Uma noite libertária

Foto: Isaque Mota
Foto: Isaque Mota

 

O palco do andar de cima do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande) ficou pequeno para Vinaa e sua grandeza – literalmente: trajando uma jaqueta jeans sem mangas e uma saia branca com flores vazadas, ele chegou a bater a cabeça no forro ao dançar. Nada grave, nem que comprometesse o descontraído espetáculo que apresentou ontem (15). Cantou, conversou e brincou com a plateia, passeando pelo repertório de seus dois discos – Bordel de amianto e a glória dos loucos por sex appeal (2017) e o recente Elementos e hortelã na terra dos eucaliptos (2019) –, além de releituras.

Vinaa estava literalmente em casa. Talvez por reprisar um formato experimentado há 10 anos, na garagem da casa dos pais, quando talvez sequer pensasse em levar a sério a carreira musical. O que é uma ilação de minha parte: o próprio artista categorizou a plateia entre os que o acompanham desde sempre, os que começaram agora e intermediários entre coisa e outra. Este repórter só começou pelos discos.

“A música popular é como uma estrada. Alguém abre caminhos, pavimenta, depois vêm outros atrás. Eu tenho pena do Vinaa de me ter como referência, podia ter coisa melhor, mas eu já o vejo, daqui a alguns anos, influenciando outras pessoas, não só aqui no Maranhão. É talentoso, cantor e compositor, e sua trajetória vai acontecer, já está acontecendo”, referendou, em determinada altura do show, Zeca Baleiro, convidado da noite, entre a sinceridade, a (auto)ironia e o bom humor característicos.

“A liberdade sexual é uma pauta importante. Eu tenho certeza que esse governo que está aí é horroroso também por isso: é um monte de gente reprimida, mal resolvida”, continuou, para a plateia retrucar com o coro de “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”.

As três primeiras músicas que cantou tinham esta pauta como tema: Saga de um eterno seguidor, que narra as venturas e desventuras de relacionamentos online, Três lençóis, “para os que gostam de um ménage a trois”, e Nunca mais transe comigo, de título mais que explícito.

Entre as reverências que prestou ao longo da noite, começou pelo grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, de quem interpretou com muita intimidade Uma canção pra você (Jaqueta amarela). “Quem nos media/ dia-a-dia o nosso sexo amor/ o anexo/ o nexo/ o “x” da nossa dor/ O amor eu aposto no jogo entre cartas, cerveja, fogo e queijo coalho/ no baralho jogo os ais/ te embaralho, sou dama de paus/ (caralho!)”, diz trecho da letra de Assucena Assucena, uma das vocalistas (transexuais) do grupo.

Depois seguiram-se covers de Alceu Valença (La belle de jour emendada com Girassol), Cazuza (Codinome Beija-flor, dele com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias) e Tim Maia (Primavera (Vai chuva), de Cassiano e Silvio Rochael). “Uma vez, lá no começo, me chamaram para fazer um tributo a Tim Maia. Eu me indaguei e indaguei ao contratante: mas eu não tenho nada de Tim Maia. “Faça do seu jeito!”, ele me disse. Fomos. A casa cabia umas 500 pessoas e tinha 10 pessoas na plateia: nossas mães, as namoradas dos músicos. Mas eu tive a sorte de uma pessoa estar lá: o Cury. Ao final do show ele foi me cumprimentar no camarim e eu naquela correria, no momento não caiu a ficha, eu não reconheci. Mas depois ele mandou um “vamos trabalhar juntos!””, contou sobre o primeiro encontro com o autor de hits como Aparências (sucesso de Márcio Greyck) e O que me importa? (gravada por Tim Maia, Renato Braz e Marisa Monte), que acabou produzindo seu disco de estreia e ontem estava na plateia novamente.

Por falar em hits, Semideus e Escuderia armada, faixas do segundo álbum, e Moço bonito, foram cantadas a plenos pulmões pela plateia. Quando Zeca Baleiro subiu ao palco, após uma breve pausa enquanto preparavam-lhe o terreno, foi acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio, que se somou a Filipe Façanha (violão) e André Ótony (piano). Cantaram juntos Mamãe oxum (em meio à qual subiu o convidado), Bandeira – ambas, faixas do disco de estreia de Baleiro, Por onde andará Stephen Fry? (1997) –, de que Vinaa errou a letra, e Cicatriz (No regresa), faixa em que o convidado da noite registra sua participação especial no novo disco de Vinaa.

Volta pra casa é outra que foi cantada a plenos pulmões pelo bom público que compareceu ao Buriteco. Na sequência, Vinaa ainda cantou Tempos modernos (Lulu Santos), dando boa noite e despedindo-se. Aos pedidos de mais um, continuou o show com Você me vira a cabeça (Me tira do sério) (Chico Roque e Paulo Sérgio Valle), sucesso de Alcione – “já gravei com Zeca Baleiro, a próxima é Alcione!”, brincou, a sério, entusiasmado.

Ainda deu tempo de apelar para a memória afetiva mesmo de quem diz não gostar do pagode romântico dos anos 1990 com Essa tal liberdade, sucesso do Só Pra Contrariar, não por acaso (ou por acaso?) do mesmo par de compositores e também (re)gravada por Alcione. Para cantar Cidade das meninas, single que gravou com a adesão do Trio 123, formado por Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões, chamou a terceira, que estava na plateia. A música é um recado direto e contundente, abarcando temas como a violência contra a mulher e feminicídio, de modo geral, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, cujo crime segue impune após quase dois anos.

A voz de Vinaa – que por vezes ao longo do show me lembrou Johnny Hooker – segue sendo um instrumento de denúncia, ao mesmo tempo em que pode nos fazer dançar – no bom sentido. Pensar e dançar: um perigo real e uma proeza em 2020 no Brasil.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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