O Brasil na lama: um retrato

Foto: Marla Batalha

 

Uma peça é uma peça é uma peça. Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski, encenada pela companhia carioca Aquela Cia. de Teatro, com direção de Marco André Nunes, é uma peça impactante. Por vários motivos, a começar pelos caranguejos para além do título – também há areia e lama –, a princípio em uma gaiola, depois interagindo com os sete atores em cena.

Vi a peça em São Paulo, em março do ano passado, e poderia dizer tratar-se da mesma peça, antenadíssima com o atual momento político vivido no Brasil – naquela ocasião já trazia à cena o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido poucos dias antes. Agora acompanha a tragédia brasileira até o governo Bolsonaro.

Com um power trio em cena fazendo ao vivo a trilha sonora do espetáculo, evocando a memória e grandeza de Chico Science, Caranguejo Overdrive conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos num mangue aterrado que vai à Guerra do Paraguai, nas fileiras do exército brasileiro. Quando volta, ajuda a explicar o falso patriotismo que rege o atual governo militar/izado. “Éramos uma multidão de famintos, analfabetos, sem disciplina”, diz ele, já sem saber se é homem ou caranguejo, ave, Josué de Castro!

Cosme tem distúrbios mentais, decorrentes da violência aprendida no campo de batalha e da fome. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo, é um resumo do Brasil: não há mais mangue, aterrado, não há mais alimento para os miseráveis, que têm que se contentar com excrementos, até a inanição e a consequente morte.

O ex-combatente é um deles, que tem que sucumbir a constantes e vexatórias abordagens policiais, um estranho em sua própria pátria. Através de sua figura e de uma prostituta, personagens comuns em zonas portuárias, Caranguejo Overdrive perpassa a história do Brasil a partir do que de mais ridículo e caricato há em cada governante, desde Getúlio Vargas, passando pelos militares até os eleitos após a redemocratização, chegando novamente ao militar, com a prostituta que serve de guia ao homem-quase-caranguejo, cujo fio de humanidade aos poucos se esvai. Ela narra diversos episódios em espanhol – foi arrancada violentamente do Paraguai natal.

Caranguejo Overdrive ironiza ainda a eterna insuficiência de recursos para a área cultural, agravada no presente governo com a extinção do Ministério da Cultura – a circulação da peça, que se encerra em São Luís, após passar por Belém e Teresina, é apresentada por um genérico Ministério da Cidadania, com patrocínio da Petrobras.

O texto debate temas que parecem ser eternos no Brasil, apesar de muita gente fingir acreditar que a corrupção é uma invenção recente no país. Uma miríade de assuntos que torna a peça atual e necessária: obras superfaturadas e inacabadas, megaprojetos sem discussão e planejamento necessários, remoções forçadas de populações, violência urbana, saúde mental, ausência do Estado.

Para quem não está dando conta de acompanhar as notícias do hospício nacional, uma curiosidade: o tempo todo, ao longo de hora e meia de espetáculo, há sempre pelo menos duas ações se desenrolando simultaneamente no palco, o que convida o espectador a um processo de edição (“a memória é uma ilha”, ave , Wally Salomão!): só assim se pode tentar dar conta do Brasil.

Serviço

Caranguejo Overdrive tem última sessão hoje (6), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Somente 100 ingressos – a plateia assiste ao espetáculo no palco do teatro, disposta em meia lua. Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro uma hora antes da apresentação.

Tralha musical na trilha da cidade

[a convite de Ronaldo Rodrigues escrevi o release oficial do Chorinho da Tralha, grupo que vem fazendo e acontecendo na cena musical da ilha]

Foto: divulgação

Tralha é como costumeiramente chamamos tudo aquilo que não serve mais, que está ali pelos cantos apenas ocupando espaço. A expressão empresta nome à Feira da Tralha, charmoso misto de sebo e bar instalado no Edifício Colonial, pela Rua Godofredo Viana, quase esquina com Sol, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, no Centro de São Luís do Maranhão.

Ali, a tralha que já não serve a alguém pode passar a servir a outros interessados, entre livros, cds, dvds e vinis. Na mão de outro, a tralha de um pode virar ouro puro. Foi neste ambiente, entre paralelepípedos, gente e histórias que floresceu o Regional Chorinho da Tralha.

A partir do retorno de Ronaldo Rodrigues (bandolim) à ilha natal, após temporada no Rio de Janeiro, se aperfeiçoando no instrumento, ele reuniu na mesma formação os talentos de João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta) – que cursou mestrado em Belo Horizonte/MG –, Gabriela Flor (pandeiro) – paulista radicada na Ilha – e Gustavo Belan (cavaquinho) – mineiro que fixou residência na capital maranhense. Os três primeiros constam da galeria da Chorografia do Maranhão, que compila 52 entrevistas com instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão, livro de Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e Zema Ribeiro.

O grupo começou a sentar praça por ali aos domingos, na virada da manhã pra tarde. Não tardou para o lugar virar point, parada dominical obrigatória. Lugar de re/encontro de amigos, familiares, de conhecer gente nova, de fazer novos amigos, na comunhão que só a música proporciona.

Correndo o chapéu, ajudando a superar o velho clichê de que “choro é música de velho” – portanto, “tralha” –, o Chorinho da Tralha renova o repertório de nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga, Honorino Lopes e muitos outros, em programa regado a cerveja gelada, mocotó, feijoada, sururu e bode no leite de coco.

O Chorinho da Tralha, formado em sua maioria por músicos que acabaram por se tornar maranhenses por sua paixão pelo lugar, ou que saíram e voltaram ao Maranhão de origem, renovam a importância de uma autêntica roda de Choro, com sensibilidade na escolha do repertório, qualidade na execução e gentileza no atendimento aos pedidos por vezes embriagados.

Do palco original, a calçada do misto de sebo e bar que acabou por lhes emprestar o nome, o Chorinho da Tralha começa aos poucos a alçar outros voos. A depender da soma dos talentos individuais, do carisma e da devoção aos grandes mestres desta grande música, certamente vão longe. É pelo que torcem os habitués da Feira da Tralha. Com uma condição: que sempre estejam de volta aos domingos!