O bluesman brasileiro

Ao vivo 2. Capa. Reprodução

 

Quando completou 40 anos de carreira, em 2016, Edvaldo Santana colocou na rua o petardo certeiro Só vou chegar mais tarde, apontado pela crítica como o melhor álbum de uma carreira pautada pela coerência.

Alicerçado sobre o repertório daquele disco, mas também relendo faixas de trabalhos anteriores, Santana, acompanhado de uma verdadeira big band, subiu ao palco do Sesc Pompeia para um show memorável: eram 12 músicos em cena, incluindo o próprio Edvaldo (voz e violão) e a cantora Alzira E (vocais).

O show foi gravado e, antes tarde do que nunca, virou disco: Ao vivo 2 atesta que Santana é o grande bluesman brasileiro – embora disso já soubesse quem acompanha sua trajetória há algum tempo.

Filho de piauienses, nascido, criado e moldado artisticamente em São Miguel Paulista (lembrada em Ruas de São Miguel, parceria com Roberto Claudino, e Sou da quebrada), Edvaldo Santana é o artista brasileiro que melhor encarna o blues americano, sem abrir mão de sua brasilidade. Se Raul Seixas foi pioneiro ao mesclar rock com baião, Santana é a própria encarnação brasileira do blues. Gênero musical quase sempre associado à tristeza, a obra do bardo é pautada pela alegria, como canta em Quem é que não quer ser feliz, que fecha o disco ao vivo à guisa de bis.

Naipe de metais com o elegante reforço de uma tuba (de Eliezer Tristão, que também toca trombone), o show registrado em disco tem ainda o luxo de um gaitista exclusivo – isto é, não é um músico que toca outro instrumento e aqui e ali encara a gaita: Bene Chireia. A banda se completa com Ubaldo Versolato (clarinete e saxofone tenor), Claudio Faria (trompete), Gó (trombone), Reinaldo Chulapa (contrabaixo), Daniel Szafran (teclado), Leandro Paccagnella (bateria), Ricardo Garcia (percussão) e Luiz Waack (banjo e guitarra).

Mesmo os sambas de Santana têm inclinações blueseiras, casos de Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Dom, a primeira, autobiográfica, repassando a carreira de craque peladeiro em campos de várzea – outro talento do músico –; a segunda uma comovente homenagem a Sócrates, líder da democracia corintiana. Ambas, como se percebe, devotadas ao futebol, podendo fazer frente a qualquer clássico de Chico Buarque, Jorge Benjor ou Skank quando o assunto é o esporte bretão.

Citações explícitas ou implícitas em sua obra, aproximam-no também de Belchior, afinal de contas, outro bluesman de mão cheia. A Ao vivo 2 comparecem homenagens a parceiros, gente de seu convívio e ídolos. A título de exemplo, apenas em 40 figuram Beatles, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Tom Zé, Paulo Lepetit, Matsuo Bashô, Haroldo de Campos e, entre outros, a banda Matéria-Prima, na qual começou a carreira, em 1976.

Cabral, Gagarin e Bill Gates (parceria com Ademir Assunção) perpassa evoluções tecnológicas e frustrações, também com citações sutis (por exemplo a Chão de estrelas, o clássico de Orestes Barbosa e Silvio Caldas) e O retorno do cangaço cita Antonio Conselheiro e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ao criticar a corrupção como instituição consolidada (e em pleno funcionamento) no Brasil.

O disco foi gravado em dezembro de 2016, poucos meses depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, bem antes, portanto, das eleições, da chegada de Bolsonaro ao poder, e da propina de 40 milhões por deputado pela aprovação da reforma da previdência. O que demonstra que o blues de Edvaldo Santana é também afiado e antenado.

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Veja o clipe de Gelo no joelho (Edvaldo Santana e Luiz Waack):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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