Dose dupla de poesia

Foto: Letycia Amorim

 

Fui surpreendido positivamente com o ótimo público que lotou o Buriteco Café, ontem (14), para ver dois espetáculos de poesia, algo raro mesmo para espetáculos musicais, não só na casa.

A noite integrava a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes e apresentou os recitais Mormaço, de Elizeu Braga, poeta rondoniense, e Miolo de pote: da cacimba de beber, da maranhense Lília Diniz.

Mormaço é o nome dado ao clima abafadiço no que a São Luís de hoje se parece muito com Porto Velho. “Aqui vocês também chamam mormaço?”, perguntou o poeta à plateia, após descer as escadas, as luzes da casa todas apagadas, empunhando uma lamparina acesa enquanto recitava uma lenda indígena sobre a morte.

Seu repertório é contundente, sua poesia diz muito sobre o atual estado de coisas brasileiro. “Paulo Freire me ensinou/ eu aprendi na boca de um professor/ agora eu sei a diferença/ entre oprimido e opressor”, ensina um poema em ritmo de embolada.

O poeta Celso Borges fez uma ligeira participação especial recitando seu clássico Matadouro (musicado por Lourival Tavares), enquanto Elizeu manuseava uma máscara de bumba meu boi que depois viria a usar.

O poeta simula um diálogo, algo como um pai Francisco com o dono da fazenda, a atualizar o auto do bumba meu boi em tempos de relações trabalhistas cada vez mais esfaceladas, o tal do “negociar com o patrão”.

Depois, Elizeu, rosto coberto com a máscara, faz de uma bandeira do Movimento dos Sem Terra o couro de si mesmo tornado bumba meu boi, dançando, com o percussionista Totó Sampaio simulando uma zabumba em uma caixa. Não é só o mormaço que une o poeta a São Luís e seu povo.

Lília Diniz é conhecida dos maranhenses. Faz uma poesia brejeira, com a simplicidade do povo maranhense, exalando a força das mulheres: lavadeiras, lavradoras, quebradeiras de coco, Cecília Meireles, Cora Coralina – todas sua inspiração.

Sua poesia também debate temas tornados mais urgentes no Brasil que quer legalizar o desmatamento e a exploração predatória de recursos naturais não renováveis, o que ela equilibra com sua ginga sensual, entre poesia e música, sobretudo o coco – durante a apresentação, canta e toca pandeiro, acompanhada por Chico Nô (seu conterrâneo, de Imperatriz, ao violão) e Totó Sampaio (percussão).

Lília é leve até ao pedir para trocarem seu microfone, fez isso divertindo o público, que diante de tanta graciosidade cantou junto e bateu palmas.

A programação do Sesc Amazônia das Artes segue até 18 de maio em diversos pontos da cidade.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s