em galho. Mexeu comigo, pois é um pássaro grande, multicolorido, meio pré-histórico e que se mexe nas árvores numa mistura de gato e macaco. Logo depois eu tive um sonho em que a [jornalista e radialista] Patrícia Palumbo me dizia que eu tinha que voltar a observar os pássaros que eu vi na infância, que eles não tinham sumido, pelo contrário, que ainda veria muitas espécies de pássaros que eu não tive a oportunidade de ver na infância. A partir daí, em Sampa, ou em qualquer cidade ou sítio que eu visite, a Alma de Gato sempre esteve presente. Batizar o álbum com esse nome é também brindar a essência felina, libertária, o voo da mente, porque a gente pode ser de tudo um pouco quando a gente mentaliza e observa, até nos movimentos mesmo, a gente passa a ser um pouco felino nas andanças, nos saltos, na vida. De uns tempos pra cá tenho vivido experiências maravilhosas com várias espécies de pássaros, insetos, plantas e árvores. A gente pode se reaproximar dessa natureza que tem tanta coisa pra ensinar e mostrar pra gente, é como receber fragmentos, estilhaços do elo perdido.

Alma de gato é conduzido por parceiros teus de longa estrada e demonstra um amadurecimento em relação aos discos anteriores. Foi mais fácil fazê-lo? Você o considera seu trabalho mais bem acabado?
É o quinto disco que eu gravo no estúdio Minduca com Bruno Buarque [bateria e percussão], Junior Boca [guitarra] e Dustan Gallas [contrabaixo e sintetizadores]. A gente vive uma sintonia, astral e amizade que fica mais bonita a cada disco, entramos em estado de festa quando gravamos. A gente é uma banda e isso me deixa totalmente realizado e sempre quando terminamos um novo álbum, fico já pensando o que faremos no próximo. Nesse disco eu vivi alguns momentos onde tive que buscar energia e concentração para gravar. Cores no quarto é uma música que veio de uma vez, gravei o momento da criação e levei alguns meses para pegá-la novamente. Tive que me isolar por alguns dias para me familiarizar com a canção. Quando fomos gravar o disco, aproveitei o melhor momento para a gente tocá-la. A base que está no álbum é do primeiro take. As músicas desse disco caminharam prum lugar novo, nesse ponto foi um desafio que com o passar do tempo foi ficando cada vez mais gostoso. Eu perdi a referência e o controle por diversas vezes, e isso foi muito bom. Não sei dizer se é o disco mais bem acabado que a gente fez, mas a gente está tão entrosado na vida e no estúdio, que naturalmente isso vai parar nas canções. Alma de gato abriu um caminho novo para os próximos trabalhos. Estou curioso sobre o que vamos fazer daqui pra frente.

Parceiras mais ou menos recentes, como Bárbara Eugenia, com quem você dividiu disco ano passado e turnê europeia este ano, e Malu Maria, de quem produziu o disco de estreia, comparecem à Alma de gato. Essa brodagem que marca a cena paulista me parece fundamental em teu fazer artístico, concorda?
Uma das coisas que me movem são os outros e seus devires. Desde pequeno sou assim. Gosto muito de escutar novos sons e conhecer novos artistas. Vivo de braços abertos pro desconhecido, pro mistério e encontros musicais. Esse disco está repleto de parcerias. Com a Malu Maria eu compus Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols. Com Luiz Romero, que é de Recife e mora em Sampa, rolaram as parcerias Deixa voar e Hoje eu não sou. Com o poeta cearense radicado em Sampa Daniel Perroni Ratto rolou a canção Colorir de carnavais. Com Beto Antunes, que é mineiro de Milho Verde, foi a vez de se inspirar e criar algumas partes juntos de O alienista da Vila Romana. E do João Sobral, que nasceu em Sobral no Ceará, eu gravei a composição de sua autoria Vida inteira. A Bárbara, a Julia Valiengo e a Ciça Góes, que participaram do disco anterior, também estão presentes nesse álbum. Eu gosto muito desse criar coletivo natural, sem pensar muito. Esse disco nasceu de parcerias feitas principalmente à noite, sem combinar, sem pensar muito a respeito, e quando eu me dei conta, o disco estava pronto. Isso tem feito cada vez mais a minha cabeça: deixar o inconsciente consciente nos momentos de inconsciência total.

Teus discos também trazem uma abordagem bastante particular do carnaval, aqui representada por Colorir de carnavais, uma música alegre, alto astral, mas que fala de superação, de curar uma dor de amor com outro amor. É algo autobiográfico?
Essa canção nasceu a partir do poema presente no livro de poemas Vozmecê do Daniel Perroni Ratto, num domingo à tarde, no Condomínio Cultural que fica na Vila Anglo. O Ratto me deu o livro e eu abri direto na página com a letra de Colorir de carnavais. Automaticamente eu comecei a cantar a melodia da música, a Malu Maria, que estava filmando, registrou o momento e na hora soube que ali estava uma canção vibrante. Depois que eu gravei a música, captei a essência da letra, que foi escrita por um amigo de longa data: com o Daniel Ratto eu tive uma banda, chamada Luz de Caroline. Nessa banda ele cantava e eu tocava brinquedos que passavam por um pedal de delay e reverbe. Daí que nascem as grandes parcerias da vida. Agora, falando sobre a letra da música, alguns amigos que passaram por momentos de separação e superação se conectam a história da letra e isso eu chamo de magia e encontro, porque a letra do Daniel me representou totalmente, é uma história universal.

O título Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, de longe o que mais chama a atenção à primeira vista, dialoga diretamente com o verso de Caetano Veloso em Sampa, “os Novos Baianos passeiam na tua garoa”, embora tua música, diretamente, nada tenha a ver com a de Caetano. Ela de algum modo serviu de inspiração?
Com certeza, o Caetano Veloso é uma inspiração eterna, bem como Gilberto Gil, Itamar Assumpção, Chico Buarque, Os Mutantes, Novos Baianos, Tom Zé, João Gilberto, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Alceu Valença, Zé Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Elis [Regina]… só pra ficar nos artistas do fim da década de 1960 e começo dos 1970. Hoje minhas influências também são os amigos contemporâneos que compõem e fazem música, eles me guiam totalmente. Quando eu terminei de compor essa canção com a Malu Maria, me veio o título referência na hora, pensei na canção do Caetano. Achei até um pouco exagerado colocar a palavra “sapateiam” em vez de “passeiam”. Eu quis dar aquela espetada na galera que vive escutando e louvando a vida inteira artistas gringos e passam batido com a nossa música que tem tanta coisa maravilhosa. Um adolescente brazuca conhecer o Sid Vicious sem saber quem são os Novos Baianos, soa surreal, mas foi o que aconteceu numa noite de show no Teatro de Bolso do IV Mundo e inspirou a feitura da música em parceria com a Malu.

Ainda falando em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, há um verso, bonito e sutil, que fala em virar à esquerda. Como se posiciona Tatá Aeroplano nestes tempos sombrios em que o Brasil está mergulhado?
Eu nasci canhoto e dobrei a esquerda. Cada vez mais eu consigo captar o espírito do tempo político de cada época. Através da literatura, história e poesia, quando a gente volta séculos e séculos para trás, se conecta com o estado de espírito político de pessoas que viveram no passado e naturalmente se posicionavam corporal e espiritualmente com as forças da natureza, questionando as brutalidades empenhadas pelas religiões, tradições, coisas que com o passar do tempo carregam uma energia que eu quero passar longe. A realidade que vivemos é que a gente ainda corre o risco de viver preso dentro das religiões, do conceito de família, se você é católico ou evangélico você se torna uma propriedade. Vive-se um tipo de aquietação espiritual, já que te é privada a possibilidade de certas transcendências, pecados, culpas e não se pode tocar em algumas feridas. A gente entrega uma parte do nosso livre arbítrio para outros decidirem. O momento político que vivemos é muito delicado. Sofremos o Golpe [maiúscula dele], domínio das bancadas ruralistas, cristãs, evangélicas a mil por hora e o #EleJamais como uma ameaça real. Mesmo assim sou otimista e acredito que vamos representar nessa eleição. Nasci canhoto, gauche, assim como você, sou um maluco por vícios antigos. Na escola alguns professores tentaram me fazer escrever com a mão direita. Eu chegava em casa e fazia a lição com a mão canhota, no dia seguinte, a professora reclamava e dizia pra eu refazer com a direita, que doideira isso, né? Então, sou mais Zema, [o cantor e compositor Juliano] Gauche, Galírio [o cantor e compositor Gustavo Galo, integrante da Trupe Chá de Boldo], Anelis [Assumpção, cantora e compositora], Karina [Buhr, cantora e compositora], Dustan, Boca, Bruno, Bárbara, Malu, Sobral, Tulipa [Ruiz, cantora e compositora], Ratto, Lenis [Rino, percussionista]… Esse é o nosso estado de espírito, que naturalmente se posiciona frontalmente contra esse estado atual estabelecido através do Golpe contra a Dilma.

A longa O alienista da Vila Romana, que fecha o disco, evoca a balbúrdia de Mutantes, com citações a Macunaíma, Dorival Caymmi e, talvez, Machado de Assis, entre outros, e reúne nada menos que 25 participações especiais, “via rede”. Como foi organizar e conceber isto?
Essa música nasceu de uma noite de bebedeira fumaceira na Casa Gramo, com o Beto Antunes Lanterna, que é muso inspirador e parceiro de alguns trechos da canção. No dia seguinte à bebedeira geral eu fui com a Malu a pé até a feira orgânica no Parque da Água Branca e eu ainda estava meio embriagado do dia seguinte quando os versos todos vieram. Primeiros as cabras e bodes e depois a ideia do Beto Antunes como o Beto Lanterna, uma espécie de Alienista da Vila Romana. Na hora eu saquei que tinha chegado uma música balbúrdia que ia encerrar o disco novo, e assim eu fui fazendo com os amigos da boemia total. A música foi se transformando numa peça teatral e aí fui inserindo áudios que recebi e que achei que podiam entrar e alguns áudios eu pedi especialmente para entrar na música. Enviei [uma mensagem pelo] whatsapp para alguns amigos dizendo “me envia um áudio de cinco, seis segundos falando de um tal de Alienista da Vila Romana”. Faltou o Tom Zé nessa música. Essa peça é uma mistura de devaneio, loucura, cinema marginal de inspiração Sganzérlica, o “MacunaCaymmicamente” veio como um sugestão da Liara [Gattolini, amiga], que foi assistir show junto com o Lucas [Paolillo, amigo] na Sensoria Discos, e o Lucas disse “Tatá, a Larissa está usando direto o termo MacunaCaymmicamente”, e ele entrou na música. Eu fui inserindo áudios até o último dia da mix. Foi como fazer um prato bem doideira mesmo, misturando tudo sem saber como vai ficar o sabor. Ou melhor, são aquelas coisas que a gente faz sem pensar no sabor e sim nas sensações. eu acho que vou escrever uma peça de teatro a partir desse música. Béeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeeee.

Você já se referiu à sua própria produção fonográfica, à feitura de seus discos, comparando o processo à produção de alimentos orgânicos no Brasil, em pequena escala, lutando contra o poderio dos grandes produtores. Por outro lado, disponibiliza gratuitamente cada trabalho quando do lançamento, apesar de ainda acreditar no formato físico do disco. Como você equaciona todas estas questões?
Zema, eu comecei a disponibilizar os álbuns inteiros em mp3 de forma gratuita em 2012, quando lancei meu primeiro trabalho solo. A partir daí, o que aconteceu foi que me conectei com uma galera que gosta de ter o registro em cd. Como eu vendo os discos através do site e eu mesmo que cuido disso, descobri que tem muita gente que ainda gosta de ter o cd, ou o Vinil, que colecionam. Hoje os serviços de streaming dão o norte total, a cada ano mais e mais gente escuta a música nas plataformas youtube, spotify, deezer e afins. Com isso o número de downloads no meu site caiu muito. Mas as vendas de cds, lps, da caixa de Pandora [com todos os discos] e tals, continuam iguais, o que me possibilita lançar os discos ainda nos formatos cd e vinil. Ainda existe um galera massa que cultua vícios antigos. Assim como nós!

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Ouça Alma de gato:

João Omar: muitos anos de jornada

“Anda, muntemo o mondengo pra nóis í prá lá” é o verso que fecha Na quadrada das águas perdidas, faixa-título do elepê que Elomar lançou pela Discos Marcus Pereira em 1979.

Muntano o mondengo é o nome do concerto que o compositor apresenta, acompanhado do filho João Omar, amanhã (24), em São Luís, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) – os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00 e estão à venda na bilheteria do teatro.

A expressão que batiza o espetáculo significa “tomando a iniciativa” e traduz a forma como um artista outsider – com o perdão do estrangeirismo que ele próprio condenaria – consegue percorrer o país: depois de passagens por Recife e João Pessoa, Elomar chega à São Luís trazido por um fã.

“Um cavaleiro”, “um idealista”, certamente adjetivaria o próprio Elomar, sobre Aidil Filho, o fã transmutado em produtor ocasional. Elomar costuma dizer não ter fãs, mas cúmplices: é a mais pura verdade.

Outra coisa que o título do concerto expressa é a sintaxe sui generis da obra de Elomar Figueira Melo, 80, arquiteto de formação, baiano de Vitória da Conquista, toda construída sobre o que o próprio chama de “linguagem dialetal sertaneza”, objeto de estudos acadêmicos por nomes de peso como Jerusa Pires Ferreira e Ernani Maurílio, para citarmos apenas dois – autores do rico glossário de elepê Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar, lançado pela Kuarup em 1986.

Além dessa espécie de língua própria, que nem de longe torna sua obra hermética, não para além do desinteresse da grande mídia e consequentemente do grande público, há uma geografia particular, que mescla a que circunda o chão em que nasceu e onde vive, e um mundo habitado por cavaleiros, vaqueiros, tropeiros, princesas, donzelas, retirantes, bois “incantados” e muitas referências bíblicas – sobre o que se destaca o livro Tramas do sagrado: a poética do sertão de Elomar [Vento Leste, 2007], de Simone Guerreiro.

Somando-se tudo isto, temos um artista de mitologia própria, para o qual contribuiu também sua fama de recluso. Elomar não dá mais entrevistas – e são raras as que concedeu ao longo da carreira. Quem conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos foi seu filho João Omar, violonista que o acompanha em mais esta passagem por São Luís – a última já conta quatro anos.

Ao longo da entrevista, João Omar sempre se refere a Elomar como “meu pai” ou “o bode”, apelido que ganhou dos animais que cria na fazenda Casa dos Carneiros, paisagem de sua Cantiga de amigo (1973), e que inspiraram o cartunista Henfil (1944-1988) a criar o Bode Francisco Orellana.

João Omar, vocês passam por São Luís trazidos por uma produção não profissional, um fã idealista. Isso traduz a afirmação de Elomar de que não tem fãs, mas cúmplices. Este tipo de iniciativa é uma alternativa para artistas que não estão na programação de rádios e tevês?
Estamos nessa jornada de tropeiros, vamos dizer assim, tropeiros da música. Essa produção de fã, o Aidil, que se propôs a fazer isso, é algo que, de uma certa forma, revive tempos passados, no qual não havia produtores, na realidade havia esses amigos que articulavam apresentações. Um detalhe para o qual eu sempre costumo chamar a atenção, daquela época, é o seguinte: antes havia mais encontros, inclusive, os artistas iam para a casa dos amigos, se encontravam mais uns com os outros e chegavam a produzir coisas interessantes, encontros que mudavam até mesmo o rumo de suas carreiras, ou que influenciavam. Um encontro destes, por exemplo, foi o do meu pai com o Henfil. Depois desse encontro, foi tão impactante para o Henfil, que ele criou o personagem do bode que comia livros etc. Então é isso, é uma produção de fã, de malungo, a gente fez em Recife, em João Pessoa, mas não obstante a isso meu pai tem uma produtora que acompanha ele e também presta esse agenciamento, a Rossane Nascimento.

Qual será a base do repertório em São Luís?
O repertório é de algumas das canções antigas dele, que eu até me impressionei de meu pai retomar, para estudar o violão, por que não é fácil recordar músicas que tocou há muito tempo, como Cavaleiro do São Joaquim, que é do primeiro disco dele [Das barrancas do Rio Gavião, de 1973]. Tem trechos de óperas, como a ópera A carta, a Faviela, que já é uma canção conhecida, mas que faz parte de um quadro de ópera. Eu executo também alguns solos de violão do disco que eu gravei, Ao Sertano [2015], e a gente faz esse passeio, procura evocar essas tropas, essas cantigas de tropeiro nessa apresentação, mas não fica só nesse território. E meu pai, que gosta muito de contar histórias, ele vai falar bastante sobre o que ele tem feito.

O nome do espetáculo, verso de Na quadrada das águas perdidas, significa tomemos a iniciativa, outra tradução de um fazer artístico ímpar. A seu ver, o que é mais interessante e único na obra de Elomar, tão diversa em formatos e temáticas?
Na realidade o que eu acho interessante é meu pai conseguir viver, conviver com o povo do lugar, com vaqueiros, tropeiros, trabalhadores rurais, e conseguir absorver a cultura deles, o linguajar deles, as crenças, toda essa coisa, e transformar em um trabalho autêntico, por que na realidade o trabalho dele é singular, não tem assim alguém parecido aqui no Brasil. Existem sim pessoas que se influenciaram por ele, mas é um trabalho muito único, muito próprio dele, no qual ele também se inspirou nos trovadores medievais, para fazer as cantigas, sofre sim essa influência. Mas ele também bebeu na seresta, nos ritmos nordestinos, no xaxado, no martelo, então o trabalho dele tem essa singularidade de poder conviver e extrair dali e fazer um trabalho único, que não é necessariamente cópia de músicas tradicionais, da música tradicional do sertão.

Sua entrada no meio musical era inevitável sendo filho de Elomar? Você chegou a aprender outros ofícios?
Eu comecei desde cedo a estudar música, estudei junto com meus irmãos, minha irmã e meu irmão, mas eu que segui no estudo com mais dedicação. Eu chegava a ir para a fazenda estudar oito horas de violão e meu pai percebendo isso, na realidade ele não me deu aulas de violão, eu que ficava olhando ele tocar e tentava copiar. Ele pelo menos ensinou onde era o dó no violão e nós saímos lendo métodos de violão. Mas ele me pôs nos palcos, quer dizer, nós três, tocando flauta doce, eu com sete anos de idade, meu irmão com oito e minha irmã com nove. Mas só aos 14 anos que eu me apresentei mesmo com um violão, com ele, lá em [Vitória da] Conquista. A partir de lá venho acompanhando ele nessa jornada, que já faz muitos anos [risos]. E sempre essa parceria, de Dom Quixote e Sancho Pança, por esse Brasil afora, tentando levar essa cultura, essa arte, essa música, sei lá, resgatar culturas, resgatar não, guardá-las, guardar tesouros e fazer com que as pessoas se encontrem com esses tesouros de alguma forma.

Das barrancas do Rio Gavião está completando 45 anos em 2018. Alguma deferência especial a seu repertório durante o concerto?
Sim. Ele vai fazer a música Cavaleiro do São Joaquim, que fala praticamente dele. Ele como o menino do São Joaquim, como nascido nessa região, que na realidade é em [Vitória da] Conquista. É um disco maravilhoso, que fez esse lançamento incrível e teve sim uma repercussão muito importante. Vinicius de Moraes escrevendo [o texto de apresentação do disco] atrás, na capa dele, então meu pai está revivendo essa música assim, nesse concerto. Está no repertório.

Você era bastante jovem quando gravou violões em Xangai canta [cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de] Elomar, em 1986. Foi tua primeira experiências profissional? Relembra um pouco aquele período e os bastidores desta gravação.
A gravação do disco de Xangai nessa quadra foi um momento mágico pra mim. Primeiro que eu comprei meu primeiro violão com meu dinheiro, meu cachê, na época, que meu pai me deu. Comprei o Shigemitsu Sugiyama, que eu toquei, estou tocando com ele. Um amigo meu, [o violonista] Cao Alves, levou em São Paulo, deu uma reajustada no violão, está ótimo. Naquela quadra, os bastidores da gravação, me lembro que estava lá o Mário de Aratanha, que era da Kuarup, meu pai e Xangai, meu pai tocando pra Xangai cantar, ele escrevendo arranjos, acho que foi uma das primeiras vezes que ele escreveu para instrumentos de corda e sopro. Então ele estava naquela dúvida: “será que eu consigo escrever bem para esses instrumentos?”. Então, ele estava no chuveiro e falou: “é, Deus me ensina a escrever pra esses instrumentos”. Meu pai é muito cristão, a fé dele é muito forte, inclusive tem lá a gravação de A meu Deus um canto novo, já com arranjo de Jacques Morelembaum [violoncelista], já a segunda vez que Jacques estava junto com meu pai, primeiro foi no Auto da Catingueira [1983], e depois lá, nessa gravação. Foi um momento muito especial, músicos excelentes, um ambiente muito agradável. E pra mim é um dos discos mais belos que Xangai já gravou, Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar. É um apanhado de gêneros que meu pai faz e que também de certa forma evoca tropeiros e vaqueiros.

Apesar da aversão de Elomar à internet, você acredita que ela traz novos admiradores, sobretudo de novas gerações, à sua obra? A propósito, como vocês lidam com o fato de o consumo de música hoje se dar majoritariamente por via digital?
Traz novos admiradores, eu mesmo encontrei com uma moça, lá em Belo Horizonte, quando nós fomos tocar, que ela disse que encontrou meu pai no youtube, por que estava em reprodução automática, e ela achou curioso e buscou mais músicas, viu que ele estava se apresentando em Belo Horizonte, no Sesc, então ela foi conferir, foi assistir, gostou muito. É muito curioso ter um público jovem indo a concertos de meu pai. Mas quanto à questão de mídias digitais, acho que meu pai preferiria até o vinil. Ele acha que essa reprodutibilidade assim é uma coisa ruim para o artista, por que afinal de contas ele faz o disco, todo mundo copia, todo mundo solta na internet de forma gratuita. Na realidade querem uma gratuidade que é o pão que o artista ganha.

A cantora Titane lançou recentemente um disco [Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, 2018] inteiramente dedicado ao repertório de Elomar. Em entrevista, ela reconheceu a força que vocês deram a ela durante todo o processo. O que vocês acharam do resultado final?
A Titane fez essa gravação desse disco, foi uma inspiração dela, por que ela participaria na gravação do dvd do Auto da Catingueira. Mas como não foi adiante, ela acabou se envolvendo mais de perto com a obra dele e resultou nisso, na gravação de um disco. Ela é muito segura, ela tem o jeito próprio dela de cantar, uma pessoa muito profissional, muito carinhosa, muito carismática. Ela aproximou do bode, foi na fazenda, acho que a produção de um disco foi muito boa, ainda mais com músicos que trabalharam também nas transcrições das canções dele, como o Hudson Lacerda. Nós gostamos muito do cuidado dela, do interesse dela, e meu pai tem, de certa forma, permitido gravações de músicas dele por muitos grupos diferentes. Para o seu susto, ou para o susto do público, dois rappers no Rio de Janeiro gravaram O violeiro, foi uma autorização que meu pai deu. Ele gostou muito de ver como pessoas de um grupo, de uma cultura diferente, escolherem uma música dele, em dialeto, pra fazer o rap. Foi muito interessante, nesse sentido. A Titane não, ela já é da cantoria, dessa música popular, da música popular mineira, ela é uma representante já tradicional, uma pessoa conhecida da gente de muito tempo. Então, é muito mais tranquilo nesse sentido, de absorver o trabalho de meu pai, de traduzi-lo, e de produzir algo, assim, dentro de uma estética, com todo cuidado que ela merece. E na realidade, a apresentação é muito bonita, a apresentação de lançamento que ela fez, toda a parte cênica maravilhosa, ela está de parabéns.

O disco mais recente de Elomar é O menestrel e o sertão mundo [2016], gravado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense. Há quatro anos vocês passaram por São Luís com o concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, supostamente título de um novo disco. Como está este? Há planos de novo disco ou novos discos?
Gravamos esse disco com a orquestra da UFF e foi uma experiência maravilhosa, músicos excelentes, o maestro Tobias [Volkmann], de uma educação e de um acolhimento incríveis. Foram todos muito cuidadosos e foi um momento muito especial. Gostei muito de executar a Antífona [Número 11 Alfa, Ecos de uma Estrofe de Habacuque] para violão e orquestra, foi uma experiência incrível tocar com eles. Apresentamos lá, em Niterói e na [Sala] Cecília Meireles. O Riachão do Gado Brabo está parado, está a metade já gravado, e ainda falta concluir o restante. Meu pai é meio enrolado nesse sentido [risos], confesso. Talvez que ele se preocupe mais em escrever do que em gravar as músicas, por que a escrita perpetua muito mais do que a gravação. Então ainda está em projeto a conclusão deste trabalho. Eu não sei te dar uma data, nem te dar maior segurança quanto a quando ele vai estar pronto. Mas é sim um projeto. Esse seria o que poderia ser considerado como o último disco cancioneiro dele.

Além de músico acompanhante de teu pai há bastante tempo, você desenvolveu uma carreira acadêmica e uma carreira como solista e concertista de violão. Como é administrar estas agendas todas?
Não tem sido nada fácil administrar, por que eu tenho que cuidar de orquestra jovem, eu sou atualmente coordenador do Núcleo Neojiba, lá em Vitória da Conquista. Neojiba são Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Tenho que trabalhar, desenvolver outros trabalhos, arranjos para cd, as composições próprias, que eu também trabalho em composição, sair para concertos, realmente é uma agenda que está bem apertada. Mas eu tenho procurado dar conta dela, ou seja, 24 horas com música. Eu acredito que nós temos um trabalho importante a fazer, registrar, escrever, e a gente tem que buscar mais apoio pra ter um tempo mais específico pra dedicar, e talvez até dizer não para muitas propostas, se não o tempo não dá para produzir tudo. Mas eu tenho me dedicado sim a tocar com meu pai, primeiro por que já tocamos há tanto tempo, é uma parceria, já somos muito malungos na realização das apresentações, ele confia muito em mim, na pegada de meu violão para fazer o apoio junto com ele, nos entendemos imediatamente. Ele está cada vez mais cansado, já está com 80 anos, não é muito fácil sair viajando para tocar. Então, cada vez mais serão menos apresentações, e provavelmente as apresentações tenderão a ser mais lá mesmo, na localidade da gente, em Vitória da Conquista, lá na fazenda Casa dos Carneiros, onde ele construiu uma caixa cênica para realizar óperas, e tem também a sala, que é o Teatro da Lírica Mineira, uma sala menor, bem menor, mas para música de câmara, acústica. Então, não é fácil dar conta disso tudo, mas eu estou grudado, junto com o bode. É uma briga doida a gente, falando a verdade, eu sempre reclamo com ele sobre instrumentação, orquestração, e tal, mas no fundo ele me ouve, a gente acaba se entendendo em relação à produção dessas coisas, por que tem toda uma parte técnica, que a gente tem que passar a limpo partituras, para que esse universo da música sinfônica, esses músicos sinfônicos compreendam de forma melhor, uma música que pra eles ainda é nova ou está distante da própria cultura tradicional europeia. Então, precisa de muitas indicações, meu pai às vezes despreza essas indicações, mas eu sempre repito pra ele que é importante a gente encher de indicações pra que eles entendam e consigam mergulhar cada vez mais na música dele.

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Ouça Calundu e Cacoré (Elomar), com João Omar:

Hamilton de Holanda apresenta releitura afro de Jacob do Bandolim em São Luís

Músico falou ao blogue sobre influências, carreira e o show de hoje (18) no 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival

Jacob Black. Capa. Reprodução

Reinventor do bandolim, o brasiliense Hamilton de Holanda traz hoje a São Luís o show Jacob Black, cuja base do repertório é um dos quatro discos que dedica a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário – os outros são Jacob 10zz, Jacob Bossa e Jacob Baby.

No 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival ele sobe ao palco da Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), às 21h20, depois de Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, e antes de Ed Motta – veja a programação completa.

Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) estará acompanhado de Rafael dos Anjos (violão) e Bernardo Aguiar (percussão). Já apontado como o Hendrix do bandolim ele nega a referência em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos: está mais para Armandinho Macedo.

Foto: Felipe Diniz

Você está chegando de uma turnê com três discos. Como é administrar essa diversidade de parceiros e formações?
Isso vem em função do artístico, as coisas, as ideias, os encontros, as composições. O show que eu vou fazer em São Luís está muito ligado ao disco que está sendo lançado hoje, que se chama Jacob Black. É um dos quatro discos que eu estou fazendo em homenagem a Jacob do Bandolim. Este é um disco que tem um lado mais ligado à percussão, a características afro da música, foi gravado com dois percussionistas, o Thiago da Serrinha, o Luiz Augusto e o Rafael dos Anjos no violão. Em São Luís eu vou fazer com o Rafael dos Anjos e o Bernardo Aguiar na percussão. A gente vai fazer um show mais ligado a este repertório, mas vou fazer músicas minhas também, Caprichos, muito ligado também à improvisação, a gente gosta muito de improvisar. É tudo em função do artístico, as coisas que vão acontecendo, os encontros, e no final das contas eu acabo que tenho uma porção de discos, mesmo. Eu tenho 40 anos de idade, mas já tenho mais de 30 discos gravados e não paro. E vou fazendo cada vez mais, não quero parar.

Jacob é até hoje considerado a grande referência do bandolim no Brasil, mas você reinventa o instrumento. Há um passo adiante aí quando você coloca duas cordas a mais. Como é que foi esse processo de invenção, esse estalo? E a aceitação, por que você acaba, a partir disso, influenciando outros bandolinistas.
Na verdade, por incrível que pareça, a ideia veio do violão. Quando eu comecei a estudar violão, o universo da harmonia, dos acordes, isso me encantou de uma maneira definitiva. Eu fui aprendendo, tirava as músicas do João Gilberto, as harmonias do Tom Jobim, umas coisas assim de MPB e começava a tentar passar para o bandolim. E começava a tentar fazer aquilo que a gente chama de polifonia, misturando ritmo, harmonia e melodia. Eu via um violão, às vezes um pianista tocando, um acordeonista, tocando aquela coisa cheia, completa, e queria fazer no bandolim também. Daí tive a ideia, pedi para um amigo fazer um bandolim de 10, com um par de cordas mais graves, por que aí eu teria mais possibilidade de fazer essa polifonia. Foi daí a ideia. Isso foi desenvolvido com tempo. Em 2000 foi o ano que ele fez, o Virgílio Lima. No começo de 2002 eu me mudei pra França, fui morar sozinho, aproveitei, desenvolvi um monte de coisas, arranjos, compus músicas especialmente para o 10 cordas, foi um momento que eu desenvolvi bastante um tipo de linguagem para esse bandolim. Na verdade dentro dele também tem o de oito cordas, é um instrumento que você pode tocar as músicas do bandolim de oito cordas como um bandolim de oito cordas, só que ele tem esse recurso. Realmente, hoje em dia, 18 anos depois, eu vejo que muitos músicos estão tocando o bandolim de 10 cordas, alguns que tocavam o de oito passam para o de 10, alguns já aprendem direto o de 10, alguns guitarristas, já vi um monte de guitarristas que adora o bandolim de 10 cordas, não só no Brasil, como em outros países. Eu fico muito feliz de ter contribuído para o bandolim brasileiro.

Você vem obviamente da escola de Jacob do Bandolim, mas já foi considerado pela crítica como o Hendrix do bandolim. Mas a gente sabe que essa fórmula Jacob mais Hendrix é igual a Hamilton de Holanda não é suficiente para te explicar. Quem mais você colocaria no caldeirão de referências e influências?
O Hendrix eu não colocaria, por que ele não me influenciou em nada. Eu o conheci depois, bem depois. Se tem alguém que me influenciou com esse tipo de pegada foi o Armandinho, a influência que eu tive do Hendrix foi pelo Armandinho. Acho que é mais um apelido por alguma coisa relacionada ao instrumento, não à música em si. Eu colocaria o próprio Armandinho, o Raphael Rabello talvez tenha sido o cara que mais me influenciou, o Hermeto Pascoal, o Baden Powell, as composições de Milton Nascimento, do Tom Jobim, do Chico Buarque, os chorões, as músicas mais antigas, o Ernesto Nazareth, adoro jazz, adoro a música flamenca, o Paco de Lucia, me ligo em músicas da Venezuela, fui muito influenciado pela música da Venezuela. A minha maneira de ver a música é realmente plural. Eu tenho a minha língua, assim como nascido no Brasil, eu falo português, é a minha língua mãe, eu aprendi a falar inglês, francês, espanhol, eu aprendi a tocar jazz, a tocar flamenco, são outras linguagens. Mas a minha linguagem materna é o choro, então eu tenho essa possibilidade de ter a minha raiz, a minha árvore, que é o choro, o samba, o frevo, meus pais são pernambucanos, mas meus braços e meus galhos vão crescendo pra lados que eu gosto de conhecer. Eu gosto de música, sou curioso, gosto de conhecer. Por isso minha música tem essa cara, como um Brasil que vai pro mundo.

Você está vindo a São Luís com o show de um disco em homenagem a Jacob do Bandolim, que é um grande nome do choro. São Luís acabou se configurando como uma importante praça de choro, ao lado de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. O que você conhece de música do Maranhão em geral e de choro particularmente?
De choro particularmente eu conheço o Robertinho Chinês, e outro dia eu vi um vídeo do Wendell Cosme, quebrando tudo, muito bom, muito bom, adorei. Eu sei que aí tem uma cena forte, meu amigo das antigas João Pedro Borges, violonista. Ontem mesmo eu estive com a Marrom [a cantora Alcione], no Prêmio da Música [Brasileira], minha amiga. Hoje eu quero conhecer mais gente aí.

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Ouça A ginga do Mané (Jacob do Bandolim), com Hamilton de Holanda:

A pulsação do Sangue negro

Pianista que ajudou Lenine a superar trauma com teclas, o jovem recifense Amaro Freitas toca sábado (11) em Barreirinhas, no Lençóis Jazz e Blues Festival

Foto: Jão Vicente

O recifense Amaro Freitas é uma grata revelação da música instrumental brasileira. Estreou como gente grande: em 2016 lançou Sangue negro, em que seu piano é acompanhado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria), além das participações especiais de Eliudo Souza (saxofone) e Fabinho Costa (trompete), todos pernambucanos. A produção ficou a cargo do gaúcho Rafael Vernet, que já trabalhou com nomes como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Wilson das Neves (1936-2017).

É um disco de jazz. Ou se quisermos ir mais longe: é um disco de jazz brasileiro. E dizer isto, ao contrário de afunilar o rótulo, amplia-o: é que Amaro Freitas transita com desenvoltura por diversos gêneros e referências, com especial destaque para o frevo – o disco é aberto por um, Encruzilhada –, samba, afrojazz e balada.

Sangue negro chamou a atenção de Lenine e o pianista participou de Em trânsito (2018), disco novo do conterrâneo – ele toca na faixa Lua candeia (Lenine e Paulo César Pinheiro).

O pianista toca de graça dia 11 de agosto (sábado), às 20h15, na Av. Beira-Rio, em Barreirinhas/MA, na programação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – veja a programação completa. Ele será convidado do guitarrista paraense Delcley Machado. Amaro Freitas conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Jão Vicente

Eu gostaria que você começasse do começo: como foi sua infância e como você chegou ao piano?
Sou pernambucano, recifense, moro na periferia de Recife. Eu comecei na igreja. Meus pais são evangélicos e a igreja tem um papel social muito forte nas periferias. Meu pai quis montar um grupo, ele é o grande responsável por eu ser o que sou hoje. Lá no início, quem plantou tudo isso foi ele. Meu pai quis montar um grupo na igreja, eu era muito novo, tinha 10 anos, 11, e me colocou para tocar bateria, me ensinou um pouquinho de bateria. Ele toca um pouquinho de cada instrumento, não é um profissional, mas ele entende um pouco, toca um pouquinho. Na igreja vários meninos queriam tocar bateria, por conta do instrumento, e ninguém queria tocar o teclado. Aí meu pai: “pô, tu não quer tocar o teclado?” E eu: “não, é muito difícil”. Só que aí ele insistiu e foi me ensinando a tocar teclado e eu fui tomando gosto. Eu tomei goto de uma forma tão grande que eu não queria fazer mais nada, a não ser tocar teclado. Chegava da escola e me trancava no quarto pra tocar teclado, no lugar de estar empinando pipa, brincando, jogando bola, ou fazendo qualquer outra coisa, a minha diversão era tocar teclado. Com 15 anos eu entrei no conservatório pernambucano, só que aí com seis meses eu saí, por conta da condição financeira que a gente se encontrava na época, era uma condição difícil. Nessa idade eu ganhei um dvd de jazz, Chick Corea Acoustic Band. Isso pra mim foi assim importantíssimo, por que até então eu só tinha tido contato com a música da igreja. Escutava uma ou outra coisa assim na rua, mas o contato musical sempre foi com a música da harpa cristã, sacra e dos cantores gospel. Quando eu escutei, eu pensei: “pô, isso é possível fazer na música, velho?”. Aí pirei com a música instrumental, com Chick Corea, depois ganhei um dvd do Oscar Peterson, tocando com Ray Brown. Engraçado, a coisa da música instrumental entrou primeiro na minha vida, antes da cultura pernambucana. Eu só vou ter contato com a música pernambucana lá na frente, que aí eu estudei numa escola chamada Tritones, estava trabalhando de telemarketing e pagando esse curso da Tritones.

Tritones é uma escola de música?
É, o dono dela é Thales Silveira, um contrabaixista daqui, que estudou na Berkeley, abriu essa escola, tem curso de harmonia, arranjo, prática de conjunto, teoria musical, instrumento, enfim, eu estudei lá. E aí, engraçado que depois que eu saí dessa escola eu fiquei naquela coisa de “eu faço uma licenciatura musical na Universidade Federal de Pernambuco ou faço um outro curso?”. Tem um curso aqui chamado Produção Fonográfica, que é um curso mais voltado para esse meio artístico, de como funcionam os editais, de como funciona a divulgação na internet, a história da música eletrônica, e esse curso me cativou muito mais do que fazer licenciatura na Universidade Federal, pela proposta que eu queria dar para minha pessoa.

É um curso de nível superior?
Nível superior, isso. No lugar de ter ido estudar na Federal, eu fiz esse curso, paguei ele. É onde entra o piano na minha vida e essa coisa toda da cultura pernambucana. Eu fui aos restaurantes aqui em Recife e aqui tem uma coisa muito forte de piano bar. Comecei a ver a galera tocar e daqui a pouco eu estava trabalhando com isso. Passei uma temporada no interior, em Gravatá, uma cidade daqui, tocando num restaurante lá, voltei para Recife, comecei a tocar na Pizzaria Atlântico, e era com esse dinheiro da Pizzaria Atlântico que eu pagava o curso, e juntava sempre um dinheiro no banco. Quando eu terminei o curso de Produção Fonográfica, eu já estava conhecendo Chico Science muito bem, o movimento MangueBit, ganhei um livro de Capiba e comecei a estudar a música de Capiba, os frevos, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, tudo isso que é tão rico e importante na nossa cultura. E pensei em gravar o meu primeiro disco.

Sangue negro. Capa. Reprodução

Isso se traduz na sonoridade desse teu primeiro disco, todas essas influências, do jazz, do mangueBit, dessa turma mais ligada ao frevo.
Todas essas influências, sim. Eu te digo que foi aí onde eu conheci também o trabalho do Spok, que é com orquestra, e esse trabalho foi uma motivação pra mim e pra muitos artistas pernambucanos, de ver um cara, que sabe que veio das bandas de baile daqui de Recife, conseguir montar uma orquestra, conseguir ter sucesso com sua orquestra, conseguir levar sua verdade pro mundo. Então todas essas coisas acabaram influenciando minha música. A música de Capiba, obviamente, os choros, as valsas, que eu estudei dele, um pouco também dessa música de fora, aí escancarou, virei fã do Thelonious Monk, do Brad Melhdau, do Herbie Hancock, de todos esses grandes pianistas, de pianistas com uma pegada mais concreta, que veem o piano de uma forma mais rítmica, como é o caso do Craig Taborn. São pianistas que pensam de forma diferente o piano, é muito mais a cabeça de como ele pensa a execução da música e o que ele valoriza como ritmo do que técnica, enfim. Esses pianistas também me influenciaram junto com os pianistas brasileiros, que a gente tem, o Marcos Valle, João Donato. Na minha música eu senti toda essa pressão, e vi que isso é nosso, e comecei a compor as músicas e queria muito gravar o disco. Foi um trabalho, eu posso dizer que, tocando piano bar, eu fui conhecendo os músicos da cena de jazz da cidade e fui tocando com esses músicos, mas a minha vontade sempre foi fazer um trabalho autoral.

Como é que você chega aos músicos que te acompanham em Sangue negro, o baixista e o baterista? É nessa cena do piano bar?
O baixista é nessa cena do piano bar. Eu tocava pra um cara que colocava pianos em restaurantes e um dia ele colocou esse baixista que me acompanha, que é o Jean Elton, pra que a gente tocasse uma gig num restaurante aqui. Quando eu conheci Jean, achei Jean foda, “caramba, esse cara toca muito bem, que respeito à música” e tal. Jean tem certa leveza e respeito, parece um lorde tocando, é muito bonito vê-lo tocar, e o som que ele tira do instrumento também. Comecei a ir ver Jean tocar com um pianista chamado Toni Eucatã, que era um mestre, ele morreu faz dois ou três anos e ele tocava numa casa de jazz aqui chamada Mingus. Quando Toni morreu eu assumi o lugar dele nessa casa e comecei a tocar com Jean e a desenvolver uma amizade e uma linguagem musical também. Quando eu estava querendo um baterista para gravar meu trabalho, um outro amigo disse: “olha, tem o Hugo, que é professor do conservatório, por que você não fala com ele?”. Minha ideia, no início, era gravar standards de jazz, famosos e outros, lado b, que ninguém conhece muito. Quando eu cheguei pra Hugo, pra propor isso, foi muito engraçado, ele disse: “olha, eu gosto muito de trabalhar com música autoral. Se for pra gravar as tuas músicas, eu tou a fim, mas se for pra gravar os mesmos standards de jazz, eu não quero não, velho”. Aí eu disse: “caramba, bicho” [risos].

Então você deve essa guinada a ele, por que você estreia com uma moral danada, o disco recebe críticas elogiosas nos principais veículos, de algum modo você é apontado como uma grata revelação da música instrumental autoral brasileira.
É justamente isso. Por quê? Eu tive o cuidado. Na vida, eu acho o seguinte, a gente tem vários exemplos, a nosso redor, do que deu certo, do que deu errado, de como fazer. Às vezes o músico, ele está muito envolvido com essa coisa romântica do trabalho, mas a burocracia é uma coisa tão necessária e ela precisa ser feita com excelência. Foi aí onde eu acertei. Além da boa qualidade do disco. Por que às vezes a gente vê um disco que tem uma sonoridade legal, mas o disco não tem uma capa legal, o disco é muito longo ou é muito curto, e as pessoas que trabalharam no disco foram de um tamanho muito grande. Hugo e Jean, eles compraram a ideia, a gente teve dois meses ensaiando três dias por semana, pra fazer a pré-produção desse disco, por que até então era um grupo que não tocava junto. A gente se uniu pra formar o repertório e gravar o disco. A gente ganhou a participação de Eliudo Souza, no saxofone, tocando Estudo 0 e Sangue negro, e Fabinho Costa, no trompete, tocando também essas duas músicas. A produção ficou com Rafael Vernet, que é um cara que eu sempre fui fã, eu peguei uma aula com Rafael no Rio de Janeiro, quando eu fui tocar, eu marquei uma hora de aula com ele e a gente ficou três horas e meia. A aula de Rafael, ele tem uma parada que é incrível. Ele consegue verbalizar muito bem a música, ele vem de uma família de filósofos, ele traz toda essa carga filosófica junto com a musicalidade e consegue te fazer entender e até te questionar sobre o que você quer, como você entende a música. Rafael foi muito necessário durante esse processo da pré-produção do disco, ele acompanhou, eu mandava vídeos, tinha um trecho no final da música que, tipo, matava a música, a música vinha num negócio tão lindo e no final eu coloquei um negócio latino, que não tem nada a ver, aí Rafael dizia: “Amaro, por que você fez isso? Tira isso, cara”. No dia da gravação, foi muito legal, ele chegou um dia antes pra ver as músicas ao vivo e a gente começar a gravar no outro dia. Aí ele começou a falar de dedo, de volume da mão esquerda, da quantidade de coda, de improviso, da repetição, foi incrível, eu queria improvisar três coros, só que três coros a gente não conseguia ficar bem, e ele: “você vai improvisar um coro só”. “Mas Rafael…”. “Não, vai ser um coro só”. Então a gente gravou no melhor estúdio da cidade, a mixagem e a masterização foram feitas aqui em Recife com grandes técnicos. O cara que fez a arte, que foi o Thiago Liberdade, também é um cara muito sensível, um cara muito inteligente, Iara Lima, que fez a assessoria de imprensa, de divulgação. Eu sabia que só Amaro Freitas não teria condições de fazer isso tudo. Eu precisava me reunir com profissionais da música que tivessem uma leitura e vissem aquilo que eu não conseguiria ver. Eu só consegui enxergar o que Rafael Vernet enxergava no estúdio seis meses depois [risos]. Eu disse: “caramba, se eu improvisasse três coros ia ficar feio, se a música repetisse mais uma vez ia ficar cansativa, não é que ele tinha razão?”. Eu acho que o trabalho coletivo e colaborativo é o resultado do sucesso do Sangue negro. Também ao mesmo tempo tem uma outra coisa: formar uma banda é uma parada muito difícil. Na banda todo mundo opina e todo mundo decide. E todo mundo tem que dividir os custos. Foi uma das primeiras coisas muito, mas muito importantes. Eu chamei a responsabilidade pra mim, o trabalho é meu, mas quando a gente sobe no palco o Amaro Freitas Trio é como se fosse um triângulo, tem três pontas, mas funciona como um único objeto, não tem Amaro maior que Jean, é tudo a mesma coisa. Só que na responsabilidade dos pagamentos financeiros, na gravação do disco, eu juntei esse dinheiro todo da Pizzaria Atlântico, que eu te falei, junto com os pubs de jazz que eu tocava pra pagar todo esse gasto do disco. Eu gastei 20 mil no disco, tudo isso saiu do meu bolso. A coisa funciona também por conta disso, alguém precisa chamar a responsabilidade. Eu procuro também ser o mais justo por que eu sei da atuação e dedicação dos músicos no meu trabalho. Sangue negro começou por aqui, por Recife, a ser divulgado nos jornais, a gente conseguiu passar no festival Savassi, ganhamos o prêmio Savassi de Novos Talentos, em 2016, a gente foi pra BH, ganhamos o prêmio Mimo, também em 2016, e aí o Sangue negro começou a escorrer.

O título do disco, Sangue negro, foi natural a escolha? Na sonoridade das faixas a gente percebe uma devoção às raízes negras da música, os estilos pelos quais você passeia, afrojazz, frevo etc. Mas existe aí uma espécie de manifesto contra o racismo vigente no Brasil?
Eu te confesso que essa coisa foi ficando mais forte. Quando eu pensei em Sangue negro, a música, eu pensava uma música que representasse o negro na minha visão. E o negro se lascou muito, ainda hoje sofre demais. Tem coisas que você sendo negro você olha pro mundo e você diz: “por que isso é assim?”. Eu não consigo entender por que eu chego nesse lugar e é essa loucura. Então Sangue negro tem essa abertura já no bebop, mas depois vira uma coisa meio experimental, que é a pessoa tentando se encontrar, tentando entender. Traduzindo isso em palavras: “o que é que tá acontecendo?”. Aí vem a dança negra, que é o afrojazz, depois desemboca no improviso de todo mundo, no bebop, que foi desenvolvido também por negros. Volta pra um pedaço experimental e depois a dança de novo, o afrojazz, e acaba a música. Quando a gente acaba de tocar essa música estamos todos pulsando, nosso sangue, até por que a gente toca essa música com muita gana. Tá todo mundo suado. Eu acho que essa música representa também no sentido físico, literal, essa pulsação do sangue negro na execução da própria música. E aí, quando eu fui fazer o disco, a gente pensou em colocar o título do disco Encruzilhada, a gente estava com dificuldade pra chegar ao resultado da arte do disco. Foi quando Iara sugeriu que eu fizesse um ensaio fotográfico com Rafael Medeiros, pra ver se a gente conseguia chegar a um resultado melhor do que tudo que vinha sendo desenvolvido. Aí o Thiago Liberdade escolheu essa foto, que é a foto do disco Sangue negro, e colocou esse filtro. Quando eu vi essa foto eu disse: “caramba, velho, o título tem que ser Sangue negro, não tem como”. Eu acho que mais uma vez o trabalho coletivo chegou nesse lugar. A importância da Iara, a importância do Rafael Medeiros, do Thiago Liberdade, a gente discutiu isso e chegamos juntos nesse resultado. É um disco que representa o negro, que fala da minha realidade como negro também, fala desse protesto, de pianistas negros no país, a gente tem o Moacir Santos, que é um cara daqui de Pernambuco, e nem é conhecido aqui.

Eu ia falar nele por que o Sangue negro me remeteu a Ouro negro, que é título de um disco dele. Eu ia te perguntar se tem alguma influência o trabalho do maestro Moacir Santos, que também é negro, também é pernambucano.
Com certeza! Quando eu escutei Moacir, ele é um cara que trabalha a música brasileira de forma totalmente diferenciada dos outros. Ele vai muito pras claves afro, isso é um negócio assim fora da curva. Só que Moacir é negro, aí tu vai ver que os pianistas mais lembrados do Brasil não são os pianistas negros. A gente tem o Dom Salvador, pianista negro, mas são poucos pianistas negros, são pianistas que a gente escuta muito pouco. A gente vai ouvir falar do César Camargo Mariano, do Luiz Eça, do João Donato, do Tom Jobim, mas esses pianistas negros a gente ouve muito pouco. E eles, na verdade, ganharam uma reverência enorme fora do Brasil, fizeram um nome fora do Brasil, isso é indiscutível. Eu queria reforçar essa coisa do piano negro, do cara negro conseguindo ser pianista, que é um instrumento tão elitista, tão separatista. As pessoas não têm acesso a esse instrumento por sua delicadeza, por seu valor, é um instrumento tão caro, quando tu vai ver a maioria dos pianistas brasileiros são brancos. Eu acho que fazer música autoral, ter uma foto dessa na frente, uma foto com black, o nariz de porrota, achatado, negro, ali, com suas características, fazendo uma coisa que não é muito comum, apesar da gente já ter o Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, o próprio Moacir, mas não é comum você trazer essa música do frevo, maracatu, pro piano. O samba jazz é a coisa que mais se desenvolveu. E se você pensar na cena do sudeste é basicamente isso, o jazz brasileiro é o samba jazz. Então eu poderia dizer que isso já se desenvolveu muito forte no piano. Mas o frevo, o baião, o maracatu, a ciranda, essas coisas não são muito trabalhadas no piano, o maxixe. É uma outra forma de protesto que é trazer os instrumentos acústicos, piano, baixo acústico, bateria, pra tocar essa música nordestina, sem ser nos instrumentos tradicionais, que é a sanfona, os sopros, zabumba, triângulo, e outras coisas.

O selo inglês Far Out te encomendou um disco. Como é que está esse processo?
O disco foi gravado, nove faixas, todo autoral. Eu posso dizer que esse disco vem mais forte que o Sangue negro, no sentido de um trabalho de campo muito mais apurado. Eu fui a Arco Verde, conheci a música de Arco Verde, a gente tem mais de 29 modalidades de coco. Tem um coco de Arco Verde que se chama trupé, a característica desse coco é que ele é tocado com uma sandália de madeira em cima de um tablado, junto com toda a orquestração que há no coco, e as vozes cantando. A célula rítmica que se trabalha com essa sandália de madeira, “tac, tatac, tatac, tac, tatac” [imita o som da sandália de madeira, no ritmo], só que as pessoas fazem isso com o pé. E eu peguei essa célula rítmica e transformei em melodia. Então eu estou dando vez a um ritmo num lugar daquele canto, “ô lerê, ô lerê, ô lalá” [cantarola]. Eu não estou trabalhando esse canto tradicional do coco, eu pego o ritmo, que é a característica do trupé, e transformo esse ritmo em melodia. Então eu começo a distribuir isso pela banda, a gente vai ter [as faixas] Coco Trupé, tem Dona Enir, que é um baião, a gente tem Rasif, que é uma ciranda em homenagem aos arrecifes de Recife. Os arrecifes tinham esse nome antes de se chamar Recife, que é um nome árabe.

Foi título de um livro [Rasif – Mar que arrebenta, Record, 2008] do Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo.
Isso! Meu amigo. Daí é que vem a minha inspiração para colocar o nome dessa ciranda, Rasif, pedra rochosa onde a água bate, tem um significado. Eu queria fazer uma homenagem ao mar de Recife, e peguei esse nome e coloquei nessa ciranda. É uma ciranda que tem uma perninha a mais. Geralmente a ciranda é em quatro, falando em compassos, essa ciranda é em cinco. Só que ela vem com um clima muito balada jazz. É sempre esse contraste, que é uma coisa que eu já trabalhei no Sangue negro, tem um frevo balada, Subindo o morro. O disco ele vem muito temático, mas vem também com um trabalho de pesquisa na cultura pernambucana ainda mais forte, mas com muito improviso, com uma dinâmica diferente. É um pouco diferente do Sangue negro, tem um pouco mais de profundidade. É a primeira vez que eu estou assinando com um selo britânico, com um selo gringo. Esse é um selo britânico, o Far Out, a gente fez um contrato de cinco anos, o disco primeiro será lançado na Europa, pra depois ser lançado no Brasil, já encerramos algumas etapas, o disco está na etapa agora de fazer a arte. Isso é uma coisa muito engraçada, por que a arte que vai ser desenvolvida lá fora, provavelmente não vai ser a arte que vai ser desenvolvida aqui no Brasil, por que eles precisam de um estereótipo diferente do nosso, tipo, eles precisam colocar no disco “Recife”, ou “Brasil”, pra dizer que o trabalho é de um lugar diferente da região deles. Eu acho que a arte do disco pode ser aproveitada, mas a gente vai ter o mesmo disco em dois formatos. Tudo depende do andamento da Far Out, nossa parte já foi feita e a Far Out tem ainda um tempo, pelo prazo do contrato, pra entregar arte e prensagem do disco.

Foi gravado pela mesma turma do Sangue negro?
Foi gravado com meus companheiros e escudeiros fiéis, Jean e Hugo, e teve a participação de um pernambucano também, chamado Henrique Albino, que é um multi-instrumentista daqui, muito bom, ele participa tocando flauta, clarone e sax barítono. Essa coisa de gravar o disco com um trio, com o passar do tempo a gente conseguiu desenvolver uma linguagem ainda mais peculiar, muito mais íntima, entre nós, conhecendo sinais e movimentos muito pequenos, a gente já consegue se conectar de uma forma muito grande. Isso pra mim é valiosíssimo. De início eu pensei em várias participações, depois eu voltei atrás e pensei: “não, o que a gente está fazendo é isso, eu não posso quebrar, de repente não vai funcionar”. Aí a gente chamou Albino, que é um cara muito próximo meu também, um amigo, e decidimos que ele seria a única participação do disco. O disco vem um pouco maior, existe uma espera muito grande por esse segundo disco, isso me deixa muito motivado também por que a maioria dos críticos está esperando esse disco para falar sobre ele. Tem coisa que é coisa de crítico, querer comparar com Sangue negro, enfim. É um disco que está sendo esperado. Eu fico feliz de poder fazer mais um disco de música autoral e de repente estar incentivando várias pessoas a fazerem esse tipo de trabalho. A gente tem que pensar na música da nossa época. 2018, o que é que estava acontecendo no Brasil? Lá na frente o pessoal vai querer saber desse tipo de trabalho. Como a gente hoje conhece Ouro negro, o trabalho de Hermeto, o trabalho de Capiba, por que eles deixaram uma música autoral deles registrada na história. Eu tenho uma preocupação muito grande hoje de dar esse alerta, esse empurrão, essa chamada. Vamos fazer nossa música. É bom tocar standard, é bom demais, eu tenho uma reverência muito grande por todos os grandes mestres e por todos que lutaram pela música instrumental em geral, fora do jazz também, sabe?, mas eles tinham as músicas deles. Uma coisa que vai acontecer nesse meu segundo disco é essa relação com a vida que a gente tem hoje. Hoje a gente tem uma vida corrida, uma vida frenética, a gente quer que chegue logo o fim do dia, a gente não consegue mais namorar o entardecer, ou o amanhecer, hoje a gente quer que chegue logo o fim de semana, o fim do mês, o fim do ano, por conta do décimo terceiro salário, essa agonia.

Quer que chegue o fim do ano pra ver se esse governo ilegítimo deixa o cargo, não é?
Pois é. Essa bagunça que tá, essa safadeza, essa anarquia. O disco vem com uma pitada disso. Ele tem umas músicas que são meio quebradas, meio frenéticas, com aquela vontade de sair correndo. Eu acho que isso é muito valioso, por que a gente registra de uma forma muito particular o que se passa nos dias de hoje.

Como foi a participação em Em trânsito, disco novo de Lenine? Na tua opinião, é mais um endosso a teu trabalho?
Eu te confesso que foi incrível. Eu não esperava. Lenine foi assistir a um show meu na Blue Note, no Rio. Ele é um cara incrível nisso, está em uma de pesquisar o que está acontecendo. Ele viu que ia ter meu show, foi assistir. No fim do show, ele disse: “cara, eu tive um problema com teclas durante um tempo”, por conta daquele movimento todo que aconteceu nos anos 1980, aqueles teclados de plástico, aquela música americana invadindo o Brasil, os pops brasileiros. Lenine fez uns trabalhos naquela época que meio que criaram um trauma, uma trava nele. E ele disse que me ver tocar piano trouxe uma grande alegria por que quebrou esse trauma. Ele disse: “não é um preconceito, mas você olha diferente”. Ele disse uma coisa pra mim que eu fiquei muito feliz: “a tua música é totalmente diferente da minha, mas eu sinto Pernambuco na tua música, de uma forma tão grandiosa, como eu sinto em qualquer um, em Alceu [Valença]”. Eu guardei essa frase e acredito muito nisso e nessa missão de estar lutando por essa música. Aí Lenine disse: “a gente vai fazer alguma coisa, eu não sei o que é ainda, mas a gente vai fazer”. Eu disse: “beleza, vamos nessa!”. Mas não esperava nada. E aí, com o passar do tempo, ele me liga, eu tava almoçando, ele: “ó, aqui é o Lenine”, e eu: “eita!”. E ele: “eu queria te chamar pra fazer uma participação no meu disco, eu nunca sou de chamar as pessoas pelo nome, eu sou de chamar pessoas que me tocam e eu sinto que gostaria muito de trocar com essa pessoa. Eu quero que você participe, você e Carlos Malta”. Ele comprou minha passagem, perguntou qual era o piano que eu queria, a equipe de produção muito cuidadosa, muito gentil, carinhosa. Cheguei, tive apenas dois dias inteiros com Lenine. Cara, eu conversei muito. Eu parecia um jornalista, interrogando. Por que é muita coisa que o cara tem pra dar. Lição de vida, visão de mundo, de como ele conseguiu driblar, vencer. E aí a parte mais difícil pra mim foi quando ele disse: “faz o arranjo e eu já sei que seu arranjo vai ficar bom”. Eu disse: “caramba!”. Olha o tamanho da responsabilidade…

As ruas do mundo como escola

Retrato: Zema Ribeiro

 

Vini de Vici literalmente corre o chapéu. Ele está se apresentando semanalmente às quartas-feiras, entre 18h30 e 20h, no calçadão em frente ao Cafofo da Tia Dica, no Beco da Alfândega, Praia Grande. Seu cachê é o que consegue catar no chapéu defronte a si e o dinheiro que consegue vendendo seu primeiro cd, de que desenhou capa, contracapa e selo.

A arte que ilustra a capa de seu primeiro disco. Reprodução

Conheci-o por acaso: estava sentado na calçada oposta à em que ele se preparava para ocupar, quando seus acordes ao violão chamaram minha atenção e de Tião Carvalho, que eu entrevistava na ocasião. O repertório era fino e brasileiríssimo: peças de Baden Powell, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes.

Comprei o disco para puxar conversa e conseguir o contato. Americano de Minnesota, Vincent James DeRasmi tem 37 anos, é filho de músico e roda o mundo tocando na rua. “Eu não vou tocar na rua para sempre”, diz como que para si mesmo durante a entrevista, embora considere a rua uma escola.

Trabalhou em restaurantes, bares, construção, sindicato, “construindo palcos, em teatros, fiz qualquer coisa para apoiar minha música”, revela.

O artista é um incansável e obstinado pesquisador, procurando sempre beber da fonte. É literalmente uma enciclopédia ambulante das sonoridades do mundo, um viciado em descobrir o novo. Uma semana depois de nosso primeiro encontro, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Zema Ribeiro

Teu nome tem origem italiana?
Na verdade meu nome é Vincent. Esse nome vem de um dito em latim, “veni, vidi, vici”, que significa “vim, vi e venci”. É um jogo de palavras, por que o apelido de Vincent é Vini. Eu tentei pegar Vini Vidi Vici, mas alguém já pegou, então Vini de Vici.

Você é natural dos Estados Unidos. De onde, de que região?
O meio oeste. Tipo, Minnesota, um estado bem ao norte, fronteira com o Canadá. O Rio Mississipi começa lá.

Então você tem um sangue meio blueseiro?
Meu pai toca trompete, ele viajou pela Europa e todos os Estados Unidos, fazendo blues, jazz, folk, Joseph DeRasmi. Ele começou a obter um nível de sucesso e eu vi que era possível viajar o mundo com música. Ele não é como famoso, mas por um momento viveu de música. Por isso eu comecei a seguir meu caminho, a dedicar minha vida à música.

Você já passou por outros países? Pergunto por que teu disco tem 12 faixas e tem muito essa temática de viagem. Fala um pouco dos lugares por onde você já passou e se foi sempre a música que te levou a esses lugares.
Sim. A primeira viagem eu fiz em 2010 e fui à Espanha. Eu sou roqueiro e tive grupo de heavy metal por muitos anos. Rock, heavy metal, funk, groove. Cansei. Ter uma banda é como estar casado com quatro outras pessoas, é complicado. Tenho saudades, mas enfim, cansei de tudo isso. Fui à Espanha para estudar flamenco, pegar as técnicas do violão. Essa foi a minha primeira viagem e abriu minha mente. Para verdadeiramente aprender uma música você tem que ir à fonte. Qualquer país, qualquer região onde tem qualquer ritmo que você queira aprender. Depois disso minha mente começou a virar, fui à Costa Rica, conheci algumas pessoas viajando por muito tempo e abriu ainda mais minha mente sobre viajar, tocando na rua, nos restaurantes. Em qualquer lugar que eu tocar, a gente apoia [as pessoas apoiam]. Aprendi isso com outros amigos que conheci no Peru, tenho muitos amigos no Peru. Eu aprendi a trabalhar com a música, como artista da rua. Depois do Peru eu fui ao Equador, Colômbia, toda América Central, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, El Salvador, Belize, México. Então voltei a meu país e vendi tudo o que tinha para pagar dívidas e voltei ao Peru para seguir ao sul. Passei por Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Uruguai, voltei à Argentina e estou aqui. Mas todo tempo estudando os ritmos do lugar. Quando estava na Bolívia, eu toquei música boliviana nos mercados. Para pegar o ritmo do povo da terra onde estava no momento.

Dá para dizer que musicalmente você procura se adaptar à cultura local? Por exemplo, você nunca fez música americana fora dos Estados Unidos, música espanhola fora da Espanha?
Sim, eu fiz. Muita gente fala, como aqui no Brasil, “você poderia ganhar muita grana tocando música americana”. Pode ser assim, mas eu não viajei tão longe para tocar a música que já toquei lá. Pode ser um caminho um pouco mais difícil, mas eu quero tocar, como agora estou no Maranhão, tentei pegar alguns bois, Papete, eu não posso aprender tudo, mas eu creio no repertório, na viagem do som. Se tem uma hora e posso tocar música do México até aqui, essa é a minha ideia, por isso eu fiz a arte [do cd] com o mapa do mundo.

O que me chamou a atenção te ouvindo tocar semana passada foi justamente o repertório. Eu ouvi cerca de meia hora em que você passeou por Zequinha de Abreu, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Ernesto Nazareth. E agora, você já até antecipou uma pergunta que eu tinha, que era se você já conhecia os compositores do Maranhão e você falou de Papete, que tinha algumas composições, mas era mais intérprete e percussionista. Você conhece o trabalho de outros artistas daqui?
Eu vim aqui para encontrar um amigo que conheci no Rio de Janeiro, tocamos juntos, ele toca um pandeiro na linha rap, se chama Pensativo do Pandeiro, é o nome artístico dele. Tocamos bastante aqui também, temos uma química muito boa quando tocamos, nem sempre dá. Através dele conheci [a obra de] Papete, alguns bois, como “se não existisse o sol” [cantarola]. Eu fiz a minha própria versão, por que em boi não há violão. Vários ritmos, como o coco em Pernambuco, não há violão, a salsa, na Colômbia, não há violão. Vários ritmos eu tenho que criar uma versão no violão, por que esse é meu instrumento, para adaptar a melodia.

No disco você toca vários instrumentos, mas o violão é teu instrumento principal.
[Além de violão] Eu toco berimbau no disco e um pouco de pandeiro na faixa oito [Renew]. Meu mestre de capoeira, que conheci no Rio de Janeiro, mestre do samba também, ele falou que se eu precisasse de ajuda com a percussão… Ele se chama Mestre Duda Pirata.

Esse é teu primeiro disco?
Sim, é o volume um. Está disponível no spotify, é possível fazer o download em todas as plataformas digitais. O volume dois já está pronto, mas vou divulgar apenas em novembro.

Está gravado? Vai prensar e distribuir como um cd físico ou só digital?
Desse disco eu fiz mil cópias, é mais barato se você imprime mais. Cd ainda faz parte da indústria musical, mas a maior parte das pessoas, eu incluído, nem tem máquina de [tocar] cd mais. Notebook nem tem mais entrada pra cd. Volume dois, por enquanto, não tenho tanta grana, faz seis anos que estou viajando, vou divulgar primeiro digital, só na internet.

São Luís é mais uma parada, já tem uma pretensão de outro ponto?
O Brasil tem muita riqueza, é enorme, é incrível como muda o som em qualquer lugar. Eu vi tambor de crioula uma vez e chega aqui tem quase todo dia, se procurar, vai encontrar, pelo menos em junho, no São João. Para mim foi uma bomba cultural. Tenho vontade de ir ao Pará, terra do carimbó, quero conhecer mais o Norte, o Amazonas, os ritmos indígenas. Quando estive em Pernambuco fiquei numa tribo, os Xucuru, no sertão, lá eles só tocam maracá, cantam, batem palmas. Maracá está atrás, não sei todo o ritmo, mas coco, capoeira, boi, o maracá é um instrumento muito forte. Estou procurando as raízes da música, do folclore. Meu interesse vem dos indígenas e da África.

Se a gente tentasse definir esse teu interesse, essa tua busca permanente por um som novo, pelas raízes, a gente poderia dizer que você está sempre em busca de um aprendizado, uma busca eterna por um aprendizado?
É quase um vício, aprender algo novo, como a alimentação, minha alma, minha mente, minha arte também. Eu tenho um som que vem de dentro, componho, você viu no meu cd, e não penso “eu vou compor uma música como baião, vou compor um samba”. Sai. Aprendendo vários ritmos assim, o som que sai de mim fica mais eclético, por causa das coisas que estou absorvendo em meu caminho. Eu gosto.

No teu disco a gente percebe uma inclinação para a música instrumental, mas há faixas cantadas e em vários idiomas. É um pouco também uma maneira de demonstrar esse acúmulo, essas passagens por várias regiões do mundo?
No Volume um eu fiz um grande trilogia, The trip, El viaje, A viagem, essas três últimas músicas do cd são a primeira trilogia que eu compus para violão. Eu coloquei a maioria das minhas músicas como instrumental, mas às vezes nem precisa letra, às vezes a melodia tocada fala sem precisar cantar alguma coisa.

No volume um você gravou o Odeon, de Ernesto Nazareth. Por que essa escolha?
Eu lembro a primeira vez que ouvi essa música, era uma festa, o Mimo, um festival que passa por Olinda, Rio, cidade patrimonial de Paraty, eu estava lá por um tempo e uma banda tocou isso. Eu fiquei cativado. De repente eu saí do Brasil, voltei, conheci vários amigos, estudei numa escola de chorinho no Rio, chama Escola Portátil, voltei ao Brasil para ir lá para pegar um semestre para aprender a tocar chorinho, aprender a estrutura e tudo isso. Estudei Odeon. Para mim Odeon é como o Brasil. Eu sinto, é uma música bem complexa, harmonia, melodia descomunal. Essa música para mim tem muito sentido, por isso a escolha e nunca cansei dela.

Você falou em um ponto da conversa que cada lugar que você chega você procura se aprofundar na música daquele lugar, nas raízes. Você falou dos indígenas aqui, na porção africana da música brasileira. Como é que surge o teu interesse por música brasileira?
A bossa nova, o Brasil está mais conhecido por bossa nova. Eu canto chorinho, eu canto jazz. Chorinho, para mim, é quase tipo o jazz brasileiro, tem outra estrutura. Por isso eu viajo. Se não há muitas músicas que você nunca vai conhecer. Eu estava para aprender, pegar o suingue do samba não é tão fácil para o gringo, para aprender, conheci [a obra de] Baden Powell na Argentina, um amigo tinha o disco, e pensei: eu tenho que estudá-lo. Peguei partituras, eu não gosto muito de partituras, mas é uma boa maneira para tocar exatamente o que ele está tocando. Ouvindo, lendo a partitura, para entrar na cabeça dele. Baden Powell foi o primeiro violonista brasileiro em que tentei entrar na cabeça. De qualquer músico eu pretendo entrar na cabeça, pegar o jeito que ele está pensando.

Além destes nomes que a gente já citou e que eu te ouvi tocando semana passada, que outros nomes da música brasileira te chamam a atenção?
Caramba! Aqui no Nordeste Luiz Gonzaga, Dominguinhos, ainda não toco tanto, tipo forró, baião. Jackson do Pandeiro eu gosto da cadência. Ele é tipo hip hop, antes do rap ele já estava fazendo isso, como ele canta. Gosto como ele toca baião, forró, mas ele também toca samba, é quase uma ponte entre os dois ritmos. Ele é um grande nome para mim, uma grande figura. Mas também, por exemplo, em Pernambuco há tantos mestres de coco, maracatu. Eu tenho muita vontade de voltar por Pernambuco. Só estive lá dois meses.

Você está há quanto tempo em São Luís?
Só um mês. Pouco tempo.

A rua é uma escola?
Sim. Faço cinco anos tocando na rua. Uma bomba pode explodir a meu lado [enquanto eu estiver] tocando e vou seguir tocando. Sempre há distração, crianças, gente gritando. É uma escola.

Você falou há pouco, particularmente do samba, e da dificuldade da ginga do samba para o gringo, mas semana passada eu percebi a desenvoltura com que você faz o repertório brasileiro. Você consegue se adaptar, na minha avaliação. Como você se sente, um gringo fazendo música brasileira, mas fazendo como um nativo?
Tenho sorte, conheci muitos mestres, ainda estudo muito. Fico muitas horas praticando. É uma das melhores coisas que me ajudam, foi meu mestre Duda Pirata, lá no Rio. É um mestre do samba, sempre toca em rodas de samba, me deu um grande braço, “vai pra roda, pra brincar com a gente”. Comecei a tocar com a galera, duas vezes por semana. Às vezes o violonista não chegou, eles só falam o tom, “dó maior” e “tchec, tchec, tchec” [imita o som da batida do violão]. É uma galera sambista que viaja o mundo tocando samba.

A língua foi uma barreira, é uma barreira?
Ainda é um pouco, no início foi bem complicado. Não tanto. As pessoas querem ajudar você. Tem que estudar também, eu estudei muito. Com a tecnologia há várias maneiras para melhorar seu idioma. Música eu estudo muito, a música brasileira ajuda a pegar o sotaque, embora eu ainda tenha o sotaque forte, está melhorando.

Você falou que não vai tocar na rua para sempre. Onde é que o Vini quer chegar?
No palco. Teatros, mas quero seguir fazendo o que estou fazendo, viajando, estudando e aprendendo, como tocar na rua, na América Latina, em todos os países, do México até aqui. Não sei se esse estilo de vida vai dar certo do outro lado do mundo. Mesmo aqui é uma luta, eu não ganho muito dinheiro. Mas quero chegar ao palco. Tem que escolher o caminho do coração e este é meu caminho do coração. Não vou voltar a minha vida como era antes no meu país. Sou músico agora e vou fazer qualquer coisa para seguir esse caminho.

Terra musical de todo mundo: um papo com Vitor Ramil

Campos neutrais. Capa. Reprodução

 

Este mês, na Emaranhado, coluna que assino mensalmente no site do Itaú Cultural, escrevi sobre o ótimo Campos neutrais [Satolep, 2017], disco novo de Vitor Ramil, com quem conversei sobre.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Retrato: Marcelo Soares. Divulgação

Homem de vícios antigosCampos neutrais dialoga com outras fases de tua carreira, mas não soa saudosista, embora revisite ídolos confessos como os Beatles e Bob Dylan, entre outros. É um disco aberto, embora a milonga ainda seja o eixo central. Você concorda? Como o definiria?
Vitor Ramil
– À parte a citação explícita a Strawberry Fields Forever, Beatles sempre aparecerá subliminarmente na minha música, bem como na música de todo mundo, porque eles foram fundamentais, estruturantes. Dylan é um compositor que às vezes eu gosto de versionar. É um desafio prazeroso para mim, que gosto de lapidar e me excito com o aspecto lúdico desse tipo de trabalho. A milonga está menos presente como gênero que como atmosfera e conceito em Campos Neutrais. Tens razão, o disco remete a algumas experiências dos meus discos anterior, mas o vejo fundamentalmente como um ponto a que cheguei depois de muita reflexão e muita prática. Considero o mais bem produzido, tocado, cantado, gravado etc. Fui muito criterioso, inclusive ao me sentir o mais livre e espontâneo possível durante as gravações. Trabalhei com figuras muito afinadas com a minha linguagem. A unidade é marcante no resultado. Tudo soa muito coeso, os arranjos, as performances.

É também o disco em que você mais se abre a parceiros. Como é colecioná-los e trabalhar com cada um/a deles/as? Da conterrânea Angélica Freitas, passando pelos nordestinos Chico César e Zeca Baleiro, até o paraense Joãozinho Gomes e o português António Botto, entre outros: a diversidade percebida no repertório de Campos neutrais se deve também a este leque de parceiros, não?
Sim, certamente. Essas parcerias foram acontecendo naturalmente ao longo do tempo. Com o Zeca já compus uma três musicas, com o Chico umas cinco. Mas são as primeiras colaborações nossas gravadas. Gosto muito do que conseguimos fazer juntos. Com a Angélica é um pouco diferente. Venho musicando a obra dela com o objetivo de gravar um disco dedicado à poesia dela, que é sensacional. O poema do Joãozinho musiquei depois de estar com ele em Macapá, e a canção nasceu pedindo tambores, aqueles tambores melancólicos do marabaixo. António Botto, quem diria, me fez compor um samba de corte clássico. É o inesperado das colaborações. Todas essas enriqueceram muito o disco e, de certa forma, justificaram a ideia dos campos neutrais como conceito do trabalho.

Em texto distribuído à imprensa você fala do projeto de gravar um disco inteiramente dedicado à poesia de Angélica Freitas, uma das poetas contemporâneas mais originais do Brasil. Sei que é cedo para falar em novo disco, Campos neutrais ainda tem uma estrada a percorrer e torço por que o show passe pelas terras de todos os parceiros, mas há previsão para a realização deste trabalho em parceria com ela?
Só não gravei ainda o álbum com a Angélica porque, depois de délibáb, dedicado às poesias de Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas, e de Foi no mês que vem, em que regravei 32 canções por ocasião do lançamento de um songbook, achei que precisava retomar minha trajetória autoral. Agora acho que o disco com poemas da Angélica pode ser a melhor escolha para um próximo trabalho, até porque o público já teve uma prova dessa colaboração com a música Stradivarius que está em Campos Neutrais, ou seja, nossos mundos já estão conectados.

Outro diálogo perceptível em Campos neutrais é o travado entre a estética do frio e certo calor nordestino, nortista, sobretudo a partir das parcerias com Chico César, Joãozinho Gomes e Zeca Baleiro. Você acredita que isto ajuda a te libertar de rótulos como os de “artista do frio” ou “dos pampas”, apesar de você ter inventado Satolep e viver nela?
Para quem olha superficialmente, talvez sim. O fato é que para mim não há essa oposição frio-calor. A estética do frio, em última instância, trata-se não de tentar estabelecer um conflito, mas de afirmar o sul-brasileiro através da imagem do frio, do frio tratado como símbolo de um lugar, do nosso clima de estações bem definidas (afinal de contas o Brasil, que se vê como “tropical”, nos associa ao frio) e como elemento de aproximação do sul do Brasil com Uruguai e Argentina. Quando falo em frio não estou defendendo uma racionalidade ou ausência de emoção. Longe disso. Falar em rigor, por exemplo, não é falar em rigidez. Há rigor em João Gilberto, há rigor em Elomar ou em João Cabral.

Você volta ao Dylan de Desire, vertendo Sara em Ana, como fez com Joey (Joquim), em Tango [1987]. O Dylan de 1976 é o seu preferido entre sua vasta discografia?
Sim, Desire é meu disco favorito do Dylan. Gosto também de Slow train coming, da fase religiosa, de onde versionei Um dia você vai servir a alguém (Gotta serve somebody). Costumamos escutar Dylan nas viagens de carro. Dylan, Miles [Davis], Alberta Hunter, Radiohead, Chet Baker ou Glenn Gould estão sempre conosco na estrada.

Palavra desordem é sobre os dias atuais, embora o verso “façam a revolução” evoque o oitentista RPM. É uma citação proposital? Você comprova a possibilidade de cantar sobre política sem soar panfletário. É um caminho urgente, possível e necessário no atual momento por que passa o Brasil?
Eu não me lembrava do “façam a revolução” do RPM. Se lembrasse, talvez não tivesse usado na música. Um sobrinho me chamou a atenção para isso e rimos muito. De fato, a retórica dessa música é revolucionária e ela pode ser interpretada desse modo, mas como um chamado à revolta profunda, não apenas política, feito às novas gerações. No entanto, o significado íntimo dela para mim é o de um chamado ao desassossego que fiz para mim mesmo. Eu tinha escrito uma letra que me pareceu muito obscura para um tema tão pungente e já um tanto complexo musicalmente. Achei a letra um pouco acomodada diante do desafio que a música exigia de mim. Então me indignei e cantei pra mim mesmo: “queimem os navios”…

Você canta em três línguas em Campos neutrais, o que tem a ver com a própria característica fronteiriça do Rio Grande do Sul evocada no título do álbum. O Brasil, vizinho de países de língua espanhola, em geral prefere cantar no inglês de terras distantes. Como você avalia esse distanciamento cultural do Brasil e seus pares do Mercosul, no sentido de que bandas argentinas, uruguaias etc., serem bem menos conhecidas por aqui que astros ingleses e americanos etc.?
O português e o espanhol respondem por essa fronteira do extremo sul. O inglês aparece como nas canções de toda parte. Os Beatles e a presença de sempre da cultura norte-americana e inglesa entre nós nos fazem volta e meia cantarolar em inglês. No caso do rock gaúcho, realmente o inglês é muito presente, ou foi. Algumas bandas ou artistas quando cantam português o fazem como se fossem estrangeiros cantando, com um certo sotaque. Acho engraçado. É que a influência do rock inglês dos anos 60 é imensa por aqui. Por que? Não sei. Talvez por ser uma região mais conservadora, onde o rock desde sempre aparece como afirmação e contraposição das novas gerações. Quando ao distanciamento do Brasil em relação aos países de língua hispânica, é mesmo muito grande. Lembro de quando vivíamos no Rio, nos anos 80. As pessoas lá achavam engraçado ouvir rock em castelhano, Charly Garcia, Fito Paez e poucos outros que chegavam. Riam. Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, os mesmos artistas eram ídolos. A língua e a cultura nos afastam mutuamente. E também o preconceito, o aculturamento, esse eterno bater cabeça para o que vem dos países de prestígio. Na Argentina não é muito diferente. Lá um artista norte-americano obscuro e fraco tem muito mais chance de despertar interesse da mídia que um artista brasileiro obscuro e genial. Igualzinho ao Brasil.

A exemplo de Foi no mês que vem, seu disco anterior, Campos neutrais também tem um respectivo songbook e foi financiado a partir de crowdfunding, o financiamento coletivo pela internet. A seu ver, o songbook facilita a apreensão de seu repertório por músicos que se interessem por tocá-lo? E o financiamento coletivo é uma saída nestes tempos sombrios que o Brasil atravessa, não apenas no campo cultural?
No meu caso, o songbook se mostrou de extrema importância, porque poucos conseguiam tocar as minhas músicas. Meus acordes em geral não são convencionais e ainda uso afinações preparadas. Muitas vezes, tocar uma música minha com os acordes simplificados fere a essência da composição de um modo que não parece ser a mesma música. Depois dos songbooks tenho ouvido muita gente tocar super bem as minhas canções, mesmo que essas versões incorporem novidades. Quanto ao financiamento coletivo é uma grande alternativa de produção. É bom para o público e para o artista. Uma espécie de resistência. Nesses tempos em que o disco já não vende e que montar um grande espetáculo é coisa apenas para artistas muito populares que arrastam multidões, o financiamento coletivo ajuda a viabilizar trabalhos de qualidade. E como observaste, essa forma de resistência não se limita à cultura. Se espraia pela sociedade de muitas maneiras, atendendo a inúmeras demandas.

Você é de uma família de músicos, irmão de Kleiton e Kledir, pai de Ian Ramil. Este disco tem a participação de sua sobrinha Gutcha, cantando um samba – e aqui voltaríamos ao tema da diversidade, já abordado. Qual a sensação de ser um elo desta genealogia musical?
É uma sensação muito boa, de toda a vida. Não sei como seria viver numa casa sem “muita” música. Estamos montando agora um show em família, homenagem à minha mãe, Dalva, de 92 anos. Vão estar todos os que citaste acima, mais o Thiago Ramil, irmão da Gutcha e o João Ramil, filho do Kledir. Fui muito influenciado pelos meus irmãos e adoro o que estão fazendo Ian, Gutcha, Thiago e João. Quero envelhecer vendo a gurizada tocando na minha volta.