“Tu é qualhira, porra?”

Foto: Zema Ribeiro

Ninguém que tenha ouvido qualquer disco ou canção ou visto qualquer apresentação duvida do talento de Cláudio Lima: não cabe em si de tanto.

Corajoso e ousado, ele soltou seus demônios ontem (17), Dia Internacional de Combate à Homofobia, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em Com a lira, cujo repertório é dedicado à temática homoafetiva na música popular brasileira – e/ou de compositores homossexuais.

O trocadilho do título, com a expressão tipicamente maranhense “qualhira” (ou “qualira”), usada para designar homossexuais, afeminados etc., já anunciava o conteúdo do show.

Com a lira é o grito de resistência de Cláudio Lima diante da violência perpetrada historicamente contra homossexuais, quadro que deve se agravar com a política armamentista do governo federal.

Num formato econômico, Cláudio Lima acercou-se dos talentosos Totti Moreira (violão e guitarra) e Luís Cruz (guitarra, bateria e programações) para dar seu recado.

A direção de Marcelo Flecha potencializou o gigante que Cláudio Lima já era. No cenário pendiam formas evocando chifres de veado e costela de veado. O cantor trajava uma camisa brilhosa, que ele não tardaria a tirar, ficando apenas com a de baixo, a calça com suspensório e um sapato de salto e sem traseira.

Sou rebelde (Manuel Alejandro, versão de Paulo Coelho), sucesso de Leno e Lilian regravado por Chico César, abre o espetáculo, marcando o primeiro arrebatamento musical de Cláudio Lima, ainda na infância. Segue-se Homem com h (Antonio Barros), hit de Ney Matogrosso.

“Este show é um ato de resistência contra o empoderamento da imbecilidade”, anunciou Cláudio Lima. Para completar, divertindo-se/nos: “um pouquinho de qualhiragem”.

Balada do louco (Rita Lee e Arnaldo Baptista) ele cantou sem o auxílio do microfone, percorrendo o L formado pelas cadeiras da plateia. Daniel na cova dos leões (Renato Russo e Renato Rocha), da Legião Urbana, ganhou arranjo reggae, o que aconteceu também com Malandragem (Cazuza e Frejat), sucesso de Cássia Eller. Nesta, ele trocou o “eu troco um cheque” da letra original por “eu fumo um beque”.

Quando cantou Ilusão à toa (Johnny Alf), mandou: “essa música é do único homossexual da bossa nova”, ao que alguém na plateia retrucou: “que você sabe, não é, Cláudio?”. O cantor riu, concordando: em pleno 2019 ninguém mais deveria caber no armário.

Gilberto Gil compareceu ao repertório com duas em sequência: O veado, faixa pouco lembrada de Extra (1983), e Pai e mãe. Antes de River Phoenix – Carta a um jovem ator (Milton Nascimento) ele pediu “licença: essa eu quero dedicar ao meu boy”.

Única autoral do repertório, O medo (Cláudio Lima) é um rap de letra densa e ligeira, que trata de um tema central na vida da população LGBTQI+. Depois atacou de Minha carta (Tom Zé), única música do set list já gravada por Cláudio Lima (faixa de Cada mesa é um palco, de 2006, segundo disco do artista).

Era hora de uma dose dupla de Chico Buarque: após uma introdução em que evoca um cantor de ópera, mandou O que será? e em sequência Geni e o zepelim.

Parceria de Angela RoRô e Cazuza, Cobaias de Deus é apoteótica: Cláudio Lima canta sentado na poltrona vermelha que compõe o cenário e vem escorregando, evocando a agonia pública de Cazuza em decorrência do vírus HIV. Termina a música deitado no chão, bagunçando o tapete e anunciando que o show, visceral, está próximo do fim.

“A placa de censura no meu rosto diz:/ não recomendado à sociedade”. A letra de Não recomendado (Caio Prado) é uma cusparada na cara hipócrita da sociedade. Continua: “má influência/ péssima aparência/ menino indecente/ viado!/ pervertido/ mal amado/ menino malvado/ cuidado!”.

À porrada da letra original, Cláudio Lima tira onda mandando um recado sério, evocando o bullying sofrido por tantos na infância e adolescência: termina de cantar aos berros, com a pergunta violenta tantas vezes ouvida: “tu é qualhira, porra?”.

Aos gritos de “mais um!” e diante do impacto da plateia, emendou a música nela mesma, como quem acende um cigarro na bagana do anterior: atacou novamente de Não recomendado, repetindo trejeitos e a pergunta brutal.

Com a lira é destes espetáculos que não podem estacionar em uma única apresentação.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

2 comentários em ““Tu é qualhira, porra?””

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