“O trem da vida apitou chamando”

O ouro do pó da estrada. Capa. Reprodução

 

O ouro do pó da estrada [Deck, 2018], título do novo disco de Elba Ramalho, o 38º. da carreira, é uma boa metáfora para a própria trajetória da cantora, que completa 40 anos de carreira em 2019 – se contados a partir de sua estreia, Ave de prata, em 1979; no ano anterior ela havia cantado, em dueto com Marieta Severo, O meu amor (Chico Buarque), em A ópera do malandro. O pó colecionado com o passar do tempo ao longo das estradas que percorreu para ir aonde o povo está, o ouro sua própria trajetória, de cantora sensível, repertório inspirado e popular, sempre atenta às origens.

No patamar de Maria Bethânia e Ney Matogrosso (este participa do disco em O girassol da caverna, de Lula Queiroga), Elba Ramalho compõe o time dos artistas que são, em si, a unidade do trabalho: o mesmo conjunto de canções que a outro intérprete poderia soar estranho, nela (neles) não. As canções reunidas, a princípio, não parecem coesas. Mas no fim são costuradas por seu talento e o resultado é um disco que cumpre o papel de celebrar seus 40 anos de carreira, sem soar meramente revisionista.

Não é coletânea mas passeia por diversas fases (e/ou setores) da carreira de Elba Ramalho: a reverência à origem e aos mestres do lugar, o diálogo entre o Nordeste e outras regiões, a atenção, em igual medida, aos grandes mestres e às novas gerações – entre compositores e convidados.

Na capa e encarte, a cantora aparece envolta em bordados com o título das canções do disco, como se a elas pertencesse seu corpo e vice-versa. E de algum modo é justamente disso que se trata: desde sempre ela se apropria do que canta.

Há canções inéditas, regravações de temas bastante populares e de músicas menos conhecidas. Entre as primeiras, Calcanhar (Yuri Queiroga/ Manuca Bandini) e a faixa-título (Yuri Queiroga/ Lula Queiroga, de onde pesco o verso que intitula esta resenha); na coluna do meio, Girassol (Pedro Luís/ Bino Farias/ Toni Garrido/ Lazão/ Da Gama), sucesso do grupo Cidade Negra, regravada com arranjo e regência de cordas de Arthur Verocai, Além da última estrela (Dominguinhos/ Fausto Nilo), gravada originalmente por Maria Bethânia, aqui relida com a sanfona de Mestrinho, Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira) e O fole roncou (Luiz Gonzaga/ Nelson Valença); e entre as últimas o reggae Princesa do meu lugar (Belchior), antes gravado por Amelinha, O mundo (André Abujamra) – que conta com as participações especiais de Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves – e José (Siba), faixa inaugural do grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

É disco que exala nordestinidade, calcada no reggae, mais explicitamente ou se valendo da proximidade das células rítmicas jamaicanas com gêneros nordestinos como o xote, entre outros agrupados no amplo guarda-chuva que se convencionou chamar simplesmente forró.

Por falar em forró, merece destaque Oxente, parceria de Chico César e Marcelo Jeneci, que participa da faixa (sanfona, synth e vocal).

O sobrenome Queiroga é central em O ouro do pó da estrada: Lula é autor de Girassol da caverna e da faixa-título, esta em parceria com o filho Yuri (que pilota diversos instrumentos no álbum), autor também de Calcanhar (com Manuca Bandini e texto incidental de Bráulio Tavares), que abre o disco, com a adesão dA Barca dos Corações Partidos (presente também em José), além de dividir arranjos e produção com Tostão Queiroga (que toca bateria).

O par final de faixas, José e O fole roncou, (re)liga a paraibana ao movimento (pernambucano) mangueBit, de que o Mestre Ambrósio foi representante e Luiz Gonzaga inspiração, com os forrós ponteados pelas guitarras de Yuri Queiroga.

Estradas de chão e o pó que delas sobe quando nelas pisamos, a evocar, certamente não inconscientemente, as salas de reboco de que falava o rei do baião, são obsessões particulares de Elba Ramalho neste repertório. “Até no chão/ no chão de areia/ quente pedra eu vou pisar/ eu vou seguir você até doer o calcanhar”, diz a letra de Calcanhar; em Na areia (Juliano Holanda), com arranjo e regência de cordas de Zé Américo Bastos, canta: “Eu sei que a vida é breve/ e não tarda a passar/ Deixo cair de leve/ que é pra não quebrar/ o silêncio pisando bem devagar/ cuida pra não apagar/ o caminho que eu fiz na areia”; e “Meu olho adora/ o ouro do pó da estrada/ eu não preciso do fim pra chegar”, diz na faixa-título.

Senhora de si, o trem da vida certamente ainda reservará várias estações à produtiva carreira de Elba Ramalho, para alegria de seu fã clube.

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Veja o lyric vídeo da faixa-título:

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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