Em São Luís, Mário Rodrigues antecipa novo romance

Foto: Windisley Thiago. Ascom/Secult

 

Há diversas maneiras e razões pelas quais alguém se torna escritor. Inclusive, de uns tempos pra cá, após cursos de escrita criativa, laboratórios, oficinas, cursos superiores de Letras e que tais.

Há quem acredite em dom ou talento inato. Ou destino. Ou acaso.

Na tarde de ontem (21), no Espaço Juventude da 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o bem-humorado escritor garanhuense Mário Rodrigues conversou com a jornalista e escritora Talita Guimarães em mais uma edição do Literatura Mútua.

Ele contou uma história bonita, que me deixou, como diria Paulo Mendes Campos, “comovido como o diabo”, que tento reproduzir aqui.

O pai do menino Mário foi demitido e o patrão não tinha como lhe pagar indenização. Entre o prejuízo completo, o ex-empregador resolveu dar-lhe, em compensação, cinco máquinas de escrever. Ao então desempregado de nada serviriam, mas era melhor que nada. Tinha quatro filhos, deu uma máquina de escrever a cada um.

A Mário restou uma Olivetti vermelha, daquelas que ao serem fechadas se transformam em uma maletinha. Diante da máquina, o menino colocou uma folha de papel a4 no cilindro e começou a batucar um conto, nada original, nada inspirado, segundo o relato do autor de A cobrança [Record, 2018], relatando a situação: um menino que ganha uma máquina de escrever do pai.

“Meu pai era aquele homem de pedra, nordestino autêntico, daqueles que nunca se viu rir ou chorar”, lembrou. “O macho-jurubeba no dizer de Xico Sá”, pensei na plateia, mas não quis interromper a história. “Mas eu gosto de imaginar que ao ler, na minha frente, aquele conto que lhe entreguei, vi seus olhos marejarem”, continuou. Anos depois, quando da morte do pai, descobriu que ele havia guardado o texto pelo resto da vida.

Os anos se passaram e Mário se tornou professor de português, literatura e redação e autor merecidamente festejado: com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record, 2016] venceu o prêmio Sesc de Literatura e foi finalista do Jabuti.

O autor continua morando na Garanhuns natal, tida como Suíça brasileira, pelo frio que faz à noite, terra que também deu ao Brasil Luís Inácio Lula da Silva. Fui vê-lo à tarde numa espécie de preparação para a mesa que eu mediaria à noite, com o tema “A taça do mundo não foi nossa”.

Mário Rodrigues discorreu sobre influências – Cormac McCarthy, Raymond Carver, Rubem Fonseca e principalmente Graciliano Ramos, com quem mais se identifica graças à dicção. Lembrou-se do zumbido dos minutos iniciais da adaptação cinematográfica de Vidas secas, por Nelson Pereira dos Santos, a dizer que é o tipo de detalhe que persegue ao fazer literatura.

Ao comentar seu processo criativo, revelou primeiro eleger um assunto. Depois mergulhar em uma meticulosa pesquisa sobre. E só depois colocar tudo no papel. No intervalo entre uma mesa e outra conversamos um pouco. E o que ele me revelou, me deixou curioso e ansioso de tal modo, que não pude evitar pedir-lhe que compartilhasse aquela novidade com o público presente.

Mário Rodrigues era, para mim, um autor recém-descoberto, ainda estou sob o impacto da leitura de A cobrança, assunto do post anterior deste blogue. Não li (ainda) Receita para se fazer um monstro, que é um livro de contos que versa sobre a formação de um ser humano repugnante – o monstro do título.

A mesa da noite também transcorreu em clima descontraído, entre aspectos do futebol e (da história) do Brasil abordados por sua ficção ancorada na realidade. As semelhanças nos messianismos de Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018, a vingança coletiva, contra o país que tudo lhe negou, tramada pelo protagonista de A cobrança, seu gracejo ao responder uma curiosidade da plateia: seria, necessariamente, um escritor que escreve tão bem sobre futebol, um bom jogador de futebol? “Há uma característica raríssima em jogadores de futebol que os diferenciam de todos os outros: escanear o campo. O jogador sabe exatamente onde estão seus companheiros e seus adversários. Eu só conheço quatro, com essa capacidade: Pelé, Tostão, Lionel Messi e eu”, revelou, esbanjando bom humor, para gargalhada geral dos presentes.

E discorreu em detalhes sobre o futebol-arte, lembrando partidas antológicas de diversas seleções brasileiras, de 1930, ano da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, até o Brasil inventar sua própria maneira de jogar bola, em 1950. “Depois, em 1958, o Brasil vence sua primeira Copa do Mundo. Era o Brasil sendo o melhor no que todo mundo queria ser. É fácil o Brasil ser bom em samba: só tem samba no Brasil”, comparou.

Lembrou os campeonatos mundiais conquistados em 1962 e 1970. Descreveu à perfeição lances antológicos, como o drible que Pelé dá, sem tocar na bola, em Mazurkiewicz, goleiro uruguaio, na semifinal da Copa de 1970. “Após o passe de Tostão, na medida, Pelé surge do nada, feito um raio, e após tirar o goleiro com o corpo, por milímetros a bola vai pra fora”, relembrou o não-gol mais bonito da história do futebol.

Depois algumas seleções memoráveis, sobretudo a de 1982, “com o melhor meio-campo de todos os tempos: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Vejam a diferença, Zico do Flamengo, Sócrates do Corinthians, Falcão do Internacional, e Cerezo do Atlético Mineiro. Não apenas clubes brasileiros estavam representados, mas estados”, comentou, antes de discorrer sobre a derrocada do futebol brasileiro, tema também de A cobrança. “Nos perdemos querendo imitar os europeus, graças à nossa síndrome de vira-latas, como diria o grande Nelson Rodrigues”.

Já havíamos falado do presente (A cobrança, publicado este ano) e do passado (Receita para se fazer um monstro, de 2016). Eu não podia, diante do impacto, perder a oportunidade. Repeti-lhe, diante do público, a pergunta-clichê, inevitável, que já havia feito em off, instantes antes da mesa: e o livro novo?

O argumento incrível e o inusitado de como a história lhe caiu no colo, até agora ribombando em minha cachola, me fez novamente pensar no que faz de alguém um escritor – acaso? Sorte?

Sem firulas, Mário Rodrigues não se fez de rogado e revelou o mote e parte do enredo: “eu estava, no carnaval, almoçando com umas tias setentonas, que comentavam sobre um tio, já falecido, que trabalhava no serviço secreto. Era um tio sensível, escrevia versos, tocava acordeom, me ensinou a dirigir, era aquele a quem todos da família recorriam quando tinham problemas. Quando eu era mais jovem e ouvia falar nesse serviço secreto, imaginava algo meio James Bond; fui pesquisar e descobri que ele era um agente da repressão, um torturador que trabalhou no Doi-Codi, sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, nos anos mais pesados da ditadura militar. Ou do regime militar, como queiram. Era no governo Médici, tido como o mais duro do período. Meu tio cresceu tanto na hierarquia do exército que quando Médici ia até São Paulo, ele era escalado para ser seu motorista particular. O livro vai se chamar O motorista de Médici”, antecipou.

Cá estou, ansioso por ler, a esperar este seu novo livro, certamente uma das grandes obras da literatura brasileira em 2019.

Gol de letra!

A cobrança. Capa. Reprodução

 

Antes da resenha propriamente dita, uma confissão de dois arrependimentos: o primeiro, não ter lido A cobrança [Record, 2018, 207 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Mário Rodrigues, antes da Copa do Mundo e das eleições; o segundo, não ter escrito sobre, idem.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2016, com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record], finalista do Jabuti ano passado, o pernambucano de Garanhuns lançou este ano seu romance de estreia.

Ficção alicerçada na realidade, o livro cuja capa evoca o patriotismo à guisa de “os corações nas pontas das chuteiras”, tem enredo construído em um bem trabalhado jogo de flashbacks, entre tragédias pessoais e coletivas.

A ação se dá entre o exato instante em que seu protagonista se dirige para cobrar um pênalti, o último da série inicial de cinco, na final da Copa do Mundo da Rússia, contra a Alemanha – cabe lembrar que o romance foi publicado antes da Copa do Mundo de 2018 –, enquanto um filme inteiro se passa em sua cabeça enquanto se dirige à marca de cal.

Professor de literatura, português e redação e crítico literário, Mário Rodrigues tem domínio absoluto da linguagem, equilibrando-se entre a vida trágica de seu personagem, citações bíblicas e da Constituição Federal de 1988 – cujo artigo 5º. desdobra-se nas epígrafes ao longo do livro –, promulgada em 5 de outubro daquele ano, mesma data de nascimento do protagonista.

No “país do futebol” não faltam livros sobre o esporte: de À sombra das chuteiras imortais [Companhia das Letras, 1993], do cronista Nelson Rodrigues, passando pelo belo tributo A pátria em sandálias da humildade [Realejo, 2016], do também cronista Xico Sá, passando por Veneno remédio [Companhia das Letras, 2008], ensaio sociológico de José Miguel Wisnik, e Páginas sem glória [Companhia das Letras, 2012], de Sérgio Sant’Anna.

A maioria está ancorada nas alegrias e tristezas de vitórias e derrotas reais, entre grandes clássicos e partidas sem importância (o que chamaríamos cumprir tabela). Apesar da derrocada do futebol ao longo dos anos, com a profissionalização, a publicidade tomando conta de tudo, os apelidos em desuso, dando lugar aos nomes compostos, estádios transformando-se em arenas, frequentadas não mais por quem ama o futebol acima de tudo, mas por quem, acima de tudo (e de todos) tem dinheiro para comprar os ingressos, entre uma série de outros aspectos também abordados pela prosa de Mário Rodrigues.

Sua ficção também se baseia em fatos reais: a humilhação do 7×1, diversos lances que poderiam ter mudado o rumo de partidas e, consequentemente, de campeonatos, a não efetivação na vida prática do conjunto da população de diversos direitos constitucionalmente garantidos, escândalos e tragédias da arena política.

Ao conduzir seu protagonista a um acerto de contas com sua própria história, seu passado, e o Brasil que tanto lhe subtraiu, a ficção de Mário Rodrigues conduz seu leitor a um acerto de contas com o passado (d)e um país em um momento decisivo de nossa história.

Serviço

O escritor Mário Rodrigues participa de duas mesas hoje (21) na 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). Às 16h, com mediação da jornalista e escritora Talita Guimarães, no projeto Literatura Mútua, no Espaço Juventude. Às 19h30, com este que vos perturba, no Auditório Graça Aranha, em mesa com o tema “A taça não foi nossa”. A FeliS acontece no Multicenter Sebrae (Cohafuma), com entrada franca.

O vírus linguagem e a imensidão de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello e Celso Borges, ontem (19) na FeliS. Foto: Zema Ribeiro

 

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal [Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça [Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.

O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

Tente entender o que tento dizer. Capa. Reprodução

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

Aquarela será exibido hoje em São Luís

Curta-metragem maranhense venceu dois kikitos em Gramado e é um dos favoritos na mostra competitiva do festival Maranhão na Tela

Aquarela. Cartaz. Reprodução

Por detrás da fragilidade e inocência de uma criança (Clarinha, interpretada por Maria Helena De Dea), que envia um desenho para o pai, os diretores e roteiristas Al Danuzio e Thiago Kistenmacker estabelecem a trama alicerçada em flashbacks do curta-metragem Aquarela [drama, Brasil, 2018, 15 minutos].

As tintas da delicadeza para pintar um retrato do em geral trágico e brutal sistema penitenciário brasileiro. Inspirado em fatos reais, avisam, de início, dando ares de documentário à ficção.

“Uma denúncia revela que mulheres de detentos estão sendo abusadas dentro da penitenciária nos dias de visita. Líderes de facções criminosas obrigam as mulheres a manter relações sexuais com eles sob ameaças de matar os outros detentos, parentes ou maridos das vítimas”, uma locução de telejornal nos esfrega a triste e trágica realidade ao final.

Al Danuzio (que interpreta o detento Marcelo, pai de Clarinha) e Thiago Kistenmacker abordam o horror do sistema prisional por um ângulo inusitado. Quem não ler a sinopse e cair em uma sessão poderá se dizer enganado pelo título, que remete ao que o filme tem de poético, embora seja impossível escapar da violência.

A cena em que Ana (Luna Gandra) é enquadrada através dos cobogós é de uma beleza ímpar, em metáfora (também presente no cartaz) que sintetiza a opinião de muitos agentes de segurança pública, sobretudo policiais: mulher de malandro é malandra, filha de malandro é malandra, sentenciam, às vezes justificando a pena de morte a que os mesmos condenam sumariamente quem quer que orbite um detento.

A pergunta de Ana a Marcelo, durante a visita, é emblemática sobre o inchaço dos presídios brasileiros: “e o advogado? Disse quando é que vão te julgar?”. O que o filme tem de poético não disfarça os problemas do sistema nem joga tintas de pieguice em um dos maiores dramas não só do Brasil, mas com que, particularmente aqui, muito pouca gente se importa, apesar de seus reflexos para muito além dos muros de penitenciárias e que tais.

Cabem destacar ainda as atuações de Rosa Ewerton Jara (Dolores, mãe de Marcelo) e Urias de Oliveira (Diabão). Aquarela voltou do Festival de Gramado com dois kikitos na bagagem: melhor desenho de som (Fabio Carneiro Leão) e melhor montagem (Thiago Kistenmacker).

Serviço

Aquarela será exibido hoje (19) no festival Maranhão na Tela e certamente é um dos favoritos na mostra competitiva de curtas-metragens. As sessões acontecem às 19h (Kinoplex Golden Sala Platinum) e 21h15 (Kinoplex Golden Sala Kinoevolution), no Golden Shopping (Calhau). Toda a programação do festival é gratuita.

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Veja o trailer:

Um baile de cinema

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Cartaz. Reprodução

 

Um homem montado em um jumento transforma-se numa espécie de minotauro. Um minotauro moderno pode ter como segunda parte do corpo uma motocicleta. E é por uma espécie de labirinto que somos conduzidos ao longo do poético Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos [documentário, Brasil, 2016, 80 minutos], de Sergio Oliveira, com roteiro dele, Leo Pyrata e Renata Pinheiro, estreia nacional da semana – em São Luís em cartaz no Cine Lume.

O filme é povoado por jumentos, burros, jegues e outros animais que puxam carroças, além de bodes, cachorros e galinhas. Prescinde de palavras ao acompanhar uma viagem do grupo que lhe intitula, carinhosamente conhecido também pela sigla Super Oara, outro destaque musical da cidade que já deu ao Brasil o Coco Raízes de Arcoverde e o Cordel do Fogo Encantado, estes, nomes tidos como representantes de uma cultura mais “pura”, “genuína”, do lugar, apesar do flerte do último com o rock’n’roll.

Mescla o fazer musical do grupo, entre guitarra, contrabaixo, bateria, percussão, saxofone, trompete, trombone e piano, sob a regência do maestro Beto, à vida cotidiana do município do sertão pernambucano, distante 256 km da capital Recife, entre obras, trânsito, o tanger dos animais, o fim de feira, uma corrida de jegues, um inusitado encontro de easy riders agrestes, crianças brincando.

Em um de seus ônibus, a Super Oara vai de Arcoverde a Serra Talhada tocar em um aniversário de 15 anos, na sede da AABB local. Seu repertório, como o nome do grupo indica, é especializado em standards americanos, e ao longo do filme ouvimos clássicos como New York, New York (John Kander/ Fred Ebb), sucesso de Frank Sinatra, Bridge over troubled water (Paul Simon), regravado entre outros por Elvis Presley (a que vimos um dos integrantes da banda vendo um vídeo em um laptop durante a citada viagem), Fly me to the moon (Bart Howard), já gravada por aqui por Paula Toller, In the mood (Joe Garland), por aqui tema da minissérie Agosto, baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca, e, entre outras, Am I black enough for you (Kenny Gramble/ Leon Huff), sucesso de Billy Paul, na cena em que uma espécie de Michael “moonwalk” Jackson cover dança com o bumba meu boi de Arcoverde.

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, o filme, não se pretende uma cinebiografia do grupo quase sexagenário, tanto é que só do maestro Beto sabemos o apelido, ao longo de sua duração – quantos brasis há no Brasil por conhecermos? É um cinema inventivo, de puro deleite, que abusa da força poética das imagens, entre a realidade (documental) e a fantasia, à revolução dos bichos orwelliana, em que também os burros cantam e dançam.

É ao mesmo tempo um belo tributo à cultura nordestina e um retrato – não necessariamente uma crítica – das influências estrangeiras que chegam ao lugar. Se a elite criticou a substituição de jumentos por motocicletas, “graças ao Bolsa Família”, o documentário revela um convívio harmonioso entre uma e outra ferramentas, o que acaba por se tornar uma perfeita metáfora intercultural.

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Veja o trailer:

O beijo no asfalto terá exibição hoje em São Luís

Adaptação de Nelson Rodrigues, filme marca estreia de Murilo Benício como diretor. Sessão abre festival Maranhão na Tela

Lázaro Ramos em cena de O beijo no asfalto. Frame. Reprodução

Ator consagrado, Murilo Benício estreia na direção com O beijo no asfalto [Brasil, drama, 2017, 101 minutos; classificação indicativa: 12 anos], adaptação – de que assina o roteiro – da peça de Nelson Rodrigues. Filmado em preto e branco, a opção do diretor não esbarra no óbvio, contrariando quem eventualmente pensar na escolha como uma busca das facilidades ao refazer um texto consagrado. Ao contrário, o diretor parece guiar-se justamente por essa preocupação: o que pode ainda atrair espectadores em um texto tantas vezes adaptado e encenado?

Para começar, Murilo Benício cerca-se de grandes nomes – Lázaro Ramos (Arandir), Débora Falabella (Selminha), Luiza Tiso (Dália), Otávio Muller (Amado Ribeiro), Stênio Garcia (o sogro de Arandir) e Fernanda Montenegro, entre outros – da televisão, do cinema e do teatro, e nos apresenta um filme, de atmosfera noir (a fotografia é de Walter Carvalho), híbrido dessas linguagens, no caso do cinema transitando com desenvoltura entre a ficção, o documentário e o making of.

Todo o grupo de atores está sentado ao redor de uma mesa, repassando o texto, a que são acrescidos comentários, sobre a grandeza rodrigueana, a hipocrisia social reinante desde sempre ou a monumentalidade de outros atores e atrizes que já encarnaram os papéis naquela peça – o próprio diretor aparece, sentado e discreto. O filme mescla esse ambiente de ensaio com bastidores de teatro e de set, com câmeras, microfones boom e outros equipamentos dividindo a cena com o dream team da dramaturgia de Nelson Rodrigues repaginada por Murilo Benício.

O enredo é por demais conhecido: um homem (Arandir), na Praça da Bandeira carioca, vê outro ser atropelado por um lotação e atende seu último desejo: um beijo na boca, visto por toda sorte de transeuntes, entre homens comuns, meros curiosos, e um jornalista inescrupuloso (Amado) que ganha a vida com o sensacionalismo nosso de cada dia. A partir daí este homem tem a vida devassada, num conluio entre a mídia, a polícia e a sociedade conservadora.

Qualquer semelhança entre a ficção sessentista de Nelson Rodrigues e a realidade brasileira de 2018 não é mera coincidência. A adaptação de Murilo Benício coloca em debate temas infelizmente ainda bastante atuais: a homofobia, a manipulação das pessoas por meios de comunicação (ou por redes sociais, em nossos tristes tempos) e um sentimento de culpa baseado em uma moral cristã. “Nelson Rodrigues tem um teatro da culpa; embora em busca de redenção, mas esta se dá pela culpa”, afirma categoricamente Fernanda Montenegro – que afinal de contas, era a Selminha da montagem original e aqui aparece como dona Matilde, uma vizinha fofoqueira.

Outra fala da atriz nos traz à triste realidade: passado tanto tempo, o Brasil segue atrasado em matéria de “moral e bons costumes”, no que imagino que a opção de Benício pelo preto e branco, mais que estética, seja também um modo de dizer: de nada adiantaram as cores e a tecnologia se um texto que se passa em 1960 pode ser encenado como atual no Brasil em pleno 2018.

Serviço

O beijo no asfalto será exibido hoje (15), às 20h, no Kinoplex (Golden Shopping, Calhau), na sessão de abertura do 11º. Festival Maranhão na Tela, com a presença do diretor Murilo Benício. A sessão é gratuita e aberta ao público, como toda a programação do festival.

Convergência em T

Meu corpo é politico. Cartaz. Reprodução

Quatro histórias se cruzam em Meu corpo é político [drama/documentário, Brasil, 2017, 71 minutos], documentário da diretora paulista Alice Riff. As personagens fogem ao padrão heteronormativo vigente e o grande trunfo do filme reside em revelar-lhes em ações cotidianas. O quarteto mora em distintas periferias da cidade de São Paulo.

A câmera-corpo acompanha-as no dia a dia: um operador de telemarketing, uma professora ocupando o cargo de direção de uma escola, uma jovem fotógrafa que coloca sua arte a favor da militância pelos direitos de transexuais e uma artista do funk idem.

Meu corpo é político é didático sem ser panfletário. É um mergulho ousado na temática, a apontar questionamentos que deveriam ser feitos por cada um de nós, diante de tema (relativamente) novo, pouco abordado, ao menos com a devida responsabilidade, sobretudo por (grande) parte da mídia.

O olhar sensível de Alice Riff passa a merecer ainda mais respeito justamente por ela tê-lo devotado a seu próprio mergulho no universo dos Ts da sigla LGBTQI+: sendo mulher cisgênero (e aqui o resenhista não foge ao lugar comum de enquadrar seres humanos no binarismo que rege/ia a identidade de gênero), ela consegue contar, com louvor, as histórias a que se propõe.

O roteiro é bem urdido, entremeando as vidas de Fernando Ribeiro, Paula Beatriz, Giu Nonato e Linn da Quebrada, que além de protagonistas, assinam o roteiro do filme com Alice Riff.

Se todo corpo é político, o corpo de um/a transgênero o é ainda mais, vivendo em estado permanente de ameaça, e na iminência de toda forma de violência. Existir é político: resistir se faz necessário.

Em uma época em que um presidente recém-eleito ameaça toda sorte de cotas e de censura o mais importante mecanismo de acesso ao ensino superior do país, o filme de Alice Riff é peça fundamental na re/educação da sociedade, ou ao menos da parcela ainda disposta a abrir a mente.

Selecionado pelo mais recente edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que garante a produção de conteúdo audiovisual para a veiculação em emissoras públicas, uma versão estendida de Meu corpo é político foi exibida ontem (12), no Cine Teatro Aldo Leite (Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão – DAC/UFMA, Canto da Viração, Centro), na mostra Corpos Elétricos, que integra a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, do Sesc/MA.

A sessão foi seguida de debate com a diretora, a atriz Áurea Maranhão e o técnico em cultura do Sesc/MA Fábio Azevedo. A programação continua daqui a pouco, com Uma mulher fantástica [drama, 2017, direção: Sebátian Lelio, duração: 104 minutos; classificação indicativa: 14 anos], às 16h, e Corpo elétrico [drama, 2017, Marcelo Caetano, 94 minutos, 16 anos], às 18h. As sessões têm entrada franca.

Veja o trailer de Meu corpo é político:

O gigante Wander Piroli

Foto: Fernando Rabelo

 

Dois poderosos cartões de visita abrem Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito [Conceito Editorial, 2018, 256 p.], perfil biográfico do escritor mineiro assinado pelo jornalista e poeta conterrâneo Fabrício Marques, terceiro volume da coleção Beagá Perfis: o primeiro, uma foto do biografado engraxando os sapatos (esta que abre este post); o segundo, uma coleção de frases que ele deixou organizada em um livro inédito, de entrevistas, Todo amor é marginal – de onde sai, inclusive, o subtítulo do presente volume.

Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

A grandeza desta biografia reside justamente em dar conta da dimensão humana do escritor, para quem a literatura (e o jornalismo) se confundia/m com a própria vida. “Tenho vergonha de ficar triste, porque a vida me ofereceu coisas demais”, diz outra frase, que vem a intitular a orelha, assinada pelo contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão.

Fabrício Marques escreve uma espécie de “Wander Piroli por ele mesmo”, dando voz ao próprio biografado, através de depoimentos deixados, entrevistas e principalmente através de sua atuação, sobretudo no campo jornalístico, em Belo Horizonte, enriquecido e endossado por depoimentos de quem conviveu com o autor de O menino e o pinto do menino, entre redações, botequins e as então incipientes tertúlias literárias Brasil afora. “E lá ia eu com essa cara de cachaceiro falar de literatura infantil”, disse Piroli certa vez, ele, autor diverso, que conversava com os adultos mesmo em suas obras infantis.

O livro é recheado de preciosas lições a jornalistas que, se seguidas à risca, poderiam representar algum novo fôlego ao agonizante ofício no Brasil – sobretudo em tempos de fake news. Piroli foi grande mesmo fazendo jornalismo policial, editoria em geral alçada à segunda categoria: nunca se contentou com o que estava registrado nos famigerados boletins de ocorrência. “Fulano matou? Matou. Por quê? Sempre tem um porquê. Precisamos ir atrás dos porquês”, aconselhava colegas e focas. Foi professor de jornalismo sem nunca ter estudado para exercer a profissão para a qual pareceu ter nascido talhado: as primeiras faculdades de jornalismo estavam começando no Brasil quando ele se iniciava entre as máquinas de escrever, oficinas gráficas e seu discreto garrafão de cinco litros de pinga sob a mesa.

“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”, disse em entrevista ao jornalista Aramis Milarch, em 1979, sobre a matéria-prima de sua obra, literária ou jornalística. Essa busca incessante por histórias e personagens, a ele tão fundamental quanto respirar, beber ou fumar, foi um dos fatores que o tornou um gigante.

Piroli nunca saiu de Minas Gerais – a não ser em viagens curtas para um evento aqui, outro acolá – e a Lagoinha, bairro da capital mineira, é personagem constante em sua obra, mas isto está longe de enquadrá-lo como provinciano: a qualidade de sua obra é indiscutível e não são poucos os depoimentos a colocá-lo ao lado de nomes como Hemingway, Tchecov e Kafka, para ficarmos em uns poucos.

“[Charles] Bukowski e [John] Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, disse o escritor Joca Reiners Terron ao jornalista Jotabê Medeiros, em 2011 – ambos figuram na vasta galeria de depoentes à obra do jornalista, poeta e escritor Fabrício Marques, que equilibra seus ofícios na construção de um texto que deixa transparecer a enormidade (a eternidade e a atualidade) de Piroli – para além da aparência física –, autor infelizmente ainda menos conhecido do que deveria, apesar de sucessivas reedições de sua obra, cujos direitos atualmente pertencem à editora Sesi-SP, que já publicou alguns dos 18 inéditos deixados pelo escritor, falecido em 2006.

Um teatro na contramão

 

Fotos: Ascom/Sesc/MA

Alvíssaras! Em concorrida solenidade o Sesc inaugurou ontem (7) o mais novo equipamento cultural de São Luís, como apregoou a campanha publicitária pendurada em outdoors e traseiras de ônibus: o Teatro Sesc Napoleão Ewerton, localizado no Condomínio Fecomércio/Sesc/Senac (Av. dos Holandeses).

Mais importante ainda: sua completa acessibilidade. Um bom percentual dos 245 lugares do teatro é reservada a pessoas obesas e há oito espaços para cadeiras de rodas, rampas de acesso, piso tátil e banheiro adaptado. Tudo o que foi apresentado ontem contou com tradução simultânea em libras e audiodescrição: das falas das autoridades do assim chamado Sistema S às apresentações musicais da Orquestra Filarmônica Sesc Musicar e da cantora Flávia Bittencourt – que, acompanhada do músico Carlos André (sanfona e bases eletrônicas), apresentou uma espécie de redução de Eletrobatuque, show que lançará em dvd em breve –, às intervenções teatrais, que homenagearam o falecido ex-presidente da Fecomércio que batiza o lugar e nomes como a atriz Apolônia Pinto e a escritora Maria Firmina dos Reis, entre outros.

Entre as autoridades presentes, os secretários municipais Marlon Botão (Cultura) e Socorro Araújo (Turismo) somaram-se a representantes da classe artística maranhense e servidores do Sesc – sobretudo de seu Departamento de Cultura – para prestigiar a inauguração, numa demonstração da importância que tem o Serviço Social do Comércio no fazer cultural do Brasil, configurando-se no mais importante organismo não estatal do país na área. Não à toa é comum ouvirmos referências ao Sesc de São Paulo, por exemplo, capitaneado pelo gigante Danilo Santos de Miranda, como uma espécie de “ministério da Cultura paralelo”.

“A Cultura no Sesc se caracteriza como ferramenta democrática de difusão de conhecimento possibilitando a educação transformadora da sociedade, por meio de projetos e ações voltados para as áreas de biblioteca, música, dança, teatro, circo, audiovisual, artes visuais e literatura objetivando a formação de seus diversos públicos”, diz um trecho da Apresentação, em folder distribuído aos presentes, ontem.

Há muito para se comemorar com a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, em São Luís. Inclusive pelo momento em que acontece, quando as ações culturais empreendidas pelo Sesc estão sob ameaça do governo federal recém-eleito – que nutre pouco ou nenhum apreço por diversas palavras(-chave) do parágrafo anterior –, sobre o que o próprio Miranda se manifestou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Só os projetos institucionais da entidade certamente já garantiriam ocupação qualificada do espaço inaugurado ontem, mas a pauta será aberta a agentes culturais em geral, observando-se os princípios que regem as ações do Sesc: atendimento a seu público prioritário (trabalhadores dos setores de comércio, serviços e turismo), mas não só, gratuidade ou ingressos a preços populares, entre outros.

Por falar em programação, ela já começa intensa: amanhã (9), às 18h30 a Klinger Trindade Cia./AM apresenta o espetáculo Pneumático [classificação indicativa: livre; duração: 60 minutos]; dia 10 (sábado), às 16h30, a Companhia Cambalhotas apresenta Os Saltimbancos [livre; 60 minutos], esta última integrando a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Algo a ser comemorado não apenas por São Luís e seus artistas, que ganham um novo espaço, na contramão do que se desenha para o Brasil, com a dilapidação de instituições – o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a ventilada extinção do Ministério da Cultura, para ficarmos em apenas dois exemplos –, a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton reafirma a importância e dá a real dimensão do quão imprescindível é o Sesc para a cultura brasileira.

Crônica de feira

Retrato: Zema Ribeiro

 

Peço quentinhas de bisteca e pescada, fritas na hora. Como demoraria alguns minutos, resolvo pedir uma cerveja. Minto: havia vários restaurantes no entorno, inclusive a quilo, em que eu me serviria mais rapidamente, mas resolvo adentrar a tradicional Feira da Praia Grande com o intuito de uma transgressora cerveja em plena quinta-feira antes do meio-dia.

Quando me serve a cerveja, Roxinha, apontando para o padrão “véu de noiva”, diz: “essa aqui resolve todos os problemas. Eu quando tomo uma assim vou nos Estados Unidos e volto no Iraque”, certamente referindo-se aos sabores da embriaguez e ressaca. “É de uma dessas que estou precisando”, penso. “A senhora gosta?”, indago e ela ri. “Não quer tomar um copinho?”, ofereço. “Rapaz”, ela diz e se interrompe, sem aceitar, como se a resposta fosse “não bebo durante o expediente”.

As frituras continuam chiando no interior do restaurante e ela liga a tevê. Uma reportagem dá conta de acidentes causados por mangas em Balsas: as frutas caem das mangueiras e esmagadas por pneus transformam-se numa lama viscosa, levando motoqueiros e ciclistas a derrapagens, pelo menos foi o que eu entendi sem prestar muita atenção, um olho no celular, outro no gibi do Tex.

“Com farinha é bom demais”, comenta Maria Ferreira, a Roxinha. “Manga e jaca mole”, complementa. “Eu saí do interior, mas o interior não saiu de mim”, confessa, revelando a saudade de Brejo, sua cidade natal, a 313 km da capital, onde passa até três anos sem ir.

Finalmente ela me serve os bandecos em uma sacola. Agradeço e digo que vou apenas terminar a cerveja. “Fique à vontade”, ela recomenda, sentando-se para terminar de ver o telejornal.

“Posso tirar um retrato seu?”, peço permissão. “Claro!”. Aponto o celular e fotografo Roxinha – com o contrabaixista Nema Antunes (conversando com o também contrabaixista Mauro Sérgio, encoberto por ela) ao fundo. Mostro-lhe o resultado: “ficou bom?”, pergunto. “Ficou, escritinho uma mucura”, ri de si mesma. E completa: “a gente tem que brincar. Depois que cai duro não dá mais”.

Amado para sempre

O cineasta Orson Welles em ação. Netflix. Reprodução

 

Orson Welles (1915-1985) foi, como ele mesmo admitia, vítima de uma espécie de maldição, causada por sua própria genialidade: aos 25 anos lançou Cidadão Kane [Citizen Kane, 1941, 119 minutos], considerado por muitos o melhor filme da história do cinema em todos os tempos. Até o fim da vida, sempre que lançava um novo filme, as expectativas em torno eram acrescidas da inevitável comparação com sua obra-prima ou pela ansiedade em torno da superação do cineasta por si próprio. Qualquer outro realizador, americano ou não, poderia também ser considerado genial (muitos deles merecidamente) sem ter precisado fazer um Cidadão Kane, portanto livres de cobranças do gênero.

O outro lado do vento [The other side of the Wind, 2018, 122 minutos] joga luzes sobre esta espécie de maldição: filme de montador (Bob Murawski), o inédito deixado por Orson Welles acaba de ser lançado pela Netflix. Metacinema, cinema sobre cinema, cinema para cineastas, cinema para cinéfilos, seu fã-clube, nada desprezível, comemora. Fragmentário, entrecortado. Uma sátira cinematográfica, uma contundente crítica à indústria cinematográfica, mas também um comovente tributo à sétima arte – sua polifonia impressiona. Cinema, simplesmente.

Ao mesmo tempo a plataforma disponibiliza também Serei amado quando morrer [They’ll love me when I’m dead, 2018, 98 minutos], dirigido por Morgan Neville, documentário sobre a feitura de O outro lado do vento, este, sobretudo, uma aula de cinema. Aliás, ambos são verdadeiras aulas de cinema: a mensagem final de O outro lado do vento é certeira: “filmem tudo, filmem até morrer”, recomenda o diretor, antes que as pessoas deixassem de ver espetáculos com os próprios olhos para vê-los através das telas de seus smartphones – certamente não era disso que falava, mas como todo grande artista era também um visionário.

Mas estará enganado quem pensar que Serei amado quando morrer é mero making of, manual de instruções, chave de leitura ou “os extras do dvd” de O outro lado do vento: o documentário ajuda a entender a figura plural (em todos os sentidos) de Orson Welles.

O outro lado do vento é uma espécie de cinebiografia de um alter ego de Welles, um obcecado por cinema, que apesar da grandeza, nem sempre teve vida fácil para realizar este ou aquele projeto – palavrinha surrada hoje em dia –, um dos motivos pelos quais acabaria se “exilando” de Hollywood. Com trilha de Michel Legrand, o filme é cheio de referências cinematográficas e literárias (sobretudo Ernest Hemingway) e tem uma das mais bem feitas cenas de sexo da história do cinema.

Orson Welles escreveu e dirigiu O outro lado do vento ainda nos anos 1970 e nele trabalhou até morrer. Falta de financiamento, batalha judicial, mais de 100 horas de material bruto filmado, inúmeras anotações e diretrizes compõem a saga do lendário filme inacabado do cineasta. Mais de três décadas depois sua genialidade é posta à prova. O par de filmes prova que ele segue merecedor do epíteto.

A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

O poder do samba

Saved by the drums. Capa. Reprodução

 

No antológico Samba da bênção, Vinicius de Moraes dizia ser “o branco de alma mais preta” do Brasil, reafirmando ali o seu compromisso com a valorização da cultura negra do país, sobretudo os afrossambas, desenvolvidos em parceria com o violonista Baden Powell.

O francês (de Nancy) Stéphane San Juan parece ser, musicalmente, hoje, o gringo mais brasileiro, o que se traduz (mais uma vez) logo na faixa de abertura de Saved by the drums (salvo pelos tambores, em tradução livre), seu segundo disco solo: Elegua é introduzida por berimbau e deixa clara a influência dos terreiros na música de San Juan (sobrenome que também tem tradução brasileiríssima).

San Juan é baterista da Orquestra Imperial, supergrupo surgido do encontro de cantores, compositores e instrumentistas de vertentes, gerações (e nacionalidades, no caso do baterista) distintas, a valorizar a brasilidade sonora para muito além do carnaval, no que são especialistas.

Foi na big band carioca que San Juan conheceu o baterista Wilson das Neves (1936-2017), a quem chama carinhosamente de “pai espiritual” e a quem dedica Saved by the drums. O baterista reconhece no saudoso amigo “a pessoa que me encorajou a aprofundar não apenas a minha paixão pela música brasileira, mas especialmente meu trabalho criativo como compositor”, como afirma no material de divulgação de seu novo disco. O lendário ritmista do Império Serrano, que tocou com Chico Buarque por mais de três décadas, se referia a San Juan como “o francês mais brasileiro que eu conheci”.

Saved by the drums é um amálgama jazzístico brasileiro (embora majoritariamente cantado em francês) que reúne, ao longo de suas oito faixas (em formato digital; no vinil são apenas seis), nada menos que 15 músicos, incluindo o autor e o homenageado Wilson das Neves, que emprestou sua voz à parte em português de Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval, versão em francês para sua O dia em que o morro descer e não for carnaval (parceria com Paulo César Pinheiro, que aprovou a versão, que mantém a força da mensagem política da letra).

Entre outros músicos que comparecem estão Alberto Continentino (contrabaixo em Elegua e no afrossamba e metasamba A voz que não se cala), Armando Marçal (percussão em Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval), Guto Wirtti (contrabaixo em Mon papa etait là, homenagem a Fernand San Juan (1949-2012), pai de Stéphane, e Notre histoire), Michael Leonhart (trompete), Rogê (voz e violão em A voz que não se cala, parceria dos dois), Zé Manoel (voz e wurlitzer em Notre histoire) e Zéro (voz e percussão em Elegua), alguns dos quais seus colegas de Orquestra Imperial.

Entre a Orquestra Imperial, Système de Son (2014), seu disco solo de estreia, e álbuns de nomes como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Maria Gadú, Mariana Aydar, Péricles Cavalcanti, Thaís Gulin, Thiago Pethit, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata e Zélia Duncan, Stéphane San Juan já havia dado provas de que aprendeu a lição brasileira. Wilson das Neves certamente está lisonjeado com a comovente homenagem.

2019, uma microfábula distópica

Ilustração: Paulo Stocker. Reprodução

 

Os índices de acidentes de trânsito nas cidades cresceram assustadoramente, apesar de o fato não preocupar os governantes. Os semáforos operam apenas com as cores verde e amarelo, já que o vermelho foi proibido pelo decreto presidencial número 1.

Um setor do comércio severamente atingido por uma crise inédita e nunca imaginada foi o das floriculturas: com a proibição do vermelho, rosas deixaram de ser cultivadas e vendidas. Símbolos do amor e da paixão desde sempre, casais tiveram que reinventar o jogo da conquista, e os sentimentos tornaram-se clandestinos.

Armas de fogo levaram guarás à extinção. “Onde já se viu? Aves vermelhas? É proibido!”, bradou uma autoridade, eufórica, pouco se lixando para a beleza das revoadas e o equilíbrio ambiental.

A coca-cola mudou as cores de suas embalagens e faturou em cima, tornando tudo mais uma jogada de marketing e ironizando o velho jargão de que “comunista não bebe o líquido símbolo do capitalismo”.

A Cruz Vermelha teve que retirar-se do país, pois, ao contrário da marca de refrigerantes, não teve como investir pesado em publicidade, além de avaliar que não faria sentido modificar uma marca e um nome consolidados há mais de 150 anos.

Os caminhões dos Corpos de Bombeiros espalhados pelo país perderam sua cor padrão. Não fossem as sirenes, seria mais difícil identificá-los no trânsito e abrir passagem para evitar que o fogo consumisse algo mais em um incêndio – embora o fogo não agisse sozinho em sua sede de destruição.

Em Parintins, no Amazonas, o Boi Caprichoso foi declarado campeão. O Garantido, vermelho, foi proibido de desfilar no Festival Folclórico. No Rio Grande do Sul, o Internacional foi proibido de disputar o campeonato gaúcho – e outros certames.

De vermelho sobrou apenas o sangue derramado de negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência. Mas vermelho é modo de dizer, imaginação baseada em lembrança: como uma imensa máquina do tempo nos levou de volta a um passado de pouco mais de 50 anos, a televisão em cores ainda não havia chegado ao Brasil.