O tempo de Elomar

Elomar e João Omar durante o concerto “Muntano o Mondengo”, sexta-feira (24), no Teatro Arthur Azevedo. Foto: Zema Ribeiro

 

Além da obra monumental, extensa e singular, que fala por si só, o anacronismo faz de Elomar uma figura ímpar.

Diversas vezes durante o concerto Muntano o Mondengo, apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta-feira passada (24), o artista declarou sua inadequação ao tempo em que vivemos, como se tivesse “descido na estação errada”, para usar suas próprias palavras.

Aos 80 anos, Elomar está em plena forma: pensamento afiado, memória idem, para lembrar as quilométricas letras de suas composições, as mãos dando conta de suas elaboradas melodias. “Se eu voltasse no tempo e fosse fazer tudo de novo, eu ia fazer como rock. Três acordes, às vezes um, e tá tudo certo. E a juventude gosta”, declarou, num dos muitos pontos do show em que fez a plateia rir. A sério, relacionou as opções musicais do povo à situação em que o país se encontra.

“Eu já nem devia estar cantando, minha música está fora de moda”, disse, modesto, ao mesmo tempo em que agradecia a presença do público, que compareceu em bom número ao teatro, aproveitando talvez uma das últimas oportunidades de assistir Elomar por estas bandas. Suas apresentações devem ficar cada vez mais restritas à Casa dos Carneiros, fazenda em que mora e onde construiu um espaço para a apresentação de óperas.

O artista não gosta de viajar de avião, o que torna ainda mais difícil grandes deslocamentos. Ao relembrar o trajeto que fez até São Luís e projetar o que faria de volta até Vitória da Conquista, tornou a brincar: “avião de rico vai direto, de pobre vem pingando. A gente saiu de Vitória da Conquista, foi pra Salvador, de lá para Recife, pernoitamos em uma pensão, de lá para cá. Afora que os pousos são sempre difíceis, eu não sei como é que ateu anda de avião”, afirmou, fazendo a plateia cair na gargalhada.

Outra inadequação de Elomar aos tempos modernos é a dependência humana do celular. Como no show que apresentou no mesmo palco em 2014, novamente o cerimonial foi direto ao frisar a proibição de filmar ou fotografar o espetáculo – tomei a liberdade de fazer um único registro, pensando em ilustrar o que viesse a escrever sobre o show. Em ambas as ocasiões, o menestrel de Vitória da Conquista apresentava, no repertório, alguns temas inéditos.

Numa de suas saídas do palco, em que o filho João Omar ficava sozinho, ao violão, executando peças compostas por Elomar, como Calundu e cacoré, voltou demonstrando insatisfação: disse que não tocaria mais nenhuma das peças inéditas previstas no script. E lembrou-se de diversas ocasiões em que shows seus foram parar “no tubo”, fazendo novamente a plateia gargalhar ao aportuguesar o youtube.

João Omar lembrou-se do tempo em que só encontrava partituras ao viajar, e de como tirava músicas de ouvido, escutando discos como Violão Brasil, do violonista maranhense Turíbio Santos, com a participação especial do idem ibidem João Pedro Borges. Acabaria tomando aulas com ambos e a eles dedicou São João Xaxado, outra peça para violão solo de Elomar.

Depois Elomar voltou atrás e apresentou composições inéditas, entre árias e trechos de óperas, demonstrando o engano de quem acredita ser o baiano um daqueles artistas que vive do passado. Entre suas músicas mais conhecidas, apenas Faviela, Corban e Clariô, a que convidou o público a cantar junto, já no bis – “bis é um porre”, declarou após os pedidos de “mais um”.

Arquiteto de formação, Elomar não poupou elogios à beleza do Teatro Arthur Azevedo, além de fazer os devidos agradecimentos aos técnicos – som e luz irretocáveis, “sem uma microfonia, um piado”, declarou – e à produção, realizada por cúmplices capitaneados pelo “cavaleiro” Aidil Filho, “um idealista” que trouxe Elomar pela segunda vez à ilha – foi quem “tomou a iniciativa” (significado da expressão que intitula o concerto de sexta passada) e encabeçou a organização do concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, em 2014.

O time de cúmplices parece disposto a novas empreitadas. Resta saber se pode contar com o aval de Elomar, que certamente sempre terá um público disposto a ouvi-lo.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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