(Para) Sempre Drummond

Autorretrato e outras crônicas. Capa. Reprodução

 

Conhecedor ou não de poesia, a quem quer que se pergunte quem foi Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) certamente se seguirá a resposta: poeta. Poucos lembrarão que ele foi também contista, cronista, funcionário público e efígie na cédula de 50 cruzados novos, entre o fim da década de 1980 e início da de 90.

Quem se lembrar do mineiro apenas como poeta não está cometendo erro, crime ou pecado: é que mesmo escrevendo em prosa, o que Drummond fazia era poesia, como atesta o oportunamente recém-relançado Autorretrato e outras crônicas [Record, 2018, 255 p.; R$ 40], cuja primeira edição – póstuma – data de 1989. Quando lançado, o livro inaugurava um parque gráfico da editora; agora, celebra outra efeméride: os 75 anos (completados em 2017) da casa editorial. Organizado por Fernando Py, a folha de rosto do volume alerta: “edição única comemorativa”. Correi às livrarias, pois, os fãs do poeta – mesmo enquanto cronista.

O livro revela uma prosa delicada, colhida em jornais e revistas, apresentadas cronologicamente, a partir da que dá título ao volume, entre 1943 e 1970, versando por temas diversos: de flores, frutas e estrelas aos feitos da ciência, passando por futebol, recenseamento, a mineirice, o hippie “faça amor, não faça guerra”, escritores e escritoras obscuros/as à época – alguns ainda hoje. Ou mais ainda hoje.

Difícil escolher melhores momentos em um livro composto inteiramente deles. Seu obituário do pintor e compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966) é simplesmente comovente, bem como o perfil do poeta Mário Quintana (1906-1994). Em Obrigado, Bahia, gaba-se (na falta de termo melhor) – “Jogando fora minha extraordinária modéstia”, começa o texto –, do dia em que seu poema Quadrilha foi lido por um deputado estadual na Assembleia Legislativa da terra de Caetano e Gil – citados na crônica.

Em A banda, crônica de outubro de 1966, publicada no Correio da Manhã, saúda Chico Buarque de Holanda, “um rapaz de pouco mais de vinte anos”: “que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente”, arremata, esperançoso (e certeiro), quando alguns críticos torceram o nariz ao compositor, apostando num modismo passageiro.

O que faz um livro como Autorretrato é, através de um grande autor, demonstrar a grandeza da crônica, gênero literário – e jornalístico – genuinamente brasileiro, infelizmente por vezes tido como menor. Em geral é o que se salva na memória dos leitores ao embrulhar de peixes na feira do amanhã.

Deixo-lhes com uma crônica de Autorretrato, livro cujo texto mais novo já conta quase 50 anos, provando que feliz ou infelizmente, Drummond segue atual.

QUANDO

Quando o poder, que emana do povo, deixa de ser exercido, ou contra o povo se exerce, alegando servi-lo;

quando a autoridade carece de autoridade, e o legítimo se declara ilegítimo;

quando a lei é uma palavra batida e pisada, que se refugia nas catacumbas do direito;

quando os ferros da paz se convertem em ferros de insegurança;

quando a intimidação faz ouvir suas árias enervantes, e até o silêncio palpita de ameaças;

quando faltam a confiança e o arroz, a prudência e o feijão, o leite e a tranquilidade das vacas;

quando a fome é industrializada em slogans, e mais fome se acumula quanto mais se promete ou se finge combater a fome;

quando o cruzeiro desaparece no sonho de uma noite de papel, por trás de um cortejo de alegrias especuladoras e de lágrimas assalariadas;

quando o mar de pronunciamentos frenéticos não deixa fluir uma gota sequer de verdade;

quando a gorda impostura das terras dadas enche a boca dos terratenentes;

quando a altos brados se exigem reformas, para evitar que elas se implantem, e assim continuem a ser reclamadas como dividendo político;

quando os reformadores devem ser reformados;

quando a incompetência acusa o espelho que a revela dizendo que a culpa é do espelho;

quando o direito constitucional é uma subdisciplina militar e substitui a disciplina pura e simples;

quando plebiscito é palavra mágica para resolver aquilo que a imaginação e a vontade dos que a pronunciam não souberam resolver até hoje;

quando se dá ao proletariado a ilusão de decidir o que já foi decidido à sua revelia, e a ilusão maior de que é em seu benefício;

quando os piores homens reservam para si o pregão das melhores ideias, falsificando-as;

quando é preciso ter mais medo do governo do que dos males que ao governo compete conjurar;

quando o homem sem culpa, à hora de dormir, indaga de si mesmo se amanhã acordará de sentinela à porta;

quando os generais falam grosso em nome de seus exércitos, que não podem falar para desmenti-los;

quando tudo anda ruim, e a candeia da esperança se apaga e o If de Kipling na parede não resolve;

então é hora de recomeçar tudo outra vez, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no terremoto.

Correio da Manhã, 14 de setembro de 1962 (p. 87-89)

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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