Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Rock de Balsas na ilha

A cantora Amanda Soulthier. Foto: divulgação
A cantora Amanda Southier. Foto: divulgação

 

Em 2014, quando completou 40 anos de carreira, o paulista Edvaldo Santana meteu o pé na estrada. Com o case do violão às costas percorreu, de ônibus, todas as capitais nordestinas, apresentando em cada uma delas um show de voz e violão. Em São Luís, cantou para pouco mais de 30 pessoas, no Teatro da Cidade de São Luís, o antigo Cine Roxy. Quem estava lá, até hoje lembra do show, memorável.

Mês passado, em Teresina, cobrindo a Balada Literária e vendo, por exemplo, o show do parnaibano Teófilo Lima, antes de Rita Benneditto, na última noite do evento, tornei a me perguntar: por que é que o Maranhão não consegue, ou o faz raramente, dialogar com seus vizinhos Pará e Piauí? Por que não vemos com mais frequência artistas paraenses e piauienses se apresentando em São Luís e vice-versa?

Todo artista tem de ir aonde o povo está, já cantou o poeta, e às vezes ir aonde o povo está é uma questão de cara e coragem, glamour zero, artista igual pedreiro, como no título do álbum do Macaco Bong.

Digo tudo isto para dizer que quem está na ilha é Amanda Southier, cantora brasiliense radicada em Balsas, no sul do Maranhão. Ela se apresenta hoje (20), às 21h, no Talkin Blues (Cohajap), e amanhã (21), no mesmo horário, no Velho John Music Pub (Holandeses, Calhau). Em ambos os shows ela será acompanhada por Joabi Nalvi (contrabaixo), Marcio Glam (guitarra) e Bruno Montechese (bateria).

A vinda de Amanda à ilha tem a ver com um sentimento de gratidão de Wilson Zara, que abre o show de hoje. “A gente percorre o Maranhão e é sempre tão bem recebido por onde passa, mas é raro conseguir trazer artistas de outras cidades para tocar em São Luís e dar a recíproca do mesmo tamanho. Começa que trazer muita gente é caro, a coisa já esbarra no preço das passagens de ônibus. Mas conseguimos firmar algumas parcerias e realizar essa microturnê”, afirma. A pequena turnê ilhéu de Amanda Southier tem apoio da JR 4000, empresa de ônibus de Balsas que faz a linha até a capital, churrascaria Barriga Verde e Adventure Hotel.

A cantora já é um nome reconhecido da cena pop, tendo aberto shows de Biquini Cavadão e Detonautas, com quem dividiu o palco em julho passado, em Balsas, no encerramento do Festival de Verão da cidade.

O repertório de Amanda Southier passeia por clássicos do pop nacional e internacional e músicas autorais – Raul Seixas, Adele, Bruno Mars, Black Sabbath, Iron Maiden, Led Zeppelin, Nirvana, Rolling Stones. Vã realidade, seu ep de estreia, lançado em 2017, tem seis faixas, sendo quatro autorais, além de Se você fosse do mal, de Nosly, e um cover de Dream on, do Aerosmith.

O público de São Luís tem duas oportunidades de conhecer ou prestigiar ao vivo a música de Amanda Southier. Torço para que a vereda aberta por ela faça chegar à capital mais artistas do interior e que mais artistas da capital consigam se apresentar em municípios do interior.

Rumos, Maranhão na Tela e Ilha do Amor têm inscrições abertas

Caminhada Rumos acontece hoje em São Luís

A Caminhada Rumos Itaú Cultural encosta hoje (12) em São Luís. O encontro, que tem por objetivo divulgar o edital do programa e tirar dúvidas de artistas e produtores culturais, acontece das 18h30 às 20h30, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença II), com entrada franca. Estarão presentes Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação, e Valéria Toloi, de Educação e Relacionamento do Itaú Cultural.

As inscrições para o Rumos Itaú Cultural estão abertas desde o dia 3, exclusivamente no site do programa, e a Caminhada percorrerá as 27 capitais brasileiras, já tendo chegado a Cuiabá/MT, Porto Velho/RO, São Paulo/SP e Teresina/PI.

Sobre o assunto, Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com Ana de Fátima Sousa.

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade
Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade

Zema Ribeiro – A Caminhada Rumos tem o objetivo de desburocratizar o acesso do artista ao edital e programa? Por que às vezes um artista que se preocupa menos com a burocracia acaba perdendo espaço para um artista que tem produção por trás. O que o Itaú Cultural tem feito no sentido de corrigir essa distorção?
Ana de Fátima Sousa – A Caminhada é uma oportunidade de aprendermos juntos. Nós como instituição buscamos estar presentes e abertos para entender as demandas de cada lugar e melhorar o programa a partir dessas trocas. E para o artista é uma chance, sim, de tirar dúvidas sobre o edital e sobre políticas culturais e também melhorar suas práticas. Acreditamos muito no poder desses encontros.

Nos últimos anos tem sido mais difícil manter um programa da envergadura do Rumos? Quais as principais dificuldades?
O Itaú Cultural tem no Rumos um de seus principais programas estruturantes. E, por isso, tem caráter de perenidade. Nosso desafio é sempre manter neste programa um processo de escuta ativa em relação aos diferentes territórios do país, às necessidades da arte e da produção contemporâneas.

Como se dá o financiamento do programa Rumos Itaú Cultural?
O programa Rumos conta com verba direta. Não faz uso de leis de incentivo.

Como tem sido a participação, a presença do Nordeste no programa Rumos? Há uma preocupação do programa em regionalizar a seleção de projetos apoiados?
O Nordeste tem excelente participação no programa Rumos tanto em quantidade quanto em qualidade dos projetos artísticos e de pesquisa. No ano passado tivemos dois maravilhosos projetos selecionados vindos do Maranhão. O que queremos é tornar esta presença ainda mais potente.

O jornalismo brasileiro passa por uma crise. O Rumos apoia projetos na área, sobretudo o jornalismo cultural, mais afeito às pautas do Rumos?
Sim, o Rumos acolhe, apoia e aposta em projetos de jornalismo cultural. Acreditamos na relevância de nossos jornalistas e críticos na produção de conteúdo e de reflexão sobre nossas artes e nossa cultura.

*

MARANHÃO NA TELA ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Colagem de Silvana Mendes. Reprodução
Colagem de Silvana Mendes. Reprodução

Estão abertas desde o último dia 10 as inscrições para a mostra competitiva e as rodadas de negócios do Festival Maranhão na Tela, que este ano será realizado entre os dias 5 e 14 de dezembro.

As inscrições para a mostra competitiva são gratuitas e para as rodadas de negócios variam de R$ 100,00 a R$ 120,00. O Maranhão na Tela foi idealizado pela cineasta e produtora Mavi Simão em 2006 e este ano chega a sua 12ª. edição, realização da Mil Ciclos Filmes. A artista visual Silvana Mendes venceu o concurso e assina a identidade visual do festival em 2019.

*

FESTIVAL ILHA DO AMOR RECEBE INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 20

Até o próximo dia 20 de setembro artistas nascidos ou radicados há pelo menos três anos no Maranhão podem se inscrever para o I Festival Ilha do Amor, que acontecerá no dia 23 de novembro na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen.

As inscrições são gratuitas, pelo site do festival. As 12 músicas selecionadas para a final serão gravadas em um cd. O resultado da seleção será anunciado pela coordenação do festival no próximo dia 30 de setembro. Haverá premiações para o primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

Older than time celebra 10 anos da Canyon

Completamente autoral e cantado em inglês, álbum é recheado de referências

Older than time. Capa. Reprodução
Older than time. Capa. Reprodução

Inteiramente cantado em inglês Older than time (2019), disco de estreia da banda maranhense Canyon, tem ecos de hard rock setentista e progressivo, suas grandes influências – o lançamento do álbum celebra os 10 anos da banda.

Jobson Machado (guitarra, voz e teclado), Léo Vieira (contrabaixo), Ramon Silva (voz, guitarra, teclado e synth) e Ítalo Silva (bateria) realizaram um disco vigoroso, que será lançado neste sábado (7), em show na Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro), a partir das 20h – na noite se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu.

“Não há montanha alta o suficiente para mim”, manda a positividade de Fight them, que abre o disco. Todas as músicas são assinadas pela banda, com letras de Ramon Silva, que assina também o projeto gráfico de Older than time.

A quilométrica Hard life é realista: “bem vindo à vida difícil: lute ou caia/ bem vindo à vida difícil: sua dor é minha dor”, diz o refrão, de recado solidário, tão necessário nestes tristes tempos.

Sorceress trata de uma mulher misteriosa, “ela é o diabo/ não chame seu nome”, nas mãos de quem um homem é apenas um peão no xadrez da vida. Sleeping lady retrata uma desilusão amorosa, como se Lupicínio Rodrigues fizesse rock – ou a Canyon abolerasse. Seus mais de oito minutos são divididos em sete partes.

Iron giant debate a robotização do homem, transformado em máquina, despido de sentimentos e pensamentos. “Obsoleto, o futuro é meu passado”, diz um verso, situando o som e a poesia da banda no triste e desesperançoso Brasil de 2019.

O tema instrumental Lunar eclipse antecede a faixa-título, que parece deslocar o som da banda a uma espécie de limbo no espaço-tempo: “o futuro não guia meus passos”, diz verso que dialoga com o Millôr Fernandes de “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. “Eu estou aqui desde antes de todos os deuses”, diz verso que conversa com o Raul Seixas de Eu nasci há 10 mil anos atrás.

Questions no answers fecha o disco com um convite que evoca o Paulo Leminski de Distraídos venceremos: “por favor, feche seus olhos/ liberte sua mente/ momento de distração”, começa a letra, que tem trecho cantado em falsete, de uma delicadeza comovente.

Um disco à altura da merecida festa pela década de existência da banda. Merece celebração.

Serviço

Show de lançamento de Older than time, da banda Canyon. No Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro). Dia 7 de setembro (sábado), às 20h. Na ocasião se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu. Ingressos – R$ 20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) – à venda nas lojas Over All (Tropical Shopping) e no Bar Beco 129 (Praia Grande).

*

Ouça Older than time:

Amor ao mar

Margem. Capa. Reprodução
Margem. Capa. Reprodução

 

Adriana Calcanhotto aparece mergulhada num mar de lixo – plástico, sobretudo garrafas pet – na capa de Margem (2019), disco que encerra sua trilogia “do mar” – iniciada com Maritmo (1998) e continuada em Maré (2008).

O disco dialoga com os demais dedicados ao mar – que comparece a sete das nove faixas –, entre ondas de amor, compositores de sua predileção e repertório autoral, escoltada por banda base formada por Rafael Rocha (bateria, percussão e bases eletrônicas), Bruno di Lullo (contrabaixo e synth) e Bem Gil (guitarra, guitarra acústica, violão, tres cubano, flauta).

Os ilhéus (Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnik) provoca uma reflexão sobre certa desesperança com o futuro que paira no Brasil que devasta a Amazônia impunemente: “uma onda pode vir do céu/ imponderável como as nuvens/ e cair no dia feito um véu/ ou a tampa de um ataúde/ e nada impede que se afundem/ neo-Atlântidas e arranha-céus/ ou que nossas cidades-luzes/ submersas se tornem mausoléus”, diz a letra.

Dessa vez (Adriana Calcanhotto) e Era pra ser (Adriana Calcanhotto) têm ecos do conterrâneo Lupicínio Rodrigues, a cujo repertório a cantora dedicou Loucura (2015).

Um dos destaques do álbum, Tua (Adriana Calcanhotto) é séria candidata a hit radiofônico, algo corriqueiro para a gaúcha, desde que lançou Enguiço (1990) e ganhou os dials brasileiros com Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos). A música passeia por referências e autorreferências: os versos “dentro da noite voraz” e “dentro da noite feroz” ecoam o Dentro da noite veloz de Ferreira Gullar, tornado verso de Vambora, faixa de Maritmo. O “breu das noites brancas de hotel” ecoa o Caetano Veloso de Noite de hotel. “Dentro da noite fulgás” lembra a parceria dos irmãos Marina Lima e Antonio Cicero. A faixa tem reforço da guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e do flugel e trompete de Diogo Gomes.

Ogunté (Adriana Calcanhotto) dialoga com o candomblé, homenageando o orixá-título e Iemanjá/Odoyá, denunciando os flagelos da migração, da ostentação e do consumo desenfreado (de petróleo, mas não só). O funk Meu bonde (Adriana Calcanhotto) encerra o disco dialogando diretamente com Remix século XX (Adriana Calcanhotto), faixa de Público (2000), e Pista de dança (Adriana Calcanhotto e Wally Salomão), faixa de Maritmo.

Serviço

Reprodução
Reprodução

Adriana Calcanhotto apresenta o show Margem em São Luís neste sábado (7), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam entre R$ 80,00 e R$ 160,00, à venda na bilheteria do teatro e no site Ingresso Digital. A produção é de Moraes Jr.

*

Ouça Margem: