Um olhar privilegiado sobre o maio de 1968

Um ano depois. Capa. Reprodução

 

O trunfo da prosa de Anne Wiazemsky (1947-2017) é nos tornar cúmplices dela e do então marido Jean-Luc Godard em suas perambulações pelos acontecimentos do maio de 1968.

À época com apenas 20 anos, a atriz conduz os leitores por um ângulo sui generis, tornando-nos íntimos, espectadores privilegiados, como a conviver com tantos personagens interessantes que aparecem ao longo das páginas de Um ano depois [Um na après; tradução: Julia da Rosa Simões; Todavia, 2018, 172 p.; R$ 50,00] – o livro foi adaptado ao cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard.

Godard era um ícone da esquerda francesa e de algum modo havia profetizado o mítico mês em que os estudantes tomaram Paris em seu filme A chinesa, lançado em 1967, com Anne Wiazemsky como protagonista.

A autora escancara sua intimidade com o cineasta, de modo poético, entre preferências gastronômicas, o mau humor quase infantil provocado por motivos prosaicos, o trabalho e o ciúme – o homem comum por detrás do gênio do cinema –, longe de soar fútil.

O cineasta se irrita, por exemplo, com a mulher indo à praia em plena greve. Ou com os donos da casa em que se hospedam durante determinada passagem, enquanto Paris literalmente pega fogo. Anne reconta também episódios marcantes como o boicote – liderado por Godard e François Truffaut, de quem se afastaria, posteriormente – ao Festival de Cannes, além do convívio com figuras como o filósofo Gilles Deleuze e o cineasta Bernardo Bertolucci, entre outros.

Em uma reunião em que se discute a gravação de um filme de Godard com os Beatles, o projeto acaba inviabilizado pelo humor de John Lennon. Anne e Paul McCartney enfiam-se debaixo da mesa para tomar chá e comer bolachas – para desespero de Godard, que não acredita muito na versão da própria esposa, ao menos não de cara.

Na sequência, o casal viaja para Londres, onde acaba gravando os Rolling Stones em Simpathy for the devil – as gravações foram interrompidas por um incêndio no prédio do estúdio e a escritora não retoma o assunto.

Anne Wiazemsky também aborda as insatisfações e desilusões de Godard com o cinema e sua ameaça em deixar de praticar a sétima arte – em determinada passagem chama a si mesmo de “Jean-Luc ex-Godard” – e seu quase suicídio motivado por… ciúmes.

A história é contada com rigor e sentimento, sem romantização, em uma prosa delicada, por quem esteve literalmente no olho do furacão. É um olhar inédito e instigante sobre os acontecimentos de maio de 1968, seus desdobramentos e, sobretudo, seus personagens, fundamentais para a vida cultural e política do planeta nos últimos 50 anos, homens e mulheres com seus defeitos e contradições, tão humanos quanto nós, meros leitores e admiradores de seu legado.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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