Sebos unidos

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando a Editora Autêntica começou a republicar a obra do monumental Campos de Carvalho (não confundir com o outro Carvalho, ideólogo de revisionistas), brincávamos, um grupo de amigos: éramos uma espécie de seita, descobrindo ou reencontrando a literatura do autor de Vaca de nariz sutil.

Íamos além, numa matemática maluca: se somos três leitores apaixonados por Campos de Carvalho em São Luís, isso faz da ilha a cidade brasileira com mais leitores do autor de A chuva imóvel. A equação é simples: a tiragem média de um livro no Brasil é de algo em torno de 3 mil exemplares, o que dá menos de um livro por cidade, pouco mais de meio.

E ríamos também de nossa própria falta de talento, já que talvez essa matemática tivesse alguma graça se proposta literariamente pelo próprio escritor de A lua vem da Ásia – ou Macedónio Fernandez (autor do Museu do romance da eterna).

Lembro da devoção ao mineiro Campos de Carvalho, de saudosa memória, por ocasião da inauguração, ontem (10), da 1ª. Feira do Livro Usado (vascaíno que sou, é melhor não inventar sigla), evento que acontece até amanhã (12), na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) – para quem não sabe, aliás, Valdelino e Odylo dois importantes escritores.

O acontecimento congrega diversos sebos que vêm configurando um corredor literário no centro da capital maranhense: estive na abertura, ontem, e por lá encontrei Natan Máximo, Riba da Feira da Tralha, Silvia do Paço Prosa e Arteiro – Riba do Poeme-se se somaria, me disseram.

Enquanto jogava conversa fora, tomava café cubano e amealhava exemplares, rato de sebo que sou, me deparei com a diversidade dos frequentadores, motivados pela paixão pelos livros, curiosidade e, às vezes, circulando por ali como quem não quer nada.

Certamente muitos dos passantes, quando acabar a Feira, voltarão a estes espaços em seus endereços fixos e eventos: sem periodicidade no Sebo do Arteiro e no Paço Prosa, às últimas quintas-feiras do mês no Poeme-se, e todo domingo na Feira da Tralha, um com discotecagem de vinil, outro com roda de choro ao vivo, alternadamente – a propósito, amanhã, na noite de encerramento da iniciativa, João Eudes (violão sete cordas) e Ronaldo Rodrigues (bandolim) se apresentarão.

Cumprimentei conhecidos, vi uma desconhecida catar um exemplar de bolso do On the road de Jack Kerouac, topei com um exemplar do Hemóstase de Bruno Azevêdo, volume de contos de que até então eu só ouvira falar, a primeira edição de O desatino da rapaziada de Humberto Werneck, uma conferência proferida por Josué Montello sobre o Arthur Azevedo contista e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, entre outros volumes de seus consagrados romances.

Eis uma das graças de sebos – e livrarias, em geral: entrar procurando uma coisa (ou nem procurando nada especificamente) e sair com várias coisas completamente diferentes e tudo bem, tudo certo. Aliás, ainda prefiro comprar livros e discos presencialmente, mais ainda conversando com alguém que entenda daquilo que está vendendo.

Em um tempo em que o desmonte da educação e da cultura é uma política pública do governo federal, não faltam motivos para visitar a 1ª. Feira do Livro Usado, ainda que São Pedro não colabore. É praticamente um ato de resistência.

Senti saudade de Moema de Castro Alvim, em cujo Papiros do Egito iniciei essa perambulação que espero que nunca termine.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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