Solidariedade e agricultura familiar em pauta

17 grupos produtivos em 12 municípios maranhenses são beneficiados com iniciativa. Pautados pela solidariedade, eles superam problemas simples com soluções idem.

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: ACERVO CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL MARANHÃO

Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís
Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís

Com mais de 60 anos de atuação no país, a Cáritas Brasileira tem um sólido legado na organização de grupos e comunidades, pautada por princípios solidários, sustentáveis e de autogestão.

Recentemente, através de um projeto apoiado pela Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão está apoiando ações que culminam na criação de um fundo rotativo solidário, cujo montante chega a 130 mil reais, beneficiando 17 grupos produtivos de agricultores familiares em 12 municípios maranhenses.

O regulamento do fundo prevê a devolução de 100% dos valores recebidos, acrescido de 4,5% de juros – valores estes que serão reinvestidos em ações produtivas de outros grupos. Algumas diferenças básicas entre este tipo de empréstimo e os comumente oferecidos por instituições financeiras são autogestão (a taxa de juros, por exemplo, foi definida pelos próprios trabalhadores que acessam os recursos) e a carência – que varia conforme a atividade produtiva: seis meses para horticultura, polpa de frutas e beneficiamento de farinha, um ano para criação de animais, e 18 meses para o plantio de mandioca.

O engenheiro agrônomo Marciel Bento dos Santos, 36, destaca a permanência das pessoas na terra a partir de uma iniciativa muito simples. “A partir deste projeto, os trabalhadores produzem para consumo e comercialização, realizada em feiras locais e territoriais”, comenta.

Ele também aborda as diferenças entre a operacionalização do fundo rotativo solidário e de um empréstimo comum, num banco. “Quando é no banco, se vê a atividade que as pessoas vão fazer, mas já chega um prazo tabelado; o banco é engessado; você chega ao banco, pega ficha de vida, se é de família tradicional, se tem posição, para poder o banco lhe dar o empréstimo”, compara.

O grupo produtivo que ele integra acessou 9.680 reais para plantar mandioca e adquirir motor, bomba, mangueira e tubulação para irrigar, além de estacas e arame para cercar a área. Começará a devolver o recurso a partir de setembro de 2020.

Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras

A agricultora familiar Antonia Pereira de Sousa, 57, vive em Nova Descoberta, povoado de São Raimundo das Mangabeiras. Através do projeto para acessar os recursos do fundo rotativo solidário, na ordem de 10 mil reais, seu grupo plantou melancia, banana, caju, acerola, milho, feijão, arroz e mandioca, além de adquirir material de irrigação e conseguir escavar um reservatório para 120 mil litros de água oriundos de um poço artesiano. Apesar de a carência ser de seis meses, o grupo já começou a devolver os recursos ao fundo.

“Já venho acompanhando a Cáritas e já conhecia seu trabalho em outras comunidades. Antes, aqui, a gente não podia expandir [as atividades] por que a bomba era fraca”, explica. A venda da produção é realizada diretamente na praça da cidade, pelos mais de 80 membros da cooperativa. “É muito melhor. Não tem burocracia para acessar [os recursos]. É rápido. Por bancos, assentamentos não conseguem acessar. Não conseguia na época de Lula e Dilma, imagina com esse aí”, diz, referindo-se ao presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Antonia lembra ainda de um crédito obtido através de empréstimo junto a um banco, cerca de um quinto do valor acessado através do fundo da Cáritas/IAF. “Só cerquei o quintal e nem os animais eu consegui comprar. A terra não é dividida, é no nome da associação, aí o banco não quer trabalhar de jeito nenhum”, explica.

Elmir Eurides dos Santos Andrade, 56, mais conhecido como Bebé das Lagoas, é lavrador em Belágua. O grupo produtivo de que é membro acessou 7,9 mil reais em fevereiro de 2019 e plantou seis hectares de mandioca, com colheita prevista para agosto de 2020. A expectativa é produzir cerca de 3 mil quilos de farinha. “A ideia é passar a produzir para vender, não apenas para comer, e tentar vender direto na cidade, sem a figura do atravessador”, afirma ele, que continua plantando milho e arroz para consumo.

“A estratégia da Cáritas está em um processo de fortalecimento de ações que ela já desenvolve com a Rede Mandioca. O fundo de crédito constituído tem a perspectiva do fortalecimento da agricultura familiar como um horizonte maior: fortalecer as ações junto a grupos produtivos de agricultores familiares e extrativistas, articulando uma rede de agricultores e agricultoras, com a perspectiva de envolvimento comunitário, geração de trabalho e renda, fortalecimento do trabalho coletivo, de ter alimento saudável na mesa, de segurança alimentar para o campo e para as cidades”, afirma Lucineth Cordeiro, assessora de Desenvolvimento Solidário e Sustentável da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“O fortalecimento dessas iniciativas é uma forma também de contribuir para que essas comunidades tenham condições de permanecer em seus territórios, de fortalecer sua resistência, sua identidade e seus modos de vida”, complementa Lena Machado, secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“Quando se fala de um projeto todo mundo se empolga”, reflete o lavrador Josemar da Conceição Oliveira, 37, do município de Água Doce. “Somos capazes, mas precisamos nos empenhar para alcançar os objetivos”, continua. E provoca: “se se faz um empréstimo num banco e de um jeito ou de outro se paga, por que não um valor desse, que vai beneficiar outros grupos?”.

Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce
Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce

O forte da produção do grupo integrado por ele é a mandioca, mas Josemar afirma ter um escape: “é o peixe, algo fácil de fazer um troco mais rápido”, revela o lavrador que também cria tambaquis em cativeiro. O peixe ele vende de porta em porta, sob encomenda. Com 7,5 mil reais seu grupo produtivo construiu quatro tanques, que receberam 2.000 alevinos. Ele finaliza: “a palavra-chave é solidariedade, é se preocupar com o próximo que irá receber [os recursos]”.

Zema Ribeiro lança o livro “Penúltima Página” reunindo entrevistas e textos do jornal Vias de Fato

[release por Celso Borges]

Penúltima página. Capa. Reprodução
Penúltima página. Capa. Reprodução

O jornalista foi editor de cultura do periódico que circulou mensalmente em São Luís entre 2009 e 2016. A obra traz 14 entrevistas com artistas e personalidades maranhenses publicadas na página de cultura do jornal, além de seis textos. “Penúltima Página” tem orelha assinada por Jotabê Medeiros, prefácio de Flávio Reis e edição e projeto gráfico de Isis Rost. O lançamento será na terça, dia 11, no Chico Discos, centro da cidade.

O Vias de Fato foi um jornal mensal fundado em 2009 pelos jornalistas Emílio Azevedo e Cesar Teixeira, a pedagoga Alice Pires e o fotógrafo Altemar Moraes. Naquele ano teve início uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas e artistas. O jornal deixou de circular mensalmente em 2016 e nos três anos seguintes teve algumas edições com periodicidade irregular.

““Penúltima Página” surge da ideia de celebrar os 10 anos que o Vias de Fato teria completado ano passado. O livro apresenta um panorama despretensioso da cultura do Maranhão durante o período em que colaborei com a editoria de cultura do jornal e sai graças aos esforços dos amigos que compraram exemplares antecipados a fim de garantir a impressão de parte da tiragem”, afirma Zema Ribeiro, que é jornalista cultural e atual diretor da Escola de Música Lilah Lisboa. Assina o principal blog cultural da cidade onde se apresenta como “um homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais”.

“Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram vários nomes, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas”, afirma o professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA Flávio Reis, no prefácio do livro.

O livro começa com uma entrevista de Paulo Melo Sousa, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de compositores (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah e Henrique Menezes); de gente do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos); do teatro (Lauande Ayres); da literatura (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!); e das cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa, além de nomes da militância sindical e dos direitos humanos (Novarck Oliveira e Ricarte Almeida Santos).

“Penúltima Página” inclui também textos sobre os 30 anos do disco “Fulejo”, de Dércio Marques, o lançamento de “Baratão 66”, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com 11 pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento dos discos “Bandeira de Aço”, de Papete, e “Lances de Agora”, de Chico Maranhão.

A obra marca o quarto lançamento do selo Passagens, de Isis Rost, que abraçou a ideia da edição do livro com entusiasmo, reuniu material fotográfico e elaborou o projeto gráfico. A editora disponibiliza gratuitamente as versões em e-book em seu site.

Serviço

O quê: noite de autógrafos de “Penúltima Página: Cultura no Vias de Fato” (Editora Passagens), de Zema Ribeiro
Quando: dia 11 de fevereiro (terça-feira), às 19h
Onde: Chico Discos (esquina da rua dos Afogados com São João, Centro)
Apoio cultural: Equatorial Energia

Rebatismo

Foto: Morgana Amabile
“O amor na vida adulta devolveu-me à paixão da infância”. Foto: Morgana Amabile

 

Anos-luz de distância dos talentos de Nelson Rodrigues e Xico Sá, para citar dois craques da crônica ludopédica, arrisco-me no terreno para o qual sirvo sequer para gandula. E aqui me toma de assalto a primeira dúvida: esta seria mesmo uma crônica ludopédica? Ou de costumes? Ou sentimental, um poema em prosa, uma declaração de amor? Sabe Deus, que protege mesmo os que nEle não acreditam.

Ontem (3) fui ao Castelão assistir a partida na qual o Moto Club de São Luís sagrou-se vencedor, por três tentos a um, contra a equipe do Pinheiro Atlético Clube. O rubro-negro assumiu a liderança do campeonato maranhense. O time ilhéu abriu o placar aos oito minutos com Geovane e ampliou aos 36 com Ancelmo Jr.; com Leonardo, o PAC diminuiu, de pênalti, aos 41. No segundo tempo, Jadilson, também de pênalti, sacramentou a vitória do Papão do Norte, aos 27 minutos.

Desde a adolescência eu não ia a um estádio torcer pelo Moto Club, paixão de infância, influência de minha mãe. Um episódio lamentável me afastou: fui ver um jogo do rival, o Sampaio Correa, acompanhado de dois tios, eu em trajes neutros, eles uniformizados; ao passarmos por uma torcida motense, antes de acessarmos as arquibancadas, torcedores, apontando-nos os canos das bandeiras, marcharam em nossa direção, aos gritos de “uh, vai morrer!”. Podia ser apenas uma brincadeira, vai saber. Minha cabeça de adolescente sem parentes importantes e vindo do interior entendeu como a quase consumação de uma situação de violência nos estádios que vez por outra víamos (e vemos) no noticiário, infelizmente.

Segui acompanhando futebol e torcendo pelo êxito maranhense em campeonatos como o Brasileiro e a Copa do Brasil, esperando que aqui e acolá, Moto Club, Sampaio, Maranhão, Imperatriz ou qualquer outro que aparecesse, alçasse nosso estado a um patamar mais elevado, uma campanha destacada na Copa do Brasil, uma presença na série A do Brasileirão – de lá para cá ainda não aconteceu, mas tudo tem seu tempo, ela sempre me ensina.

Mas não há trauma que um amor não cure e o amor na vida adulta devolveu-me à paixão da infância: motense roxa, ela me fez voltar ao seio motense. Amor rubro-negro pintado pelo vermelho de seu batom com o café preto que tomamos no estádio (acreditem: ontem tomamos um cafezinho no Castelão, não é recurso literário para deixar a crônica mais interessante) antes da primeira cerveja, o fone de ouvido dividido, eu com o lado left, ela com o lado right, a acompanhar a transmissão da Rádio Timbira (onde este cronista apaixonado divide dois programas), em cujo intervalo, no tour pelas rodadas de outros campeonatos estaduais, Jauber Pereira mandou-nos um alô – inclusive à filha dela (também motense e uniformizada com a camisa que ela mesmo customizou) que, de férias na Ilha, fez nosso retrato.

O time do Moto não é bom; no máximo deu sorte nestas duas primeiras rodadas do campeonato, angariando duas vitórias, chegando a seis pontos e a líder. Ontem parecia traduzir em campo os versos de Belchior que eu estampava no peito, em vermelho e preto: “eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”. Um jogo torto, mas que venceu, e é isso o que importa, contradigo-me, logo eu, um eterno admirador da seleção brasileira de 1982.

Um casal feliz e/ou unido não necessariamente é formado por dois torcedores do mesmo time. Mas que isso facilita bastante é inegável, já que os dois sentem o mesmo naqueles ditos do padre: na alegria e na tristeza. Ganhando, comemora-se junto; perdendo, ninguém zomba da cara do outro (ou os dois zombam da cara um do outro). Mas disto só saberemos depois, já que após meu revival motense ainda não sabemos o que é perder.

Perdoem brincar com o clichê, ainda que soe piegas: sorte no jogo, sorte no amor.

Aventuras e descobertas

Spinning. Capa. Reprodução
Spinning. Capa. Reprodução

 

“Eu sou o tipo de criadora feliz por fazer um livro sem ter todas as respostas. Não preciso entender todo o meu passado para desenhar quadrinhos sobre isso. E, agora que este é um livro que outras pessoas vão ler, sinto que não sou eu quem deve responder a essa questão”, afirma Tillie Walden na Nota da autora, posfácio à hq Spinning (Editora Veneta, 2019, 396 p.; R$ 84,90; tradução: Gabriela Franco), título que a transformou na mais jovem vencedora do Eisner, aos 22 anos.

Coragem e ousadia são qualidades da narrativa de Walden. Por trás do traço aparentemente simples de coloração roxa (e eventualmente amarela), a jovem quadrinista divide com seus leitores as angústias e mudanças da adolescência, entre as incertezas entre que rumo seguir quando chegar a hora do vestibular ou assumir-se lésbica para a família e os amigos.

Os ringues de patinação no gelo, de onde vem a expressão que dá título ao trabalho, algo como “girando”, são o cenário destas angústias, descobertas e transformações. Passado nos Estados Unidos, a história de Walden poderia ter como protagonista qualquer adolescente, entre o sofrimento com o bullying e o primeiro amor, o que acaba criando uma espécie de cumplicidade entre autora e leitores, independentemente da idade destes.

Spinning. Reprodução
Spinning. Reprodução

A ousadia de Walden está também em retratar o quão opressivo pode ser o ambiente de um esporte, ainda que tipicamente feminino, algo de que ela acaba tentando se descolar, seja ao assumir-se homossexual, seja ao romper com o esporte que praticou por 12 anos, tendo viajado boa parte do país participando de competições.

Ainda bastante jovem, Walden tem outros seis livros publicados e além do Eisner, venceu também o Ignatz, o Broken Frontier e o Los Angeles Times Book Prize.

No olho do furacão

FLÁVIO REIS

Fotos: divulgação
Fotos: divulgação

Conheci Zema Ribeiro no final de 2009, ao mesmo tempo em que travava contato com Emílio Azevedo. O motivo era justamente adensar a articulação em torno do Vias de Fato, o jornal mensal que havia surgido, puxado por Emílio e Cesar Teixeira, em conjunto com Alice Pires e Altemar Moraes. Era uma atitude quase de guerrilha, ação corajosa de um pequeno núcleo decidido a criar uma fresta que fosse no paredão quase monolítico do jornalismo local, dominado pelo poderoso Sistema Mirante, porta-voz do grupo oligárquico capitaneado pelo clã Sarney. Era o início de uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas, artistas e qualquer um que tivesse algo a dizer numa perspectiva contrária à barbárie social e política em que vivemos, emoldurada pela utilização mercantil da cultura popular como fonte de legitimação.

O papel de Zema seria tocar a seção cultural do jornal, a “penúltima página”, onde teria liberdade de comentar, entrevistar, agendar, enfim, dar uma ideia do que acontecia em diversas áreas do cenário das artes e da cultura. Nada mais acertado, pois ele já fazia isso no blog, onde se apresenta como “um homem de vícios antigos”, que “ainda compra livros, discos e jornais”.

O material reunido aqui remete a essa página vibrante que pulsou no Vias de Fato entre os anos de 2009 e 2016. Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram nomes diversos, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental antes do comercial, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas.

O livro inicia com a entrevista de Paulão, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas com convidados diversificados, que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de figuras variadas da música (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah, Henrique Menezes), do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos), do teatro (Lauande Ayres), das letras não acadêmicas (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!), nomes da militância sindical ou dos direitos humanos (Novarck Oliveira, Ricarte Almeida Santos) e as cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa. Um sarapatel da melhor qualidade, feito com os ingredientes do Maranhão, mas aberto a acolher visitantes e temperos de outras plagas. Para arrematar, dois pequenos textos, sobre os 30 anos do disco Fulejo, de Dércio Marques, o lançamento de Baratão 66, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com onze pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento de dois discos fundamentais, Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão.

A ideia da reunião desse material em um volume liga-se à comemoração dos dez anos do Vias de Fato, que tornou-se uma referência de crítica contundente e ácida de quem não tem medo de chutar o pau da barraca. O jornal deixou de circular, mas a marca ficou e a ação de Emílio se dirigiu para uma rádio web, a Agência Tambor, em conjunto com a jornalista Flávia Regina e o jornalista Ed Wilson, onde a verve do Vias de Fato se mantém viva em entrevistas e enfoques na contracorrente dos discursos oficiais.

Para completar a armação e efetivar essa saudação ao Vias de Fato, Isis Rost abraçou a ideia com entusiasmo, elaborou o projeto gráfico, reuniu material fotográfico e abrigou o livro no selo Passagens, sua pequena editora, que tem o hábito salutar de disponibilizar gratuitamente as versões em e-book. A Equatorial arcou com a maior parte dos custos de publicação e o resto foi levantado entre amigos. Tudo bem ao estilo livre e comunitário do Vias de Fato. As entrevistas aqui reunidas são um registro vivo das perspectivas e impasses que marcaram a cultura maranhense nesta década. Os entrevistados em sua totalidade são figuras da criação, gente inquieta, e Zema consegue mergulhar em cada universo, revelado de maneira direta ao leitor.  É jornalismo de qualidade, feito fora dos grandes holofotes, mas no olho do furacão.

*

Acima, prefácio de Penúltima página, assinado pelo querido Flávio Reis, professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Por whatsapp a editora Isis Rost me mandou as fotos que ilustram o texto, anunciando que a edição impressa já saiu da gráfica e está a caminho. Entre o tempo de transporte e o carnaval, logo, logo anunciaremos a data do lançamento. Fiquem ligados!

No fim da infância, no curso da música/vida

No fim da infância. Capa. Reprodução
No fim da infância. Capa. Reprodução

 

No fim da infância [Grafatório Edições, 2019, 98 p.], de Arrigo Barnabé, reúne textos publicados, a grande maioria, no site e na versão impressa da revista piauí (em minúsculas mesmo, revisor! Obrigado!). A edição é um capricho, marca dos projetos gráficos da editora conterrânea do músico.

Ilustrado por uma série de fotografias de formação de Barnabé, o mosaico de textos compõe uma espécie de autobiografia afetiva, com as memórias do músico de vanguarda, que revela ter tido uma infância comum e triste.

Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio
Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio

Arrigo Barnabé narra com elegância e delicadeza, passagens de rara beleza e sensibilidade, como a decepção de descobrir um primo tocando acordeom, até então seu instrumento preferido. Como entre os meninos da família tudo o que desse opção de escolha era exclusivo de um ou outro, aquele então se tornou o instrumento do primo, empurrando-o para o piano, instrumento que até então ele achava sem graça.

Ou o arrebatamento que foi ouvir pela primeira vez o baião Assum preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Seu pai chegou com o disco, colocou na vitrola e o menino Arrigo ouviu até cair num choro convulsivo. Diante da vergonha infantil de estar chorando por uma música, guardou para sempre a mentira que contou ao pai: chorava por que o Santos, por quem passara a torcer recentemente, havia perdido, aquela tarde, para o Taubaté.

Integrante da fanfarra do Colégio Marista, onde estudava, Arrigo Barnabé, entre 120 meninos, tocou, no gramado do Maracanã, antes da decisão do Mundial Interclubes de 1963, quando o Santos de Durval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe sagrou-se bicampeão do mundo ante o Milan. “Mas isso aconteceu mesmo?”, pergunta-se, diante da rememoração da realização de um sonho.

Também comparecem ao volume memórias mais recentes, como um inusitado metrônomo de madeira encontrado no painel de um táxi que tomou no Rio de Janeiro, ou uma teoria sobre a alma paulista/na do carioca Paulinho da Viola, com versos desconcertantes de clássicos como Dança da solidão, Sinal fechado e Comprimido, este, um samba no qual o portelense cita Chico Buarque. Citação por citação, Comprimido comparece a Clara Crocodilo.

Obviamente não poderia ficar de fora seu disco mais conhecido, Clara Crocodilo (1980), além de sua primeira música gravada por Tetê Espíndola (Canção dos vagalumes, em 1978), sua decepção ao ouvir a melodia de Leãozinho, de Caetano Veloso, cuja letra ele havia adorado (“letra de música, não é para ler, é para ouvir”), o “encontro marcado com Tom Jobim” (“Quando terminou, ele perguntou: – Posso ouvir de novo? Esse foi o maior elogio que recebi em toda minha vida!”), a metamorfose de “José Carlos de Souza Neves, difícil e doce amigo” em Betha Pickles, tudo isto é trazido à tona em No fim da infância.

“O tema da metamorfose (…) está presente em diversos momentos da obra de Arrigo Barnabé”, anota o editor Felipe Melhado em Como nascem os crocodilos?, posfácio à obra. “Em 2005 ele compôs uma peça intitulada justamente A metamorfose. Em sua quase ópera Gigante Negão, de 1990, o tema também aparece, de certa forma, na transfiguração do protagonista Miolo Mole em Gigante Negão. E claro, a mutação é o tema central de sua obra-prima, o álbum Clara Crocodilo, sua estreia em LP, de 1980”, anota.

Estamos diante de nove textos em prosa de um dos mais inventivos artistas da música brasileira, embora, como é comum aos gênios, por vezes incompreendido e menos conhecido do que merece.

Neste caso, não é de se estranhar ou dizer que Arrigo Barnabé tenha se convertido em exímio escritor. A fagulha já estava lá, desde o princípio: foi apenas reunida agora, para deleite do fã-clube e, espera-se, a descoberta de novos curiosos.

Uma noite libertária

Foto: Isaque Mota
Foto: Isaque Mota

 

O palco do andar de cima do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande) ficou pequeno para Vinaa e sua grandeza – literalmente: trajando uma jaqueta jeans sem mangas e uma saia branca com flores vazadas, ele chegou a bater a cabeça no forro ao dançar. Nada grave, nem que comprometesse o descontraído espetáculo que apresentou ontem (15). Cantou, conversou e brincou com a plateia, passeando pelo repertório de seus dois discos – Bordel de amianto e a glória dos loucos por sex appeal (2017) e o recente Elementos e hortelã na terra dos eucaliptos (2019) –, além de releituras.

Vinaa estava literalmente em casa. Talvez por reprisar um formato experimentado há 10 anos, na garagem da casa dos pais, quando talvez sequer pensasse em levar a sério a carreira musical. O que é uma ilação de minha parte: o próprio artista categorizou a plateia entre os que o acompanham desde sempre, os que começaram agora e intermediários entre coisa e outra. Este repórter só começou pelos discos.

“A música popular é como uma estrada. Alguém abre caminhos, pavimenta, depois vêm outros atrás. Eu tenho pena do Vinaa de me ter como referência, podia ter coisa melhor, mas eu já o vejo, daqui a alguns anos, influenciando outras pessoas, não só aqui no Maranhão. É talentoso, cantor e compositor, e sua trajetória vai acontecer, já está acontecendo”, referendou, em determinada altura do show, Zeca Baleiro, convidado da noite, entre a sinceridade, a (auto)ironia e o bom humor característicos.

“A liberdade sexual é uma pauta importante. Eu tenho certeza que esse governo que está aí é horroroso também por isso: é um monte de gente reprimida, mal resolvida”, continuou, para a plateia retrucar com o coro de “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”.

As três primeiras músicas que cantou tinham esta pauta como tema: Saga de um eterno seguidor, que narra as venturas e desventuras de relacionamentos online, Três lençóis, “para os que gostam de um ménage a trois”, e Nunca mais transe comigo, de título mais que explícito.

Entre as reverências que prestou ao longo da noite, começou pelo grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, de quem interpretou com muita intimidade Uma canção pra você (Jaqueta amarela). “Quem nos media/ dia-a-dia o nosso sexo amor/ o anexo/ o nexo/ o “x” da nossa dor/ O amor eu aposto no jogo entre cartas, cerveja, fogo e queijo coalho/ no baralho jogo os ais/ te embaralho, sou dama de paus/ (caralho!)”, diz trecho da letra de Assucena Assucena, uma das vocalistas (transexuais) do grupo.

Depois seguiram-se covers de Alceu Valença (La belle de jour emendada com Girassol), Cazuza (Codinome Beija-flor, dele com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias) e Tim Maia (Primavera (Vai chuva), de Cassiano e Silvio Rochael). “Uma vez, lá no começo, me chamaram para fazer um tributo a Tim Maia. Eu me indaguei e indaguei ao contratante: mas eu não tenho nada de Tim Maia. “Faça do seu jeito!”, ele me disse. Fomos. A casa cabia umas 500 pessoas e tinha 10 pessoas na plateia: nossas mães, as namoradas dos músicos. Mas eu tive a sorte de uma pessoa estar lá: o Cury. Ao final do show ele foi me cumprimentar no camarim e eu naquela correria, no momento não caiu a ficha, eu não reconheci. Mas depois ele mandou um “vamos trabalhar juntos!””, contou sobre o primeiro encontro com o autor de hits como Aparências (sucesso de Márcio Greyck) e O que me importa? (gravada por Tim Maia, Renato Braz e Marisa Monte), que acabou produzindo seu disco de estreia e ontem estava na plateia novamente.

Por falar em hits, Semideus e Escuderia armada, faixas do segundo álbum, e Moço bonito, foram cantadas a plenos pulmões pela plateia. Quando Zeca Baleiro subiu ao palco, após uma breve pausa enquanto preparavam-lhe o terreno, foi acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio, que se somou a Filipe Façanha (violão) e André Ótony (piano). Cantaram juntos Mamãe oxum (em meio à qual subiu o convidado), Bandeira – ambas, faixas do disco de estreia de Baleiro, Por onde andará Stephen Fry? (1997) –, de que Vinaa errou a letra, e Cicatriz (No regresa), faixa em que o convidado da noite registra sua participação especial no novo disco de Vinaa.

Volta pra casa é outra que foi cantada a plenos pulmões pelo bom público que compareceu ao Buriteco. Na sequência, Vinaa ainda cantou Tempos modernos (Lulu Santos), dando boa noite e despedindo-se. Aos pedidos de mais um, continuou o show com Você me vira a cabeça (Me tira do sério) (Chico Roque e Paulo Sérgio Valle), sucesso de Alcione – “já gravei com Zeca Baleiro, a próxima é Alcione!”, brincou, a sério, entusiasmado.

Ainda deu tempo de apelar para a memória afetiva mesmo de quem diz não gostar do pagode romântico dos anos 1990 com Essa tal liberdade, sucesso do Só Pra Contrariar, não por acaso (ou por acaso?) do mesmo par de compositores e também (re)gravada por Alcione. Para cantar Cidade das meninas, single que gravou com a adesão do Trio 123, formado por Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões, chamou a terceira, que estava na plateia. A música é um recado direto e contundente, abarcando temas como a violência contra a mulher e feminicídio, de modo geral, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, cujo crime segue impune após quase dois anos.

A voz de Vinaa – que por vezes ao longo do show me lembrou Johnny Hooker – segue sendo um instrumento de denúncia, ao mesmo tempo em que pode nos fazer dançar – no bom sentido. Pensar e dançar: um perigo real e uma proeza em 2020 no Brasil.

Entre o riso e a desgraça

Parasita. Cartaz. Reprodução
Parasita. Cartaz. Reprodução

 

Merecidamente o sul-coreano Parasita [Coreia do Sul, 2019, 132 minutos; em cartaz no Cine Lume] figurou em diversas listas de melhores filmes de 2019, uma quase unanimidade ao lado de títulos como Bacurau e Coringa.

A tríade guarda semelhanças: abordam, de maneiras particulares, certa convulsão social, a partir de seus países de origem, mas dando um panorama do mundo, entre a ascensão de governos de extrema-direita e conflitos bélicos.

Parasita. Frame. Reprodução
Parasita. Frame. Reprodução

O filme de Bong Joon-ho é, ao mesmo tempo, comédia, drama e suspense, com suas reviravoltas. Conta a história da família Ki-taek, pobres moradores do subúrbio, que vivem numa casa insalubre, sem trabalhar – roubam o sinal de wi-fi de vizinhos e sofrem com uma inundação. “Eu preferia que fosse comida”, diz a filha em reação a uma pedra trazida de presente por um amigo, com a desculpa de ser um amuleto.

A trama se desenrola a partir de o filho Kim ir dar aulas particulares de inglês à bem nascida herdeira dos Park. A partir daí, em uma sequência surpreendente no roteiro bem urdido, eles começam a se infiltrar na mansão, dando um jeito de forçar demissões de antigos empregados, usando métodos nada convencionais.

Seria mero moralismo barato, no entanto, tachá-los simplesmente de charlatões. É, em certa medida, também, um microcosmo social vingando-se do sistema, do fosso social entre milionários e miseráveis (que no Brasil só aumenta).

Com sua bela fotografia e atuações firmes, Parasita, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, nos coloca diante de dilemas como o limite da dignidade, da paciência, do senso de humor e da tolerância humanos. Seria desnecessário dizer, mas num tempo em que ironias precisam ser anunciadas e piadas explicadas, não é que se ache legítimo o uso da violência ou da vingança, mas a ficção aponta a possibilidade de um colapso. Exatamente como em Bacurau e Coringa, também criticados por isso, aqui e acolá.

Sobram críticas ao vira-latismo em voga (muito comum no Brasil também) entre os que acham que tudo o que é produzido nos Estados Unidos é bom e merece ser copiado. A senhora Park diz algumas vezes ao longo do filme que este ou aquele objeto é bom por que foi importado de lá.

Como seus citados pares de temporada, Parasita é um filme que além de todas as qualidades, gêneros e temas que se propõe a discutir, transita com desenvoltura entre o blockbuster e o filme de arte. Difícil de classificar, mas não de entender, refletir ou simplesmente apreciar, ao menos àqueles que ainda se permitem a isso ou aquilo.

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Veja o trailer:

Um despretensioso panorama

Penúltima página. Capa. Reprodução
Penúltima página. Capa. Reprodução

“Lendo esta série de entrevistas do Vias de Fato, com personagens já tão familiares (Gildomar Marinho, Bruno Azevêdo, Celso Borges, Ricarte Almeida), noto que o amálgama comum a todos eles e a todas as interlocuções é na verdade a ponte cultural que interliga tudo: a curiosidade insaciável de Zema Ribeiro.

Do choro à literatura, do teatro ao boi, da arqueologia cultural à agitação geracional, dos cancionistas aos samurais da edição independente, esgrimindo doses precisas de rigor e senso dionisíaco, os textos nos levam ao bar e à academia, ao terreiro e aos velhos cinemas Éden e Roxy, aos becos e às festas de reggae.

Principalmente, as entrevistas remontam um cenário cultural e social que se mostra imprescindível para compreender a parabolicamará que move o Maranhão, sua antena particular de compreensão do universo pelo filtro da poesia, da linguagem. As políticas da perseverança e da honestidade intelectual permeiam tudo, da compreensão profunda de Ricarte (“As pessoas vivem e morrem à míngua”) à visão cósmica de Celso Borges, leitor de coisas intangíveis, como a revista Coyote.

Haicais e boutades escorrem desses saborosos textos. “Eu não conserto versos por conveniência”, decreta Gildomar Marinho. É uma complexa teia de análise, mas, por um motivo de puro mistério, não é possível, na leitura dos textos, dissociar política de música, literatura de combate, visionarismo de consciência.

Leia e seja mais um destrambelhado conosco.”

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No dia de meu aniversário, o site da Editora Passagens, da amiga-editora Isis Rost, disponibilizou o texto acima, a orelha de Jotabê Medeiros (CartaCapital, Farofafá) para Penúltima página: Cultura no Vias de Fato, que reúne 14 entrevistas e seis textos que publiquei entre 2009 e 2016, período em que colaborei com o jornal mensal Vias de Fato, um despretensioso panorama cultural do período, não restrito ao Maranhão. O prefácio do livro é de Flávio Reis.

De algum modo, o livro é uma forma de celebrar os 10 anos que o Vias de Fato teria completado ano passado e é publicado com apoio cultural da Equatorial Energia e um punhado de amigos que se dispôs a colaborar, a fazer a ideia ir pro papel. O livro já está disponível para download e o volume impresso chega em breve, cujo lançamento este blogue cabotinamente anunciará. Aguardem! Enquanto isso, baixem o e-book!

Um encontro provocativo

A louca do sagrado coração. Capa. Reprodução
A louca do sagrado coração. Capa. Reprodução

 

O encontro de dois dos maiores gênios em suas respectivas áreas não tinha como dar errado. É o que percebemos mais uma vez ao longo de A louca do sagrado coração [Veneta, 2019, 200 p.; R$ 89,90; tradução: Letícia de Castro e Rogério de Campos], delirante história em quadrinhos de Alejandro Jodorowsky e Moebius (Jean Giraud, 1938-2012).

Na lista de fãs da dupla estão os Beatles John Lennon e George Harrison, o Stone Mick Jagger e os cineastas Federico Fellini e George Lucas, entre muitos outros.

Em geral soa clichê dizer que uma hq tem tons cinematográficos, mas é impossível fugir dele quando se trata da união do cineasta chileno com o quadrinista francês.

A louca do sagrado coração foi originalmente publicada em três partes ao longo da década de 1990, quando Moebius já era “não apenas o grande nome dos quadrinhos franceses, mas provavelmente o mais cultuado e premiado quadrinista do mundo”, como relembra o tradutor Rogério de Campos em Escândalo sagrado, prefácio rigoroso e vigoroso. Quando de sua morte, dele disse o jornalista Jotabê Medeiros: “ele inventou a imaginação dos autores que inventaram a ficção visual da minha época, nada menos que isso“.

Só agora lançada no Brasil, a trama tem elementos de suspense, policial e comédia. Após um divórcio, um renomado professor de filosofia da Sorbonne ingressa numa aventura que inclui reencarnações divinas, bombardeios americanos (sob o pretexto de combater o narcotráfico sul-americano), ayhauasca, feitiçaria e crises de diarreia que, além de humanizar o catedrático, leva o leitor a gargalhadas ao longo de toda história.

A louca do sagrado coração. Reprodução
A louca do sagrado coração. Reprodução
A louca do sagrado coração. Reprodução
A louca do sagrado coração. Reprodução

Moebius viria a influenciar boa parte da ficção científica produzida após ele, e Jodorowsky é um cineasta ambicioso, entre obras realizadas e abortadas (Duna, o “maior filme de ficção científica jamais realizado”, que “seria estrelado por Orson Welles, Salvador Dali, Mick Jagger”, entre outros; “o Pink Floyd faria a trilha sonora” do “projeto que nasceu e morreu em meados dos anos 1970”, como também relembra Rogério de Campos. A louca do sagrado coração é um ótimo exemplo de como juntar um traço sóbrio e elegante a uma história instigante e cheia de reviravoltas, que prende a atenção do leitor.

A louca do sagrado coração é outro livro “publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil”, “com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores”, a exemplo de Travesti, que marca outro encontro da pesada: o quadrinista francês Edmond Baudoin com o escritor romeno Mircea Cărtărescu.

O título antecipa o recheio satírico em que sobram críticas à academia e principalmente à igreja. Não é um álbum recomendável para caretas, reacionários, mau-humorados ou para quem acha que livros são “um montão de amontoado de muita coisa escrita”, mesmo em se tratando de uma história em quadrinhos.

Prosa em quadrinhos

Travesti. Capa. Reprodução
Travesti. Capa. Reprodução

 

Extraída de um dos quadros da obra, o feto humano no ventre de uma aranha na capa de Travesti [Veneta, 2019, 130 p.; R$ 49,90; tradução: Maria Clara Carneiro], que une o traço de Edmond Baudoin ao texto de Mircea Cărtărescu, antecipa ao leitor a característica onírica do volume.

O francês Baudoin, vencedor de três Angoulême, é um dos maiores nomes dos quadrinhos no mundo, e o romeno Cărtărescu é renomado escritor, poeta e teórico literário, aposta frequente em listas de favoritos ao Nobel de literatura.

Travesti conta a história de Victor, jovem que ambiciona escrever um grande romance para a posteridade, tornando-se um grande escritor desconhecido, na Romênia de 1973. A narrativa é povoada de sonhos, renúncias e histórias adolescentes.

Os desenhos de Baudoin aliam elegância e sujeira, com seus híbridos, a vida na cidade grande, viagens (literalmente ou não), referências literárias (sobretudo Franz Kafka), as descobertas da adolescência e o sexo como só ele poderia apresentar. Um casamento perfeito com a prosa de Cărtărescu.

“Publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores”, lê-se na página da ficha catalográfica da obra. Ou seja: países desenvolvidos estimulam a tradução de obras de autores nativos, garantindo sua difusão ao redor do mundo. No Brasil, sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, não há mais Ministério da Cultura e o próprio presidente declarou que livros didáticos “têm muita coisa escrita”.

Eis, aliás, uma hq que certamente não agradaria (a começar pelo título) ao ocupante do mais alto cargo da república brasileira (e qual o agradaria?): Travesti é movido pelo delírio, com poucos diálogos, ao contrário da maior parte das histórias em quadrinhos, o texto servindo, como uma espécie de diário, mas sem o rigor das datas, na maioria das vezes, para narrar os acontecimentos em primeira pessoa.

Reprodução
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Em casa

Evinha canta Guilherme Arantes. Capa. Reprodução
Evinha canta Guilherme Arantes. Capa. Reprodução

“A voz mais mágica e inconfundível, sempre presente em criações delicadamente imortais… por uma obra do destino vem aportar em minhas águas… que privilégio para um compositor”, derrete-se Guilherme Arantes em texto no verso da capa de Evinha canta Guilherme Arantes [Kuarup, 2019], disco gravado pela ex-Trio Esperança com o piano do marido Gérard Gambus.

Radicada em Paris, há 20 anos Evinha recebeu de presente de Arantes a inédita Sou o que ele quer. “Nunca tive a oportunidade de gravá-la”, revela, noutro texto. “Decidi gravar não somente essa música, como homenagear esse grande compositor, interpretando onze releituras de suas inúmeras e belíssimas pérolas musicais”, continua.

Com produção executiva de Thiago Marques Luiz, o álbum de voz e piano é dedicado aos netos Alicia e Noé – o encarte traz um desenho deles e a embalagem uma foto – e nele Evinha não foge de temas que pareciam já ter gravações definitivas, casos, entre outras, de Êxtase – que abre o disco – e a faixa seguinte, Brincar de viver (única faixa assinada por Arantes em parceria, com Jon Lucien), gravada por ninguém menos que Maria Bethânia.

Ninguém que tenha ouvido rádio pelo menos um dia nos últimos 40 anos desconhece Guilherme Arantes. Evinha recria clássicos como Um dia, um adeus, Deixa chover, Pedacinhos (Bye bye so long) e Amanhã. Mesmo músicas supostamente menos conhecidas, como A cidade e a neblina e Cuide-se bem, que fecha o disco, remetem a memórias que, por vezes, sequer sabemos tê-las.

Em plena forma vocal, Evinha está literalmente em casa ao passear em disco pelo repertório de Guilherme Arantes. Tanto quanto nós, ao ouvirmos o delicado resultado.

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Ouça Evinha canta Guilherme Arantes:

Uma Céu mais selvagem

O Festival BR-135 acontece entre os próximos dias 28 e 30 de novembro, nas Praças Maria Aragão e Gonçalves Dias, no Centro de São Luís. O evento é realizado desde 2012, com produção do duo Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões –, que esteve ontem em São Paulo para a premiação do edital Natura Musical, que selecionou o Conecta Música (braço formativo do festival) como uma das iniciativas contempladas para o ano de 2020.

Mês passado, o festival, em sua versão instrumental, chegou a Imperatriz, com atrações como Bixiga 70, Guitarrada das Manas, Camarones Orquestra Guitarrística e Manoel Cordeiro, entre outros; em 2017 o BR-135 teve pela primeira vez uma versão instrumental e este ano foi a primeira vez que o festival saiu de São Luís.

Um dos destaques entre as atrações da edição deste ano é a cantora Céu, cuja última apresentação em São Luís aconteceu justamente em 2014, no Teatro Arthur Azevedo, na programação do Festival BR-135.

Apká!. Capa. Reprodução
Apká!. Capa. Reprodução

A paulista lançou recentemente seu mais novo disco, Apká! [Urban Jungle/ Slap, 2019] base do repertório do show que apresenta na ilha, dia 30/11, às 23h, na Praça Maria Aragão. No mesmo dia, às 14h30, ela participa da programação do Conecta Música, em bate-papo mediado pela jornalista Andréa Oliveira, sobre “Mulher, criação musical e maternidade”, na Sala Japiaçu (Grand São Luís Hotel, Praça Pedro II, Centro). Toda a programação é gratuita.

Por e-mail, Céu conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Fábio Audi/ Divulgação
Retrato: Fábio Audi/ Divulgação

Homem de vícios antigos – Qual a expectativa em voltar ao BR-135 em São Luís? Quais as suas lembranças do show anterior e da cidade?
Céu – Muita alegria em voltar pra São Luís, em reviver o festival, em poder dividir com essa terra linda meu som novo. É um lugar de muitas belezas, muita história, muita musicalidade, e que infelizmente eu vou menos do que gostaria.

Apká é uma expressão de surpresa usada por seu filho, mas bem poderia ser um termo indígena. Seu disco foi apontado como político, ao lado dos lançamentos de Chico César [O amor é um ato revolucionário, 2019] e Siba [Coruja muda, 2019]. Parece impossível não ser político no Brasil de 2019, não é? Como você tem acompanhado esse cenário, de avanço da extrema direita e sucessivos golpes, não apenas no Brasil?
E parece que é mesmo, descobri depois de já ter decidido que seria esse o título do meu álbum. Apká foi também apontada como uma palavra tupi, algo como “cadeira sagrada”, mas essa informação não me veio de forma muito segura, não tenho como certificar… Mas achei muito bonito. De qualquer maneira, foi um ano muito intenso, na verdade desde um tempo já as coisas estão caminhando para esse caos. Mas acredito que para acontecer uma revolução profunda, pilares muito estruturais precisam ser rompidos. E portanto o estrondo será enorme. Assistiremos e seremos parte mesmo de uma guerra anunciada, fruto de anos de descaso, corrupção, poder, descuido com tudo, com nós mesmos, com o meio ambiente, enfim. É grave. Mas mesmo assim sou uma otimista, acredito numa geração mais consciente.

O show no festival será baseado no repertório de Apká! ou um passeio por sucessos? O que o público ludovicense pode esperar?
Será um show bem quente, passeando bastante pelo disco novo mas sem deixar de lado canções dos outros também… Devo cantar um reggaezinho a mais… Afinal, né?

Seu disco novo mantém a parceria com Herve Salters [tecladista, compositor, cantor e produtor francês do General Elektriks] e Pupilo [ex-Nação Zumbi, baterista, marido de Céu]. Quais as principais aproximações e distanciamentos você apontaria entre Apká! e Tropix, sendo que aquele não é uma continuação deste?
Aproximação pela equipe mesmo, maravilhosos alquimistas, produtores sagazes e capazes de entender e gerenciar as minhas loucurinhas musicais. Isso não é fácil de achar, essa química… Mas penso que Apká! é um disco menos cerimonioso do que o Tropix, acho que aqui eles já se conheciam bem e sabiam pra quem estavam tocando a bola, sabe? No Tropix eles estavam ainda com mais cerimônia, tem algo mais hi-fi, mais definido, que amo também… Acho o Apká! mais selvagem. E traz referencias de soul e punk ao mesmo tempo.

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Veja o clipe de Coreto:

Ouça Apká!:

Teatro e política

Foto: Teatro Arthur Azevedo. Reprodução
Foto: Teatro Arthur Azevedo. Reprodução

 

Vindos do foyer os atores adentram o palco por uma lateral da plateia. Entram em cena cantando. Estão em busca de Ariano Suassuna (1927-2014), sua estrela guia. Ariano, o cavaleiro sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos, foi apresentada no palco do Teatro Arthur Azevedo na última sexta-feira (22), na programação da 14ª. Semana do Teatro no Maranhão, promoção da casa de cultura.

É um espetáculo impecável, que junta o teatro de comédia a canto e dança, com beleza e leveza. O figurino merece destaque. O grupo é feliz ao seguir a pista do homenageado, arquiteto do Movimento Armorial, equilibrando-se com desenvoltura entre o popular e o erudito.

Com seis atores em cena – Carla Meirelles, Fabíola Rodrigues, Getulio Nascimento, Julio Cesar Ferreira, Nívea Nascimento e Renato Neves –, a peça, escrita e dirigida por Ribamar Ribeiro, é dividida em seis partes, seis são as letras que escrevem o nome de Ariano. Como a palavra teatro. O texto passeia entre uma biografia cronológica de Suassuna e citações mais ou menos escancaradas a obras de sua lavra, com destaque para O auto da compadecida e O santo e a porca.

Com 23 anos de história e 12 peças no repertório, os cariocas da Ciclomáticos encarnaram bem o universo nordestino de Ariano Suassuna, afinal de contas, um de seus mais ferrenhos e aguerridos defensores, entre o fazer artístico (em teatro e literatura) e a gestão pública (chegou a ser secretário de Estado da Cultura de Pernambuco).

O componente político também comparece ao texto: quando lembram que o pai de Ariano Suassuna – João Suassuna era então presidente do estado da Paraíba, quando ele nasceu – foi assassinado por razões políticas, completam: “como Chico Mendes, como Marielle Franco”.

Longamente aplaudidos de pé, revelaram estar felizes por voltarem a São Luís – a peça havia sido encenada no próprio TAA no período junino – e tristes pela atual situação do Rio de Janeiro, sob a necropolítica de Wilson Witzel, e do Brasil sob o bolsonarismo.

O grupo vinha do Recife, onde apresentaram Ariano no Festival Recife do Teatro Nacional (dias 16 e 17/11), e de São Sebastião/SP, onde apresentaram Casa Grande e Senzala – Manifesto Musical Brasileiro no Dia da Consciência Negra.

Os Ciclomáticos festejaram a longevidade da Semana do Teatro e desejaram a continuidade do evento. Pela mesma lateral que entraram, saíram, cantando e tocando e recebendo ainda mais aplausos.

Encerramento – A 14ª. Semana do Teatro no Maranhão encerra-se hoje. Às 19h, no Teatro Arthur Azevedo, com encenação de Ensaio sobre a memória, da Pequena Companhia de Teatro (texto e direção de Marcelo Flecha, homenageado desta edição do evento, a partir do conto A outra morte, de Jorge Luis Borges, com Cláudio Marconcine, Jorge Choairy, Tássia Dur e Kátia Lopes), acontece a solenidade de premiação do evento.

O jornalista bolsonarista

No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução
No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução

 

Jair Bolsonaro sequer sabe que ele existe, mas o jornalista bolsonarista insiste em bajular o presidente, fazendo malabarismos argumentativos para justificar atos desastrados ou falas idem do invasor do Palácio do Planalto.

O jornalista bolsonarista, como de resto qualquer outro profissional bolsonarista (ou bolsonarista profissional), acredita estar acima do bem e do mal. Como seu ídolo (ou “mito”, como prefere/m) se elegeu e governa a partir de uma onda de mentiras – fake news é eufemismo! –, ele acredita que o fato de divulgar “informações” que interessam ao regime lhe dá alguma espécie de cumplicidade ou intimidade com o mandatário e seus asseclas.

Ilude-se o jornalista bolsonarista ao acreditar fazer parte de uma espécie de clube vip – nesse caso, o important da sigla pode ser substituído por idiot.

O jornalista bolsonarista acredita que nada o atingirá. Ele bate palmas para a censura, sem se importar que um dia pode ser ele o amordaçado. Ele aplaude o ataque sistemático à cultura, às artes e ao pensamento. E até mesmo ao jornalismo, em si.

O jornalista bolsonarista nada contra a corrente. Está sozinho, isolado. Os colegas de firma riem de sua cara, diante dele ou em sua ausência. Obviamente o jornalista bolsonarista já percebeu que o governo naufragou, mas aferra-se ao fato de ele ter sido “legitimamente” eleito.

O jornalista bolsonarista chega mesmo ao ridículo de recomendar a colegas identificados como “de esquerda” ou progressistas que guardem seus argumentos, que haverá novas eleições em 2022. Mas disso nem mesmo o jornalista bolsonarista tem certeza.

Na contramão da média, o jornalista bolsonarista parece querer comprovar a tese de Nelson Rodrigues, de que toda unanimidade é burra. Ele é o burro, a confirmar a regra rodrigueana, a livrar a firma da unanimidade.

O jornalista bolsonarista esquece, não sabe, ou finge não saber que o cronista genial só bateu palmas para os generais até o dia em que teve um filho preso e torturado, quando mudou o tom ao opinar sobre aquela outra ditadura brasileira.

O jornalista bolsonarista não sabe escrever sequer em português, mas recorre a termos em latim para dar um ar de sofisticação aos textos que escreve. O que é raro: em geral o jornalista bolsonarista prefere copiar textos prontos.

O jornalista bolsonarista é desonesto: às vezes copia textos alheios sem dar o devido crédito. É desleal mesmo com os que defendem os mesmos ideais que ele.

Talvez por isso os ataques do caudilho ao pensamento não lhe incomodem: ele já não consegue pensar, quanto mais sozinho. O ato de encaminhar mensagens que defendam o governo é automático.

Mas não digo que o jornalista bolsonarista seja uma piada. Ele é parte de uma engrenagem muito maior e nociva, um idiota útil a serviço de um projeto de destruição. Tão útil e tão idiota que cumpre seu papel voluntariamente. E sente-se satisfeito e recompensado por isso.

O jornalista bolsonarista é, como qualquer bolsonarista, um covarde. Um cão que só late por detrás de uma tela de computador ou celular, de onde profere impropérios contra qualquer um que ouse discordar de suas opiniões, mesmo que elas não se baseiem em nada além de convicções frágeis como um dente-de-leão.

Outro dia topei com um jornalista bolsonarista. Ele sequer me deu bom dia, empurrou a porta entreaberta cuja maçaneta eu segurava e passou zunindo, bufando, franzindo o cenho e derramando boa parte do café que trazia, obrigando a moça da limpeza ao serviço extra de limpar sua sujeira, pelo que certamente não lhe agradeceu, afinal de contas, para ele, ela estava apenas fazendo sua obrigação. Segundo sua lógica, ela é quem deveria agradecê-lo, afinal de contas, se ele não sujasse, ela não teria emprego.

Porque o jornalista bolsonarista é orgulhoso de sua própria ignorância e arrogância, que ele confunde com ser inteligente – mas nisso só ele mesmo acredita.

Tanto é que o jornalista bolsonarista é, ele também um, o típico eleitor, defensor e adorador do “mito”, que protestava contra o preço da gasolina a menos de três reais, mas nada diz quando esta custa quase cinco. Tampouco escreverá uma linha contra o anúncio do fim do seguro DPVAT e o consequente efeito sobre o orçamento do SUS. Ou sobre a ideia do mandachuva de fundar um novo partido, o nono ao qual se filiaria ao longo de sua errante trajetória política.

O jornalista bolsonarista não deixa de sair em defesa de seu ídolo nem quando este supostamente o prejudica: o presidente acabou com a necessidade de registro profissional para jornalistas, publicitários e outras categorias, mas para o abjeto objeto desta antiode, obviamente o “mito” agiu certo, afinal de contas, tratava-se apenas de mera burocracia.

Conheço a história de alguns ídolos do rock’n’roll que morreram asfixiados pelo próprio vômito após uma overdose. Parece uma morte mais digna que terminar afogado na própria baba hidrófoba.