Lições de um bandido

Coringa. Frame. Reprodução
Coringa. Frame. Reprodução

 

Dizer que Coringa [Joker, EUA, 2019, 122 min.] é uma obra-prima pode soar redundante. Roteiro bem amarrado, atuação exuberante de Joaquin Phoenix, fotografia caprichada, trilha sonora impecável e a memória afetiva de um personagem que todos sabemos bandido, mas que sempre teve o atenuante de sua maquiagem e sua gargalhada sui generis.

É um filme de formação: de algum modo explica ou joga luz sobre como Coringa se tornou o assassino implacável e a sangue frio que é. Para matar, vale o que estiver às mãos: um revólver, uma tesoura, as algemas, as próprias mãos.

Tomando o Coringa como um microcosmo da bandidagem em geral, é possível perceber nele o reflexo do passado, como se cair na criminalidade fosse uma reação (natural, automática) aos maus tratos em casa (violência doméstica) e na rua – a violência social a que estão submetidos os menos favorecidos, seja pelo descaso de governantes inescrupulosos, seja pela invisibilidade a que estão submetidos, com a pressa dos transeuntes.

É lógico que, por si só, isso não justifica e nem explica completamente, nem o personagem, nem qualquer criminoso. A questão é muito mais complexa.

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um pobre-diabo com transtornos mentais, que toma(va) remédios controlados (até o dia em que o governo decide cortar a verba destinada ao programa social que lhe garantia medicação e atendimento psicológico) e vive sozinho com a mãe, velha e doente, num apartamento decadente. Seu emprego é um bico de palhaço, ajudando o comércio a vender, de onde será demitido.

Tomando Gotham City/Nova York como um microcosmo do planeta – ou do Brasil: é impossível não pensar num paralelo com o Brasil sob a ditadura bolsonarista –, nota-se uma crítica feroz ao consumo desenfreado, marca do capitalismo selvagem/neoliberalismo que pouco se importa com os que não podem consumir sequer o básico para sobreviver (para usarmos aqui um eufemismo) e uma crítica à política que governa (apenas) para as elites. E o caos, entre revolta popular e a greve do serviço de coleta de lixo.

É lógico que, por si só, isso não justifica sair por aí matando os que compõem essas elites, os que com elas simpatizam. A questão é muito mais complexa e não é possível enxergar Coringa como uma espécie de Robin Hood, deveria ser eticamente impossível enxergar o protagonista como herói.

Esta é, aliás, uma das lições do filme, sobretudo aos espectadores brasileiros: não se deve, seja lá qual for a motivação, tomar canalhas e psicopatas como heróis, mitos e que tais. No final, todo mundo sai perdendo e o troféu pela bravata pode ser uma espécie de delírio e suicídio coletivo. A outra lição que devemos aprender durante a sessão do filme de Todd Phillips, mas não só, é que a falta de empatia, alteridade, solidariedade está nos transformando em uma sociedade adoecida. No final, ninguém se salva sozinho.

Coringa. Cartaz. Reprodução
Coringa. Cartaz. Reprodução

Veja o trailer de Coringa:

Rumos, Maranhão na Tela e Ilha do Amor têm inscrições abertas

Caminhada Rumos acontece hoje em São Luís

A Caminhada Rumos Itaú Cultural encosta hoje (12) em São Luís. O encontro, que tem por objetivo divulgar o edital do programa e tirar dúvidas de artistas e produtores culturais, acontece das 18h30 às 20h30, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença II), com entrada franca. Estarão presentes Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação, e Valéria Toloi, de Educação e Relacionamento do Itaú Cultural.

As inscrições para o Rumos Itaú Cultural estão abertas desde o dia 3, exclusivamente no site do programa, e a Caminhada percorrerá as 27 capitais brasileiras, já tendo chegado a Cuiabá/MT, Porto Velho/RO, São Paulo/SP e Teresina/PI.

Sobre o assunto, Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com Ana de Fátima Sousa.

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade
Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade

Zema Ribeiro – A Caminhada Rumos tem o objetivo de desburocratizar o acesso do artista ao edital e programa? Por que às vezes um artista que se preocupa menos com a burocracia acaba perdendo espaço para um artista que tem produção por trás. O que o Itaú Cultural tem feito no sentido de corrigir essa distorção?
Ana de Fátima Sousa – A Caminhada é uma oportunidade de aprendermos juntos. Nós como instituição buscamos estar presentes e abertos para entender as demandas de cada lugar e melhorar o programa a partir dessas trocas. E para o artista é uma chance, sim, de tirar dúvidas sobre o edital e sobre políticas culturais e também melhorar suas práticas. Acreditamos muito no poder desses encontros.

Nos últimos anos tem sido mais difícil manter um programa da envergadura do Rumos? Quais as principais dificuldades?
O Itaú Cultural tem no Rumos um de seus principais programas estruturantes. E, por isso, tem caráter de perenidade. Nosso desafio é sempre manter neste programa um processo de escuta ativa em relação aos diferentes territórios do país, às necessidades da arte e da produção contemporâneas.

Como se dá o financiamento do programa Rumos Itaú Cultural?
O programa Rumos conta com verba direta. Não faz uso de leis de incentivo.

Como tem sido a participação, a presença do Nordeste no programa Rumos? Há uma preocupação do programa em regionalizar a seleção de projetos apoiados?
O Nordeste tem excelente participação no programa Rumos tanto em quantidade quanto em qualidade dos projetos artísticos e de pesquisa. No ano passado tivemos dois maravilhosos projetos selecionados vindos do Maranhão. O que queremos é tornar esta presença ainda mais potente.

O jornalismo brasileiro passa por uma crise. O Rumos apoia projetos na área, sobretudo o jornalismo cultural, mais afeito às pautas do Rumos?
Sim, o Rumos acolhe, apoia e aposta em projetos de jornalismo cultural. Acreditamos na relevância de nossos jornalistas e críticos na produção de conteúdo e de reflexão sobre nossas artes e nossa cultura.

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MARANHÃO NA TELA ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Colagem de Silvana Mendes. Reprodução
Colagem de Silvana Mendes. Reprodução

Estão abertas desde o último dia 10 as inscrições para a mostra competitiva e as rodadas de negócios do Festival Maranhão na Tela, que este ano será realizado entre os dias 5 e 14 de dezembro.

As inscrições para a mostra competitiva são gratuitas e para as rodadas de negócios variam de R$ 100,00 a R$ 120,00. O Maranhão na Tela foi idealizado pela cineasta e produtora Mavi Simão em 2006 e este ano chega a sua 12ª. edição, realização da Mil Ciclos Filmes. A artista visual Silvana Mendes venceu o concurso e assina a identidade visual do festival em 2019.

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FESTIVAL ILHA DO AMOR RECEBE INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 20

Até o próximo dia 20 de setembro artistas nascidos ou radicados há pelo menos três anos no Maranhão podem se inscrever para o I Festival Ilha do Amor, que acontecerá no dia 23 de novembro na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen.

As inscrições são gratuitas, pelo site do festival. As 12 músicas selecionadas para a final serão gravadas em um cd. O resultado da seleção será anunciado pela coordenação do festival no próximo dia 30 de setembro. Haverá premiações para o primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete.

Um retrato do Brasil do futuro

Bacurau. Cartaz. Reprodução
Bacurau. Cartaz. Reprodução

 

Kléber Mendonça Filho realizou dois dos mais importantes filmes brasileiros dos últimos 20 anos: O som ao redor (2012) e Aquarius (2016), obras-primas que discutem, a fundo e no calor da hora, graves problemas sociais brasileiros – segurança pública e especulação imobiliária, entre outros. Pelo segundo, vem sendo deliberadamente perseguido pelos governos instalados a partir do golpe que depôs a presidenta Dilma Rousseff (contra o que protestou em Cannes), num caso clássico de aspirantes a ditadores que jogam contra seu próprio país.

Um recado explícito é exibido em tela: Bacurau gerou mais de 800 empregos, o cinema é a imagem de um país e a cultura também é indústria, questões ainda não percebidas pelo projeto de destruição empreendido pelo atual governo federal, através do desmonte do Ministério da Cultura e das ingerências junto à Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Seu novo filme, escrito e dirigido com o cineasta Juliano Dornelles, embora gestado antes da tragédia que se abate cotidianamente no país, no governo neofascista de Jair Bolsonaro, é uma distopia que profetiza no que o Brasil pode se transformar muito em breve, se o autoritarismo instalado por aqui não for barrado imediatamente.

Batizado por pássaro de hábitos noturnos, arisco, espécie de coruja, Bacurau é um povoado fictício, cravado no oeste pernambucano, um microcosmo brasileiro – quantos são os Bacuraus espalhados pelo país? Ali, além de energia elétrica, não chegam serviços essenciais. A população vive por sua própria conta e risco.

A nova obra cinematográfica de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho, vencedora do prêmio do júri em Cannes este ano, é um misto de policial, faroeste, terror, suspense e ficção científica. Nada muito distante da realidade brasileira sob a égide do bolsonarismo. Há inclusive um político canastrão (Tony Jr., interpretado por Thardelly Lima) que joga contra o lugar. Ele está em campanha pela reeleição e num dos recados sutis (mas nem tanto) do filme, seu número é 150 – outro é a distância, em quilômetros (17), que um caminhão pipa precisa percorrer a partir de determinado ponto até chegar ao povoado.

Bacurau. Frame. Reprodução
Bacurau. Frame. Reprodução

Em meio ao cenário de destruição, com direito a uma gangue de nazistas – o filme se passa no futuro, convém lembrar –, há delicadeza, em homenagens prestadas pelos diretores a grandes artistas em cena: Sônia Braga (protagonista de Aquarius), no papel de Domingas, uma enfermeira alcoólatra, Lia de Itamaracá (no papel da matriarca Carmelita, orgulho do povoado) e Rodger Rogério, nome do Pessoal do Ceará, que interpreta o violeiro Carranca.

Há também uma sutil homenagem a Lampião e seu bando de cangaceiros e seu Lunga (Silvero Pereira) não é um velho mal-humorado de respostas desconcertantes. Num país em que grande parte da população brasileira não costuma frequentar (ou nunca pisou em) cinemas, teatros e museus, outro recado sutil dado pelos diretores é a existência (e a necessidade e o orgulho da população) de um museu histórico no lugar, algo a que parecíamos mais próximos, ao menos em utopia, num passado não muito distante.

Politicamente retrocedemos. Cinematograficamente, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles propõem uma reflexão e ação sobre este retrocesso. Um filme doloroso, bonito, necessário e urgente.

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Veja o trailer:

Um filme é um filme é um filme

Era uma vez... em Hollywood. Cartaz. Reprodução
Era uma vez… em Hollywood. Cartaz. Reprodução

 

​Quem ainda faz faroestes hoje em dia? Quem gosta de faroestes? A revolta​​ de Rick Dalton, personagem de Leonardo DiCaprio, um ator decadente e alcoólatra, é uma das chaves para entendermos o nono filme de Quentin Tarantino, Era uma vez… em Hollywood [Once upon a time… in Hollywood, drama, Estados Unidos, 2019, 161 min.].

O diretor traça uma espécie de documentário ficcional, um falso documentário, remontando as trajetórias de Dalton e Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê, faz tudo e amigo íntimo. Estamos em 1969 e com vários papeis e alguma glória, Dalton está em vias de cair no ostracismo, quando recebe um conselho-convite para fazer westerns na Itália.

A cena em que ele chora ao relatar o enredo de um livro que lê no intervalo das gravações a uma atriz mirim, revelando o próprio destino (e o futuro que ele lhe prevê, sem que ela entenda) é tocante, ao mesmo tempo que é um dos sarros de Tarantino com a indústria, além, provavelmente, de um sábio conselho a iniciantes (ou, pior, aspirantes a celebridades fast food). A confusão entre os filmes (dentro do filme) e a vida de Dalton é ainda maior (mais real?) quando ele usa um artefato cênico (tarantinesco) para salvar a própria vida, durante o ataque de uma gangue à sua residência.

Filmes dentro do filme, Tarantino expõe as vísceras da indústria, numa grande tiração de onda. Sobra, obviamente, até para a publicidade (não só de cigarros, à moda antiga).

Coalhado de referências (e reverências, ao modo Tarantino), a começar pelo título que evoca os clássicos Era uma vez no Oeste (1969) e Era uma vez na América (1984), ambos de Sergio Leone.

Para além do cinema, estão lá gibis de Kid Colt, um personagem chamado Tex (Austin Butler), discos de Paul Revere (a trilha sonora é um espetáculo à parte), o cineasta Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa Sharon Tate (brutalmente assassinada quando grávida pela gangue de Charles Manson nos anos 1960, interpretada por Margot Robbie, num episódio reinventado por Tarantino) e Bruce Lee (Mike Moh), tornado um idiota em cena hilariante – não são poucas.

Tarantino é um iconoclasta que remonta a história a seu bel prazer para fazer grande cinema. Licença poética não é fake news, o objetivo aqui é nobre, não deseja, por exemplo, influir em resultados eleitorais, nem mesmo a votação do Oscar. Durante as quase três horas de Era uma vez… em Hollywood é possível esquecer o noticiário e o governo, ao menos os espectadores brasileiros, sem se tratar de anestesia.

No meio de tudo isso há uma cadela, que acaba tendo papel central na trama. “Quanto mais conheço o homem, mais eu gosto do meu cão”, cantaria Ataulfo Alves. “É preciso estar atento e forte”, advertiriam antigos compositores baianos. Em Tarantino, “tudo é maravilhoso”.

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Veja o trailer:

O “On the road” de Bob Dylan

Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução
Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução

 

Martin Scorsese volta a esquadrinhar Bob Dylan em Rolling Thunder Revue [documentário, Netflix, 2019, 142 minutos; classificação indicativa: 16 anos]. Não à toa o subtítulo do filme, em tradução livre, é “Uma história de Bob Dylan por Martin Scorsese”. Em No direction home [2005] abarcava do início de sua carreira até a guinada eletrificadora, em 1966, quando trocou o violão  acústico pela guitarra elétrica. O novo documentário acompanha uma turnê no mínimo inusitada, realizada a partir de 1975, às vésperas do bicentenário da independência americana.

Dylan resolve excursionar pelos Estados Unidos de ônibus – ele mesmo dirige –, acompanhado de amigos. Ao longo das cenas aparecem Allen Ginsberg, Joan Baez, Patti Smith, Joni Mitchell e muitos outros. A estrutura do giro mambembe, que antecedeu o álbum Desire (1976), um dos pontos altos da discografia de Dylan, é comparada pelo próprio com os italianos da Comedia Dell’Arte.

No palco, Dylan tem a cara pintada, entre Kiss e Kabuki, e um chapéu com flores. Canta sobretudo o repertório de Desire, ali ainda não registrado em disco. A Larry “Ratso” Sloman, jornalista da revista Rolling Stone que acompanhou a turnê, chega a responder, quando questionado sobre não cantar canções mais conhecidas, que “não se deve ter expectativa, para que esta não seja quebrada”, em relação aos anseios do público, atestando sua própria liberdade. Ainda assim aparecem versões desconcertantes de A hard rain’s a-gonna fall e Knockin’ on heaven’s door, entre outras.

Enquanto o empresário reclama de estar perdendo dinheiro – poderiam estar tocando em locais para 30 mil pessoas e o fazem onde cabem no máximo 5 mil –, Bob Dylan faz o que quer. Há várias lições no filme. Uma delas tem a ver com dignidade artística, algo cada vez menos na moda no circo da indústria. Dylan é peça da engrenagem, mas desdenha dela. “Não podemos medir o sucesso em termos de lucro”, diz o Nobel de literatura.

Não soa falsa modéstia a afirmação inaugural do bardo de que “foi só uma coisa que aconteceu há 40 anos”, sobre a turnê. “Eu nem lembro direito”, diz, como a querer desencorajar o documentarista do feito. Além de imagens de arquivo, Scorsese conseguiu uma entrevista inédita com o ídolo e coloca os Dylans de ontem e hoje lado a lado, numa interessante perspectiva.

Dois personagens ganham centralidade em Rolling Thunder Revue: Joan Baez e Rubin “Hurricane” Carter, ambos também entrevistados para o documentário. A primeira, de quem foi namorado, aparece como um amor irrealizado de Dylan, algo que parece ter ficado no meio do caminho, um travo amargo de “se”. Diálogos mais íntimos são emocionantes, como a demonstrar certo arrependimento de não terem tido um final feliz juntos. “A gente podia cantar juntos até dormindo. Aliás, muitas vezes, dormindo, eu ouvia a sua voz”, ele revela, comovente.

Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix
Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix

O segundo é o pugilista injustamente condenado por um homicídio que não cometeu, visitado por Dylan na prisão durante a turnê, “o homem que as autoridades passaram a culpar por algo que ele nunca fez”, como diz a letra do épico de Dylan (em parceria com Jacques Levy), em tradução livre. O homem que poderia “ter sido o campeão do mundo” (dos pesos médios), como continua a letra, cuja gravação (e performances durante a turnê) é lindamente emoldurada pelo violino de Scarlet Rivera.

O julgamento de Carter foi comprovadamente motivado por racismo. Diz ainda Dylan em seu protesto quilométrico: “Rubin Carter foi falsamente julgado” e “Não posso deixar de me sentir envergonhado por viver em uma terra onde a justiça é um jogo”. Obviamente Rolling Thunder Revue não é um filme (apenas) sobre política, mas é impossível não traçar um paralelo com o Brasil de 2019.

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Veja o trailer:

Num país sem memória a ficção refaz a história

Legalidade, de Zeca Brito e Léo Garcia, terá estreia nacional hoje (20), às 19h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) na programação (gratuita) do Festival Guarnicê de Cinema. A estreia mundial aconteceu em abril, no Festival Latino de Chicago, nos Estados Unidos.

O filme costura, a partir de um triângulo amoroso fictício, uma narrativa que remonta ao episódio histórico com que Leonel Brizola, no fim das contas, conseguiu adiar em cerca de três anos o golpe militar de 1964, que acabou por jogar o Brasil numa ditadura militar por 21 anos.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com os diretores e com Sapiran Brito, pai de Zeca, um dos atores que interpreta Brizola, personagem central na trama.

Léo Garcia, Sapiran Brito e Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Como é que foi a receptividade do filme no festival de Chicago?
Zeca Brito – Surpreendente. Incrível como um filme que conta uma história brasileira pode ser universal e pode encontrar reverberações em outras culturas, outras visões de mundo. Chicago é uma cidade muito cosmopolita, então o público que assistiu o filme era de americanos e estrangeiros, pessoas que foram morar nos Estados Unidos, mas que vêm de outras histórias geopolíticas, por exemplo, do Oriente Médio, ou da própria América Latina, a gente pode conversar com uruguaios, com argentinos que residem em Chicago e por conta de ser um festival latino foram assistir o filme, e todos dizem a mesma coisa: algo muito parecido aconteceu em meu país. Que é o reflexo de como o mundo se movimenta, de como os interesses [acentua os dois primeiros “e”, imitando o sotaque de Brizola], de que o Leonel Brizola falava são reais, e é um pouco o que o filme tenta estabelecer. O filme se passa em 1961 e é sobre esse ambiente de guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética e distintas vontades políticas dominavam o mundo e muito daquilo que a gente vivia como história, como processo histórico era influenciado por esses interesses externos. Em Chicago foi muito interessante como isso passou pela percepção do público, essa identificação de como a história se repete, de como a história é parecida. Por outro lado, foi uma questão também que me surpreendeu, eu tava contando pro Léo esses dias, a gente vem, a gente fala muito no filme sobre o aspecto histórico, os personagens históricos. Mas o público mais desinformado da história do Brasil, que é grande parte do público norte-americano, não sabe nada do que aconteceu aqui, primeiro por que nossa cinematografia não chega lá, segundo por que não há muito interesse dos Estados Unidos de olhar para outras culturas, por que já trabalha a sua também como um produto, foi a questão do romance. É um filme que tem um romance que costura a narrativa histórica e esse romance tocou no coração do público e isso também me surpreendeu.

O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa
O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Por que a opção de estrear aqui?
ZB – Interessante. Acho que o Festival Guarnicê é um festival com uma história muito bonita, diferente de outros festivais, sem querer fazer uma crítica específica, ele não é um festival monárquico, de um dono, de uma empresa, ele é um festival que se liga muito com a comunidade civil organizada, partindo de uma universidade [o festival é promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], há 42 anos. Isso no Brasil é muito bonito e importante de ser celebrado nesse momento histórico. A função do cinema tem que ser essa, se aproximar da sociedade civil, cumprir um papel também educativo, falar mensagens importantes, provocar discussões, aproximar nossa memória histórica e também do tempo contemporâneo do que está acontecendo no mundo, mas da nossa realidade cultural, trazer esses debates pra sociedade. Esse festival, nesse sentido, já é muito sério, por estar ligado, a uma instituição do saber. E segundo, a gente vive um momento político, não foi à toa que a gente escolheu Chicago, que é uma cidade ligada à causa operária, aos direitos trabalhistas, e é uma cidade que recentemente elegeu uma mulher, negra, LGBT, prefeita [Lori Lightfoot]. De alguma maneira isso pontua que a gente está num território que tem espaço para as discussões que a gente está propondo no nosso filme e acho que o mesmo se revela no tempo contemporâneo com o Flávio Dino, que é uma referência para um pensamento aberto, de como deve ser a construção da cidadania, do encontro humano, principalmente partindo da luta contra as desigualdades sociais. A gente tem que trabalhar também essa questão de como a sociedade se traduz politicamente. Estar num território com um pensamento tão aberto a questões da história, questões que nosso filme trata, questões da sociologia que nosso filme trata, isso a gente vê publicamente que há uma sinalização de política pública mesmo, que vem a calhar com o que a gente está querendo discutir.
Léo Garcia – A gente começou a escrever essa história em 2007, 2008, mais ou menos, e naquela época era impensável falar em ditadura militar. Tu encontrava dois ou três malucos, mas era algo “ah, já passou”, e aí quando a gente está lançando o filme pairam no ar nuvens cinzentas e o filme ganha outra importância, tem, digamos, outra virtude, que é lembrar um passado recente, que as pessoas já esqueceram, o que foi a ditadura militar. Apesar de o filme se passar antes da ditadura, o Brizola já estava combatendo um princípio de golpe, ali em 1961. Ele consegue, mas depois em 1964, infelizmente…

O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa
O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa

Dá até pra dizer que o golpe foi adiado por essa ação.
LG – Foi, com certeza!
Sapiran Brito – O golpe era contra ele. Ele tava na rua, tava na boca do povo, “cunhado não é parente, Brizola presidente!”, não tinha outro. Era o grande nome entre os progressistas, não tinha outro. Estava praticamente eleito pelo povo. Pelas ações, pelas atitudes, pelo momento. A CIA [Agência Central de Inteligência do governo americano, na sigla em inglês] tentou, não conseguiu a primeira vez, mas na segunda… por detrás de tudo sempre está a CIA. Sempre estão os interesses norte-americanos, através da CIA, que me desculpe a expressão, mas costumeiramente compra os nossos deputados. Costumeiramente. Ele conseguiu segurar o golpe, conseguiu evitar o golpe, mas terminou o mandato como governador, foi ser deputado, e não tinha os meios físicos e materiais e o poder que tinha como governador para tentar deter os golpistas de 1964. Por que infelizmente o nosso país é construído de golpe em golpe. Agora tivemos o golpe branco contra a presidenta Dilma e tivemos um complô da mídia e do parlamento contra o presidente Lula, nada mais que outro golpe branco. E de golpe em golpe nós vamos. E Leonel de Moura Brizola significa o anti-golpe, a voz da resistência, a voz do progressismo, a voz daqueles políticos corretos que ainda resistem. Cinco por cento, mas ainda temos, na classe política, uns cinco por cento de homens retos, honestos e verdadeiramente brasileiros, sem nacionalismo, sem xenofobia, questão de amar o Brasil. Quero lembrar só uma coisa: Brizola não era um gaúcho. Darcy Ribeiro escreveu uma bela crônica sobre o Brizola, dizia “Brizola, um filho do povo brasileiro”, por que ele era preocupadíssimo e envolvido com toda a questão. Um grande problema nacional é o problema da dominação do Brasil. O Brasil é dominado. E nós sabemos por quem. Dominado pelo capital, que se organiza basicamente em Wall Street. E o Brizola representa essa voz de rebeldia contra isso. O Brizola, que foi tachado de comunista, não tinha nada de comunista. O Brizola era um progressista, um socialista embrionário. Tanto que a Internacional Socialista o elegeu vice-presidente, ele não sendo presidente do país. E esse cargo, em memória dele, ainda está na mão do partido dele, o PDT, hoje representado pelo Carlos Lupe. O PDT tem cadeira na Internacional Socialista, mesmo o Brizola não sendo declaradamente um socialista, mas era um socialista, por que era um progressista e um nacionalista sem xenofobia.

O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa
O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa

O que significou para o senhor interpretar o Brizola no filme?
SB – Ah, uma grande emoção. Primeiro que eu vi o negócio nascendo, pelas mãozinhas deles, pelas cabecinhas deles [aponta para Léo e Zeca]. Aí quando eles notaram que eu tinha alguma semelhança com o velho, que eu conhecia muito, por ser amigo dele, de frequentar a casa, falar ao telefone, abraçar e conversar com ele com intimidade em diversas ocasiões, eu ajudei a construir o que o Léo e o Zeca roteirizaram. E que fique claro o seguinte: eu não estou no filme por que sou filho do Zeca [risos] ou amigo do Léo, é que eles viram uma semelhança com o Brizola, que eu não posso negar: é uma espécie de osmose, de tanto eu gostar, eu acabei ficando parecido com o velho e tento pensar e agir como ele, por que eu também sou político. Além de artista, ator, diretor de teatro, eu também sou político. Me honra, sobremaneira, representar, mesmo eles me dando pouco espaço [risos], mas é simbólico honrar a memória do velho. E é uma satisfação saber da oportunidade do lançamento desse filme. Eles não previram, eles não têm bola de cristal, nenhum dos dois é Nostradamus, mas parecia que estavam prevendo: “ah, vamos lançar durante o outro golpe”. E estamos aqui honrando a memória de Leonel Brizola.

É curioso que o filme anterior de vocês é sobre Tarso de Castro [A vida extra-ordinária de Tarso de Castro], que é outro combatente da ditadura e também um brizolista.
ZB – E que estava na Legalidade.
LG – De certa forma influenciou um pouco o roteiro do Legalidade. Ele não só estava na Legalidade, como ele foi, a gente conta no filme, um episódio, uns 20 dias antes da Legalidade, o Brizola conheceu o Che Guevara em Punta del Este, um encontro da OEA [Organização dos Estados Americanos] e o Tarso cobriu isso. Várias coisas acabaram se mesclando, a gente estava rodando o Tarso e acabando de escrever o roteiro.
ZB – Quando a gente terminou de filmar o Tarso e foi filmar o Legalidade, o que acontece é que eu acho que tanto personagens que são personagens do filme do Tarso inspiraram personagens do Legalidade. O Flávio Tavares, o Carlos Bastos, pessoas que estão no filme do Tarso de Castro e que são a síntese do Tom e do Luís Carlos, que são os personagens fictícios que a gente criou. São muitos personagens reais, a gente fez uma pesquisa, até interessante, tu vai assistir o filme e vai ver, a gente colocou nos créditos finais todos os livros que a gente pesquisou para criar essa história de ficção. Ela é toda costurada por episódios reais, mas cabe a cada um de nós ir a fundo para ver a veracidade daquela coisa no sentido de que a costura é poética. É uma obra poética, como se fosse o [poeta grego] Hesíodo estar contando a guerra e não estar falando da guerra como ela é, mas está se baseando em fatos que aconteciam e que aconteceram para poder sintetizar de forma poética a guerra. O que a gente fez no Legalidade foi isso. A gente leu muito sobre tudo o que havia sido produzido em termos de pesquisa científica, da academia, e bibliografia, livros sobre episódios históricos, depois entrevistamos autores, o Juremir Machado, o Flávio Tavares, mas primeiro a gente partiu do livro deles, mas entrevistamos, e entrevistamos familiares, amigos, o Carlos Araújo, que inspira nosso personagem comunista, mas vai acabar sendo trabalhista. O próprio [Luís Carlos] Prestes foi ser presidente de honra do PDT, tem essa costura histórica e a gente coloca esses elementos no filme. Tem o personagem trabalhista, que é o Brizola, tem o personagem comunista, que é o Luís Carlos, como essas ideologias vão se encontrar com o campo oposto, que é alguém que está corrompendo a constituição. Alguns deputados, no campo do poder legislativo, e alguns militares, o chefe da Marinha, o chefe da Aeronáutica, que não queriam permitir o Jango [João Goulart] voltar ao Brasil e assumir a presidência, porém, aí é interessante como a história é complexa, a Legalidade só foi possível com a adesão do Terceiro Exército, que era a maior força militar brasileira: 120 mil homens, que estavam no Rio Grande do Sul. Brizola foi tão persuasivo, conseguiu levar tão profundamente a mensagem, mobilizar a população civil, que aqueles soldados que estavam no Rio Grande do Sul aderem à Legalidade, rebelando-se à ordem inclusive de bombardear o Palácio [Piratini, sede do governo gaúcho], que partiu de Brasília, então acontece esse contragolpe. Aí o Jango vem, aí o que acontece: a coisa estava tão inflamada que era mais conveniente que o Jango viesse pra apaziguar, por que o Brizola ia sim subir e tomar o poder. Aí o Tancredo [Neves] vai até Punta del Este, faz uma negociata básica, histórica, e resolve, para que não haja derramamento de sangue, “vamos estabelecer um pacto de silêncio você volta e assume o parlamentarismo, não fala nada, não faz discurso, fica quietinho, acalma o Brizola, silencia o Brizola, a gente vai silenciar o Exército lá em cima, Aeronáutica, Marinha”… Nisso os navios de guerra já estavam no porto do Rio Grande, toda a frota aérea já estava mobilizada para bombardear o Rio Grande do Sul e acontece esse acordo de paz, que foi um desfecho, pro Brizola foi um pouco frustrante, mas um ano depois, através de um plebiscito, se reconstitui a democracia, que dura dois anos e acaba com o golpe, em 1964.
LG – É legal por que tem todo esse aspecto político, mas nosso roteiro tem camadas. Uma pessoa que, digamos, não tem nenhum conhecimento de história pode assistir o filme e vai acabar desfrutando pelo menos da história de amor, vai entender o enredo, vai saber que existiu esse momento tão importante da história. Eu acho que tem essa virtude o roteiro que a gente trabalhou. Quando essa história começou, em 2007, mais ou menos, eu e Zeca bem jovens, Zeca estava acabando o primeiro longa dele, O guri, eu ainda não tinha nem um longa filmado, e o Zeca veio com essa história: “ah, o meu pai sempre falou que a Legalidade renderia um filme”, eu nem conhecia o Sapiran, nem lembrava da Legalidade, eu tinha estudado no colégio, assim [estala os dedos] talvez numa tarde… aí eu comecei: que Legalidade é essa? Li um livro e falei: “cara, rende um filme, vamos escrever?”. “Vamos!” E começou, naquela época a gente tinha o sonho de lançar em 2011, nos 50 anos da Legalidade. Ledo engano. Cinema no Brasil nada é tão fácil. Um dia eu quero convidar o Zeca pra fazer umas quatro, cinco horas, pra gente mostrar nosso roteiro desde o início. Do primeiro argumento o tanto que mudou, a gente foi enxugando personagens, mudando, tinha um circo, quatro irmãos viraram dois. Um roteiro tinha um diálogo de 15 páginas entre dois palhaços, eu falei: “Zeca, não sei se a gente vai ter tempo pra isso” [risos], queríamos fazer uma coisa mais [o cineasta italiano Federico] Fellini, mas enfim, a gente foi se acertando.
ZB – Esteticamente é um filme bem atemporal. Interessante o fato de a gente ter achado que ele deveria ter sido lançado em 2011 e não conseguimos, só filmamos em 2017 e estamos lançando agora em 2019, mas a construção do roteiro, apesar de se passar em 1961, é um filme que joga com a história, com o fato de ter essa construção poética, personagens fictícios. De algum momento essa história já aconteceu em outros momentos antes, aconteceu depois. A gente diz: é a prévia de 1964, depois 1964 aconteceu mesmo. Mas pode ter acontecido agora, em 2016.
SB – Já tinha acontecido antes, com Getúlio [Vargas].
ZB – E esteticamente ele flerta com o melodrama, tenta buscar essa raiz brasileira, que às vezes o cinema olha com certo preconceito, essa matriz que vem da televisão, da telenovela, como elemento estético, para se trabalhar a história, ela se relaciona muito com a história, no sentido de que a história brasileira é um pouco uma telenovela. A narrativa histórica. Às vezes a realidade é tão engenhosa, que parece surpreender, daqui a pouco cai o avião do desembargador, do primeiro ministro, coisas que não existem no Brasil, mas estão aí toda hora.
LG – Alguém viu um corte do filme e falou: “não, os militares nunca iam fazer isso”, mas está ali, foi assim que aconteceu.
ZB – Exatamente. É por isso que a gente bota todos os elementos históricos sem citar, mas lá no final, para que essas pessoas tenham o trabalho de ler esses livros.
SB – Enfrentamos um grande problema: é um país sem memória. Todos nós enfrentamos, jornalistas, todos nós. Ninguém lembra o que aconteceu há cinco anos. Não vai lembrar o que aconteceu há 50. Não tem a mínima informação. O filme contribui pra isso. Não chega a ser um filme histórico, mas pode chamar a atenção para que a juventude desperte para esse tema e vai encontrar outras histórias de muitos e muitos golpes que esse país sofre.

Essa abordagem de algum modo é curiosa por que a gente vive a era das fake news, que ao fim e ao cabo foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E vocês viram o jogo ao contar um capítulo da história do Brasil através de uma ficção, o que é uma solução supercriativa.
ZB – É uma coisa que está aí desde que o mundo é mundo, que se chama romance histórico. Quem não leu O tempo e o vento [do gaúcho Érico Veríssimo] ou E o vento levou… [da norte-americana Margaret Mitchell]. Ambos são romances históricos que viraram filmes e que contam uma história. A história do Rio Grande do Sul foi contada em O tempo e o vento, a história da guerra de secessão nos Estados Unidos foi contada em E o vento levou… Estou dando dois exemplos, mas poderiam ser outros.
LG – Ao fazer isso a gente altera alguns detalhes, a gente cria personagens fictícios que fazem coisas importantes, mas isso é normal de qualquer dramaturgia.
ZB – A dramaturgia histórica é assim. É a síntese da história. A gente tem a responsabilidade de esperar 50 anos do episódio, poder ler todos os livros, poder comparar as perspectivas históricas, poder colocar diferentes pontos de vista em cena. Por isso é um romance. A gente tem a visão dos Estados Unidos, a visão da CIA, que parte de uma jornalista do Washington Post, de alguma maneira…
LG – Olha o spoiler… [risos].
ZB – A gente não tem o personagem real por que a CIA não revelou esses documentos, mas hoje a gente sabe que a CIA espionava o Brizola.
SB – Já revelou.
ZB – Já, mas a gente não sabe quem era o espião, a gente tem o relatório.
SB – Daqui a 50 anos vamos saber.
ZB – Daqui a 50 anos vamos saber, talvez. Mas a questão é que depois do Che Guevara o Brizola era o homem mais vigiado na América Latina. Como é que a gente vai construir isso historicamente? A gente tem essa informação, mas tem que ser através de personagens fictícios, a própria questão da Legalidade, como a gente tem muitos personagens reais, você precisa sintetizar cinco personagens reais em um personagem fictício. O que aconteceu é real. Essa que é a questão do Legalidade. Você tem compromissos históricos com personagens históricos. Tudo que o Brizola diz no filme são falas do Brizola durante a vida que estão ali na boca dele. Claro, tem uma ou outra cena de intimidade que a gente consultou a família: “isso aqui ele falaria dessa maneira?”. “Ah, sim”. É uma síntese de um discurso, colocado de uma maneira mais coloquial, mais íntima, como ele falava com a esposa, coisas assim. Mas os personagens históricos, os discursos do Brizola são os discursos que ele fez na época. Então tem essa costura entre personagens históricos com discurso histórico real e uma construção poética que é o lirismo da dramaturgia clássica que está aí desde a Grécia antiga.
SB – Uma coisa a ser ressaltada na ação do Brizola é que foi a primeira vez no mundo que alguém usou a comunicação para organizar um levante. Nos dias que correm é a maior barbada, mas naquele tempo, o grande veículo era o rádio. Tevê não tava ainda em cadeia, não tinha as afiliadas, tevê era uma coisa muito incipiente ainda. Ele foi o cara que despertou pra comunicação, pra fazer um levante através da comunicação, quando ele criou a Rede da Legalidade, que começou lá no porão [do Palácio Piratini], depois foi pra Goiás, Paraná, foi crescendo, crescendo, só não entrou em São Paulo, mas no resto do país se formou a Rede da Legalidade. Então, esse fator, o tino desse cara, de se dar conta do uso da mídia, da comunicação, a seu favor, a favor da sua ideia, do seu projeto, é fundamental, pouca gente observa isso.
ZB – É muito interessante. Ele tinha o dom da oratória. Toda sexta-feira ele falava num programa de rádio, ele se comunicava quatro, cinco horas, as pessoas às vezes dormiam, de tanto que ele falava, dormiam, acordavam e ele tava falando.
SB – Que nem o Fidel [Castro] e o Mao [Tsé Tung].
ZB – Quando ele se dá conta de que tinha um golpe em curso ele escreve um comunicado e manda pra todas as rádios. Aí acontece um fato, que era sintomático do golpe, que o exército imediatamente manda fechar todas as rádios que haviam lido o manifesto, em que ele dizia: “Jango está na China, está sendo impedido, temos que nos mobilizar para que seja respeitada a constituição”. As rádios são fechadas, a única que não é fechada é a Rádio Guaíba, por que era um pouco mais conservadora, de alguma maneira tinha uma outra visão política, não aceitou ler o manifesto, não foi fechada. No dia seguinte ele confisca o transmissor da Rádio Guaíba, traz pro palácio e transforma a secretaria de comunicação na secretaria de segurança, digamos assim. Ele bota todo aparato da brigada militar a serviço do resguardo da comunicação. Resguardar a torre da Ilha da Pintada, transforma o palácio num grande forte de comunicação, onde ele bota os transmissores na rua pro povo que tava na frente ouvir o discurso dele, começa a discursar, discursar, produção artística, poesia, jogral, em torno disso, os dias vão passando e só discurso não dá, [o ator Paulo César] Pereio, [a poeta] Lara de Lemos, fazem o Hino da Legalidade, aquilo começa a ser tocado ininterruptamente.
LG – Vai mobilizando todo o Brasil, “olha não vamos deixar ter esse golpe”.
ZB – Mobiliza a sociedade civil inteira no sentido de dizer: “o que temos aqui?”. “A brigada militar”. “Quantos contingentes?”. “Tantos”. “Isso aqui não dá nada”. “O que a gente tem?”. “O povo na rua”. “Quantas mil pessoas estão na rua?”. “As pessoas precisam se armar”. Aí ele estabelece um jogo de guerra civil pela constituição. Quem tem arma pega sua arma e vem pra rua. Ninguém tinha tanta arma, ele pega todas as armas de estoque do palácio e distribui pra sociedade civil. Vai na Taurus, pega todo estoque de armas da Taurus, a Taurus que hoje tá com as ações lá em cima, distribui pra população todas as armas e “nós vamos enfrentar o exército brasileiro, vai ser brasileiro contra brasileiro, por que a gente tem que preservar a única coisa que a gente tem que é o voto democrático popular”. Jango Goulart havia sido eleito com mais votos que Jânio Quadros, numa época que as eleições eram separadas, vice e presidente.
SB – Não podia ser mais legítimo.
ZB – Só que na verdade isso tudo era um jogo de cena, as armas do palácio não tinham balas, as balas eram da revolução de 30, estavam todas estragadas. Ele vai jogando com o limite, pra ver o que ia acontecer, e tentando segurar, segurar, segurar, pro Jango voltar e o Jango não vinha.
LG – Não tinha informação direito de onde é que ele tava, tava em Nova York, ele vinha a conta-gotas, parava em Lima…
ZB – Até começar a guerra eles não precisam saber que elas não atiram [risos].
LG – Triste pensar que tem uma avenida em Porto Alegre chamada Castelo Branco. Fizeram uma votação, vereadores conseguiram mudar pra Legalidade. Aí quiseram mudar, “não, por que tem uma pracinha chamada Legalidade”. Aí virou avenida da Legalidade e da Democracia. Agora, em tempos [de] Bolsonaro voltou a se chamar Castelo Branco.

Sério?
LG – Agora vamos recomeçar, pra voltar a ser Legalidade, é sintomático, não?
ZB – Se a gente quer lutar, tem que lutar por educação, no Brasil hoje.
SB – O Castelo era o menos golpista deles. O Castelo saiu do Ceará pra detonar o golpe, o AI-5 do Costa [e Silva], por que o compromisso moral do Castelo com a nação era da eleição em dois anos. Ele saiu, teve que sair, passou pro Costa e Silva e o Costa e Silva deu um golpe dentro do golpe. E ele decolou e caíram o avião dele.

A personagem da Cléo Pires é jornalista.
SB – É uma espiã disfarçada.
ZB – Spoiler!
SB – Apaga, apaga [risos]. Quem sabe ele não é um espião da CIA? [gargalhadas].

Ou pelo menos da Abin [risos]. Recentemente houve esse episódio do The Intercept vazando as conversas do Sérgio Moro. Queria saber a opinião de vocês sobre a importância do jornalismo e da liberdade de imprensa no mundo e principalmente no Brasil sob a égide de Bolsonaro.
LG – Estou aguardando o episódio de hoje da Vaza Jato.
SB – O filme deles sobre o Tarso reflete muito bem isso. O Tarso sempre disse que não tínhamos uma imprensa livre, é uma imprensa submissa, uma mídia submissa, infelizmente. Claro, tem CartaCapital, tem Caros Amigos, tem umas revistas, uns jornais que não estão no topo do consumo, que são as vozes resistentes. Agora os demais? [Fala com desdém:] Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, Record, tudo isso está a serviço do capital. O jornalista de um desses órgãos que quiser ser libertário, da grande mídia, que quiser falar a verdade, está desempregado. Não só desempregado como o chefe liga pras outras redações e diz: “não contrata fulano, que ele complica”. Nosso jornalismo, infelizmente, está amordaçado. O que salva agora? As redes sociais, as agências independentes.
LG – Pro bem e pro mal. Hoje em dia as pessoas recebem notícias pelo celular e ninguém quer saber se é verdade, se não é. Mas fake news passa.
SB – Passa. O cara vai quebrar tanto a cara dando mancada, que uma hora ele vai procurar uma fonte confiável. E existem fontes confiáveis. A própria grande mídia agora está ficando responsável [risos], está sentindo a concorrência. Desde o tempo do [Assis] Chateaubriand que a grande mídia é golpista, que derruba, se apropria, e manda no presidente.
LG – A gente aborda, no próprio Legalidade, não só a Cléo Pires é uma brasileira que mora em Washington. A gente tem um triângulo amoroso, são dois irmãos, um deles trabalha no [jornal] Última Hora. Todo envolvimento dos jornalistas naquela época na Legalidade é fundamental. Eles fazem parte do plano do Brizola, era um jornalismo muito mais ativista, digamos.
ZB – Tem duas questões, fazendo relação com The Intercept. Primeiro, a questão da investigação e dessa responsabilidade que o jornalismo brasileiro talvez precise retomar, de depender menos do release, das notícias prontas, mas de ir atrás não só da visão oficial. Até no filme isso é engraçado, por que de alguma maneira os meios de comunicação de nosso filme estão a serviço do Brizola, eles são a voz do Brizola, a voz de uma liderança, mas de uma liderança que eles conheciam intimamente. Isso é uma questão. Ele não tinha como governante, esse distanciamento que os governantes costumam ter da imprensa. O Brizola tomava café todos os dias com os jornalistas para falar sobre o que estava acontecendo, chamava, não se negava a responder nenhuma pergunta, não era uma pessoa que fugiria de uma pergunta. Ele sabia a importância da imprensa para se manter ligado ao povo, ele tinha essa relação com o povo. “A grande massa, as pessoas que estão muito distantes, todos precisam saber do que estou fazendo”, pra ser cobrado também. Ele dava a cara a tapa, deu grandes exemplos em vida pra poder fazer as coisas que fez. Ele fez a reforma agrária, mas ele doou uma fazenda que ele tinha, foi a primeira fazenda, que ele doa, da família. Mas ele soube jogar, no episódio da Legalidade, com a imprensa como um elemento de guerra.
LG – Isso o Brizola jovem, por que o Brizola mais velho, depois…
ZB – Vai comprar briga com a imprensa.
LG – E o fato de o Brizola ter brigado com a Globo significou que ele nunca foi presidente do Brasil. O exílio também fez muito mal pra ele.

Como é que vocês têm acompanhado esse ataque sistemático às artes, à cultura e ao pensamento pelo governo Bolsonaro?
SB – É o que se esperava dum fascista. Não pode esperar do fascismo outra coisa a não ser isso. O [ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph] Goebells, o número um do [Adolph] Hitler, dizia: “quando eu ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar da pistola”. Indiretamente, eles odeiam, eles também têm vontade de sacar a pistola e matar todos os artistas, por que o artista é rebelde, o artista fala, o artista é independente, além do quê a cultura e a arte servem para o esclarecimento do povo, e eles não querem, querem o povo burro.
LG – Ignorante como eles.
SB – Eles não têm carinho nenhum, têm profundo desprezo pela cultura. E é aí que está o nosso papel: resistirmos. Por que isso passa. Essa onda de fascismo, de direitismo, existe em todo o mundo, não é só no Brasil, eles estão surfando na onda, a direita botou as garras de fora e está tendo seu momento. Até por culpa da esquerda, vamos aprofundar, que fracassou em muitas coisas. Acontece que a hora é deles, não é a nossa hora, não é a hora dos progressistas, não é a hora dos esquerdistas. Nesse momento nós temos que resistir, aguentar, por que muda, claro que muda, não sei se vai durar 10 ou 20 anos. Mas de repente alguém pode cair do cavalo.
LG – Vale falar que o filme é em memória de nosso ator, que acabou falecendo, infelizmente, que interpreta o Brizola, o Leonardo Machado.
SB – Foi o último trabalho dele.
ZB – O Léo é o protagonista, junto com o Sapiran ele faz o Brizola, a maior parte do filme ele conduz a trama, é um grande ator do Rio Grande do Sul, deixa um legado importante. Todos os diretores dos últimos 20 anos em algum momento trabalharam com ele. Não chegou a ver o filme pronto, viu um corte, enfrentou um câncer e nos deixou precocemente. Mas fez o filme com uma entrega absoluta, com paixão, buscou o papel, a gente estava buscando um ator, estávamos caindo no canto da sereia de que para chamar público tínhamos que ter atores do eixo Rio-São Paulo, em grande evidência na televisão.
LG – Mas tu tinha uma pulguinha, queria um Brizola gaúcho.
ZB – É, num primeiro momento a gente achava. Mas ele buscou o papel, me procurou, chegou ao teste caracterizado, era mais forte do que o próprio filme a vontade dele de fazer o filme. Fez lindamente, conduz o filme com uma baita responsabilidade, as falas reais do Brizola, teve um processo de caracterização, mudou o cabelo, colocou lente de contato, engordou um pouco para fazer o filme, é um ator muito completo, tanto pelo aspecto físico, disposto a transformações, quanto pela parte de equipamento vocal, tinha uma voz muito bonita, muito volume, pros discursos do Brizola isso foi muito importante, uma capacidade também de ser muito generoso, conviveu muito com o Sapiran, foi pra Bagé, fez um laboratório de um mês antes, saiu um pouco da cidade, para buscar essa raiz do Brizola, que era um homem rural, um colono, um homem do campo. Foi conviver com o Sapiran para os dois criarem o mesmo personagem. O filme, agora que eu falei esse negócio do campo, tem uma outra questão importante que a gente foi buscar: o filme se passa todo em Porto Alegre, mas estabelece um relação histórica com São Borja, com a raiz desse trabalhismo brasileiro que nasce com Getúlio Vargas num território que é Brasil mas que tem como origem de colonização a cultura espanhola, a figura do caudilho, e principalmente a questão da justiça social que fez parte da utopia jesuítica guarani. São Borja é uma cidade que nasce da colonização espanhola jesuítica, e foi o grande centro da justiça, os tribunais guaranis aconteciam em São Borja. Em 1680 já existia a ideia de reforma agrária, de divisão igualitária da terra, isso vai estar no subconsciente do Getúlio, do Brizola, e o filme tenta também flertar com esse passado espanhol que fez o Rio Grande do Sul, que está nas missões, tem um elemento do nosso filme que é inspirado no Darcy Ribeiro, antropólogo, que está na região das missões, em São Miguel das Missões, trabalhando com os indígenas, e vai pra Porto Alegre, mobilizado pela Legalidade, também mostrando essa mobilização que o Brizola fez no interior do estado. Então, pra falar um pouco das raízes do Brasil, que passa pelo elemento indígena, pelo elemento negro, pelo elemento português e pelo elemento espanhol, também no caso do Rio Grande do Sul.

Foi todo rodado em Porto Alegre?
ZB – O filme teve locações em São Miguel das Missões, também em Torres, mas representando Punta del Este, mas a história em si se passa em Porto Alegre.

No começo da entrevista você fez um elogio ao Guarnicê. Nesta edição foi inaugurada uma mostra chamada Cinema Político. O que você achou da iniciativa?
ZB – Eu achei fantástico, o festival tem que ter um compromisso com a sociedade. A gente vive um momento no Brasil onde as instituições, onde o próprio sistema político, como a sociedade vê a política, precisa ser discutido, pensado, a gente precisa repactuar com a sociedade, com a política. Há hoje uma ojeriza, um preconceito muito grande do cidadão com a classe política, por conta do desgaste da corrupção, que é real e que é histórico. A gente esteve no Museu de Arte Sacra hoje à tarde e há uma frase de Padre [Antonio] Vieira, numa de suas pregações, falando de como a corrupção está presente e é genuína do ser humano e é preciso combatê-la, não é questão apenas de ser brasileira, ela existe em toda parte, mas de alguma maneira no Brasil, por conta de nosso processo histórico, a mancha da corrupção se tornou maior do que a vontade civilizatória de fazer política por parte do cidadão. A gente precisa reaproximar o cidadão da política. A sociedade, no seu mais alto grau de caminhar, de pacto social, precisa da política, precisa da participação política. Mas não necessariamente da figura do grande líder, e é essa que é a questão que o Brizola entende, que aquilo tudo só seria possível envolvendo todos os cidadãos e fazendo com que as pessoas se apropriassem daquela causa, lessem a constituição, entendessem por que estavam lutando por aquilo. Como artista a gente também tem um compromisso de aproximar a política da discussão cidadã. A política é estrutural na sociedade, voltamos pra Grécia antiga. Há sociedades que conseguiram avançar, inclusive pra que a gente pudesse ter um processo civilizatório que deu origem ao renascimento, que deu origem à modernidade, ela se baseia na política.
SB – Há um preconceito contra a política em essência. Quando tem um festival que abre uma janela importante para um filme político, é importante, é um avanço. O Guarnicê tem conteúdo, tem pensamento, é um festival de pensamento. O festival que ele [aponta para Zeca] é coordenador tem isso também. É arte, mas é arte para pensar.

Qual é o festival que você coordena?
ZB – Tanto eu quanto Léo, de alguma maneira nós criamos janelas para poder propagar a arte cinematográfica brasileira, mas também refletir sobre nossas áreas, eu na minha atuação na faixa de fronteira e o Léo como roteirista. O Léo criou em Porto Alegre, o Frapa, o Festival do Roteiro Audiovisual, que é hoje um dos maiores, acho que é o maior da América Latina, e eu criei em Bagé e Livramento o Festival de Cinema da Fronteira, que já tem 11 edições. Ano que vem eu não vou participar, vou assistir. Mas fui o idealizador. O Frapa está chegando à sétima edição.

Qual a previsão de estreia do Legalidade no circuito exibidor?
ZB – Dia 12 de setembro ele vai estrear no Brasil. [Distribuição da] Boulevard Filmes, que distribuiu o Tarso também, distribuiu o Glauco do Brasil, meu outro filme.

Como vocês avaliam o atual momento do cinema brasileiro em que filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, e Marighela, de Wagner Moura, têm concorridas estreias internacionais, com ampla repercussão, mas não estreiam no Brasil?
LG – Eu acho que o Bacurau vai acabar estreando. O Marighela tá complicado, eu estou lendo, está complicado, a distribuidora ficou com medo da repercussão. O Marighela é diretamente contra o Bolsonaro. Eu não vi o Bacurau, mas imagino que seja uma coisa não tão direta, é óbvio que o discurso está ali, mas uma pessoa tosca não vai se sentir agredido, como o Bolsonaro, diferente do Marighela, que é um cara que combateu a ditadura. Eu acho que o Bacurau vai entrar em cartaz, deve entrar bem, espero que faça um bom público.
ZB – Eu acho que ambos os filmes escolheram estrear em festivais estrangeiros, é uma política que os realizadores brasileiros têm tido, não agora, mas há muitos anos, por que muitos desses festivais exigem que seja première mundial. Estreiam fora por que não têm espaço no Brasil? Não é verdade. Estreou fora por que os realizadores brasileiros preferem estrear fora, criar expectativas, ganhar prêmios fora, e depois estrear nos festivais nacionais. Acho difícil que ambos os filmes, de realizadores de prestígio, com os elencos que têm não sejam selecionados em festivais brasileiros. Provavelmente a gente vai ver agora no segundo semestre, os dois filmes em Gramado, Brasília, em algum desses festivais, Rio, São Paulo, eles vão estar nesses festivais. A questão do lançamento comercial, hoje no Brasil, tem dois caminhos: ou é investimento de uma grande distribuidora, e aí isso não é uma questão de perseguição política, é uma questão de capital. A gente vê que o capital pode, por exemplo, como a Netflix, lançar um filme sobre o impeachment da Dilma, por que o capital não tem esquerda nem direita, ele vende pra esquerda e pra direita.
LG – A Netflix fez O mecanismo [de José Padilha].
ZB – A mesma Netflix que fez O mecanismo faz Democracia em vertigem [de Petra Costa]. Então o capital é um grande balaio, que tem uma oferta que é o comunismo, o neoliberalismo, está tudo ali em oferta. O outro mecanismo é o Fundo Setorial do Audiovisual. O Legalidade é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o Marighela também. O Fundo Setorial do Audiovisual, na medida em que você aprova o financiamento da realização, a distribuição é suporte automático. Se eu quiser recorrer, eu posso ter recursos do mesmo fundo pra distribuir o filme.
LG – Até o ano passado. Agora tá tudo meio turvo.
ZB – Qualquer filme que está sendo lançado esse ano comercialmente teve que fazer esse processo ano passado. Imagino que qualquer filme que tenha optado pelo Fundo Setorial do Audiovisual ele terá o lançamento, imagino, garantido. A sociedade civil organizada que lutou pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que lutou pela transparência, pela governança de um fundo que é gerido por um banco público, aliás, o BRDE foi criado pelo Brizola [risos]. O que existe é uma dominação estrangeira das salas. Vingadores estreou em 800 salas. Há um preconceito contra o cinema nacional, isso existe e isso o Bolsonaro está fazendo questão de acentuar, é uma questão que a gente já vêm lutando há muitos anos e é função nossa, como imprensa, como artistas, formar público, lutar contra essa dominação estrangeira.

Serviço

Divulgação
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Olhai os lírios do Illinois

A mula. Still. Reprodução

 

Clint Eastwood é um monumento vivo do cinema. Seu novo filme, A mula [drama, EUA, 2018, 116 minutos], é ao mesmo tempo brutal e delicado, com várias camadas e diversas lições (aprendamos com os erros alheios, pois não teremos tempo para cometê-los sozinhos novamente, parece dizer uma delas).

Com direção e atuação magistrais, como é de seu feitio, Eastwood é Earl Stone, um velho premiado por produzir os mais belos lírios do Illinois. É um daqueles seres de que se pode dizer que vive de férias, pois trabalha com o que gosta, mesmo isso custando certo desleixo nas relações familiares.

Decorrem daí a culpa, a falência e uma eterna busca do tempo perdido. Acaso e remorso acabam levando Earl a uma aventura no universo ilegal, perigoso e, por que não dizer, glamouroso do tráfico de drogas. São as viagens que faz a serviço de um cartel mexicano, a princípio numa velha caminhonete – imediatamente pensei em Gran Torino [2008], ao vê-la em cena –, depois numa caminhonete de luxo, adquirida já com o pagamento recebido pelo transporte da primeira carga.

O filme é baseado em um artigo do New York Times, da década de 1990. As viagens e a ousadia de Earl – que dirige cantarolando o que ouve no rádio, a trilha sonora do road movie um espetáculo à parte – prendem o espectador, afinal de contas, ele é um velhinho simpático, bon vivant, bom de papo, um tipo, afinal, acima de qualquer suspeita, dono de fina ironia, bom humor e, por outro lado, de alguma forma, conhecedor da malandragem, já que é um veterano de guerra.

“A geração de vocês”, começa a palestrar a qualquer um que encontre pelo caminho com os olhos enfiados na tela do celular. Ele culpa a internet pela falência de seu negócio com os lírios. É um anacrônico que lamenta não poder comprar mais tempo para recuperar o que deixou de passar com a mulher (Mary, interpretada por Dianne Wiest), a filha (Iris, por Alison Eastwood, filha do diretor) – com quem não fala há 12 anos e meio – e a neta (Ginny, Taissa Farmiga). “Eu pude comprar tudo, só não pude comprar o tempo”, diz a certa altura, arrependido.

Líder da caça ao cartel, o agente Colin Bates (Bradley Cooper) chega a tomar um café com Earl. O policial, com a cara enfiada no celular, lamenta ter esquecido seu aniversário de casamento, e recebe conselhos do protagonista. Estabelece-se uma relação afetuosa, para além da de caça e caçador.

É comovente quando Earl assume os riscos de atrasar a entrega de uma carga para acompanhar os últimos dias da ex-esposa moribunda, e hilariante quando ela lhe pergunta onde ele havia arrumado o dinheiro para retomar a propriedade hipotecada em que plantava lírios e pagar a formação universitária e a festa de casamento da neta.

A única redenção que Earl quer é junto à família. “A família é o mais importante”, diz, noutra passagem. Mesmo isto significando o rompimento definitivo do convívio familiar, assume sua culpa a demonstrar que há limites éticos, ainda que se trate do submundo do crime. Baseada em fatos reais, os criminosos da ficção de Eastwood são maiores que os protagonistas da triste realidade brasileira. O cerco e o ciclo se fecham: A mula começa e termina com a beleza dos lírios, metáfora para o bom da vida, que apesar de tudo, está por aí: basta abrir bem os olhos e prestar a devida atenção.

*

Veja o trailer:

Melhores de 2018

Pelo terceiro ano consecutivo tenho a alegria de figurar entre os votantes dos melhores do ano do site Scream&Yell, capitaneado pelo querido Marcelo Costa.

É sempre uma dificuldade. Um exercício e tanto. Minhas listas, por exemplo, raramente têm obras incluídas na lista final, após a tabulação do site. Entre os melhores de 2018, por exemplo, só uma música nacional na qual votei figurou no top 7 final.

Uma curiosidade que percebo em meus votos, comparando-os à lista final, é certa observação da cena regional, indicando não um bairrismo ou coisa que o valha, mas a necessidade de os artistas maranhenses irem a outras praças.

A lista completa dos melhores de 2018, com todos os detalhes (e votantes) pode ser conferida no Scream&Yell. A seguir, apresento minha modesta (e falha) contribuição.

MELHOR DISCO NACIONAL

  1. Camapu, Cesar Teixeira
  1. Feita na pimenta, Alexandra Nicolas
  1. Batalhão de rosas, Lena Machado
  1. Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, Titane
  1. Viola perfumosa, Viola perfumosa (Lui Coimbra, Ceumar e Paulo Freire)

MELHOR SHOW NACIONAL

  1. João Donato, 10º. Lençóis Jazz & Blues Festival, São Luís/MA
    2. Hamilton de Holanda, 10º. Lençóis Jazz & Blues Festival, São Luís/MA
    3. Cesar Teixeira, lançamento do cd Camapu, Teatro Arthur Azevedo, São Luís/MA
    4. Elomar e João Omar, Muntano o mondengo, Teatro Arthur Azevedo, São Luís/MA
    5. Cláudio Lima, Luiz Cláudio e Rubens Salles, Cada mesa é um palco, Buriteco Café, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  1. O outro lado do vento, Orson Welles
    2. Serei amado quando morrer, Morgan Neville
    3. Severina, Felipe Hirsch
    4. Me chame pelo seu nome, Luca Guadagnino

MELHOR FILME NACIONAL

  1. Tungstênio, Heitor Dhalia
    2. O beijo no asfalto, Murilo Benício
    3. Paraíso perdido, Monique Gardenberg
    4. A vida extra-ordinária de Tarso de Castro, Léo Garcia e Zeca Brito
    5. Guriatã, Renata Amaral

MELHOR LIVRO

  1. A cobrança, Mário Rodrigues (Record)
    2. Forte apache, Marcelo Montenegro (Companhia das Letras)
    3. Raphael Rabello: o violão em erupção, Lucas Nobile (34)
    4. A revolução dos bichos, George Orwell (adaptação em quadrinhos: Odyr) (Companhia das Letras)
    5. Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito, Fabrício Marques (Conceito)

O MELHOR DA TV

  1. Cultura Livre, Roberta Martinelli, TV Cultura
    2. Brasil toca choro, TV Cultura
    3. Elis: viver é melhor que sonhar, Rede Globo

MELHOR MÚSICA NACIONAL

  1. Juçara (Cesar Teixeira), com Cesar Teixeira
    2. Preta Chica (Paulo César Pinheiro/ Roque Ferreira), com Alexandra Nicolas
  1. Exu nas escolas (Kiko Dinucci/ Edgar), com Elza Soares feat. Edgar
  1. Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols (Tatá Aeroplano/ Malu Maria), com Tatá Aeroplano e Malu Maria
  1. Dos dois (Juliano Gauche), com Juliano Gauche

Documentário joga luz sobre vida e obra de Henfil, necessário e atual como nunca

Henfil. Cartaz. Reprodução

 

“Chamar Henfil de cartunista é reduzi-lo. Ele foi multimídia, atuou em jornal, televisão, cinema, teatro, literatura, fez tudo o que existia na época”, nos alerta Tárik de Souza, um dos entrevistados de Henfil [Brasil, 2018, 75 minutos], documentário de Angela Zoé, lançado no fim do ano passado, quando se completaram 30 anos de seu falecimento.

“Na verdade, Henfil, Chico Mário e Betinho [o sociólogo Herbert de Souza] foram assassinados pelo Brasil”, completa Tárik, um dos maiores críticos musicais brasileiros em atividade, seu colega dos tempos de Pasquim, referindo-se à falta de fiscalização nos bancos de sangue brasileiros à época: os três irmãos eram hemofílicos e tornaram-se soropositivos em transfusões de sangue.

O mote do documentário leva em conta uma reunião de cartunistas (entre os quais o grande Aroeira), em fins de 2016, admiradores do trabalho de Henrique Souza Filho, o Henfil, que manifestaram o desejo de realizar uma animação utilizando personagens que se confundem com a própria história do Brasil, e particularmente, da luta contra a ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já!, nomes como a Turma da Caatinga, entre os quais a Graúna, Zeferino e o Bode Orelana, os fradinhos, o Caboco Mamadô, entre muitos outros.

Imagens de Henfil em super8, depoimentos seus a programas de tevê e suas aparições na TV Homem (quadro que apresentou dentro da atração global TV Mulher) dão conta de retratar a importância do artista para o humor e a redemocratização do país – embora esta frágil, curta e já descartada.

Há um permanente exercício de imaginação no ar: 30 anos depois, o que Henfil estaria fazendo se estivesse vivo? Certamente se valendo das tecnologias (e facilidades) proporcionadas pela internet e contra esse estado de coisas em que se transformou o Brasil, golpe após golpe.

Henfil tinha um traço rústico e certeiro, sem firulas. Jaguar, outro colega de Pasquim, revela que ele mesmo nunca conseguiu imitá-lo, o que parece ser um dos maiores elogios possíveis a um artista de seu naipe.

Henfil soube tocar em nervos expostos, captando e ajudando a entender e explicar um momento crucial da história do Brasil. É conhecido o episódio em que não poupou a cantora Elis Regina por ter cantado nas olimpíadas do exército – o que ninguém sabia à época é que ela fora obrigada. Depois fizeram as pazes e mais tarde a gaúcha imortalizaria os versos “e sonha com a volta do irmão do Henfil/ com tanta gente que partiu num rabo de foguete”, da dupla Aldir Blanc e João Bosco em O bêbado e a equilibrista.

Em livros como Cartas da mãe (reunindo colunas publicadas na revista Isto É), Henfil na China e Diário de um cucaracha, tirava onda com a síndrome de vira-latas rodrigueana: as coisas no Brasil podem ser boas como forem, mas a gente só dá valor se sair no The New York Times – que acabaria publicando seu obituário –, brincalhona obsessão que intitulou sua incursão pelo cinema: Henfil dirigiu Tanga – Deu no New York Times, que Jaguar considera ruim mesmo para os padrões do cinema brasileiro da época. “A única coisa que presta em teu filme é minha atuação”, chegou a tirar onda, tudo entre amigos.

O mote do filme passa pelo jornal americano: em uma ilha imaginária o ditador de plantão acabou com a imprensa, mas continua a receber exemplares do NYT, queimados logo após a leitura, pois quem detém informação detém o poder. Apesar do fracasso, Tanga tem música do conterrâneo Wagner Tiso e presenças do próprio Henfil, Chico Anysio, Elke Maravilha, Jaguar e Tom Jobim no elenco.

Henfil tinha urgência de viver e criar, pois sentia desde cedo a doença que o vitimou pisando-lhe os calcanhares, ela personagem secundária no documentário, que se equilibra entre o bom humor e a genialidade de seu retratado, que nele se confundem, e sua disposição em lutar por um Brasil justo e livre de qualquer tipo de censura.

“A esperança somos nós” é o recado sutil, dado na animação dos créditos. Infelizmente, Henfil nunca foi tão necessário e atual.

*

Veja o trailer:

Amores e mistérios

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira). Cartaz. Reprodução

 

O seu amor de volta (mesmo que ele não queira) [documentário, Brasil, 2018, 82 minutos], de Bertrand Lira, estreou em dezembro passado, durante o 13º. Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, um dos mais importantes festivais de cinema da Paraíba, terra do cineasta, realizado na capital João Pessoa. O catálogo do festival adverte: “esta produção é “Hors-concours Première Parahyba” – não participa da mostra competitiva”. Caso concorresse, as chances de prêmio seriam grandes, aposta Homem de vícios antigos.

Em sua atmosfera vermelha, remetendo a salas de cartomantes, cabarés e pés-sujos, o novo filme de Bertrand Lira é um documentário que o espectador pensa que é ficção, sobretudo pela presença de histórias reais de gente ligada ao cinema e ao teatro. Em geral, búzios e cartas são buscados diante de desilusões amorosas, embora esta opinião seja mera especulação, já que desconhecemos estatísticas de institutos de pesquisa sobre o assunto.

Dados à parte, é no amor, em suas idas e vindas, e na confiança na magia para trazê-lo de volta e mantê-lo ao lado, que foca o documentário, desde o bem-humorado título.

Se “a vida imita o vídeo”, como cantaram os Engenheiros do Hawaii, ou “a arte existe por que a vida não basta”, como sentenciou Ferreira Gullar, é na dúvida entre se as histórias são reais ou ficção, se os personagens estão interpretando ou não, na astúcia do diretor e roteirista Bertrand Lira, que residem alguns dos trunfos de Seu amor de volta (mesmo que ele não queira), ao adentrar um universo que desperta paixão e ódio, entre quem acredita no poder do mistério e quem acha que tudo não passa de bobagem, quando não charlatanismo.

Há histórias dolorosas, em que a rima mais clichê, amor e dor, segue aparecendo, em ambientes enfumaçados e movidos a álcool, das salas em que videntes e cartomantes atendem aos bares, e há quem ria da própria dor, como a senhora que canta versos hilariantes e bebe uísque direto na boca da garrafa.

Professor doutor do Departamento de Comunicação em Mídias Digitais e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Bertrand Lira realiza documentários desde 1981. Ele conversou com exclusividade com o blogue.

Retrato: Rodrigo Barbosa

 

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira) aparece com a tarja de documentário no catálogo do 13º. Fest Aruanda, de João Pessoa/PB, onde ele estreou em dezembro passado, sem competir. Todas aquelas histórias são reais?
Meu filme é indexado como um documentário porque ele trabalha personagens reais contando suas histórias de desilusões amorosas. A pesquisa envolveu mais personagens, inclusive cinco prostitutas que na edição definitiva ficaram de fora. De certa forma, foi uma coincidência que no corte final ficaram quatro personagens que trabalham com cinema e teatro: um ator e maquiador, uma professora e atriz travesti, e duas atrizes de renome nacional, Zezita Matos e Marcélia Cartaxo. Claro que tem momentos do filme que a fronteira entre ficção e não ficção está nebulosa, mas o que tem de ficção é a carga de subjetividade e imaginário desses atores sociais que o documentário representa em cenas criadas para ilustrar sentimentos, emoções etc.

Qual a sua relação anterior com cartas, búzios e esse universo mágico em geral anunciados em papéis colados em postes?
Para a pesquisa ainda muito embrionária de O seu amor de volta eu procurei uma cartomante para conhecer o universo retratado, mas ela não aceitou participar do filme. Os personagens que aceitaram participar (dois pais de santo e uma cartomante) eu os encontrei apenas duas vezes, a primeira para explicar o projeto e a segunda já nas gravações.

Histórias trágicas e uma diversidade incrível de personagens: como foi chegar a este recorte? Quanto de pesquisa e quanto de sorte, feito a bola que procura o craque?
A realização deste filme foi fruto de duas ideias: uma a partir do filme de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010), que me levou a pensar um documentário sobre cartomantes, videntes etc. E a outra foi do personagem Williams Muniz, ator, maquiador e figurinista de teatro e de cinema, que nas horas vagas escreve crônicas sob [o pseudônimo] Laura de Jezebel, seu alter ego. Williams é o fio condutor desta narrativa.

As presenças das atrizes paraibanas Marcélia Cartaxo e Zezita Matos despistam a atenção do espectador: são atrizes e parecem interpretar. Como foi a descoberta de suas histórias e encaixá-las no roteiro do filme?
A atriz Marcélia Cartaxo já estava no projeto desde a sua origem, pois a conheço desde a infância vivida na rua onde nascemos, a Higino Rolim, em Cajazeiras, interior da Paraíba, e tenho acompanhado sua trajetória pessoal e profissional. A atriz Zezita Matos foi incorporada ao projeto por acaso. A presença de duas atrizes forçosamente leva as pessoas a imaginar que tudo é ficção.

Você tem uma vasta carreira no cinema, é professor universitário e também autor de livros sobre a sétima arte. Na sua opinião, esse currículo todo aumenta a responsabilidade na hora de realizar?
Como professor e pesquisador investigamos o cinema documental durante quatro anos no grupo de pesquisa que coordeno na UFPB, o Gecine (Grupo de Pesquisa em Cinema e Audiovisual). Isso me levou a conhecer a trajetória do gênero desde a sua origem. Claro, a responsabilidade só aumenta. As pessoas acham que os acadêmicos são apenas teóricos. Eu faço documentário desde 1981, a partir dos estágios de cinema dos ateliês Varan da França, criados pelo renomado etnógrafo e cineasta Jean Rouch em diversos países do mundo. Tive a chance de me especializar duas vezes na Association Varan de Paris.

Em primeira mão: conheça os vencedores do Maranhão na Tela 2018

Mavi Simão anuncia os vencedores do Maranhão na Tela 2018. Foto: Ascom/ Maranhão na Tela

 

Terminou ontem o 11º. Maranhão na Tela. Este ano o festival concentrou suas atividades de exibição em duas salas do complexo Kinoplex, no Golden Shopping, Calhau, em cuja praça de alimentação aconteceram debates, como “Lugar de mulher é no cinema”, de que participaram a atriz e diretora Aurea Maranhão, a diretora e produtora Mavi Simão, e a diretora Rose Panet, sob mediação da jornalista e escritora Andréa Oliveira, e o bate-papo com os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mediado pelo poeta e jornalista Celso Borges, após a sessão que exibiu versão remasterizada de Baile perfumado (1996).

Esse deslocamento geográfico gerou críticas ao festival nas redes sociais. De minha parte, gosto de pensar em duas questões: a comprovada qualidade das exibições e a possibilidade, a um estudante de escola pública ou a um morador de periferia, sobretudo quem nunca esteve em um cinema, fazer sua estreia logo em uma sala luxuosa, sem pagar ingresso, o que se tornou realidade para muita gente.

Idealizadora e produtora do Maranhão na Tela, Mavi Simão canta uma vez por ano, justamente na festa de encerramento do festival, que ontem ocupou o Fanzine, na Av. Beira-Mar, Centro. Antes, ela mesmo anunciou e entregou os troféus aos vencedores das mais diversas categorias.

Fiz um esforço para tuitar em tempo real, mas por lerdeza, algum grau de mouquidão, lentidão na internet, por vezes, e às vezes tudo isso junto, vacilei na cata de alguns nomes.

A atriz e diretora Patrícia Niedermeir e o diretor e montador Christian Caselli formaram o júri para longa-metragem; videoclipes foram julgados pelo diretor Lírio Ferreira e a produtora cultural Luciana Adão; e curta-metragem pelo curador e produtor Breno Lira Gomes e o técnico Carlos Henrique Santos, da equipe de formação audiovisual do Centro Técnico Audiovisual (CTav), órgão vinculado à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC).

Além dos troféus, baseados na obra do artista Walter Sá, em que se apoiou toda a identidade visual do festival este ano, os melhores filmes e videoclipes ganharam horas de aluguel de equipamentos e mixagem no CTav. Eis a relação completa dos vencedores:

MOSTRA NOSSO CINEMA

Longa-metragem

Melhor atriz: Keila Gentil, Para ter onde ir

Melhor ator: Aldo Leite (homenagem póstuma), No palco com Aldo Leite

Melhor atriz coadjuvante: Joelma Maestrini, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor direção de fotografia: Beto Martins, Para ter onde ir

Melhor ator coadjuvante: Fabio Lima, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor som: João Simas, A tribo do reggae

Melhor roteiro: Rose Panet, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor direção de arte: Dida Maranhão e Geovane Camargo, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor montagem: André Garros, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor filme: Para ter onde ir

Melhor direção: Jorane Castro, Para ter onde ir

Curta-metragem

Melhor direção: Al Danúzio e Thiago Kistenmacker, Aquarela

Melhor filme: Foi-se

Melhor roteiro: Adriano Pinheiro, Foi-se

Melhor som: Foi-se

Melhor direção de fotografia: Roman Lechapelier, Farol

Melhor direção de arte: Jeff Cecim, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor montagem: Arturo Saboia, Farol

Melhor ator: Diego Bauer, Obeso mórbido

Melhor atriz: Luna Gandra, Aquarela

Melhor ator coadjuvante: Francisco Gaspar, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor atriz  coadjuvante: Rosa Ewerton Jara, Aquarela

Videoclipe

Melhor videoclipe: Cabelo, Liége

Melhor direção: Arthur Rosa França, A menina do salão, do Criolina

Melhor direção de fotografia: Thiago Pelas, Deusa da lua perigosa, de Sammliz e Dona Onete

Melhor montagem: Lucas Domires e Alexandre Nogueira, por Lança (Até morrer), de Juliana Sinimbú

Melhor direção de arte: Neile Albertina, Frimes – Fadinha

Melhor performance: Pratagy, Búfalo

Premio especial do júri: Lucas Sá, Boy, de Butantan e Only Fuego

MOSTRA MARANHÃO DE CINEMA

Melhor filme: 3x melhor

Prêmio especial do júri: Alberto Greciano, Divino Pato

Menção honrosa: Roberto Augusto, Cantiliana e os herdeiros do mal de Lázaro

Menção honrosa: Maria Thereza Soares, José Louzeiro – Depois da luta

Black friday talk show

Foto: Zema Ribeiro

 

Era uma sexta-feira de black friday e estávamos na praça de alimentação de um shopping center. Por conta de uma das promoções típicas da data, a fila do Burger King era enorme e obviamente não passou despercebida a Lírio Ferreira, um dos diretores do clássico Baile perfumado, lançado há 22 anos, em Pernambuco. Com ele, no bate-papo, seu par de direção do filme Paulo Caldas, e o mediador, o poeta e jornalista Celso Borges.

Película importante da chamada fase de retomada do cinema nacional, após o desmantelo da Embrafilme no governo Collor, Baile perfumado foi o precursor de tudo o que viria depois em se tratando de cinema pernambucano, o Árido movie, que não à toa intitulou outro filme de Lírio Ferreira 10 anos depois, o estado nordestino um dos mais importantes celeiros do cinema nacional desde então.

Uma versão remasterizada de Baile perfumado foi exibida ontem (23) na programação do Festival Maranhão na Tela, em uma sala do Kinoplex Golden, no Golden Shopping, Calhau. “É interessante estarmos aqui. Embora seja estranho fazer isso em um shopping center. Mas quem diria, 22 anos depois do Baile perfumado, nós estarmos debatendo o filme aqui, em uma praça de alimentação, diante da fila enorme do Burger King”, disparou Lírio Ferreira.

Na plateia eu pensava que rever Baile perfumado na ocasião era uma espécie de atestado afetivo de velhice: eu tinha visto o filme na finada MTV Brasil. A trilha sonora, impactante, funciona como uma espécie de coletânea do MangueBit, o último movimento musical organizado de grande repercussão no Brasil, à época então se firmando: Chico Science, Fred 04, Mestre Ambrósio, Stela Campos e companhia.

“Quando gravamos o filme, já tínhamos 80 por cento da trilha sonora gravada”, revelou Lírio. “É muito bom poder ouvir o filme antes de rodá-lo”, repetiu Paulo Caldas.

Com Luís Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti interpretando respectivamente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Benjamim Abrahão, Baile perfumado tinge de ficção vermelho sangue a história real do fotógrafo libanês que conseguiu fazer imagens do cangaceiro em vida. Ao filme, aliás, comparecem as imagens em preto e branco da época de Lampião e seu bando.

“Havia várias imagens de vários arquivos. A gente juntou, recuperou, e está tudo na Cinemateca Brasileira”, comentou Paulo Caldas, revelando uma espécie de contrapartida histórica da dupla ao país – são imagens fabulosas, um documento valioso, sobretudo num tempo em que museus pegam fogo e pouca gente se importa.

O cangaço é algo muito forte no imaginário coletivo nordestino. “Lampião é, ao lado de Padre Cícero e Antonio Conselheiro, um dos maiores símbolos do Nordeste”, provocou Celso Borges. “E Luiz Gonzaga”, completou Lírio.

O nome de Luiz Inácio Lula da Silva não foi dito, talvez por terem citado apenas os que já se foram. Mas o descontentamento com os rumos do país ficou claro em suas falas. “Fazer cinema não é fácil, mas imagino que ser professor de escola pública também não seja fácil”, atacou Lírio. “Ainda mais num espaço sem liberdade, escola sem partido ou escola de partido único”, emendou Caldas.

“Uma coisa fica evidente, se estamos aqui 22 anos depois falando desse filme: o que fica é a arte, a coisa mais importante de um país é sua arte, sua cultura, não é a política”, completou, para aplausos dos poucos que assistiam ao bate-papo, infelizmente menos gente sentada que em pé na fila da citada lanchonete.

Aquarela será exibido hoje em São Luís

Curta-metragem maranhense venceu dois kikitos em Gramado e é um dos favoritos na mostra competitiva do festival Maranhão na Tela

Aquarela. Cartaz. Reprodução

Por detrás da fragilidade e inocência de uma criança (Clarinha, interpretada por Maria Helena De Dea), que envia um desenho para o pai, os diretores e roteiristas Al Danuzio e Thiago Kistenmacker estabelecem a trama alicerçada em flashbacks do curta-metragem Aquarela [drama, Brasil, 2018, 15 minutos].

As tintas da delicadeza para pintar um retrato do em geral trágico e brutal sistema penitenciário brasileiro. Inspirado em fatos reais, avisam, de início, dando ares de documentário à ficção.

“Uma denúncia revela que mulheres de detentos estão sendo abusadas dentro da penitenciária nos dias de visita. Líderes de facções criminosas obrigam as mulheres a manter relações sexuais com eles sob ameaças de matar os outros detentos, parentes ou maridos das vítimas”, uma locução de telejornal nos esfrega a triste e trágica realidade ao final.

Al Danuzio (que interpreta o detento Marcelo, pai de Clarinha) e Thiago Kistenmacker abordam o horror do sistema prisional por um ângulo inusitado. Quem não ler a sinopse e cair em uma sessão poderá se dizer enganado pelo título, que remete ao que o filme tem de poético, embora seja impossível escapar da violência.

A cena em que Ana (Luna Gandra) é enquadrada através dos cobogós é de uma beleza ímpar, em metáfora (também presente no cartaz) que sintetiza a opinião de muitos agentes de segurança pública, sobretudo policiais: mulher de malandro é malandra, filha de malandro é malandra, sentenciam, às vezes justificando a pena de morte a que os mesmos condenam sumariamente quem quer que orbite um detento.

A pergunta de Ana a Marcelo, durante a visita, é emblemática sobre o inchaço dos presídios brasileiros: “e o advogado? Disse quando é que vão te julgar?”. O que o filme tem de poético não disfarça os problemas do sistema nem joga tintas de pieguice em um dos maiores dramas não só do Brasil, mas com que, particularmente aqui, muito pouca gente se importa, apesar de seus reflexos para muito além dos muros de penitenciárias e que tais.

Cabem destacar ainda as atuações de Rosa Ewerton Jara (Dolores, mãe de Marcelo) e Urias de Oliveira (Diabão). Aquarela voltou do Festival de Gramado com dois kikitos na bagagem: melhor desenho de som (Fabio Carneiro Leão) e melhor montagem (Thiago Kistenmacker).

Serviço

Aquarela será exibido hoje (19) no festival Maranhão na Tela e certamente é um dos favoritos na mostra competitiva de curtas-metragens. As sessões acontecem às 19h (Kinoplex Golden Sala Platinum) e 21h15 (Kinoplex Golden Sala Kinoevolution), no Golden Shopping (Calhau). Toda a programação do festival é gratuita.

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Veja o trailer:

Um baile de cinema

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Cartaz. Reprodução

 

Um homem montado em um jumento transforma-se numa espécie de minotauro. Um minotauro moderno pode ter como segunda parte do corpo uma motocicleta. E é por uma espécie de labirinto que somos conduzidos ao longo do poético Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos [documentário, Brasil, 2016, 80 minutos], de Sergio Oliveira, com roteiro dele, Leo Pyrata e Renata Pinheiro, estreia nacional da semana – em São Luís em cartaz no Cine Lume.

O filme é povoado por jumentos, burros, jegues e outros animais que puxam carroças, além de bodes, cachorros e galinhas. Prescinde de palavras ao acompanhar uma viagem do grupo que lhe intitula, carinhosamente conhecido também pela sigla Super Oara, outro destaque musical da cidade que já deu ao Brasil o Coco Raízes de Arcoverde e o Cordel do Fogo Encantado, estes, nomes tidos como representantes de uma cultura mais “pura”, “genuína”, do lugar, apesar do flerte do último com o rock’n’roll.

Mescla o fazer musical do grupo, entre guitarra, contrabaixo, bateria, percussão, saxofone, trompete, trombone e piano, sob a regência do maestro Beto, à vida cotidiana do município do sertão pernambucano, distante 256 km da capital Recife, entre obras, trânsito, o tanger dos animais, o fim de feira, uma corrida de jegues, um inusitado encontro de easy riders agrestes, crianças brincando.

Em um de seus ônibus, a Super Oara vai de Arcoverde a Serra Talhada tocar em um aniversário de 15 anos, na sede da AABB local. Seu repertório, como o nome do grupo indica, é especializado em standards americanos, e ao longo do filme ouvimos clássicos como New York, New York (John Kander/ Fred Ebb), sucesso de Frank Sinatra, Bridge over troubled water (Paul Simon), regravado entre outros por Elvis Presley (a que vimos um dos integrantes da banda vendo um vídeo em um laptop durante a citada viagem), Fly me to the moon (Bart Howard), já gravada por aqui por Paula Toller, In the mood (Joe Garland), por aqui tema da minissérie Agosto, baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca, e, entre outras, Am I black enough for you (Kenny Gramble/ Leon Huff), sucesso de Billy Paul, na cena em que uma espécie de Michael “moonwalk” Jackson cover dança com o bumba meu boi de Arcoverde.

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, o filme, não se pretende uma cinebiografia do grupo quase sexagenário, tanto é que só do maestro Beto sabemos o apelido, ao longo de sua duração – quantos brasis há no Brasil por conhecermos? É um cinema inventivo, de puro deleite, que abusa da força poética das imagens, entre a realidade (documental) e a fantasia, à revolução dos bichos orwelliana, em que também os burros cantam e dançam.

É ao mesmo tempo um belo tributo à cultura nordestina e um retrato – não necessariamente uma crítica – das influências estrangeiras que chegam ao lugar. Se a elite criticou a substituição de jumentos por motocicletas, “graças ao Bolsa Família”, o documentário revela um convívio harmonioso entre uma e outra ferramentas, o que acaba por se tornar uma perfeita metáfora intercultural.

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Veja o trailer:

O beijo no asfalto terá exibição hoje em São Luís

Adaptação de Nelson Rodrigues, filme marca estreia de Murilo Benício como diretor. Sessão abre festival Maranhão na Tela

Lázaro Ramos em cena de O beijo no asfalto. Frame. Reprodução

Ator consagrado, Murilo Benício estreia na direção com O beijo no asfalto [Brasil, drama, 2017, 101 minutos; classificação indicativa: 12 anos], adaptação – de que assina o roteiro – da peça de Nelson Rodrigues. Filmado em preto e branco, a opção do diretor não esbarra no óbvio, contrariando quem eventualmente pensar na escolha como uma busca das facilidades ao refazer um texto consagrado. Ao contrário, o diretor parece guiar-se justamente por essa preocupação: o que pode ainda atrair espectadores em um texto tantas vezes adaptado e encenado?

Para começar, Murilo Benício cerca-se de grandes nomes – Lázaro Ramos (Arandir), Débora Falabella (Selminha), Luiza Tiso (Dália), Otávio Muller (Amado Ribeiro), Stênio Garcia (o sogro de Arandir) e Fernanda Montenegro, entre outros – da televisão, do cinema e do teatro, e nos apresenta um filme, de atmosfera noir (a fotografia é de Walter Carvalho), híbrido dessas linguagens, no caso do cinema transitando com desenvoltura entre a ficção, o documentário e o making of.

Todo o grupo de atores está sentado ao redor de uma mesa, repassando o texto, a que são acrescidos comentários, sobre a grandeza rodrigueana, a hipocrisia social reinante desde sempre ou a monumentalidade de outros atores e atrizes que já encarnaram os papéis naquela peça – o próprio diretor aparece, sentado e discreto. O filme mescla esse ambiente de ensaio com bastidores de teatro e de set, com câmeras, microfones boom e outros equipamentos dividindo a cena com o dream team da dramaturgia de Nelson Rodrigues repaginada por Murilo Benício.

O enredo é por demais conhecido: um homem (Arandir), na Praça da Bandeira carioca, vê outro ser atropelado por um lotação e atende seu último desejo: um beijo na boca, visto por toda sorte de transeuntes, entre homens comuns, meros curiosos, e um jornalista inescrupuloso (Amado) que ganha a vida com o sensacionalismo nosso de cada dia. A partir daí este homem tem a vida devassada, num conluio entre a mídia, a polícia e a sociedade conservadora.

Qualquer semelhança entre a ficção sessentista de Nelson Rodrigues e a realidade brasileira de 2018 não é mera coincidência. A adaptação de Murilo Benício coloca em debate temas infelizmente ainda bastante atuais: a homofobia, a manipulação das pessoas por meios de comunicação (ou por redes sociais, em nossos tristes tempos) e um sentimento de culpa baseado em uma moral cristã. “Nelson Rodrigues tem um teatro da culpa; embora em busca de redenção, mas esta se dá pela culpa”, afirma categoricamente Fernanda Montenegro – que afinal de contas, era a Selminha da montagem original e aqui aparece como dona Matilde, uma vizinha fofoqueira.

Outra fala da atriz nos traz à triste realidade: passado tanto tempo, o Brasil segue atrasado em matéria de “moral e bons costumes”, no que imagino que a opção de Benício pelo preto e branco, mais que estética, seja também um modo de dizer: de nada adiantaram as cores e a tecnologia se um texto que se passa em 1960 pode ser encenado como atual no Brasil em pleno 2018.

Serviço

O beijo no asfalto será exibido hoje (15), às 20h, no Kinoplex (Golden Shopping, Calhau), na sessão de abertura do 11º. Festival Maranhão na Tela, com a presença do diretor Murilo Benício. A sessão é gratuita e aberta ao público, como toda a programação do festival.