“O trem da vida apitou chamando”

O ouro do pó da estrada. Capa. Reprodução

 

O ouro do pó da estrada [Deck, 2018], título do novo disco de Elba Ramalho, o 38º. da carreira, é uma boa metáfora para a própria trajetória da cantora, que completa 40 anos de carreira em 2019 – se contados a partir de sua estreia, Ave de prata, em 1979; no ano anterior ela havia cantado, em dueto com Marieta Severo, O meu amor (Chico Buarque), em A ópera do malandro. O pó colecionado com o passar do tempo ao longo das estradas que percorreu para ir aonde o povo está, o ouro sua própria trajetória, de cantora sensível, repertório inspirado e popular, sempre atenta às origens.

No patamar de Maria Bethânia e Ney Matogrosso (este participa do disco em O girassol da caverna, de Lula Queiroga), Elba Ramalho compõe o time dos artistas que são, em si, a unidade do trabalho: o mesmo conjunto de canções que a outro intérprete poderia soar estranho, nela (neles) não. As canções reunidas, a princípio, não parecem coesas. Mas no fim são costuradas por seu talento e o resultado é um disco que cumpre o papel de celebrar seus 40 anos de carreira, sem soar meramente revisionista.

Não é coletânea mas passeia por diversas fases (e/ou setores) da carreira de Elba Ramalho: a reverência à origem e aos mestres do lugar, o diálogo entre o Nordeste e outras regiões, a atenção, em igual medida, aos grandes mestres e às novas gerações – entre compositores e convidados.

Na capa e encarte, a cantora aparece envolta em bordados com o título das canções do disco, como se a elas pertencesse seu corpo e vice-versa. E de algum modo é justamente disso que se trata: desde sempre ela se apropria do que canta.

Há canções inéditas, regravações de temas bastante populares e de músicas menos conhecidas. Entre as primeiras, Calcanhar (Yuri Queiroga/ Manuca Bandini) e a faixa-título (Yuri Queiroga/ Lula Queiroga, de onde pesco o verso que intitula esta resenha); na coluna do meio, Girassol (Pedro Luís/ Bino Farias/ Toni Garrido/ Lazão/ Da Gama), sucesso do grupo Cidade Negra, regravada com arranjo e regência de cordas de Arthur Verocai, Além da última estrela (Dominguinhos/ Fausto Nilo), gravada originalmente por Maria Bethânia, aqui relida com a sanfona de Mestrinho, Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira) e O fole roncou (Luiz Gonzaga/ Nelson Valença); e entre as últimas o reggae Princesa do meu lugar (Belchior), antes gravado por Amelinha, O mundo (André Abujamra) – que conta com as participações especiais de Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves – e José (Siba), faixa inaugural do grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

É disco que exala nordestinidade, calcada no reggae, mais explicitamente ou se valendo da proximidade das células rítmicas jamaicanas com gêneros nordestinos como o xote, entre outros agrupados no amplo guarda-chuva que se convencionou chamar simplesmente forró.

Por falar em forró, merece destaque Oxente, parceria de Chico César e Marcelo Jeneci, que participa da faixa (sanfona, synth e vocal).

O sobrenome Queiroga é central em O ouro do pó da estrada: Lula é autor de Girassol da caverna e da faixa-título, esta em parceria com o filho Yuri (que pilota diversos instrumentos no álbum), autor também de Calcanhar (com Manuca Bandini e texto incidental de Bráulio Tavares), que abre o disco, com a adesão dA Barca dos Corações Partidos (presente também em José), além de dividir arranjos e produção com Tostão Queiroga (que toca bateria).

O par final de faixas, José e O fole roncou, (re)liga a paraibana ao movimento (pernambucano) mangueBit, de que o Mestre Ambrósio foi representante e Luiz Gonzaga inspiração, com os forrós ponteados pelas guitarras de Yuri Queiroga.

Estradas de chão e o pó que delas sobe quando nelas pisamos, a evocar, certamente não inconscientemente, as salas de reboco de que falava o rei do baião, são obsessões particulares de Elba Ramalho neste repertório. “Até no chão/ no chão de areia/ quente pedra eu vou pisar/ eu vou seguir você até doer o calcanhar”, diz a letra de Calcanhar; em Na areia (Juliano Holanda), com arranjo e regência de cordas de Zé Américo Bastos, canta: “Eu sei que a vida é breve/ e não tarda a passar/ Deixo cair de leve/ que é pra não quebrar/ o silêncio pisando bem devagar/ cuida pra não apagar/ o caminho que eu fiz na areia”; e “Meu olho adora/ o ouro do pó da estrada/ eu não preciso do fim pra chegar”, diz na faixa-título.

Senhora de si, o trem da vida certamente ainda reservará várias estações à produtiva carreira de Elba Ramalho, para alegria de seu fã clube.

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Veja o lyric vídeo da faixa-título:

João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

O barato pesado de Siba

Não mexe comigo que eu não ando só. Foto: José de Holanda

O Bloco Bota Pra Moer, capitaneado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, percorrerá o Circuito Beira-Mar, oficial do Governo do Estado do Maranhão, dia 4 de março (segunda-feira de carnaval), às 16h. O convidado do bloco, em seu segundo ano, é o cantor e compositor eterno novo baiano Moraes Moreira, que ganhou uma homenagem da dupla, Demorô Moraes, composta em parceria com o poeta Celso Borges.

O Bota Pra Moer realiza amanhã (23), às 17h, ensaio aberto na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). O Criolina terá como convidados o grupo Divina Batucada, o dj Jorge Choairy e o pernambucano Siba.

Embarcando para o Maranhão o convidado ilustre conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos sobre sua participação na temporada pré-carnavalesca de São Luís, política e seu disco novo, que lança em maio ou junho. Siba disponibilizou hoje nas plataformas digitais um single do novo trabalho, a faixa Barato pesado.

Barato pesado. Capa do single. Foto: José de Holanda

Siba, como se deu o convite e qual a sua sensação em voltar ao Maranhão para uma apresentação na temporada de pré-carnaval?
Quem me conhece sabe que eu tenho uma longa história de amor com o Maranhão. Cada vez que eu tenho uma oportunidade de ir aí é sempre um momento especial pra mim. O convite se deu através de minha relação de admiração e amizade com o Alê e a Luciana do Criolina. Foi um convite de surpresa, agora, muito próximo do carnaval, a possibilidade de ir aí cantar com eles, viver um pouco dessa [temporada] pré-carnavalesca de São Luís, que eu nunca tive a oportunidade de ver. Vai ser duplamente especial para mim dessa vez.

Como será sua participação e qual o set list previsto?
Eu vou cantar coisas minhas que têm relação com o carnaval, especialmente frevos, A bagaceira, Canoa furada, A velha da capa preta, Bicharada, esse repertório que dialoga diretamente com o carnaval, não poderia ser diferente.

O folião Siba é representado na letra de A bagaceira? “Pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”?
A bagaceira é meio autobiográfica, do meu carnaval de juventude, muito novo, brincando como folião mesmo, sem nenhum vínculo mais direto com a tradição do carnaval que eu fui depois elaborando. Então, quando eu era um garoto de subúrbio em Olinda eu brincava de mela-mela e depois, mais pra frente, tomar uns goles, e sair na sexta e voltar na quarta-feira, esse foi o meu carnaval folião por alguns anos. Depois eu me envolvi com o carnaval, primeiro com o maracatu, e depois profissionalmente como cantor e compositor, e aí deixei esse lado folião para outros momentos, por que já não dava mais para ser no carnaval. Embora eu não sinta falta por que eu gosto muito de fazer carnaval, de atuar e construir o carnaval, de cima do palco. É um momento muito especial, de muita intensidade pra mim.

Em seu disco mais recente [O ouro do pó da estrada, Deck, 2018] Elba Ramalho gravou José, faixa inaugural do Mestre Ambrósio. O que você achou do registro e o que ele significa para você, enquanto compositor?
José é uma música muito importante pra mim, do repertório do Mestre Ambrósio, do primeiro disco [1997], uma música que eu cantei, sei lá, mais de 12 anos a fio, que foi a história da banda. Na voz de Elba ficou incrível, especial, ela é uma intérprete fabulosa, segue sendo uma intérprete única, de voz imediatamente reconhecível, uma marca muito forte na música nordestina e brasileira. Pra mim foi uma honra também de ter essa versão na voz dela. Me deu até vontade de cantar a música novamente no repertório, quem sabe agora eu bote ela de volta na minha lista.

Mais do que nunca o carnaval será uma espécie de escape da realidade. Como você tem acompanhado o cenário político e o que espera do Brasil sob a égide dos militares eleitos em outubro?
Olha, eu não gosto de dizer que o carnaval é escape da realidade, eu acho que o carnaval é a realidade intensificada. É onde a gente coloca pra fora o que há de melhor e pior da nossa realidade, concentrado em comportamento, em fantasia, em música, em expressão. Eu acho o carnaval muito importante para a saúde de nosso país, por que ele é central de nossa cultura e de nossa dinâmica de vida em sociedade. Você me pergunta o que eu espero do Brasil militarizado como ele está: eu sou bastante pessimista, acho que o governo atual é um desastre, um desastre caótico, uma família envolvida com milícia, um trato caótico do governo, cada um diz uma coisa uma hora, um vereador diz o que o presidente tem que fazer, é uma coisa realmente muito complicada. Parece vir dos próprios militares as vozes às vezes mais balanceadas, o que pra mim não é uma vantagem. Na verdade, a gente lutou muito para ter uma democracia de direito, e agora vê a volta dos militares, eu não vejo com bons olhos. Eu espero estar errado, mas eu acho que a gente tem aí um longo período de incertezas pela frente.

O que o fã clube pode esperar de Siba em 2019? Vem disco novo por aí?
Tem sim um disco novo, agora, estou preparando ele. Hoje nós lançamos nas plataformas digitais, um single desse disco, se chama Barato pesado, é uma música que tem muito a ver com o carnaval, por isso que a gente se apressou em lançá-la logo, podem procurar e ouvir. É uma música muito especial para mim, ela é talvez prima-irmã dA bagaceira e está aí pra todo mundo ouvir. O disco sai em maio ou junho, não quero adiantar muito sobre ele. O que eu tenho de melhor pra adiantar está na música que eu lancei hoje, dá para ouvir e ver qual é a pegada do disco. Até já! Estou indo para o Maranhão agora.

Olhai os lírios do Illinois

A mula. Still. Reprodução

 

Clint Eastwood é um monumento vivo do cinema. Seu novo filme, A mula [drama, EUA, 2018, 116 minutos], é ao mesmo tempo brutal e delicado, com várias camadas e diversas lições (aprendamos com os erros alheios, pois não teremos tempo para cometê-los sozinhos novamente, parece dizer uma delas).

Com direção e atuação magistrais, como é de seu feitio, Eastwood é Earl Stone, um velho premiado por produzir os mais belos lírios do Illinois. É um daqueles seres de que se pode dizer que vive de férias, pois trabalha com o que gosta, mesmo isso custando certo desleixo nas relações familiares.

Decorrem daí a culpa, a falência e uma eterna busca do tempo perdido. Acaso e remorso acabam levando Earl a uma aventura no universo ilegal, perigoso e, por que não dizer, glamouroso do tráfico de drogas. São as viagens que faz a serviço de um cartel mexicano, a princípio numa velha caminhonete – imediatamente pensei em Gran Torino [2008], ao vê-la em cena –, depois numa caminhonete de luxo, adquirida já com o pagamento recebido pelo transporte da primeira carga.

O filme é baseado em um artigo do New York Times, da década de 1990. As viagens e a ousadia de Earl – que dirige cantarolando o que ouve no rádio, a trilha sonora do road movie um espetáculo à parte – prendem o espectador, afinal de contas, ele é um velhinho simpático, bon vivant, bom de papo, um tipo, afinal, acima de qualquer suspeita, dono de fina ironia, bom humor e, por outro lado, de alguma forma, conhecedor da malandragem, já que é um veterano de guerra.

“A geração de vocês”, começa a palestrar a qualquer um que encontre pelo caminho com os olhos enfiados na tela do celular. Ele culpa a internet pela falência de seu negócio com os lírios. É um anacrônico que lamenta não poder comprar mais tempo para recuperar o que deixou de passar com a mulher (Mary, interpretada por Dianne Wiest), a filha (Iris, por Alison Eastwood, filha do diretor) – com quem não fala há 12 anos e meio – e a neta (Ginny, Taissa Farmiga). “Eu pude comprar tudo, só não pude comprar o tempo”, diz a certa altura, arrependido.

Líder da caça ao cartel, o agente Colin Bates (Bradley Cooper) chega a tomar um café com Earl. O policial, com a cara enfiada no celular, lamenta ter esquecido seu aniversário de casamento, e recebe conselhos do protagonista. Estabelece-se uma relação afetuosa, para além da de caça e caçador.

É comovente quando Earl assume os riscos de atrasar a entrega de uma carga para acompanhar os últimos dias da ex-esposa moribunda, e hilariante quando ela lhe pergunta onde ele havia arrumado o dinheiro para retomar a propriedade hipotecada em que plantava lírios e pagar a formação universitária e a festa de casamento da neta.

A única redenção que Earl quer é junto à família. “A família é o mais importante”, diz, noutra passagem. Mesmo isto significando o rompimento definitivo do convívio familiar, assume sua culpa a demonstrar que há limites éticos, ainda que se trate do submundo do crime. Baseada em fatos reais, os criminosos da ficção de Eastwood são maiores que os protagonistas da triste realidade brasileira. O cerco e o ciclo se fecham: A mula começa e termina com a beleza dos lírios, metáfora para o bom da vida, que apesar de tudo, está por aí: basta abrir bem os olhos e prestar a devida atenção.

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Veja o trailer:

Salve o compositor Ernesto Cardenal!

Homem de vícios antigos conversou com Zé Modesto, parceiro do sacerdote nicaraguense recém-reabilitado pela Igreja Católica; disco de estreia do paulista – que tem parceria dos dois – completa 15 anos em 2019

Sábado passado (16), o religioso hispano-brasileiro Dom Pedro Casaldáliga completou 91 anos. Radicado em São Félix do Araguaia/MT, um dos ícones da Teologia da Libertação, ele gravou, com o também poeta Pedro Tierra e o cantor e compositor Milton Nascimento, o álbum Missa dos Quilombos (1982). Por ocasião de seu aniversário, Gisa Franco e eu tocamos uma faixa do álbum no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, na data.

O sacerdote, poeta e revolucionário Ernesto Cardenal. Foto: divulgação

Ontem (18), li na coluna de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo, a notícia de que Mário Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, havia reabilitado o nonagenário Ernesto Cardenal, nicaraguense, outra referência da Teologia da Libertação na América Latina. Em comum, os dois sacerdotes têm o apreço pela poesia, não são burocratas da religião. Dedicaram suas caminhadas ao povo, sobretudo o mais humilde, em busca de uma sociedade mais justa, no que se juntam a nomes como os de Leonardo Boff (1938) e Frei Betto (1944), além de mártires como Dom Oscar Romero (1917-1980), Irmã Dorothy Stang (1931-2005), Frei Tito (1945-1974) e Pe. Josimo Moraes Tavares (1953-1986).

Internado desde o início de fevereiro em um hospital de Manágua, sua cidade natal, Cardenal completou 94 anos no último dia 20 de janeiro e desde 1985 estava “sob suspensão do exercício do ministério devido a sua militância política”, “censura canônica” imposta por João Paulo II. Cardenal foi ministro da Cultura da Nicarágua no primeiro governo de Daniel Ortega (1985-1990), atual presidente da Nicarágua, eleito em 2006 e reeleito em 2011 e 2016.

Dissidente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), o sacerdote vem sendo perseguido por Ortega desde que este reassumiu o poder em 2007 – episódio estapafúrdio foi a imposição de uma multa no valor de 800 mil dólares (o equivalente a R$ 2,9 milhões), “por supostos danos e prejuízos em disputa relacionada à posse de terrenos em Solentiname. Foi lá que Cardenal fundou sua comunidade de pescadores, camponeses e artistas primitivistas”, de acordo com o colunista da Folha. Qualquer semelhança com o que a Justiça brasileira vem fazendo com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.

Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas de língua espanhola, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2005. 40 anos antes havia sido consagrado com o Prêmio Rubén Darío, maior honraria das letras nicaraguenses. O perdão da Igreja Católica me fez lembrar de uma pérola de sua autoria.

Esteio. Capa. Reprodução

Em 2004 o compositor paulista Zé Modesto lançou seu disco de estreia, Esteio, com participações especiais de nomes como Ceumar, Ana Leite, Kléber Albuquerque, Rubi e Renato Braz, entre outros. O disco é um primor de delicadeza, um dos melhores lançados no Brasil naquela década, com sua poesia muito particular, evocando universos urbanos e rurais, festas populares, sambas, natureza, Guimarães Rosa e… Ernesto Cardenal. Depois, o historiador e compositor paulista lançaria ainda Xiló (2007) e Ao pé do ouvido (2015), também verdadeiros artigos de ourivesaria musical, o mais recente com a participação especial das caixeiras do Divino da Família Menezes, da Casa Fanti-Ashanti, de São Luís.

Do ótimo repertório de Esteio sempre me chamou a atenção, especialmente, o choro Estrelas, registrada no álbum em dueto com sua irmã Ana Leite e com o advento do grupo Sociedade do Choro, capitaneado por Carlinhos Amaral. Pela beleza do casamento de letra e melodia, pela parceria inusitada. E volta e me comover neste baile de debutante do disco, enquanto me pergunto o porquê de ter demorado tanto a ir atrás desta história.

O historiador e compositor Zé Modesto. Foto: divulgação

Zé Modesto contou com exclusividade a Homem de vícios antigos a história da parceria: “Lá pelo início dos anos 2000 eu tive acesso a um livro do Ernesto Cardenal, que se chamava As riquezas injustas [Círculo do Livro, 1982], uma antologia poética dele, eu ganhei da minha ex-mulher. Eu sempre gostei da história da revolução nicaraguense, sempre me interessei pela ideia de ter um religioso contribuindo para um governo mais popular, sempre me interessei pela vida do Ernesto Cardenal, Dom Pedro Casaldáliga, no Brasil. São poetas e ao mesmo tempo religiosos, e ao mesmo tempo engajados em causas populares, numa utopia, num sonho de uma sociedade mais justa e assim por diante. O que acontece é que eu comecei a ler o trabalho dele e gostei muito e especialmente esse poema me deu vontade de musicar”.

O compositor tece elogios às imagens poéticas do parceiro distante: “Eu gostei demais dessa imagem que ele constrói, que “o céu estrelado é como uma cidade à noite, uma cidade vista de um avião”, então as estrelas não estão no céu, as estrelas estão nas ruas, são os mercados iluminados, são todas as luzes da noite, aí ele vai dizendo, “brancas e vermelhas dos carros que vão e vem”, o branco dos faróis, o vermelho das lanternas. Eu gosto dele falar dos lugares, de night clubs, motéis, é interessante o religioso falar dessa vida profana. Essas estrelas, numa comparação ao que são as estrelas do céu, que elas também desaparecem, essas estrelas “que se queimam por nada/ o céu estrelado é um desperdício de energia”, e é tanta energia mesmo, quando a gente olha pro céu estrelado. Ele compara com as energias daqui, que se perdem no vazio das avenidas, da vida que a gente leva aqui embaixo, e compara tudo isso com uma superprodução de Clarck Gable”.

“É uma produção curta, mas que contribui tanto para um mergulho poético nesse universo das estrelas, nessa brincadeira que ele faz, do céu e da terra. Eu gosto demais desse poema e falei: “isso aqui dá um samba”. Comecei a pensar e fui cantarolando e saiu Estrelas. Foi muito legal. Mostrei a música para as pessoas, gostaram bastante, falei: “vou gravar!”, continua.

Modesto e Cardenal nunca estiveram juntos pessoalmente. Indago-lhe sobre a burocracia para a formalização da parceria, envolvendo despachos, carimbos, assinaturas, cartórios. “Eu imaginei que fosse ter um trabalho muito grande, que ia ser muito burocrático. Consegui o contato dele, entrei em contato, a secretária dele, Luz Maria Costa, me atendeu, muito simpática, ele já era velhinho, assinou, eu tenho até hoje um documento lavrado em cartório em Manágua, da autorização dele para a publicação da música. Aí eu mandei uns discos para ele, ele gostou. Foi um atrevimento meu que acabou dando certo”.

Deus abençoe o Papa Francisco, Ernesto Cardenal, Zé Modesto e qualquer um/a que se comova diante de tanta beleza! Há quem espere por milagres extraordinários, mas como dizem os poetaços Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, “a cor amarela é um milagre”, “uma melodia linda é um milagre”. Contentemo-nos. Não é pouco!

A seguir, leia e ouça Estrelas (letra: Ernesto Cardenal; música: Zé Modesto)

Olha as estrelas no céu, olha as estrelas
Olha as estrelas do céu, olha as estrelas

O céu estrelado é feito uma cidade de noite,
uma cidade de noite vista dum avião:
as estrelas são como ruas, são mercados iluminados,
anúncios de neon, motéis, nigth clubs, cinemas e luzes
brancas e vermelhas, dos carros que vão e vêm,
dos carros que vêm e vão pelas estradas escuras
e se queimam por nada… para nada.

O céu estrelado é um desperdício de energia,
um esbanjamento de energia na perpétua noite.
Como a energia daqui perdida no vazio
nas avenidas, lojas, cafés, nigth clubs, motéis, cinemas
com uma superprodução de Clark Gable.

 

O batalhão de um homem só

Foto: Marla Batalha

 

Já disse aqui e acolá, mas não custa repetir: certos artistas têm uma impressionante capacidade de premonição, o que os torna artistas maiores.

É o caso de Lauande Aires e particularmente de O miolo da estória, da Cia. de Artes Santa Ignorância, reapresentado ontem (10) no Teatro Arthur Azevedo (em cujo palco chegou pela primeira vez), dentro da programação do Gema – Grandes espetáculos do Maranhão, que promove o reencontro do público com destaques da produção teatral local recente. Aliás, estamos em ótima safra.

Sozinho em cena, Lauande encarna um batalhão. João Miolo, seu personagem, é um operário da construção civil, que sonha. Sonhar, aqui, verbo literalmente intransitivo. “Nunca deixe de sonhar” é o seu principal conselho. Os tempos são duros e ele se veste com a roupa da utopia.

João Miolo faz rir, não aquele riso fácil, mas um riso que leva à reflexão, ao criticar a mobilidade urbana enquanto pedala rumo ao serviço. No traçado da massa com a colher de pedreiro, percute, pá e enxada idem. O carro de mão vira carcaça. Tudo nele é bumba meu boi, embora não haja, a rigor, em cena, nada que lembre o folguedo.

João se machuca e faz promessa, como antigamente se originava a maioria dos grupos de bumba meu boi no Maranhão. Mas não soa saudosista. O monólogo critica as relações trabalhistas e mesmo não sendo encenado há cinco anos, soa atual e necessário. É um retrato do trabalhador que sua para pagar as contas e poder se divertir de vez em quando, a cada fim de semana ou temporada junina. É, pelo recorte de um brasileiro, um retrato fiel do Brasil.

Ao fim do espetáculo, Lauande cumprimentou, na plateia, Geovane (vulgo Bomba), miolo, hoje no Bumba meu boi da Madre Deus, que um dia viu subir de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, na tradicional homenagem ao santo, num 29 de junho. Tocado por sua devoção e sacrifício, acompanhou-o noutros eventos, colhendo elementos para a pesquisa que resultou nO miolo da estória.

Selecionada em edital da Ancine, a peça vai virar filme, dirigido por Lucian Rosa, com roteiro dele e Lauande Aires. As filmagens devem se iniciar em junho deste ano, em São Luís, conforme também anunciou ontem.

Pequena coleção de emoções

Foto: Rodrigo Oliveira

 

Dirigindo para o trabalho vi hoje uma cena que me botou comovido como o diabo, ave, Paulo Mendes Campos!

Um casal se beijava no canteiro central de uma avenida. Gente humilde que acabara de descer do ônibus, ao menos foi o que imaginei, a caminho do trabalho. Era uma despedida temporária, supus também, como se quisessem que o beijo fosse uma espécie de empréstimo, adiantamento da saudade que sentiriam um do outro enquanto durassem seus expedientes.

Confesso mesmo que senti vontade de parar o carro e contemplar a cena. Não fotografar. Apenas assistir, como um voyeur invulgar. Mas nem ousei por que os motoristas que, apressados como sempre, não perceberam a singularidade daquela cena, logo estariam atrás de mim, buzinando e me amaldiçoando até a quinta geração com os palavrões mais vulgares possíveis.

Adiante, pensei ser hoje meu dia de sorte: enquanto o carro deslizava sobre a ponte do São Francisco e um pequeno engarrafamento se anunciava na avenida Beira-Mar, mirei o céu e vi uma revoada de pássaros que me fez lembrar aqueles patos que migram em bando, sobretudo nos desenhos animados do Pica-Pau. Ou a memória da infância me trai?

Ando tão à flor da pele, Zeca Baleiro, que ontem fui ver uma peça teatral, um musical adolescente baseado em um filme americano que nunca me interessou. Fui ao teatro movido pelo interesse (jornalístico) na cena local, que tem proporcionado ao público interessado uma boa safra de espetáculos, o que pode ser comprovado na programação do Gema, boa sigla de Grandes Espetáculos do Maranhão (confira a programação completa), que começou no final de semana passado com a adaptação “codoense” de O auto da compadecida, da Companhia Gracielle Costa, e segue neste fim de semana com O miolo da história, de Lauande Aires, e adiante com Pai e filho, da Pequena Companhia de Teatro, Chico, eu e Buarque e João do Vale, o gênio improvável, realizações do próprio Teatro Arthur Azevedo.

High School Musical Brasil, parceria da Oficina de Interpretação SLZ com a Troupe Parabolandos (SP), a peça de ontem, é pueril como todo cinema americano que só o poema de Leminski salva: “podem ficar com a realidade/ esse baixo-astral/ em que tudo entra pelo cano/ eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano”. No fim das contas é sobre o amor e suas descobertas adolescentes. Segurei as lágrimas uma ou duas vezes. “Homem não chora”, não é, Pablo do Arrocha?

Na saída, pude comentar o espetáculo com os amigos que me acompanhavam, diante de uma cerveja gelada servida na Feira da Tralha. Sempre me ressenti da ausência de botecos nos arredores dos teatros, para que os que quisessem esticar os comentários, a noite, prosear. A Feira da Tralha não é bem um boteco, mas o sebo faz as vezes de. Ontem conversamos ao som de Janis Joplin e Raul Seixas.

A noite foi arrematada – e nós arrebatados – pela sabedoria de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela: “o dia se renova todo dia/ eu envelheço cada dia e cada mês/ o mundo passa por mim todos os dias/ enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, samba que muito cantarolei ninando José Antonio. “A natureza é perfeita/ não há quem possa duvidar/ a noite é o dia que dorme/ o dia é a noite ao despertar”.