Das escritas do Choro

Chorografia do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Quando José Antonio deixou a maternidade, aos 18 dias, a primeira música que ele ouviu foi a Suíte Retratos, na execução da Camerata Carioca em Tributo a Jacob do Bandolim, de 1979. Não a ouviu completa, pois o percurso da maternidade até em casa, de carro, era menor que o tempo de duração dos quatro movimentos (os “retratos”), que homenageiam Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Não foi por acaso: a homenagem é uma espécie de síntese do Choro, ou pelo menos de suas origens e entre os bambas que tocam no disco está o maranhense João Pedro Borges, o que me enche de orgulho. O disco foi escolhido intencionalmente, redundo.

Sábado que vem (15), às 19h, na Praça Gonçalves Dias, durante o último sarau de RicoChoro ComVida na Praça em 2018, Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e este que vos perturba lançaremos – finalmente! – o livro Chorografia do Maranhão, que reúne as 52 entrevistas com 54 instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão que publicamos como uma série no jornal O Imparcial, entre março de 2013 e maio de 2015.

O lançamento acontecerá em noite especial, não apenas por se tratar da despedida do projeto este ano de seus fiéis seguidores e frequentadores eventuais, mas por que teremos o fino do Choro, a começar pelo DJ Franklin, mais o encontro do Regional Tira-Teima com a cavaquinhista carioca Luciana Rabello – e a participação especial da cantora Alexandra Nicolas.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, nos ensina Mallarmé. Sorte ou acaso, esta celebração é também fruto de bastante trabalho: do trio de autores e do editor Bruno Azevêdo – o livro sai pela Pitomba!, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), com a chancela do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mas voltemos a alguns acasos, chamemos assim. Domingo passado, em conversa no Chorinhos e Chorões, patrimônio do Maranhão e programa bastante citado pelos entrevistados – que os chororrepórteres chamamos chorografados –, o último antes do lançamento, Ricarte Almeida Santos levou dois discos de Luciana Rabello para tocar enquanto conversávamos sobre a Chorografia do Maranhão. Um deles era o lendário Os Carioquinhas no Choro [1977], do grupo homônimo que tinha entre os integrantes a cavaquinhista e seu saudoso irmão Raphael Rabello, ambos então adolescentes. O grupo era uma espécie de embrião do que viria a ser a Camerata Carioca, sob o comando do gaúcho Radamés Gnattali. Quando Serra de Almeida (flautista do Tira-Teima) concedeu a primeira entrevista da série (publicada em março de 2013, mas realizada bem antes, o que dá ainda mais tempo de trabalho, melhor deixar essa conta pra lá), no extinto Kumidinha de Buteko, a capa do elepê decorava a parede e apareceu em uma das fotografias publicadas no jornal.

As pontas se ligam: Luciana Rabello assina a produção musical de Festejos [Acari Records, 2013], estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico, ela que fará uma participação especial durante a apresentação da amiga, um reencontro que promete arrepiar quem conhece o disco e se arrepender quem porventura ainda não (ou correr atrás do tempo perdido, nunca é tarde!).

As pontas se ligam: se, de meu lado, dedico o livro a José Antonio, afinal de contas para quem escrevo tudo o que escrevo, por outro, os irmãos Almeida Santos o dedicam a Raimundo Juruca, seu pai, que lhes ensinou a mais que gostar, a amar o Choro – o que tento fazer com José Antonio, que frequentou sua primeira roda aos nove meses de idade, com as presenças de ninguém menos que Zé da Velha e Silvério Pontes, na edição inaugural de RicoChoro ComVida na Praça, em agosto de 2016, na mesma Gonçalves Dias em que agora o Chorografia do Maranhão será lançado.

Ligam-se as pontas deste emaranhado, com texto de Chico Saldanha nas orelhas, apresentação de Luciana Rabello e posfácio de Cesar Teixeira. São muitas histórias, inclusive as nossas, já que o editor Bruno Azevêdo e o poeta Celso Borges, “testemunha de muito do que o livro diz”, nos entrevistaram para o volume.

Chorografia do Maranhão cumpre uma importante tarefa de mapear e contar as histórias dos personagens que desfilam por suas páginas, mas não só: também de toda uma geografia e afetividade que permeiam o Choro no estado.

Seu lançamento é, ao mesmo tempo, sinônimo de alegria e emoção, de um lado, e, de outro, a sensação de tirar um enorme peso das costas. Foram mais de cinco anos de trabalho entre a entrevista inicial e o livro. Que, convenhamos, com o constante interesse de jovens músicos e a consequente renovação da cena Choro, o que não é privilégio apenas do Maranhão, ainda bem, já nasce defasado: diante do surgimento de novos talentos, um volume dois já se insinua necessário, embora os chororrepórteres não prometam nada, ao menos por enquanto.

Grande parte das entrevistas do livro foi realizada em bares, redutos chorísticos por excelência. É hora de passar a régua, mas insistimos em pedir mais uma e mais um choro, por favor!

Um corpo estendido no chão

Uma lembrança por ocasião do aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, hoje

Foto: Zema Ribeiro

Vi o corpo estendido no chão, coberto por um lençol ou coisa que o valha. Um engarrafamento estava se formando, passei em marcha mais lenta que o normal, curiando a cena, como o faziam todos os motoristas. Havia um ônibus parado e uma motocicleta encostada no canteiro central me fez imaginar em um motoqueiro morto num acidente, mais um para as estatísticas. Embrutecido pelo dia a dia e pela pressa, segui adiante.

Na volta de um compromisso, ouvi o comentário de outros flanelinhas. Inclusive dos conselhos dados por estes a familiares da vítima, quando ouviram falarem em “se vingar” do motorista, convencendo-os da inocência do chofer e evitando outra tragédia.

Não sabia seu nome, mas quem havia morrido era um dos mais simpáticos entre estes moleques aos quais a gente dá tanta atenção que, mesmo encontrando-os praticamente todos os dias, sequer sabe o nome.

Nunca o vi de mau humor ou praguejando contra quem não dispunha de moedas para pagar-lhe o serviço: a limpeza dos vidros dianteiro e traseiro do carro e, de cortesia, um “cheirinho”, como ele chamava o “bom ar” ou equivalente que fazia invadir o carro – ao menos aos que se dispunham a baixar o vidro e encarar o sorriso que a lida não havia sido capaz de sequestrar, apesar da dureza.

Ele sofria de epilepsia e num ataque caiu e o ônibus passou sobre seu corpo, levando-o a óbito. Ninguém conhece o histórico familiar, se era beneficiário de algum programa social e, em caso positivo, se o valor a que fazia jus era suficiente para não precisar encarar sol e chuva em busca de moedas para inteirar a renda. Ninguém sabe e na real pouca gente se importa.

Hoje a senhora Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos e eu lembro do flanelinha, cujo nome eu não sabia, não sei, que ficava no semáforo em frente ao Corpo de Bombeiros e penso nele como um símbolo, uma síntese daqueles que têm seus direitos negados e violados.

E lembro-me da história bonita de um motorista de ambulância do Samu que, ao socorrer-lhe durante um de seus ataques epiléticos, guardou 50 centavos que caíram do bolso do flanelinha, devolvendo-lhe a moeda na primeira ocasião em que tornou a encontrá-lo.

No local de sua morte foi improvisada uma cruz, como a simbolizar sua via crucis terrena. Que a homenagem tenha melhor sorte que a placa com o nome da vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada em março. Requiescant in pace.

Espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” terá quatro apresentações em São Luís

[release]

Circulação do grupo cearense Nóis de Teatro tem patrocínio da Petrobras e acontece de 6 a 9 de dezembro em praças da capital. Apresentações têm tradução simultânea em Libras.

Foto: Luiz Alves
Foto: Luiz Alves
Foto: Augusto Oliveira
Foto: Augusto Oliveira

A discussão sobre a criminalização e perseguição da juventude negra nas periferias brasileiras dá o tom do espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, com que o grupo Nóis de Teatro, de Fortaleza/CE, circula por São Luís, com quatro apresentações gratuitas em praças da capital maranhense. A circulação tem patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura/ Governo Federal. As apresentações têm tradução simultânea em Libras.

O espetáculo é dividido em três atos e conta a história de Natanael, uma espécie de anti-herói nascido na periferia, inserido num brutal sistema de opressão e violência, realidade comum a muitos brasileiros, que, aos 18 anos, resolve ingressar nas fileiras da polícia militar. Este ator-narrador é o grande foco de “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e sua dramaturgia épica, algo como uma “tragédia afro”, é cerzida por elementos alegóricos e representativos do movimento negro no Brasil e no mundo, além de diversas referências à mitologia dos orixás.

A montagem do espetáculo do Nóis de Teatro se baseia em visitas realizadas a comunidades quilombolas do Ceará e do Maranhão, além de terreiros de umbanda e candomblé, e dialogando com movimentos sociais que pautam questões da população negra. O grupo tem sede na periferia da capital cearense, na Comunidade de Granja Lisboa, Território de Paz do Grande Bom Jardim.

Trajetória – Com 16 anos de fundação, o grupo Nóis de Teatro tem construído uma ação continuada no que diz respeito à circulação de espetáculos, oferta de cursos, intercâmbios e oficinas de teatro e percussão, contribuindo de forma significativa para a formação de plateia, incentivando crianças e jovens ao fazer artístico e à reflexão, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” venceu o Prêmio Funarte de Arte Negra, o que garantiu o trabalho de pesquisa, construção e montagem do espetáculo. Dirigida por Murilo Ramos, a peça tem concepção geral, dramaturgia e assistência de direção de Altemar Di Monteiro, que também integra o elenco, que se completa com Jefferson Saldanha, Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Henrique Gonzaga, Amanda Freire e Maurício Rodrigues. A produção local é de Andressa Cabral, da Mará Cult Produções.

Serviço

Em São Luís, o espetáculo será apresentado dias 6 (Praça Nauro Machado, Praia Grande), 7 (Praça dos Catraieiros, Casa do Maranhão, Praia Grande), 8 (Praça da Ressurreição, Anjo da Guarda) e 9 de dezembro (Largo do Desterro), sempre às 19h. Todas as apresentações são gratuitas. Dias 6 e 7 de dezembro, das 9h às 13h, o grupo realiza uma oficina para artistas da cidade, no Teatro Itapicuraíba (Anjo da Guarda). Dia 8, no mesmo local e horário, acontece um encontro com um grupo local, para intercâmbio e oficina.

FICHA TÉCNICA

Coordenação Geral – Altemar Di Monteiro
Direção ­– Murillo Ramos
Dramaturgia e Assistência de Direção – Altemar Di Monteiro
Elenco – Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Altemar Di Monteiro, Henrique Gonzaga, Amanda Freire, Carlos Magno Rodrigues e Maurício Rodrigues
Contrarregragem – Bruno Sodré, Nayana Santos e Edna Freire
Cenografia – Jefferson Saldanha
Figurino ­– Miguel Campelo
Bonecos – Carlos César
Adereços – Pádua Oliveira
Maquiagem – Kelly Enne Saldanha
Preparação Vocal – Danilo Souto
Preparação Canto – Juliana Veras
Produção – Nóis de Teatro

O homem-tambor volta à terra do tambor de crioula

Carlos Pial se apresenta amanhã e depois em São Luís. Percussionista conversou com o blogue com exclusividade

Ano passado, o percussionista Carlos Pial fez um dos melhores shows do ano, conforme modestamente elegi, na votação anual para o site Scream&Yell, a que compareço a convite do editor Marcelo Costa.

Foi no circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen. Em um show de música instrumental, Pial botou literalmente o povo para cantar e bater palmas, com o fascínio que exerce sobre a plateia – à qual literalmente adentrou, enquanto fazia soar seus instrumentos.

Bruxo, mago, alquimista. Para além de clichês, estas são palavras que traduzem a atuação de Pial no palco. Maranhense radicado em Brasília, costumeiramente se referem a ele como homem-tambor. Não é à toa.

O músico se reencontra com o público maranhense amanhã (5) e depois (6), com o show Alquimia dos Sons, título do dvd que gravou em Brasília/DF, e com o qual tem percorrido o Brasil, com patrocínio do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

Os shows acontecem às 21h, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca. Pial será acompanhado por Hamilton Pinheiro (contrabaixo), Misael Silvestre (piano e teclados), Westonny Rodrigues (trompete), Agilson Alcântara (violão) e Pedro Almeida (bateria). Quarta-feira (5) o instrumentista terá como convidado o Henrique Duailibe Trio; quinta (6) é a vez do Jayr Torres Trio.

Por e-mail, Carlos Pial conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Marcia Foizer

Pial, onde você nasceu e quais são as suas primeiras lembranças musicais? Quando você começa a se interessar por percussão e decidiu que dedicaria a vida a isso?
Nasci em Tocoíra, um lugarejo ribeirinho entre Viana e Cajari, baixada maranhense. Sou de família tradicional de músicos de sopro, onde até hoje continua a tradição repassada de pai pra filhos. Minha vó por parte de mãe era folclorista e tocava caixa do divino. Nasci no dia 30 de junho, dia de São Marçal, um dia fortíssimo e importante em nossa cultura. Daí imagino que, apesar de toda influência dos metais, o que aflorou mesmo em mim foi a caixa e as catracas que minha vó tocava.

Maranhense radicado em Brasília, você acabou por construir uma das mais sólidas carreiras como percussionista no Brasil, seja em seu trabalho como artista solo, seja como músico a serviço de outros músicos ou ministrando oficinas. Mas a gente sabe que chegar até este ponto nunca é fácil. O que você gosta de destacar nessa trajetória?
Vida de músico sabemos que é difícil, e a do percussionista termina ficando mais difícil por ficar sempre no plano de fundo nos palcos, onde só aparecem os guitarristas, tecladistas, enfim [risos]. Com todo respeito a todos os colegas músicos eu tive uma atitude arriscada e que depois ficou prazerosa demais: a coisa de sair da cozinha e vir pra sala. Mostrando a cara mesmo! Onde comecei a desenvolver minhas composições e ideias que eu vinha desenvolvendo e observando meus ídolos maiores: [os percussionistas] Papete e Naná Vasconcelos. Brasília pra mim foi e está sendo um portal para outros povos, por ser uma cidade super cultural e de bom gosto. Através dela estou nesta turnê e consequentemente em minha cidade, claro!

Alquimia dos Sons tem muito de misturas, mas há uma coerência em teu trabalho, não é um cozinheiro maluco jogando qualquer ingrediente na panela. Como foi conceber este espetáculo?
[Risos] Boa! Mencionei cozinha na resposta anterior. O lugar mais gostoso de minha casa, adoro cozinhar e de repente isso me ajudou a usar os ingredientes certos na hora certa. Desde o início do meu trabalho solo sempre misturei ritmos, ideias, foi realmente resultado de pesquisas de trabalhos de alto nível no decorrer desses anos musicais. Alquimia dos Sons tem um pouco de cada momento que venho percorrendo ao longo de minha carreira.

Títulos como Somambembe, Salsamba, Samba candango e Norjazzteando já dão pistas de algumas fusões que comparecem a tuas composições. O que te inspira?
Então, falei um pouco disso na resposta anterior [risos]. Eu nunca gostei da coisa tradicional, ritmo tal, ritmo tal. Uma coisa é um arroz branco muito bom, outra coisa é um arroz de cuxá. Com a mistura dos ingredientes fica melhor o arroz. Penso assim nas minhas músicas.

Vi sua apresentação na edição de São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival ano passado, que elegi na ocasião como um dos melhores shows do ano. Ali, pode-se perceber o domínio que você tem da plateia, botando o público para fazer coro em um show de música instrumental. A que você credita essa empatia?
Muito obrigado por esse elogio. Respondendo sua pergunta, eu brinco com os amigos que sou um cantor frustrado [risos]. Brincadeira! Assisti muitos shows instrumentais, de jazz e outros, onde o músico sola meia hora e na maioria das vezes o público não entendia nada, ficava bocejando e muitas vezes até ia embora. Eu via muitas vezes as pessoas falando mal da música instrumental, até por não conhecer. Via muito o Naná Vasconcelos interagindo e eu via resultados. Achei que poderia fazer isso também. Terminei fazendo com um estilo próprio, e por onde ando percebo que venho agradando públicos de todas as idades.

Uma coisa que também chama a atenção em teus espetáculos é o uso da tecnologia. Você está ao vivo no palco e já vai gravando e usando essas bases gravadas, dialogando consigo mesmo. Como foi desenvolver essa linguagem?
Dando sempre os créditos do que faço sempre, confesso que aprendi muito bem as dicas do saxofonista maranhense Sávio Araújo [radicado em Portugal], com que dividi o palco durante muitos anos. Ele e novamente o mestre Naná Vasconcelos, com quem tive a honra de passar alguns dias em São Luís, num trabalho. Ele me deu muitos toques e foi pioneiro nessa coisa de um percussionista usar tecnologia. Terminei desenvolvendo minha própria forma de usar esta faceta.

Você já citou Papete e Naná Vasconcelos. Quem são os percussionistas fundamentais para tua formação? Por quê?
Papete, Naná Vasconcelos, Jeca [Jecowski], Erivaldo [Gomes], Airto Moreira, Paulinho da Costa. Por quê? Por que eles são os melhores!

Qual a sensação de voltar a tocar em casa, recebendo como convidados amigos de longa data? O que o público pode esperar destas duas apresentações?
A sensação é maravilhosa! Tocar com Henrique Duailibe, um músico extraordinário, com quem toquei muitos anos. Foi ele quem deu a maior força e gravei meu primeiro CD em seu estúdio. Jayr Torres, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, somos amigos de adolescência eu vi todo seu crescimento musical. Foi no trabalho dele que eu toquei pela primeira vez num show instrumental e isso foi fundamental para meu crescimento no gênero. O que o público pode esperar? Muito suingue, quebradeira e muita emoção. Porque estou levando aqui de Brasília os melhores músicos da cidade e alguns dos melhores do Brasil.

*

Assista Mãe Natureza (Carlos Pial):

O trompetista e o palhaço

Foto: Zeqroz Neto

 

Reencontro [2016] é uma bolachinha delicada. Biscoito fino, eu diria, se não fosse fazer merchandising de outra gravadora, que, afinal de contas, não o lançou.

“É como se Chet Baker tocasse choro”. Dizer isto seria uma boa síntese do disco, o jazzista norte-americano influência confessa do niteroiense.

É o disco solo de estreia de Silvério Pontes, trompetista que faz par com o trombonista Zé da Velha na assim chamada “menor big band do mundo”.

Figura fácil em fichas técnicas de incontáveis discos de artistas brasileiros de qualquer matiz, o músico teve ontem seu reencontro com o público ludovicense, num sarau do projeto RicoChoro ComVida Pra Luta, realizado na sede recreativa do Sindicato dos Bancários do Maranhão (Av. General Arthur Carvalho, 3.000, Turu).

Teve como anfitriões Marquinhos Carcará (percuteria), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (violão sete cordas), reunidos no Quarteto Crivador, recepcionados pelo dj Joaquim Zion.

Por diversas vezes brincou: “a gente ensaiou uma semana para chegar a isso aqui”, disse ele, obviamente há menos de uma semana na cidade, tirando onda com a facilidade com que desfilaram juntos um repertório que foi de Jacob do Bandolim (Receita de samba) à parceria de Chico Buarque e João Bosco (Sinhá, em versão instrumental em que o trompetista botou a plateia para cantar o lamento “êêê” do refrão).

Da plateia, convidou a cantora Fátima Passarinho, que topou o desafio e mandou Sem compromisso (Geraldo Pereira). Ao longo da apresentação, com pegada de gafieira, fez dois concursos de dança, sorteando discos da dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, para os casais ganhadores continuarem a dança em casa.

“Eu não queria tocar músicas minhas. É chato esse negócio de ficar ouvindo música nova”, afirmou, modesto, para gargalhadas da plateia. Acabou tocando temas como De Niterói à Vacaria, parceria com o gaúcho Bebê Kramer – “fizemos a música e não tinha título, e resolvemos batizar com os nomes de nossas cidades”, revelou – e Piazzolla no Choro, parceria com Marcelo Caldi que imagina o bandoneón do argentino numa roda brasileiríssima, com citações de Libertango.

“Quem aqui se lembra do Carequinha?”, perguntou obtendo uns poucos braços para cima como resposta. “Tem várias músicas com o Altamiro Carrilho”, lembrando o acompanhamento da bandinha do flautista em discos do palhaço. “O bom menino não faz xixi na cama/ o bom menino não faz malcriação”, cantarolou, imitando a voz.

Contou a tragicômica história de um encontro seu com o ídolo, antes de tocar Hoje tem marmelada, com que homenageia o saudoso artista. “Uma vez eu fui ao circo e me deixaram entrar no camarim do Carequinha. Ele estava se maquiando, botando aquela pintura. Deve ser um horror para um palhaço ser pego nesse momento. Quando ele me viu, perguntou: “meu filho, o que você está fazendo aí?”. E continuou se pintando. Eu era muito fã. Aí eu perguntei por algumas pessoas que trabalhavam com ele. Ele virou e me disse: “fizeram a maior besteira que alguém pode fazer na vida”. Eu perguntei: “o quê?”. E ele: “morreram!”.

Os personagens gigantes de um quadrinhista idem

Duas vidas. Capa. Reprodução

 

Tragicomédia é o termo que bem poderia definir Duas vidas [Les deux vies de Baudouin; tradução de Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 272 p.; leia um trecho], nova graphic novel de Fabien Toulmé, autor da ótima Não era você que eu esperava [Nemo, 2017, 254 p.] – sua estreia, em que transforma um drama particular em matéria-prima de uma baita hq, citada sutilmente neste volume mais recente –, mas a palavra não aparece na capa ou na ficha catalográfica do álbum.

Francês com passagem pelo Brasil (morou em João Pessoa), Toulmé abandonou a profissão de engenheiro civil para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Seu traço tem influência confessa de Hergé, o pai de Tintim.

Como a profissional do autor, uma guinada na vida é o mote de Duas vidas, para o qual escolheu uma epígrafe de Confúcio: “Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma”.

O drama acompanha o reencontro dos irmãos Baudouin e Luc, cujos estilos de vida são absolutamente distintos. O primeiro enterrou o sonho de ser líder de uma banda de rock para se dedicar a um seguro (e monótono) emprego em um grande escritório de advocacia. O segundo viaja pelo mundo inteiro, levado pelo ofício da medicina. O recurso do flashback ajuda o leitor a entender a formação de personalidades tão diferentes, diante da relação com o pai.

De passagem por Paris, Luc ajuda Baudouin a elaborar uma lista de coisas que deseja fazer antes da morte que se avizinha com a descoberta de um câncer terminal. O sofrimento é amenizado por doses de bom humor na medida exata. A viagem agora é em busca do tempo perdido e de perceber o que realmente vale a pena na vida, emoldurada por traços e cores de amor e altruísmo. A habilidade de Toulmé na condução da trama deixa o resenhista absolutamente tranquilo em relação a qualquer possibilidade de spoiler.

Há quadrinhistas que sabem apenas desenhar. Definitivamente não é o caso de Fabien Toulmé, sempre além, com seus personagens, que se agigantam diante das peças que a vida lhes prega.