Um terreiro apimentado

Foto: Zema Ribeiro

 

Entre os muitos presentes à Praça Maria Aragão nesta noite de São João – como de resto por outros arraiais por onde a maranhense Alexandra Nícolas passou com seu show Feita na pimenta –, poucos devem ter percebido estar diante de um show nacional, embora a artista tenha recebido o mesmo cachê de um/a artista local.

Longe de pretender aqui determinar uma hierarquia, sobretudo em detrimento do artista local. Digo isto tão somente para apontar que a artista trouxe a São Luís parte do grupo com que gravou seu segundo disco no Rio de Janeiro e frisar o profissionalismo com que encara qualquer compromisso, numa preocupação que inclui repertório, arranjos, figurino e, sobretudo, conquistar a aprovação do público.

O show de hoje começou atrasado, por conta da apresentação de uma dança country que não consta na programação do arraial. Como Alexandra Nícolas tinha outra apresentação agendada também para hoje, no Arraial do Sesc, precisou deixar o palco cantando menos do que o previsto. Mesmo com uma apresentação menor, ao longo dela a cantora conseguiu interagir com o público, botando o povo pra cantar e dançar junto.

“Quem aí troca um chamego por um like? Eu não troco”, perguntou e respondeu antes de mandar Chamego encantado (João Lyra/ Zeh Rocha): “ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, é um chumbrego só/ tô ficando assanhadinha/ vem dançar, me dá um nó”.

O repertório privilegiou faixas de Feita na pimenta – o locutor ao chamá-la ao palco cravou um “feito na pimenta”, que ela corrigiu com elegância, ao cantar a faixa-título (Marco Duailibe), cujo compositor estava na plateia. Antes, ensinou o refrão: “feita na pimenta/ feita na pimenta/ vê se não me atenta/ que eu sou feita na pimenta”, que o público imediatamente repetiu. Tá pegando fogo e Forrobodó, ambas de Betto Pereira, também não deixaram ninguém parado.

“Vamos conversar mais um pouquinho enquanto eles se resolvem”, ganhou tempo enquanto os técnicos ajustavam o som. “Maestro, me avisa quando for a hora”, pediu a João Lyra. “É hora de olhar pra quem está do seu lado”, provocou, antes de cantar Teu (Zeca Baleiro/ Anastácia). “Essa eu ganhei de Zeca Baleiro e ele cantou comigo no meu disco”, contou, emocionada.

Discípula de Jackson do Pandeiro, ela incluiu em seu roteiro De Teresina a São Luís (João do Vale/ Helena Gonzaga), O canto da ema (João do Vale/ Ayres Viana/ Alventino Cavalcante) e Na base da chinela (Rosil Cavalcanti/ Jackson do Pandeiro), esta com a letra incompleta, mas traduzindo bem o espírito da noite.

“Eu agora vou me despedir de vocês, mas pergunto: alguém aqui, nas próximas eleições, pretende votar em fuleiro?”, perguntou, para um “não” em uníssono. E mandou o Coco fulero (João Lyra/ Zé Rocha), delicioso trava-língua de cunho político, durante o qual apresentou a banda, um luxo só: Bebê Krammer (sanfona), Rui Alvim (saxofone) – impressionante o diálogo entre seus instrumentos –, João Lyra (guitarra, arranjos e direção musical), Arlindo Carvalho (percussão), Fleming Bastos (bateria), Regina Oliveira, Natália Coelho e Suassuna (vocais).

O povo queria mais, não sei se pelo costume do “mais um” ou se pelo show ter sido menor. Mas não há show menor quando se tem Alexandra Nícolas no palco.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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