O trompetista e o palhaço

Foto: Zeqroz Neto

 

Reencontro [2016] é uma bolachinha delicada. Biscoito fino, eu diria, se não fosse fazer merchandising de outra gravadora, que, afinal de contas, não o lançou.

“É como se Chet Baker tocasse choro”. Dizer isto seria uma boa síntese do disco, o jazzista norte-americano influência confessa do niteroiense.

É o disco solo de estreia de Silvério Pontes, trompetista que faz par com o trombonista Zé da Velha na assim chamada “menor big band do mundo”.

Figura fácil em fichas técnicas de incontáveis discos de artistas brasileiros de qualquer matiz, o músico teve ontem seu reencontro com o público ludovicense, num sarau do projeto RicoChoro ComVida Pra Luta, realizado na sede recreativa do Sindicato dos Bancários do Maranhão (Av. General Arthur Carvalho, 3.000, Turu).

Teve como anfitriões Marquinhos Carcará (percuteria), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (violão sete cordas), reunidos no Quarteto Crivador, recepcionados pelo dj Joaquim Zion.

Por diversas vezes brincou: “a gente ensaiou uma semana para chegar a isso aqui”, disse ele, obviamente há menos de uma semana na cidade, tirando onda com a facilidade com que desfilaram juntos um repertório que foi de Jacob do Bandolim (Receita de samba) à parceria de Chico Buarque e João Bosco (Sinhá, em versão instrumental em que o trompetista botou a plateia para cantar o lamento “êêê” do refrão).

Da plateia, convidou a cantora Fátima Passarinho, que topou o desafio e mandou Sem compromisso (Geraldo Pereira). Ao longo da apresentação, com pegada de gafieira, fez dois concursos de dança, sorteando discos da dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, para os casais ganhadores continuarem a dança em casa.

“Eu não queria tocar músicas minhas. É chato esse negócio de ficar ouvindo música nova”, afirmou, modesto, para gargalhadas da plateia. Acabou tocando temas como De Niterói à Vacaria, parceria com o gaúcho Bebê Kramer – “fizemos a música e não tinha título, e resolvemos batizar com os nomes de nossas cidades”, revelou – e Piazzolla no Choro, parceria com Marcelo Caldi que imagina o bandoneón do argentino numa roda brasileiríssima, com citações de Libertango.

“Quem aqui se lembra do Carequinha?”, perguntou obtendo uns poucos braços para cima como resposta. “Tem várias músicas com o Altamiro Carrilho”, lembrando o acompanhamento da bandinha do flautista em discos do palhaço. “O bom menino não faz xixi na cama/ o bom menino não faz malcriação”, cantarolou, imitando a voz.

Contou a tragicômica história de um encontro seu com o ídolo, antes de tocar Hoje tem marmelada, com que homenageia o saudoso artista. “Uma vez eu fui ao circo e me deixaram entrar no camarim do Carequinha. Ele estava se maquiando, botando aquela pintura. Deve ser um horror para um palhaço ser pego nesse momento. Quando ele me viu, perguntou: “meu filho, o que você está fazendo aí?”. E continuou se pintando. Eu era muito fã. Aí eu perguntei por algumas pessoas que trabalhavam com ele. Ele virou e me disse: “fizeram a maior besteira que alguém pode fazer na vida”. Eu perguntei: “o quê?”. E ele: “morreram!”.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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