Alma e sentimentos

Uma irmã. Capa. Reprodução

 

Uma irmã [Une soeur; tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 212 p.; R$ 55,00; leia um trecho] é uma metáfora para falar de amizade e das descobertas da adolescência. O francês Bastien Vivès conta a história de Antoine e Hélène, que se encontram durante um período de férias e passam a fazer tudo juntos – apesar de Titi, irmão mais novo dele.

É um período de grandes curiosidades e descobertas, em que álcool e fumos (no plural) se juntam ao desejo de desobediência aos pais, aventuras em que o par de protagonistas mergulha junto, com mais ou menos experiência.

Antoine e Hélène são, um para o outro, o grande achado daqueles dias, iniciados com uma tragédia e encerrados com outra. Entre os dois adolescentes, lições de companheirismo, confiança e cumplicidade.

Belo e delicado, o traço de Vivès tem um quê de abstrato, como se o autor quisesse captar e passar aos leitores a alma e as sensações de seus personagens – no que atinge seu objetivo. É uma graphic novel bastante sensual, nunca vulgar.

Os sentimentos que povoam os personagens de Vivès são absorvidos por seus leitores, comovidos cúmplices.

Documentário joga luz sobre vida e obra de Henfil, necessário e atual como nunca

Henfil. Cartaz. Reprodução

 

“Chamar Henfil de cartunista é reduzi-lo. Ele foi multimídia, atuou em jornal, televisão, cinema, teatro, literatura, fez tudo o que existia na época”, nos alerta Tárik de Souza, um dos entrevistados de Henfil [Brasil, 2018, 75 minutos], documentário de Angela Zoé, lançado no fim do ano passado, quando se completaram 30 anos de seu falecimento.

“Na verdade, Henfil, Chico Mário e Betinho [o sociólogo Herbert de Souza] foram assassinados pelo Brasil”, completa Tárik, um dos maiores críticos musicais brasileiros em atividade, seu colega dos tempos de Pasquim, referindo-se à falta de fiscalização nos bancos de sangue brasileiros à época: os três irmãos eram hemofílicos e tornaram-se soropositivos em transfusões de sangue.

O mote do documentário leva em conta uma reunião de cartunistas (entre os quais o grande Aroeira), em fins de 2016, admiradores do trabalho de Henrique Souza Filho, o Henfil, que manifestaram o desejo de realizar uma animação utilizando personagens que se confundem com a própria história do Brasil, e particularmente, da luta contra a ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já!, nomes como a Turma da Caatinga, entre os quais a Graúna, Zeferino e o Bode Orelana, os fradinhos, o Caboco Mamadô, entre muitos outros.

Imagens de Henfil em super8, depoimentos seus a programas de tevê e suas aparições na TV Homem (quadro que apresentou dentro da atração global TV Mulher) dão conta de retratar a importância do artista para o humor e a redemocratização do país – embora esta frágil, curta e já descartada.

Há um permanente exercício de imaginação no ar: 30 anos depois, o que Henfil estaria fazendo se estivesse vivo? Certamente se valendo das tecnologias (e facilidades) proporcionadas pela internet e contra esse estado de coisas em que se transformou o Brasil, golpe após golpe.

Henfil tinha um traço rústico e certeiro, sem firulas. Jaguar, outro colega de Pasquim, revela que ele mesmo nunca conseguiu imitá-lo, o que parece ser um dos maiores elogios possíveis a um artista de seu naipe.

Henfil soube tocar em nervos expostos, captando e ajudando a entender e explicar um momento crucial da história do Brasil. É conhecido o episódio em que não poupou a cantora Elis Regina por ter cantado nas olimpíadas do exército – o que ninguém sabia à época é que ela fora obrigada. Depois fizeram as pazes e mais tarde a gaúcha imortalizaria os versos “e sonha com a volta do irmão do Henfil/ com tanta gente que partiu num rabo de foguete”, da dupla Aldir Blanc e João Bosco em O bêbado e a equilibrista.

Em livros como Cartas da mãe (reunindo colunas publicadas na revista Isto É), Henfil na China e Diário de um cucaracha, tirava onda com a síndrome de vira-latas rodrigueana: as coisas no Brasil podem ser boas como forem, mas a gente só dá valor se sair no The New York Times – que acabaria publicando seu obituário –, brincalhona obsessão que intitulou sua incursão pelo cinema: Henfil dirigiu Tanga – Deu no New York Times, que Jaguar considera ruim mesmo para os padrões do cinema brasileiro da época. “A única coisa que presta em teu filme é minha atuação”, chegou a tirar onda, tudo entre amigos.

O mote do filme passa pelo jornal americano: em uma ilha imaginária o ditador de plantão acabou com a imprensa, mas continua a receber exemplares do NYT, queimados logo após a leitura, pois quem detém informação detém o poder. Apesar do fracasso, Tanga tem música do conterrâneo Wagner Tiso e presenças do próprio Henfil, Chico Anysio, Elke Maravilha, Jaguar e Tom Jobim no elenco.

Henfil tinha urgência de viver e criar, pois sentia desde cedo a doença que o vitimou pisando-lhe os calcanhares, ela personagem secundária no documentário, que se equilibra entre o bom humor e a genialidade de seu retratado, que nele se confundem, e sua disposição em lutar por um Brasil justo e livre de qualquer tipo de censura.

“A esperança somos nós” é o recado sutil, dado na animação dos créditos. Infelizmente, Henfil nunca foi tão necessário e atual.

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Veja o trailer:

Amores e mistérios

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira). Cartaz. Reprodução

 

O seu amor de volta (mesmo que ele não queira) [documentário, Brasil, 2018, 82 minutos], de Bertrand Lira, estreou em dezembro passado, durante o 13º. Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, um dos mais importantes festivais de cinema da Paraíba, terra do cineasta, realizado na capital João Pessoa. O catálogo do festival adverte: “esta produção é “Hors-concours Première Parahyba” – não participa da mostra competitiva”. Caso concorresse, as chances de prêmio seriam grandes, aposta Homem de vícios antigos.

Em sua atmosfera vermelha, remetendo a salas de cartomantes, cabarés e pés-sujos, o novo filme de Bertrand Lira é um documentário que o espectador pensa que é ficção, sobretudo pela presença de histórias reais de gente ligada ao cinema e ao teatro. Em geral, búzios e cartas são buscados diante de desilusões amorosas, embora esta opinião seja mera especulação, já que desconhecemos estatísticas de institutos de pesquisa sobre o assunto.

Dados à parte, é no amor, em suas idas e vindas, e na confiança na magia para trazê-lo de volta e mantê-lo ao lado, que foca o documentário, desde o bem-humorado título.

Se “a vida imita o vídeo”, como cantaram os Engenheiros do Hawaii, ou “a arte existe por que a vida não basta”, como sentenciou Ferreira Gullar, é na dúvida entre se as histórias são reais ou ficção, se os personagens estão interpretando ou não, na astúcia do diretor e roteirista Bertrand Lira, que residem alguns dos trunfos de Seu amor de volta (mesmo que ele não queira), ao adentrar um universo que desperta paixão e ódio, entre quem acredita no poder do mistério e quem acha que tudo não passa de bobagem, quando não charlatanismo.

Há histórias dolorosas, em que a rima mais clichê, amor e dor, segue aparecendo, em ambientes enfumaçados e movidos a álcool, das salas em que videntes e cartomantes atendem aos bares, e há quem ria da própria dor, como a senhora que canta versos hilariantes e bebe uísque direto na boca da garrafa.

Professor doutor do Departamento de Comunicação em Mídias Digitais e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Bertrand Lira realiza documentários desde 1981. Ele conversou com exclusividade com o blogue.

Retrato: Rodrigo Barbosa

 

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira) aparece com a tarja de documentário no catálogo do 13º. Fest Aruanda, de João Pessoa/PB, onde ele estreou em dezembro passado, sem competir. Todas aquelas histórias são reais?
Meu filme é indexado como um documentário porque ele trabalha personagens reais contando suas histórias de desilusões amorosas. A pesquisa envolveu mais personagens, inclusive cinco prostitutas que na edição definitiva ficaram de fora. De certa forma, foi uma coincidência que no corte final ficaram quatro personagens que trabalham com cinema e teatro: um ator e maquiador, uma professora e atriz travesti, e duas atrizes de renome nacional, Zezita Matos e Marcélia Cartaxo. Claro que tem momentos do filme que a fronteira entre ficção e não ficção está nebulosa, mas o que tem de ficção é a carga de subjetividade e imaginário desses atores sociais que o documentário representa em cenas criadas para ilustrar sentimentos, emoções etc.

Qual a sua relação anterior com cartas, búzios e esse universo mágico em geral anunciados em papéis colados em postes?
Para a pesquisa ainda muito embrionária de O seu amor de volta eu procurei uma cartomante para conhecer o universo retratado, mas ela não aceitou participar do filme. Os personagens que aceitaram participar (dois pais de santo e uma cartomante) eu os encontrei apenas duas vezes, a primeira para explicar o projeto e a segunda já nas gravações.

Histórias trágicas e uma diversidade incrível de personagens: como foi chegar a este recorte? Quanto de pesquisa e quanto de sorte, feito a bola que procura o craque?
A realização deste filme foi fruto de duas ideias: uma a partir do filme de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010), que me levou a pensar um documentário sobre cartomantes, videntes etc. E a outra foi do personagem Williams Muniz, ator, maquiador e figurinista de teatro e de cinema, que nas horas vagas escreve crônicas sob [o pseudônimo] Laura de Jezebel, seu alter ego. Williams é o fio condutor desta narrativa.

As presenças das atrizes paraibanas Marcélia Cartaxo e Zezita Matos despistam a atenção do espectador: são atrizes e parecem interpretar. Como foi a descoberta de suas histórias e encaixá-las no roteiro do filme?
A atriz Marcélia Cartaxo já estava no projeto desde a sua origem, pois a conheço desde a infância vivida na rua onde nascemos, a Higino Rolim, em Cajazeiras, interior da Paraíba, e tenho acompanhado sua trajetória pessoal e profissional. A atriz Zezita Matos foi incorporada ao projeto por acaso. A presença de duas atrizes forçosamente leva as pessoas a imaginar que tudo é ficção.

Você tem uma vasta carreira no cinema, é professor universitário e também autor de livros sobre a sétima arte. Na sua opinião, esse currículo todo aumenta a responsabilidade na hora de realizar?
Como professor e pesquisador investigamos o cinema documental durante quatro anos no grupo de pesquisa que coordeno na UFPB, o Gecine (Grupo de Pesquisa em Cinema e Audiovisual). Isso me levou a conhecer a trajetória do gênero desde a sua origem. Claro, a responsabilidade só aumenta. As pessoas acham que os acadêmicos são apenas teóricos. Eu faço documentário desde 1981, a partir dos estágios de cinema dos ateliês Varan da França, criados pelo renomado etnógrafo e cineasta Jean Rouch em diversos países do mundo. Tive a chance de me especializar duas vezes na Association Varan de Paris.

Gildomar Marinho faz duas apresentações em São Luís

Cantor e compositor se apresenta hoje (9) no Talkin’ Blues (Cohajap) e sexta (11) no Buriteco Café (Praia Grande)

 

Gildomar Marinho e Luiz Cláudio durante ensaio. Foto: Otávio Costa/ A discoteca do veterinário

 

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, Gildomar Marinho aproveita uma passagem pela ilha para fazer duas apresentações, reencontrando-se com o público conterrâneo. Com três discos lançados – Olho de boi (2009), Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013) – o artista tem outros dois gravados, desde 2015, e ainda não lançados: Porta sentidos e Mar do Gil. “Vendi um carro para fazê-los”, revelou-me, bem humorado, numa conversa ainda àquele ano.

Gildomar Marinho (voz e violão) será acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio. O repertório passeará pela obra autoral de Gildomar Marinho, de temas assinados solitariamente a parcerias com nomes como os poetas Ely Cruz e Samara Volpony (dela ele musicou Contramaré, que dá título ao livro de estreia da arariense), o radialista Ricarte Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro (que tem parcerias gravadas nos cinco discos de Gildomar). Ele também deve revisitar nomes como Erasmo Dibell (de quem gravou Navegante em Tocantes) e figuras da mpb como Belchior, Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Noel Rosa.

“Serão apresentações descontraídas, em clima de confraternização”, promete. Hoje (9), às 21h, no Talkin’ Blues (Rua Auxiliar II, quadra 9, nº. 16, Cohajap), ele sobe ao palco às 21h, e terá como convidados Tutuca e Elizeu Cardoso; na sexta-feira (11), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande), Gildomar terá como convidados, além de Tutuca e Elizeu Cardoso, Marconi Rezende, Chico Neis e Gabriela Flor. Em ambas as apresentações o couvert artístico individual custa R$ 10,00.

Uma rara oportunidade de prestigiar o talento de Gildomar por estas bandas. Após as apresentações em São Luís ele volta à Fortaleza, onde tem comandado a temporada pré-carnavalesca do bloco Hospício Cultural, no bairro do Benfica – o equivalente à nossa Madre Deus –, que tem reunido cerca de 10 mil foliões a cada ensaio, aos domingos. A música que puxa o bloco é dele e versa de maneira bem humorada sobre os desmandos da vida política nacional.