Tralha musical na trilha da cidade

[a convite de Ronaldo Rodrigues escrevi o release oficial do Chorinho da Tralha, grupo que vem fazendo e acontecendo na cena musical da ilha]

Foto: divulgação

Tralha é como costumeiramente chamamos tudo aquilo que não serve mais, que está ali pelos cantos apenas ocupando espaço. A expressão empresta nome à Feira da Tralha, charmoso misto de sebo e bar instalado no Edifício Colonial, pela Rua Godofredo Viana, quase esquina com Sol, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, no Centro de São Luís do Maranhão.

Ali, a tralha que já não serve a alguém pode passar a servir a outros interessados, entre livros, cds, dvds e vinis. Na mão de outro, a tralha de um pode virar ouro puro. Foi neste ambiente, entre paralelepípedos, gente e histórias que floresceu o Regional Chorinho da Tralha.

A partir do retorno de Ronaldo Rodrigues (bandolim) à ilha natal, após temporada no Rio de Janeiro, se aperfeiçoando no instrumento, ele reuniu na mesma formação os talentos de João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta) – que cursou mestrado em Belo Horizonte/MG –, Gabriela Flor (pandeiro) – paulista radicada na Ilha – e Gustavo Belan (cavaquinho) – mineiro que fixou residência na capital maranhense. Os três primeiros constam da galeria da Chorografia do Maranhão, que compila 52 entrevistas com instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão, livro de Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e Zema Ribeiro.

O grupo começou a sentar praça por ali aos domingos, na virada da manhã pra tarde. Não tardou para o lugar virar point, parada dominical obrigatória. Lugar de re/encontro de amigos, familiares, de conhecer gente nova, de fazer novos amigos, na comunhão que só a música proporciona.

Correndo o chapéu, ajudando a superar o velho clichê de que “choro é música de velho” – portanto, “tralha” –, o Chorinho da Tralha renova o repertório de nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga, Honorino Lopes e muitos outros, em programa regado a cerveja gelada, mocotó, feijoada, sururu e bode no leite de coco.

O Chorinho da Tralha, formado em sua maioria por músicos que acabaram por se tornar maranhenses por sua paixão pelo lugar, ou que saíram e voltaram ao Maranhão de origem, renovam a importância de uma autêntica roda de Choro, com sensibilidade na escolha do repertório, qualidade na execução e gentileza no atendimento aos pedidos por vezes embriagados.

Do palco original, a calçada do misto de sebo e bar que acabou por lhes emprestar o nome, o Chorinho da Tralha começa aos poucos a alçar outros voos. A depender da soma dos talentos individuais, do carisma e da devoção aos grandes mestres desta grande música, certamente vão longe. É pelo que torcem os habitués da Feira da Tralha. Com uma condição: que sempre estejam de volta aos domingos!

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

Artesania poética

Celso Borges na Virada Cultural em São Paulo. A camisa tem estampa de Cláudio Lima. Foto: Fernanda Castello Branco

De Celso Borges já disse o poeta Marcelo Montenegro: “faz os livros mais bonitos que já vi”. O paulista não exagera: para além da beleza dos poemas, cada objeto-livro que lança é único, a começar pela trilogia de livros-cds que lançou entre 2000 e 2010: XXI, Música e Belle Epoque.

Mal lançou a segunda edição de O futuro tem o coração antigo [Pitomba!, 2019], o maranhense já inventa outro artesanato: a caixinha Carimbocarinho [Ed. do autor, 2019], em que os 15 poemas, curtos, minutos, haicais, chistes, são acondicionados em uma caixinha e carimbados página a página.

“No meio do caminho tinha um carimbocarinho”, brinca com o Drummond num dos poemas do volume. “Tambor batendo/ tambor/ fazendo meu/ coração/ tambor tremendo”, diz outro, em possível diálogo com a Balada do amor em chamas, parceria gravada por Zeca Baleiro em O amor no caos – volume 1, recém-lançado novo disco do cantor e compositor. “Com esse sol maior que se acendeu/ um tambor dentro de mim bateu/ e o desejo de viver em mim aflora”, diz a letra.

Uma das páginas de Carimbocarinho. Reprodução

Os poemas de Celso Borges são emoldurados pelo projeto gráfico e ilustrações de Cláudio Lima, numa espécie de publicidade afetiva: é como se ele traduzisse em ícones o conteúdo dos poemas.

“Cláudio além de ser um grande cantor, é um grande parceiro, um grande amigo, uma pessoa que percebe algumas coisas da forma como eu percebo. Tem uma delicadeza. A gente tem uma cumplicidade musical e a começamos a trabalhar juntos no livro-cd Música, de 2006, ele fez um projeto gráfico lindo, naquela época. Ele gravou algumas canções minhas, Boi da tarja preta, parceria com Alê Muniz, e São Luís, baseada naquela abertura do [programa de rádio] Reggae Point [Shaperville, de Michael Rilley], e faz uns projetos gráficos fantásticos. Ele tem uma facilidade muito grande em pegar tua ideia, teu verso, teu conceito poético e transformar aquilo numa coisa gráfica, desde a escolha da fonte. Ele tem o olhar muito cuidadoso, tem a velocidade dele, fica amadurecendo na cabeça aquelas ideias, ouve muito o que a gente fala, eu também o escuto muito. Estou tendo a felicidade de fazer esse projeto com ele, já fiz O muro, já fiz Ponta d’Areia é Ponta d’Areia, vamos fazer agora O drible, sobre o Garrincha, com ilustrações de Fernando Mendonça, vamos fazer o lançamento em breve também. É um parceirão e se identifica muito com essa série da poética afetiva. Até o final do ano lançaremos outras coisas e outras parcerias virão”, declarou o poeta sobre a parceria.

Celso Borges atualmente prepara um livro em que conta a história por trás de mais de 100 composições musicais que têm a capital maranhense como tema ou paisagem. Enquanto este livro de maior fôlego não fica pronto, diverte-se fazendo livrinhos artesanais, de tiragens pequenas, exercitando o ofício de poeta e enveredando pelo de contista – caso do citado O muro, em que conta a resistência da mãe diante da violência urbana e da insistência dos filhos em subir um muro ao redor de sua casa e, em nome da segurança, perder a visão do bairro e da vizinhança. Um ato de rebeldia. E poesia.

Serviço

A noite de autógrafos de Carimbocarinho acontece sábado (1º. de junho), às 17h, no Café Guará/ Chico Discos (Rua de São João, 289-A, esquina com Afogados, Centro).

Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].

Para reconhecer nossa identidade

A fotógrafa Marcela Bonfim revela outra Amazônia em 33 imagens impressas em madeira. Abertura da exposição acontece hoje (22), na Galeria de Artes do Sesc Deodoro

A fotógrafa Marcela Bonfim conversou com Homem de vícios antigos durante a montagem da exposição. Retrato: Zema Ribeiro

Marcela Bonfim formou-se em Economia na PUC-SP em 2008. Vivia numa bolha, como ela mesma conta a Homem de vícios antigos, em entrevista concedida durante a montagem de sua exposição, (Re)conhecendo a Amazônia negra: povos, costumes e influências negras na floresta, cuja vernissage acontece hoje, às 18h30, na Galeria de Artes do Sesc Deodoro (Praça Deodoro, Centro). Na ocasião haverá apresentação da performance Corporeira, de Ana Regina Arcanjo, com participação de Shamach Pacheco.

“Eu acreditava na meritocracia, eu achava, por estar naquele lugar [a PUC-SP], aquele lugar é uma redoma, você se sente aceito. Nessa saída pro mercado de trabalho meu castelo começou a ruir, os conceitos que eu tinha. Eu nem abordava minha negritude, era uma questão muito delicada para mim”, lembra. “Eu cheguei a participar de um debate com o [hoje vereador em São Paulo Eduardo] Suplicy, ele a favor das cotas e eu contra. Ali podia ter surgido um novo [o também vereador Fernando] Holiday, olha o perigo!”, confessa, arrependida.

Após formada, Marcela ficou durante um ano procurando trabalho e esbarrando no racismo. “Você se inscreve pela internet; quando chega, tem um grupo de pessoas e quem vai contratar fica falando apenas para algumas, não adianta você mudar de lugar. As pessoas diziam que eu era uma pessoa capaz, mas eu fui descobrir isso quando eu fui para Rondônia: uma amiga percebeu que eu já não me sustentava em São Paulo, não tinha emprego, não conseguia nada, e ela falou: “meu pai tem passagem de ida e volta; você vai; se gostar, fica, se não gostar, beleza!”. E eu fui, em 2010. Chegando lá enfrentei uma terra que eu nunca imaginei visitar. Rondônia não existia no meu imaginário. Chegando lá enfrentei o que todo mundo enfrenta, o fluxo migratório, era uma nova coisa. Eu não esperava que a fotografia fosse surgir. Eu comprei uma câmera fotográfica por que eu comecei a perceber que tinha muitos negros e a questão mais central dessa história é que eu andava nas ruas e as pessoas perguntavam se eu era barbadiana. E eu perguntei: o que é barbadiana? E começaram a perguntar se eu era Johnson, e a perguntar por vários sobrenomes em inglês, quando me disseram que eram as famílias negras tradicionais de Rondônia. Na hora eu entrei em parafuso: família tradicional não combina, nesse esteio social, com negro. Isso começou a me trazer uma autoestima, até eu conhecer um barbadiano de verdade. Foi um choque. Os barbadianos são os negros do Caribe”, ela relembra sua ida a Rondônia, onde acabou fixando residência à beira do Rio Madeira.

Algumas imagens da exposição. Fotos: Marcela Bonfim. Reprodução

Em 33 fotografias, Marcela Bonfim registra diversas diásporas, migrações internas e externas, a fotografia funcionando também como um espelho para a paulista de Jaú. A exposição fica em cartaz até 18 de junho e integra a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes.

“Na verdade, houve uma diáspora muito grande, não só de Barbados, como de Granado, várias ilhas, lá por 1909, 1910, eles começaram a chegar à Amazônia. Uns ficaram no Pará, outros no Amazonas, e um grande contingente em Rondônia. Esse grande contingente foi aproveitado pela [estrada de ferro] Madeira Mamoré. Isso são teses: uns dizem que foram para trabalhar na Madeira Mamoré, outros dizem que já era uma diáspora e quando esses negros chegam, de colonização inglesa, eles já chegam engenheiros, professores, telégrafos, na época era uma profissão necessária para aquele empreendimento. Segundo as pessoas dizem, pode ser a primeira mão de obra assalariada negra, com dignidade, os barbadianos. Antes de eu conhecer um barbadiano, uma amiga minha, artista plástica, me pintou uma barbadiana. O mais interessante é que é um pescoço gigante, o que você percebe a princípio é o pescoço. Eles têm um senso de pertencimento muito grande em relação à história deles. Eles mesmos se diferenciam por ter a forma de colonização inglesa e a nossa que foi a portuguesa. Isso me trouxe uma coisa aos olhos que nunca tinha trazido: esse aspecto de beleza. Pela primeira vez eu acho que achei um negro bonito. Eu comecei a me sentir, poxa, se estão me chamando de barbadiana, isso me trouxe uma autoestima muito grande, e também me trouxe uma dignidade. A partir desse momento eles me levaram para a casa deles, da família Johnson, eu pude participar da família. E quando eu entrava, eu me sentia diferente do que eu me sentia em São Paulo. Eu me sentia um pouco reduzida na PUC, me protegia”, comenta sobre ressignificar sua própria negritude.

“Quando eu comecei a andar na cidade, conheci o primeiro barbadiano, senti a autoestima elevada, comecei a sentir o trânsito de muitos negros: esse aqui é maranhense, a família é do Maranhão, paraense, eu comecei a olhar as configurações da imagem dessas pessoas, e junto com tudo isso me trouxe uma necessidade de conhecer a própria história de Rondônia: o fluxo da seringa, da Madeira Mamoré, os ciclos econômicos, o garimpo, a hidrelétrica”, comenta o processo de aproximação com aqueles que retrata.

Homens e mulheres, velhos e crianças em sua vida cotidiana: os vincos do tempo no close de um rosto, sorrisos, pés que caminham, mãos que preparam uma farofa de tartaruga. As fotografias de (Re)conhecendo a Amazônia negra são impressas em madeira.

Marcela continua: “Uma questão que ficou na minha cabeça: o que você quer fazer com isso? Transformar isso num produto? Isso me trouxe uma relação: onde é que eu posso expor essas pessoas? A gente está numa terra onde a madeira é fundamental e, além disso, onde ela diariamente é consumida de forma predatória. Isso é muito parecido com nosso próprio corpo dentro da Amazônia. É muita gente, em Guaporé [rio que deu nome ao extinto território, hoje Rondônia], é incrível, o número de maranhenses, o Maranhão também está lá. Eu conheci o Maranhão em Rondônia. Era outra terra que eu não tinha acesso. Quando a gente está em São Paulo a gente pensa no Rio de Janeiro, até Minas, ou mais pra baixo. Só! Eu ralei quando eu comecei a me colocar na parede”.

A ideia de imprimir em madeira veio da fala de uma de suas personagens. “Tinha uma cidade chamada Barbadian Town, onde os barbadianos se aglomeraram, a população local começou a hostilizar: bonito era um francês falando francês, um negro falando inglês era bastante desafiador na época. Uma pessoa que eu estava querendo fotografar, o pai dizia que era barbadiano, mas não era. Era um status dos negros, ser barbadiano naquela época. A mãe era branca. A primeira pergunta que eu faço para a pessoa que eu estou interessada em fotografar é como ela se reconhece. É essa pergunta que o Brasil tem que começar a se fazer. Ela disse: “ô, minha filha, eu sou negra [imita seu gesto, batendo a palma da mão direita no braço esquerdo], isso aqui é madeira de bater em doido! São 300 anos e nós ainda estamos aqui, plantados e de pé”. Começou a me dar essa onda: vou botar isso na madeira. Estou aprendendo esse processo de expor essa montagem agora. Essa aqui é a 16ª. abertura. Nós já caminhamos por 10 estados. A escolha tem esse significado, perto da minha realidade”, revela.

Para Marcela, “não tem como pedir desenvolvimento de um país, não tem como pedir prosperidade, não tem como pedir “chega de violência!” se a gente não reconhecer nossa identidade e ela é muito negra e muito indígena. É um processo de militância, eu me sinto uma militante”, se identifica.

Ela continua, situando o lugar do negro ao longo do tempo, a resistência e as lutas pela superação do racismo: “é um processo de invisibilização. O meu corpo é invisível. A sociedade só me enxerga nas situações em que eu esteja vulnerável, para me apontar, me culpar. O negro no Brasil nasce negro e embranquece para ser aceito. Hoje faz três anos que a mostra está circulando. A população negra brasileira, em sua maioria, vai embranquecendo, é uma questão de necessidade. Antigamente, na colônia, quando eles alforriavam o negro, praticamente eles assinavam um termo de negação de cor. Você via o uso de pó de arroz, hoje não se usa mais, mas nosso comportamento é como se fosse um pó de arroz na cara. Isso é uma coisa natural no Brasil, a criança nasce no Brasil com 300 anos, nasce num corpo destruído, praticamente se anula, se invisibiliza, passa a ter comportamentos que não são seus. A cultura do capitão do mato está enraizada na sociedade brasileira como um todo, não é uma questão do negro, como uma vez um certo candidato proferiu, até o Holiday. A história do capitão do mato é uma cultura brasileira, do oprimido oprimir o próprio oprimido. Isso é um movimento muito complicado. A gente chegou onde chegou por que esse processo ainda existe, está enraizado, esse momento é a oportunidade de a gente olhar para isso”.

Rondônia segue sendo um aprendizado para Marcela Bonfim. “Nós estamos falando de uma terra onde nasceu Teresa de Benguela. Aliás, ela foi deslocada. Ela é como se fosse um Zumbi, mas mulher. A história de Teresa de Benguela aconteceu em Rondônia. Para você ver como não era qualquer negro que eles traziam. Ela organizou um quilombo com regime de parlamento, organizou a questão da produção, tinha tudo muito organizado, é uma figura que poderia estar nos livros, poderia estar me ajudando a me sentir melhor na minha própria pele. A gente não tem referência, acaba ignorando nossa própria história. Aí vêm falar que negro é racista? Não existe: ele pode ser ignorante. Ele foi condicionado a essa ignorância”, ensina.

“Ocupar o lugar de economista, ocupar esse outro lado, o lado de trás da fotografia, me ajuda a dignificar meus pares. Se você for olhar a fotografia de 500 anos atrás no Brasil e a de hoje é praticamente a mesma. A própria história da violência dos nossos corpos foi chancelada por esse processo fotográfico. Ninguém sabia que Machado de Assis era negro. A história do capitalismo é a própria história da fotografia, de botar o negro num lugar bem longe desse lugar de protagonista. Nossos corpos sempre estiveram expostos da maneira que a branquitude quis: na favela, morto. As condições de exposição do negro continuam sendo as mesmas. É um corpo jogado para quem quiser ver, mas nas piores condições. Estou falando com meus pares, me reconheço nisso. Por mais que existam histórias tristes, vou dar dignidade. É onde me encontro comigo todo dia”, finaliza.

“Tu é qualhira, porra?”

Foto: Zema Ribeiro

Ninguém que tenha ouvido qualquer disco ou canção ou visto qualquer apresentação duvida do talento de Cláudio Lima: não cabe em si de tanto.

Corajoso e ousado, ele soltou seus demônios ontem (17), Dia Internacional de Combate à Homofobia, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em Com a lira, cujo repertório é dedicado à temática homoafetiva na música popular brasileira – e/ou de compositores homossexuais.

O trocadilho do título, com a expressão tipicamente maranhense “qualhira” (ou “qualira”), usada para designar homossexuais, afeminados etc., já anunciava o conteúdo do show.

Com a lira é o grito de resistência de Cláudio Lima diante da violência perpetrada historicamente contra homossexuais, quadro que deve se agravar com a política armamentista do governo federal.

Num formato econômico, Cláudio Lima acercou-se dos talentosos Totti Moreira (violão e guitarra) e Luís Cruz (guitarra, bateria e programações) para dar seu recado.

A direção de Marcelo Flecha potencializou o gigante que Cláudio Lima já era. No cenário pendiam formas evocando chifres de veado e costela de veado. O cantor trajava uma camisa brilhosa, que ele não tardaria a tirar, ficando apenas com a de baixo, a calça com suspensório e um sapato de salto e sem traseira.

Sou rebelde (Manuel Alejandro, versão de Paulo Coelho), sucesso de Leno e Lilian regravado por Chico César, abre o espetáculo, marcando o primeiro arrebatamento musical de Cláudio Lima, ainda na infância. Segue-se Homem com h (Antonio Barros), hit de Ney Matogrosso.

“Este show é um ato de resistência contra o empoderamento da imbecilidade”, anunciou Cláudio Lima. Para completar, divertindo-se/nos: “um pouquinho de qualhiragem”.

Balada do louco (Rita Lee e Arnaldo Baptista) ele cantou sem o auxílio do microfone, percorrendo o L formado pelas cadeiras da plateia. Daniel na cova dos leões (Renato Russo e Renato Rocha), da Legião Urbana, ganhou arranjo reggae, o que aconteceu também com Malandragem (Cazuza e Frejat), sucesso de Cássia Eller. Nesta, ele trocou o “eu troco um cheque” da letra original por “eu fumo um beque”.

Quando cantou Ilusão à toa (Johnny Alf), mandou: “essa música é do único homossexual da bossa nova”, ao que alguém na plateia retrucou: “que você sabe, não é, Cláudio?”. O cantor riu, concordando: em pleno 2019 ninguém mais deveria caber no armário.

Gilberto Gil compareceu ao repertório com duas em sequência: O veado, faixa pouco lembrada de Extra (1983), e Pai e mãe. Antes de River Phoenix – Carta a um jovem ator (Milton Nascimento) ele pediu “licença: essa eu quero dedicar ao meu boy”.

Única autoral do repertório, O medo (Cláudio Lima) é um rap de letra densa e ligeira, que trata de um tema central na vida da população LGBTQI+. Depois atacou de Minha carta (Tom Zé), única música do set list já gravada por Cláudio Lima (faixa de Cada mesa é um palco, de 2006, segundo disco do artista).

Era hora de uma dose dupla de Chico Buarque: após uma introdução em que evoca um cantor de ópera, mandou O que será? e em sequência Geni e o zepelim.

Parceria de Angela RoRô e Cazuza, Cobaias de Deus é apoteótica: Cláudio Lima canta sentado na poltrona vermelha que compõe o cenário e vem escorregando, evocando a agonia pública de Cazuza em decorrência do vírus HIV. Termina a música deitado no chão, bagunçando o tapete e anunciando que o show, visceral, está próximo do fim.

“A placa de censura no meu rosto diz:/ não recomendado à sociedade”. A letra de Não recomendado (Caio Prado) é uma cusparada na cara hipócrita da sociedade. Continua: “má influência/ péssima aparência/ menino indecente/ viado!/ pervertido/ mal amado/ menino malvado/ cuidado!”.

À porrada da letra original, Cláudio Lima tira onda mandando um recado sério, evocando o bullying sofrido por tantos na infância e adolescência: termina de cantar aos berros, com a pergunta violenta tantas vezes ouvida: “tu é qualhira, porra?”.

Aos gritos de “mais um!” e diante do impacto da plateia, emendou a música nela mesma, como quem acende um cigarro na bagana do anterior: atacou novamente de Não recomendado, repetindo trejeitos e a pergunta brutal.

Com a lira é destes espetáculos que não podem estacionar em uma única apresentação.

A Jamaica brasileira invade a Pauliceia

Cultura da radiola terá destaque na Virada Cultural, em São Paulo. Duo Criolina e convidados farão 12 horas celebrando ritmos jamaicanos e maranhenses.

Pouco tempo depois de inventado na Jamaica o reggae se consolidou como preferência popular no Maranhão. Não à toa a capital São Luís recebeu a alcunha de Jamaica brasileira. O gênero musical e seu principal porto brasileiro serão lembrados durante a programação da Virada Cultural, em São Paulo, entre os dias 18 e 19 de maio. Num palco comandado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, o reggae à maranhense comparecerá, com as presenças do poeta Celso Borges, dos djs Otávio Rodrigues, Joaquim Zion e Vanessa Serra e da atriz Áurea Maranhão.

Ano passado a Semana Internacional da Música (SIM-São Paulo) levou representantes maranhenses para uma noite, também numa parceria com o Festival BR-135, organizado pelo duo Criolina. Desta vez serão 12 horas de reggae, entre às 18h de sábado até às 6h de domingo, celebrando a cultura da radiola – lá fora conhecida como sound system –, muito difundida no Maranhão.

O duo Criolina. Foto: Layla Razzo

Representando o Maranhão, “Criolina, Radiola e convidados” será uma das festas de rua que acontecerão durante a Virada Cultural. As demais irão representar algum aspecto cultural dos estados da Bahia, Pará e Rio de Janeiro. “A Virada é o maior evento cultural do planeta, um festival com 24h de programação, gratuito e além de ocupar as ruas, conta com programação em centros culturais das periferias, as unidades do Sesc, teatros da cidade e vários equipamentos culturais. É ótima e uma boa desculpa para ocupar as ruas com arte, sair de casa e afirmar a nossa cultura como expressão popular e cidadã”, advoga a cantora Luciana Simões.

“Diminuíram consideravelmente os recursos nacionais para a cultura e justamente por ser um espaço de fomento devemos estar presentes e resistentes. A proposta de colocar o Maranhão no mapa também segue como uma grande bandeira pra nós. Eu acho que o espaço oferecido ao Criolina é um reconhecimento ao Maranhão, e uma ótima oportunidade para se mostrar a cena reggae, que é uma forte cena de rua, representativa e que causa bastante curiosidade”, pondera Alê Muniz, seu companheiro de Criolina.

Joaquim Zion também comenta o interesse dos paulistanos pela cultura reggae, mas aponta algumas diferenças entre as cenas. “A cultura reggae é bem forte em  São Paulo. Já há alguns anos vem crescendo a cultura sound system, que é um pouco diferente do estilo Inna Maranhão das radiolas daqui, porque lá eles tocam com radiolas, DJs e MCs rimando nas bases e o estilo basicamente é ragga, enquanto aqui o nosso lance é one drop, lovers rock, essa batida que chamamos para dançar agarrado a dois. Mas a mensagem é a mesma”, pontua. Ele comenta também sua expectativa: “é máxima pra gente, e o público pode esperar um grande set de hits, clássicos e raridades que fazem parte do imaginário do regueiro do Maranhão. São Paulo tem muitos maranhenses e tenho certeza que será uma grande festa”, promete.

O jornalista e dj Otávio Rodrigues diante de uma radiola. Foto: divulgação

Alcunhado Doctor Reggae, o jornalista e dj paulista Otávio Rodrigues ajudou a difundir o reggae no Brasil e consolidar São Luís como uma de suas principais praças, quando morou na cidade, na década de 1990. “Minha relação com o Maranhão é orgânica, me sinto como se tivesse nascido aí também. Morei na Ilha, viajei bastante pelo interior, fosse em busca de manifestações folclóricas, paisagens ou reggae – ou as três coisas juntas”, lembra.

Ele discotecará e dividirá o palco com o poeta Celso Borges; juntos, apresentam o espetáculo Poesia Dub, em que misturam poesia, com elementos de música jamaicana e da cultura popular do Maranhão. “No Poesia Dub, eu e Celso resgataremos algumas gemas do nosso repertório, como Morto vivo, Matadouro, Bumba meu dub e Linguagem [lista títulos de poemas apresentados no formato], e também mostraremos coisas novas, algumas com participação de Gerson da Conceição, gravadas pouco antes de sua súbita partida”, anuncia, lembrando o amigo baixista que se somava à trupe, recém-falecido.

O poeta Celso Borges. Foto: Layla Razzo

O poeta Celso Borges relembra as origens do espetáculo: “Eu costumo dizer que eu tenho dois santos em minha vida: São Luís e São Paulo. Cidades que estão entranhadas na minha alma, no meu coração. Morei 20 anos na Pauliceia. Aquela cidade, o tempo que eu morei lá, foi um tempo de muita alegria, de muita celebração, encontros com muitas pessoas, muitos artistas, fiz muitas amizades, tive diálogos maravilhosos com poetas, compositores, letristas. E foi ali também que eu, junto com Otávio, desenvolvi o Poesia Dub, a partir de 2004, 2005. É uma alegria enorme poder voltar a São Paulo e voltar fazendo uma nova apresentação do Poesia Dub. Vai ser uma grande celebração, estou muito animado”. O espetáculo é composto por poemas de Celso Borges, com citações de obras de Torquato Neto, Allen Ginsberg, um poema de Bandeira Tribuzi, e trilhas de Otávio Rodrigues.

“Na marcação de baixo poderosa que ele fazia, ele fazia também os vocais, a gente vai usar bases gravadas dele, e vou ler uma parceria nossa”, antecipa a homenagem a Gerson da Conceição, que estaria no palco com eles.

A estrutura do palco maranhense incluirá uma radiola de sete metros de largura, que tocará reggae, ritmos caribenhos e os gêneros musicais que permeiam a cultura popular do Maranhão, com destaque para o bumba meu boi e o tambor de crioula. A dj Vanessa Serra, que também esteve na Sim-SP, anuncia seu set list, reverenciando grandes nomes: “Vou levar um set com hits da música jamaicana e maranhense, que ouvíamos nas festas, nas rodas de violão e nas rádios de São Luís. Expoentes como o som de Nonato e Seu Conjunto, Humberto de Maracanã, Nicéas Drumont, Betto Pereira, Papete, João do Vale, Jacob Miller, Eric Donaldson e Beto Douglas não vão faltar”.

“Radiola e tambor de crioula são duas coisas que não podem faltar numa autêntica festa maranhense. Muito mais do que minha opinião, esse é o testemunho de alguém que já viu festejos no Maranhão de ponta a ponta: onde quer que se vá, na hora de celebrar tem de ter radiola e tambor”, finaliza Otávio Rodrigues.

Serviço

O palco maranhense fica na Rua Cásper Líbero (ao lado da Igreja de Santa Efigênia). Os shows são gratuitos. Conheça os horários das apresentações:

18h – Criolina + Luh Del Fuego
19h – Vanessa Serra
20h – Poesia Dub
21h – Joaquim Zion
22h – Otávio Rodrigues
23h – Criolina + Luh Del Fuego
0h – Vanessa Serra
1h – Poesia Dub
2h – Joaquim Zion
3h – Otávio Rodrigues
4h – Criolina + Luh Del Fuego
5h – Vanessa Serra.

Antes das apresentações do Poesia Dub e Criolina haverá performances da atriz Áurea Maranhão.

De lavar a alma

Foto: Zema Ribeiro

 

O Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande), ao longo do tempo, se configurou como um espaço diferenciado na cidade: eventualmente pode-se ouvir o mais do mesmo da noite ludovicense – e de resto, da noite: é assim em todas as capitais, em todas as cidades brasileiras. Mas em geral, a casa foge do óbvio, com os artistas em seu palco realizando shows.

É uma casa que prima pela qualidade das apresentações ali realizadas, contribuindo para duas questões importantes: a formação de plateia (por que a noite não pode ser também um espaço de as pessoas conhecerem coisas novas?) e acabar com a ideia de que o artista da noite é uma espécie de jukebox humana, na qual basta se depositar uma moeda (o título de uma música anotado em um guardanapo) e ele tem por obrigação tocá-la.

O projeto Papoético ancorou no Buriteco há duas edições. Surgido no início da década, com outra proposta, o evento idealizado e capitaneado pelo jornalista e poeta Paulo Melo Sousa, tem realizado apresentações importantes, em diálogo direto com a proposta artística do Buriteco, a preços acessíveis – o couvert artístico individual do Papoético custa R$ 15,00.

Depois de shows de Tião Carvalho, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho e Sérgio Habibe, ontem (16) foi a vez de Célia Maria homenagear Cesar Teixeira. A noite foi aberta com o poeta, cordelista e repentista Moizés Nobre recitando o Testamento de Judas deste ano, escrito pelo compositor para o Laborarte. A plateia foi ao delírio de cara, com suas língua e pena afiadas contra os desmandos da política nacional: nas 31 estrofes de sete versos sobram críticas ao presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e ministros, e ao deputado Edilázio e seu higienismo social.

Acompanhada por Wanderson Silva (percussão), Mano Lopes (violão sete cordas) e Rui Mário (sanfona), Célia Maria subiu ao palco com a habitual simplicidade, para logo conquistar a plateia e comprovar o porquê de ser considerada uma das maiores intérpretes da música popular produzida no Maranhão.

Abriu o show com o choro Ray-ban e nem errar a letra (o que ela faria durante outros números) lhe diminui o brilho. Depois de Flanelinha de avião mandou a inédita Billie Holiday, entremeando canções de temática social com o bolero que demarca outra característica da obra de Cesar Teixeira: os ambientes noturnos de botecos e cabarés.

Mas, sobretudo o samba deu o tom do repertório escolhido por Célia Maria para a homenagem. Na sequência cantou Vestindo a zebra, de letra genial sobre a reação de um torcedor a uma derrota de seu time do coração, e outra inédita, A cruz do palhaço, que está no repertório do segundo disco da intérprete – já gravado; sua estreia, o homônimo Célia Maria, é de 2001.

A parceria de Cesar Teixeira com o poeta José Chagas, quando ele musicou, deste, o Campoema nº. 3, também foi lembrada por Célia Maria. A música foi gravada pelo compositor em A palavra acesa de José Chagas, disco-tributo ao poeta maranhense nascido na Paraíba.

“Agora eu vou cantar uma música que Cesar Teixeira fez pra mim. Quando eu cheguei do Rio ele disse que tinha feito. Não é uma música qualquer”, anunciou Célia Maria, com  toda razão, antes de cantar Lápis de cor – registrada em seu disco de estreia, com arranjo magistral de Ubiratan Sousa.

Num breve intervalo, Paulo Melo Sousa anunciou estar à venda Os testamentos de Judas [Pitomba!, 2018], livro organizado por Bruno Azevêdo e Wagner Cabral, reunindo a produção dos tradicionais cordéis de sábado de aleluia para o Laborarte, escritos por Cesar Teixeira por mais de 15 anos.

Microfone aberto, como de praxe no evento, Moizés Nobre voltou para recitar um cordel hilariante em que, numa encenação da sexta-feira da paixão, o Cristo acaba não crucificado, mas preso por arruaça. Em seguida, este repórter subiu ao palco e mandou também sua homenagem: recitei a letra do samba-enredo, musicado por Gildomar Marinho, com que concorremos (e fomos eliminados na primeira eliminatória) no concurso da Favela do Samba que escolheria o que seria cantado no desfile da escola de samba, quando esta homenageou o outrora membro da ala de compositores da rival Turma do Quinto.

Célia Maria voltou ao palco para cantar as únicas não assinadas por Cesar Teixeira do roteiro: a premiada Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro), também gravada por ela em seu disco de estreia, vencedora do Prêmio Universidade FM em 2001, e O samba é bom, de Antonio Vieira, outro compositor de sua predileção.

Encerrou o show com Das cinzas à paixão, demonstrando a grandeza do compositor Cesar Teixeira e sua própria grandeza como intérprete. Aos pedidos de “mais um!” atendeu com um bis de Flanelinha de avião. Diante de tudo isto, os presentes certamente saíram de alma lavada.

Você tem medo de quê? Você tem ódio de quê?

Foto: Zema Ribeiro

 

​Duas portas de rolo são levantadas e de trás delas saem duas travestis a se somar à que​​ já está no palco — ao todo são seis em cena. Teatro, canto, dança e música conduzem os espectadores por seu universo.

A rua, a noite, o medo. O bullying na infância, o preconceito dentro e fora de casa, da família, a violência. Paisagens e temas que compõem a vida de qualquer travesti.

Quem tem medo de travesti, de Silvero Pereira e Jezebel De Carli, é um exercício de pensar em como lidamos com o diferente, uma peça urgente diante da licença para matar minorias traduzida na política armamentista do governo federal.

Mulher Barbada, Denis Lacerda, Patrícia Dawson, Diego Salvador, Ítalo Lopes e Verònica Valenttino em cena travestem-se várias vezes. O figurino, de Antônio Rabadan, é um luxo. Os jogos de sombras ajudam a descortinar as várias situações de uma população em geral enxergada como sub-cidadã (inclusive, ou principalmente, pela hipocrisia dos “cidadãos de bem” que desfrutam de seus serviços). O texto joga luz sobre esse grupo vulnerável, que mais que invisível, é alvo fácil do ódio.

A dramaturgia conduz à reflexão mas consegue fazer sorrir, fazendo-se valer de piadas do universo homoafetivo, sem nunca precisar descambar para o politicamente incorreto, além do pajubá, o código linguístico particular da população LGBTQI+ (mas não só), que tanto incomodou o homofóbico presidente da república ao ser tema de questão do último Enem.

Medo é uma palavra central em Quem tem medo de travesti. Nem sempre travestis podem perdê-lo antes de tombarem, vítimas da violência, agora infelizmente legitimada. Mas o espectador pode perder seu medo e ir assistir o espetáculo.

Serviço

A circulação de Quem tem medo de travesti integra o projeto Travestis Itinerantes, do Coletivo Artístico As Travestidas, selecionado pelo programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural, e conta com mesa redonda, oficina e encenação. Hoje, às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) acontece a última apresentação em São Luís. Os ingressos custam R$ 20,00 (meia para estudantes com carteira: R$ 10,00). Daqui o grupo segue para Belém/PA (dias 20 e 21 de maio na Estação Gasômetro) e Imperatriz/MA (25 e 26 de maio, no Teatro do Sesc Palmas).

Dose dupla de poesia

Foto: Letycia Amorim

 

Fui surpreendido positivamente com o ótimo público que lotou o Buriteco Café, ontem (14), para ver dois espetáculos de poesia, algo raro mesmo para espetáculos musicais, não só na casa.

A noite integrava a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes e apresentou os recitais Mormaço, de Elizeu Braga, poeta rondoniense, e Miolo de pote: da cacimba de beber, da maranhense Lília Diniz.

Mormaço é o nome dado ao clima abafadiço no que a São Luís de hoje se parece muito com Porto Velho. “Aqui vocês também chamam mormaço?”, perguntou o poeta à plateia, após descer as escadas, as luzes da casa todas apagadas, empunhando uma lamparina acesa enquanto recitava uma lenda indígena sobre a morte.

Seu repertório é contundente, sua poesia diz muito sobre o atual estado de coisas brasileiro. “Paulo Freire me ensinou/ eu aprendi na boca de um professor/ agora eu sei a diferença/ entre oprimido e opressor”, ensina um poema em ritmo de embolada.

O poeta Celso Borges fez uma ligeira participação especial recitando seu clássico Matadouro (musicado por Lourival Tavares), enquanto Elizeu manuseava uma máscara de bumba meu boi que depois viria a usar.

O poeta simula um diálogo, algo como um pai Francisco com o dono da fazenda, a atualizar o auto do bumba meu boi em tempos de relações trabalhistas cada vez mais esfaceladas, o tal do “negociar com o patrão”.

Depois, Elizeu, rosto coberto com a máscara, faz de uma bandeira do Movimento dos Sem Terra o couro de si mesmo tornado bumba meu boi, dançando, com o percussionista Totó Sampaio simulando uma zabumba em uma caixa. Não é só o mormaço que une o poeta a São Luís e seu povo.

Lília Diniz é conhecida dos maranhenses. Faz uma poesia brejeira, com a simplicidade do povo maranhense, exalando a força das mulheres: lavadeiras, lavradoras, quebradeiras de coco, Cecília Meireles, Cora Coralina – todas sua inspiração.

Sua poesia também debate temas tornados mais urgentes no Brasil que quer legalizar o desmatamento e a exploração predatória de recursos naturais não renováveis, o que ela equilibra com sua ginga sensual, entre poesia e música, sobretudo o coco – durante a apresentação, canta e toca pandeiro, acompanhada por Chico Nô (seu conterrâneo, de Imperatriz, ao violão) e Totó Sampaio (percussão).

Lília é leve até ao pedir para trocarem seu microfone, fez isso divertindo o público, que diante de tanta graciosidade cantou junto e bateu palmas.

A programação do Sesc Amazônia das Artes segue até 18 de maio em diversos pontos da cidade.

As armas dos poetas

Foto: Zema Ribeiro

 

Se você é daqueles que acha poesia falada um troço chato, hermético, para iniciados, e ao ouvir a palavra sarau imagina gente com aqueles trejeitos forçados a dar ênfase neste ou naquele verso ao recitá-los, esqueça. Ou melhor, conheça o grupo Tatamirô de Poesia.

De Macapá/AP eles trouxeram à São Luís, na programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes, o espetáculo Palavr(arma)dura, apresentado ontem (13), no Teatro Sesc Napoleão Ewerton. O trio se revela aos poucos, como a escrever verso a verso o longo poema sonoro em que a plateia mergulhará ao longo da apresentação.

Antes de entrarem, um por um, em cena, a parafernália no palco já chama a atenção. Por exemplo o meio manequim sobre o qual se sustenta um laptop. Seu figurino (assinado por Paulo e Ilce Rocha) evoca nossas raízes ancestrais africanas. Tudo faz sentido.

Suas vozes se misturam a instrumentos musicais inusitados, percussão eletrônica, bases eletrônicas, guitarra e efeitos. Há jogos de cena, recursos teatrais, mas eles mesmos afirmaram, em rápido bate-papo ao fim do espetáculo: ninguém ali é ator. Tudo está a serviço da palavra.

Palavras fortes, o repertório, entre autoral e de poemas clássicos, de forte conteúdo político, passam por Waly Salomão, Paulo Leminski, Matsuo Bashô, Alice Ruiz, Vladimir Maiakovski e muitos outros. A costura dos textos lembra mártires contemporâneos como Dorothy Stang e Marielle Franco. Presentes!

Herbert Emanuel e Adriana Abreu revezam-se entre vozes e instrumentos musicais diversos. Thamires Werneck sopra instrumentos nada convencionais, o didgeridoo e o morsing, de cano e madeira, espécies de grandes berrantes, numa sonoridade que evoca o Uakti – a instrumentista é o terço mineiro do grupo.

Entre loops, ruídos e sobreposições de vozes, eles dão o seu recado, vestidos de poesia, os versos as únicas armas dos poetas. E que armas potentes, ao menos para aqueles que estão dispostos a serem atingidos.

Serviço

Hoje (14), no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), acontecem os recitais Mormaço – de Elizeu Braga (RO) – e Miolo de pote – de Lília Diniz (MA), às 18h30 e 19h30, respectivamente. Entrada franca. Programação completa no site do Sesc/MA.

Você tem medo de travesti?

Coletivo Artístico As Travestidas se apresenta em São Luís. Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com o diretor Silvero Pereira.

Cena de Quem tem medo de travesti. Foto: Leonardo Pequiar

O espetáculo Quem tem medo de travesti está em circulação pelo Brasil e este mês chega a Belém/PA, Imperatriz/MA e Palmas/TO – depois de São Luís (entre amanhã e quinta-feira, 16). Segundo o material de divulgação, as cidades foram escolhidas pelos altos índices de violência contra a população LGBTQI+.

O Coletivo Artístico As Travestidas está em circulação com o projeto Travestis Itinerantes, contemplado no edital do programa Rumos, do Itaú Cultural. O espetáculo é escrito e dirigido pelo ator e pesquisador cearense Silvero Pereira e pela professora e diretora gaúcha Jezebel De Carli.

A agenda do grupo na capital maranhense tem início amanhã (14), às 9h, com a mesa de debate “Os corpos dissidentes na cena contemporânea: tombamentos e dissoluções em normas de gênero”, que acontece no Teatro de Bolso do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (CCH/Ufma). À tarde e noite (das 14h às 21h), no mesmo local, acontece a oficina “Procedimentos técnicos em atuação, dramaturgia e encenação do Coletivo As Travestidas”.

Quem tem medo de travesti será apresentado dias quarta (15) e quinta-feira (16), às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Silvero Pereira não virá à São Luís: está a caminho de Cannes, no elenco de Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial do prestigiado festival.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O diretor Silvero Pereira. Foto: divulgação

Vamos começar pelo título do espetáculo que chega à São Luís: Quem tem medo de travesti. A homofobia é ódio, mas esse ódio parte do medo, não sei se você concorda. A seu ver, quais as razões desse medo e desse ódio?
Silvero Pereira: A gente trabalha o título a partir da definição da palavra “medo”, que é exatamente o fato do não conhecer, ou seja, do pré-conceito. Muito do que temos é a violência provocada por falta de conhecimento, por ignorância e, principalmente, falta de políticas públicas que trabalhem o respeito às questões de gênero e diversidade na família, na escola e na sociedade em geral.

Tua dramaturgia, desde BR-Trans, é baseada em tristes estatísticas e acaba misturando arte e política. Na sua opinião é dever do artista fazer do fazer artístico um fazer político também?
Não consigo pensar em arte sem ação político-social. Fui criado e arrebatado por ela desta forma e só me sinto artista quando consigo subir no palco pra provocar e questionar a sociedade. Arte não é instrumento de transformação social, isso depende do espectador que aprecia e decide se o que vou mostrar muda, ou não, algo em sua vida. Acredito na arte como manifestação de provocação.

As ações do atual governo brasileiro são desastrosas em todos os campos, mas sobretudo no cultural e no social, com o desmonte de estruturas como o Ministério da Cultura e os conselhos de direitos, que eram os canais de participação social. Como você tem acompanhado esse cenário?
Desastroso e cheio de retrocesso. Uma nação sem uma cultura, arte e educação solidificadas jamais conseguirá evoluir no trabalho, saúde, relações humanas, judiciária e legislativa. A cultura e a arte são processos fundamentais na formação humana de uma nação.

Depois de BR-Trans você fez novela na Globo [ele interpretou Nonato em A força do querer, de Gloria Perez]. Acredita que a visibilidade que você adquiriu favorece a causa pela qual você milita?
Sim! A TV me possibilitou alcançar mais pessoas e poder ajudar, por meio da minha militância e arte, desconstruir paradigmas, enfrentar preconceitos e reduzir violências.

Sua peça vai ser apresentada em São Luís, mas você está indo a Cannes…
Infelizmente não estarei nessa etapa de São Luís, pois estou de partida para o Festival de Cannes, onde estou no elenco de Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial. É um grande ato estar presente nesse festival e neste momento em que a cultura se vê tão devastada por um governo e aclamada mundialmente através do audiovisual. Não poderia perder esse feito! Reencontro o Coletivo As Travestidas nas etapas Belém, Imperatriz e Palmas.

Além do elenco, já que BR-Trans é um solo, que diferenças e aproximações você destacaria entre aquele espetáculo e Quem tem medo de travesti?
Quem tem medo de travesti é uma espécie de continuação de BR-Trans, pois eles trazem as experiências de encenação, dramaturgia e atuação que, hoje, configuram as pesquisas do Coletivo As Travestidas. Quem tem medo de travesti é um trabalho cheio de questões reais e que parte da multimídia, música, teatro, dança e musical, variando entre o trágico e cômico.

O homem que virou pedra de responsa

As recentes entrevistas concedidas por Luís Inácio Lula da Silva, da sede da Polícia Federal, em Curitiba, revelam sua enormidade e sua qualidade de preso político. As peças de um jogo nefasto aos poucos vão se encaixando. Nada de novo para observadores mais atentos, mas aos poucos começa a ruir a farsa alicerçada em motivo indeterminado.

Ano passado cerca de 90 escritores, poetas, quadrinhistas e intelectuais reuniram-se em Lula Livre Lula Livro, manifesto contra a prisão de Lula. A obra reúne poemas, charges, textos em prosa, requerimentos e cartas sobre a questão.

Um dos poemas do livro, do maranhense Celso Borges, é Now, que foi musicado por Alê Muniz e Luiz Lima e virou um reggae, gravação que Homem de vícios antigos revela em primeira mão. O poeta promete um clipe para breve.

Participaram da gravação os reggae stars Dicy Rocha, Santacruz, Célia Sampaio, Alê Muniz e Preto Nando (vozes), João Simas (guitarras) e Gerson da Conceição (contrabaixo). É provavelmente a última gravação em estúdio do músico recém-falecido. Alê Muniz assina arranjo, efeitos e direção musical.

Leia o poema e ouça a música:

NOW

nem uma frase reza
nem a flor da indelicadeza
mas raduan em lavoura de cólera
frida pintando nos murais de rivera:
LULA LIVRE

porque se vomitam
a brutalidade nos tribunais
pound se ergue nos cantos da jaula
munch grita paralém da ponte:
LULA LIVRE

contra as ruas em falsa festa
piva delira paranoia
lennon risca riffs na guitarra
os berros de camille
nos sanatórios explodem explodem:
LULA LIVRE

cavalos tropeçam na loucura
imaginações maquinadas
umas
sobre as outras
numa torre que se levanta e desaparece

tempos de águias com dentes afiados
e crocodilos voando sobre o fígado dos pássaros

uma pomba se espatifa nos muros da história

mas
a incontrolável poesia se alastra como peste
vixe cabra da peste
umas
sobre as outras

molhando a dinamite do silêncio:
LULA LIVRE

Desconstrução

Max Silva e Marcê Porena se entregam a Chico Buarque. Foto: Zema Ribeiro

 

Que Chico Buarque de Holanda é um dos maiores gênios da chamada música popular brasileira disso ninguém tem dúvida. Quer dizer, num país em que a ignorância dita as regras e o whatsapp virou noticiário, alguns têm dúvida, sim. Mas, na verdade, Chico nunca foi unanimidade, basta lembrarmos a recorrente pergunta: “Chico ou Caetano?”.

Depois de mais de 50 anos de carreira e o mesmo período alinhado a ideais de esquerda, filho de sociólogo, amigo pessoal de Lula, autor de músicas censuradas durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964 e ativo personagem na campanha pelas Diretas Já!, um punhado de fãs (ou ex-fãs?) descobriu que o coração de Chico é vermelho como o sangue que pulsa em suas veias, da cor que costumeiramente representa o espectro político que se alinha do lado em que sempre esteve o compositor. Ou seja: atualmente, Chico é menos unanimidade ainda.

Chicólatras são tão fanáticos quanto raulmaníacos. Prova disso foi o que fez o público presente à apresentação do duo Nu’zs, ontem (9), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande): apesar de mais de três quartos das canções apresentadas pelo ex-integrante dO Terço Max Silva (guitarra e programações) e Marcê Porena (voz) fazerem jus ao título do espetáculo – Chico Buarque: um outro olhar – a plateia cantou junto, bateu palmas, vibrou, pediu mais um.

Max e Marcê trajam ternos sóbrios e as novas roupagens com que vestem as músicas literalmente desconstroem o que por vezes está configurado em nossa memória afetiva, no inconsciente coletivo. A pegada eletrônica leva o público a outro olhar, outra audição.

O duo é um casal, para além do palco, o que garante a intimidade no ponto certo, sem vulgaridade, para alguns exercícios teatrais, para além da música, em canções como Terezinha, O meu amor, Folhetim, Sob medida. Em pouco mais de uma hora de apresentação o que não faltam são clássicos.

“Foi difícil escolher o repertório. A gente começou com 13 canções, mas não havia como não aumentar isso. A questão é que Chico Buarque só tem clássicos”, revelou Max. “Esse show é para inspirar vocês a beijar na boca. Pra mim bastou uma música do Chico e hoje eu sou casada e estou no palco com alguém que ama Chico”, Marcê revelou a intimidade.

Às vezes a guitarra de Max parecia ofuscada pela programação eletrônica, mas ele compensou o problema, por exemplo, na versão voz e guitarra de As vitrines. Em História de uma gata (versão de Chico Buarque para a música de Luis Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti), da trilha sonora de Os saltimbancos, Marcê deitou no chão e evocou a felina personagem com seus miados. Dedicou a canção a Miúcha, irmã de Chico, uma das vozes da gravação original, recém-falecida.

Um dos maiores momentos do espetáculo foram as releituras de Apesar de você e Cálice (parceria de Chico com Gilberto Gil), cantada no bis, à capela, por uma Marcê deitada no palco, com alusões a uma provável queda da atual ditadura que governa o país.

Antes de cantar a saideira, perguntaram à plateia, que não decepcionou: “vamos cantar a única parceria de Chico Buarque com Sivuca, sabem qual é?”, e foram de João e Maria, após a resposta. Encerraram a apresentação aos gritos, vindos do palco e da plateia, de “Fora Bolsonaro!”, “Lula livre!” e “Viva Flávio Dino!”.

Marcê ainda entoou os versos iniciais de Carcará (João do Vale e José Cândido), reafirmando sua adoração por João do Vale, n/o que também se relaciona com Chico Buarque. Quem precisa de unanimidade quando se está ao lado de quem importa?

Serviço

O duo Nu’zs apresenta o espetáculo Chico Buarque: um outro olhar hoje (10), às 20h30, no Teatro do Boi (R. Rui Barbosa, 339, Matadouro), em Teresina/PI.

Patrimônios culturais em debate

Um pertinente debate sobre patrimônio cultural material e imaterial foi travado hoje (9) pela manhã, na mesa redonda que abriu os trabalhos do VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural, na sede do Centro Cultural do Ministério Público do Maranhão (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro). O evento é promovido pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), presidida pelo promotor Fernando Barreto.

O evento é ousado por ir de encontro ao desmonte promovido pelo governo de Jair Bolsonaro, cujos pouco mais de quatro meses são marcados pela destruição de qualquer patrimônio nacional: as instituições, a Educação, a Segurança Pública, o Meio Ambiente – gerando reação de todos os ex-ministros da pasta –, a Cultura (incluindo seu Ministério) e um longo etc. Um debate necessário e urgente.

Conceitos amplos de patrimônio foram trazidos como exemplo pelas promotoras Ana Maria Moreira Marchesan (MP/RS) e Eliane Cristina Pinto Moreira (MP/PA), que dividiram a mesa com Márcio Thadeu Silva Marques (diretor da Escola Superior do MP/MA), que mediou-a, e Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae do Maranhão.

As promotoras deram exemplos significativos, entre brasileiros e estrangeiros, da conjugação de preservação do patrimônio histórico com habitação, de participação popular na definição de bens tombados e de culturas, inicialmente marginalizadas, posteriormente reconhecidas por instituições oficiais. Marchesan revelou ainda o aprendizado e a emoção em ter visitado o Museu do Reggae e outros museus em sua rápida passagem pela ilha.

A fala de Ademar pontuou o que ele chamou de vitória do reggae, outro exemplo de cultura inicialmente marginalizada, ao longo dos anos incorporada como traço da identidade cultural brasileira, sobretudo maranhense, agora reconhecida oficialmente pelo poder público estadual, com a instalação do Museu (o primeiro dedicado ao gênero fora da Jamaica e o primeiro público no mundo), e pela Unesco, que em novembro passado reconheceu o reggae como patrimônio cultural imaterial.

Cabe destacar, aliás, que a instalação do Museu do Reggae e do Centro Cultural do Ministério Público colocam o Maranhão na contramão do Brasil: enquanto uns sucateiam, desmontam e privatizam, o Maranhão reforma, inaugura e mantém, apesar de todas as dificuldades enfrentadas.

O VII Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural prossegue ao longo de todo o dia de hoje. A programação do evento tem transmissão ao vivo no canal da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão no youtube.

(Re)veja a mesa: