Sonhar em travesseiros de pedras de cantaria

O abraço dos poetas José Maria Nascimento e Fernando Abreu. Foto: divulgação

 

Aluno aplicado e devotado de Cesar Teixeira, há duas lacunas em minha formação boêmia: nunca bebi com o saudoso Nauro Machado (apesar de termos nos encontrado em não raras ocasiões de copos nas mãos – minha timidez impediu aproximação, à época) nem com José Maria Nascimento, que parou de beber e tem uma memória milimétrica sobre farras homéricas, suas e alheias. Conta histórias tão incríveis que às vezes ficamos em dúvida se este ou aquele episódio de fato aconteceu ou é fantasia de Cabeça de Poeta, salve Odair!

Ontem (19), pela calçada da Livraria Poeme-se, ocupada pelo recital de lançamento de Contra todo alegado endurecimento do coração, novo petardo do poetaço Fernando Abreu, passaram nomes como Adriana Gama de Araújo, Antonio Carlos Alvim, Celso Borges e Laura Amélia Damous – e é muito provável que eu esteja esquecendo o nome de alguém –, além da discotecagem de Eduardo Júlio e da performance do grupo Teatrodança.

Em suma, a noite foi linda, sem desmerecer a participação de ninguém. Mas quem, literal e literariamente roubou a cena, foi José Maria Nascimento: declamou um poema escrito sob o impacto da leitura (e releitura, “eu li ontem e reli hoje de manhã”, confessou) do volume, homenageando o bardo. Leu o poema em meio a trejeitos que imitavam o andar de bêbados e velhos. Ele e Fernando Abreu não ingerem álcool há décadas.

“Você vai ficar como eu”, galhofou José Maria Nascimento para gargalhada geral da plateia, inclusive o homenageado. Bendita maldição, que a praga pegue, vida longa a ambos, um brinde! – eles não bebem, mas eu sim.

Uma imagem não me saiu da cachola, desde que a ouvi da boca do poeta mais velho, não sei se fruto de exagero, de licença poética ou simplesmente de memória – lembram do que eu disse? Guardei na memória, sem nada anotar, o verso em que ele rememorava algumas farras, ocasiões em que, em alguma praça da cidade, “fizeram de travesseiros as pedras de cantaria”.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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