Hamilton de Holanda apresenta releitura afro de Jacob do Bandolim em São Luís

Músico falou ao blogue sobre influências, carreira e o show de hoje (18) no 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival

Jacob Black. Capa. Reprodução

Reinventor do bandolim, o brasiliense Hamilton de Holanda traz hoje a São Luís o show Jacob Black, cuja base do repertório é um dos quatro discos que dedica a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário – os outros são Jacob 10zz, Jacob Bossa e Jacob Baby.

No 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival ele sobe ao palco da Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), às 21h20, depois de Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, e antes de Ed Motta – veja a programação completa.

Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) estará acompanhado de Rafael dos Anjos (violão) e Bernardo Aguiar (percussão). Já apontado como o Hendrix do bandolim ele nega a referência em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos: está mais para Armandinho Macedo.

Foto: Felipe Diniz

Você está chegando de uma turnê com três discos. Como é administrar essa diversidade de parceiros e formações?
Isso vem em função do artístico, as coisas, as ideias, os encontros, as composições. O show que eu vou fazer em São Luís está muito ligado ao disco que está sendo lançado hoje, que se chama Jacob Black. É um dos quatro discos que eu estou fazendo em homenagem a Jacob do Bandolim. Este é um disco que tem um lado mais ligado à percussão, a características afro da música, foi gravado com dois percussionistas, o Thiago da Serrinha, o Luiz Augusto e o Rafael dos Anjos no violão. Em São Luís eu vou fazer com o Rafael dos Anjos e o Bernardo Aguiar na percussão. A gente vai fazer um show mais ligado a este repertório, mas vou fazer músicas minhas também, Caprichos, muito ligado também à improvisação, a gente gosta muito de improvisar. É tudo em função do artístico, as coisas que vão acontecendo, os encontros, e no final das contas eu acabo que tenho uma porção de discos, mesmo. Eu tenho 40 anos de idade, mas já tenho mais de 30 discos gravados e não paro. E vou fazendo cada vez mais, não quero parar.

Jacob é até hoje considerado a grande referência do bandolim no Brasil, mas você reinventa o instrumento. Há um passo adiante aí quando você coloca duas cordas a mais. Como é que foi esse processo de invenção, esse estalo? E a aceitação, por que você acaba, a partir disso, influenciando outros bandolinistas.
Na verdade, por incrível que pareça, a ideia veio do violão. Quando eu comecei a estudar violão, o universo da harmonia, dos acordes, isso me encantou de uma maneira definitiva. Eu fui aprendendo, tirava as músicas do João Gilberto, as harmonias do Tom Jobim, umas coisas assim de MPB e começava a tentar passar para o bandolim. E começava a tentar fazer aquilo que a gente chama de polifonia, misturando ritmo, harmonia e melodia. Eu via um violão, às vezes um pianista tocando, um acordeonista, tocando aquela coisa cheia, completa, e queria fazer no bandolim também. Daí tive a ideia, pedi para um amigo fazer um bandolim de 10, com um par de cordas mais graves, por que aí eu teria mais possibilidade de fazer essa polifonia. Foi daí a ideia. Isso foi desenvolvido com tempo. Em 2000 foi o ano que ele fez, o Virgílio Lima. No começo de 2002 eu me mudei pra França, fui morar sozinho, aproveitei, desenvolvi um monte de coisas, arranjos, compus músicas especialmente para o 10 cordas, foi um momento que eu desenvolvi bastante um tipo de linguagem para esse bandolim. Na verdade dentro dele também tem o de oito cordas, é um instrumento que você pode tocar as músicas do bandolim de oito cordas como um bandolim de oito cordas, só que ele tem esse recurso. Realmente, hoje em dia, 18 anos depois, eu vejo que muitos músicos estão tocando o bandolim de 10 cordas, alguns que tocavam o de oito passam para o de 10, alguns já aprendem direto o de 10, alguns guitarristas, já vi um monte de guitarristas que adora o bandolim de 10 cordas, não só no Brasil, como em outros países. Eu fico muito feliz de ter contribuído para o bandolim brasileiro.

Você vem obviamente da escola de Jacob do Bandolim, mas já foi considerado pela crítica como o Hendrix do bandolim. Mas a gente sabe que essa fórmula Jacob mais Hendrix é igual a Hamilton de Holanda não é suficiente para te explicar. Quem mais você colocaria no caldeirão de referências e influências?
O Hendrix eu não colocaria, por que ele não me influenciou em nada. Eu o conheci depois, bem depois. Se tem alguém que me influenciou com esse tipo de pegada foi o Armandinho, a influência que eu tive do Hendrix foi pelo Armandinho. Acho que é mais um apelido por alguma coisa relacionada ao instrumento, não à música em si. Eu colocaria o próprio Armandinho, o Raphael Rabello talvez tenha sido o cara que mais me influenciou, o Hermeto Pascoal, o Baden Powell, as composições de Milton Nascimento, do Tom Jobim, do Chico Buarque, os chorões, as músicas mais antigas, o Ernesto Nazareth, adoro jazz, adoro a música flamenca, o Paco de Lucia, me ligo em músicas da Venezuela, fui muito influenciado pela música da Venezuela. A minha maneira de ver a música é realmente plural. Eu tenho a minha língua, assim como nascido no Brasil, eu falo português, é a minha língua mãe, eu aprendi a falar inglês, francês, espanhol, eu aprendi a tocar jazz, a tocar flamenco, são outras linguagens. Mas a minha linguagem materna é o choro, então eu tenho essa possibilidade de ter a minha raiz, a minha árvore, que é o choro, o samba, o frevo, meus pais são pernambucanos, mas meus braços e meus galhos vão crescendo pra lados que eu gosto de conhecer. Eu gosto de música, sou curioso, gosto de conhecer. Por isso minha música tem essa cara, como um Brasil que vai pro mundo.

Você está vindo a São Luís com o show de um disco em homenagem a Jacob do Bandolim, que é um grande nome do choro. São Luís acabou se configurando como uma importante praça de choro, ao lado de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. O que você conhece de música do Maranhão em geral e de choro particularmente?
De choro particularmente eu conheço o Robertinho Chinês, e outro dia eu vi um vídeo do Wendell Cosme, quebrando tudo, muito bom, muito bom, adorei. Eu sei que aí tem uma cena forte, meu amigo das antigas João Pedro Borges, violonista. Ontem mesmo eu estive com a Marrom [a cantora Alcione], no Prêmio da Música [Brasileira], minha amiga. Hoje eu quero conhecer mais gente aí.

*

Ouça A ginga do Mané (Jacob do Bandolim), com Hamilton de Holanda:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Hamilton de Holanda apresenta releitura afro de Jacob do Bandolim em São Luís”

  1. Ainda sou um leitor assíduo deste blog que só mostra matérias de qualidade.
    Parabéns amigo Zema.
    abraços

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