Novo álbum celebra grandeza de Marcello Quintanilha

Todos os santos. Capa. Reprodução

 

Marcello Quintanilha é, merecidamente, um dos mais festejados quadrinhistas brasileiros da atualidade. Obras como as graphic novels Tungstênio [Veneta, 2014, 186 p.], recém-adaptada ao cinema por Heitor Dhalia [drama, 2018, Brasil, 80 min.], com o próprio Quintanilha no time de roteiristas, e Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.], vêm angariando prêmios no Brasil e lá fora – o niteroiense mora em Barcelona desde o início dos anos 2000.

Todos os santos [Veneta, 2018, 112 p.; R$ 85], seu novo álbum, é uma espécie de portfólio, reunindo os primeiros trabalhos – começou aos 16 anos na carioca Bloch, desenhando roteiros alheios de terror e artes marciais –, desenhos e tiras publicados em jornais e revistas nacionais e estrangeiros (Bravo, O Estado de S. Paulo, Trip, Cândido, El País, Le Monde), além de inéditos – Acomodados!! Acomodados!!, vencedora da I Bienal Internacional dos Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991, permanecia inédita até aqui.

Também merecem destaque a HQ A invasão do sagaz homem fumaça (2000), mais conhecida pelos fãs do Planet Hemp, que deu capa e ilustrou o disco homônimo da então banda de Marcelo D2, retratos de Zeca Pagodinho, Mario Vargas Llosa, Paul Gauguin, Fidel Castro e Fernando Henrique Cardoso, com um fósforo quase a queimar-lhe os dedos, na vã tentativa de iluminar o próprio rosto à época dos apagões de seu governo.

A história se repete como tragédia ou como farsa, como nos ensinou Marx, e as melhores retrospectivas nos permitem perceber esta lição na prática. Um projeto de capa de 2000 retrata um senhor calvo, em seu terno alinhado, portando a faixa presidencial, com as mãos algemadas para trás, sendo conduzido por dois policiais.

Edição de luxo, em capa dura, Todos os santos é aberto com uma respeitável fortuna crítica: o prefácio de ninguém menos que Aldir Blanc à primeira edição de Fealdade de Fabiano Gorila [Conrad, 1999], estreia autoral/solo de Quintanilha no mercado editorial – à época ele assinava Marcello Gaú –, saudado pelo cronista e compositor como “o Rosselini tupiniquim”. Antes dos quadrinhos, o leitor poderá deliciar-se também com uma entrevista de Quintanilha a Paul Gravett, “o mais influente crítico de quadrinhos da Europa”, da inglesa ArtReview, “uma das principais revistas sobre artes plásticas do mundo”, que em 2015 publicou duas páginas do brasileiro – devidamente incluídas em Todos os santos.

Marcello Quintanilha não hierarquiza a importância, para sua carreira, das histórias que publica hoje, em álbuns bem acabados, das que veiculou em publicações baratas a partir da oportunidade adolescente. Todos os santos funciona como uma espécie de guia ou porta de entrada para sua obra, em que se destaca seu agudo talento de cronista, de texto e traço sagazes ao relatar flashes de brasilidade, característica marcante de seu trabalho – a capacidade dos melhores cronistas em eternizar o que nos passaria despercebido se não fosse transformado em obra de arte. Afinal de contas, é disso que se trata.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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