Nove perguntas para Juliano Gauche

Afastamento. Capa. Reprodução

 

Escrevi sobre Afastamento, terceiro disco solo de Juliano Gauche, para o site do Itaú Cultural. Para tanto, conversei com o artista capixaba radicado em São Paulo. A quem interessar possa, eis o papo:

Juliano Gauche em foto de Haroldo Saboia

Afastamento começa com Silmar Saraiva, homenagem a uma figura de tua terra natal. No release do disco, Jotabê Medeiros comparou a faixa a um épico dylanesco. Gostaria que falasse um pouco mais sobre o personagem e a comparação.
O Saraiva era de uma turma um pouco mais velha que a minha. Ele, Seliomar Lobão, Adalberto Albino, Kim Kaveira… foram esses caras que fizeram minha cabeça, em Ecoporanga. Eles são meus ídolos, meus santos. E a música fala disso: de indivíduos que se machucam atrás de experiências transformadoras, das respostas difíceis, da verdade, da liberdade, e de um povo mecanizado, repetitivo, frio, guiado por sistemas de falsas seguranças.  Acho que o que o Jotabê quis colocar é que Silmar Saraiva se encaixa nos moldes das canções longas do Dylan que também citam personagens em seus títulos.

Pra festejar em silêncio é uma declaração de amor a Sil Ramalhete, sua esposa e produtora? Que papel tem ela no som que você vem fazendo desde o disco solo de estreia? Pergunto pela declaração que ela postou por estes dias em uma rede social, ela comenta algo sobre interferir em teu som.
Pra festejar em silêncio é sobre o amor em tempos de guerra. Foi inspirada pelo Grande Sertão: Veredas. Nela, eu projeto minha vida com a Sil, nossa travessia entre o mesmo sistema que vou frisar aqui o tempo todo, nossa militância aberta contra esse sistema, nossa vontade de fugir dessas armadilhas… Temos um mundo próprio, ultrarromântico, onde construímos tudo juntos. Tudo que eu faço é cantar esse mundo que a gente vive nele.

Pelas temáticas, Longe, enfim e Dos dois, são as músicas que mais diretamente dialogam com o título do disco, Afastamento. Do que você buscou se afastar nesse disco?
O afastamento está em todas as músicas do disco. Principalmente o afastamento do indivíduo do seu meio. Como também o afastamento do indivíduo de si mesmo. Na Dos dois há o tradicional afastamento entre parceiros. E na Longe, enfim o afastamento é a fuga da realidade através da energia sexual. Não teve uma busca por afastamentos necessariamente. Só me dei conta de que esse movimento é muito comum ao meu redor. E tem um efeito estranho. Meio duplo. Afastamentos trazem frieza, vazios; mas também alívios, ar, outras forças. Foi isso que mapeou o disco.

Em se tratando de um deslocamento, sempre que nos afastamos de algo nos aproximamos de outro algo. Assim, do que você se aproximou neste terceiro disco?
Acho que me aproximei mais de mim mesmo. Comecei este trabalho muito subdividido. Era membro de uma banda. Era intérprete das coisas do [Sérgio] Sampaio. Trabalhos com personalidades diferentes. E em nenhum deles eu me expressava plenamente. E é isso que eu estou buscando desde o primeiro disco. Talvez por isso tanto deslocamento. Pra me achar. E acho que estou conseguindo. Como diz o refrão: com uma pequena ajuda dos meus amigos.

Tua voz de autor é única. Mas já é meio que uma tradição a cada disco você trazer uma música de um parceiro, neste disco Tem dia que é demais, parceria com Gustavo Macacko. Fale um pouco de parceiro e parceria.
O Macacko é um dos meus parceiros mais antigos. Ele foi um dos que me receberam em Vitória quando fui morar lá. Fizemos muita coisa juntos. Muitos shows. Uma banda que só tocava Raul [Seixas]. Produzi o primeiro disco solo dele. E numa de suas passagens por aqui, fizemos a Tem dia que é demais.

Dos cachorros sisudos, faixa que encerra o disco, é a mais diretamente relacionada à violência dos dias em que vivemos, sob a égide de um golpe e a iminência do retorno à ditadura. A seu ver, é impossível para o artista, hoje, se alienar?
Só se for um artista conservador de boas com o sistema. Maconheiros como eu, que não gostam de igreja, nem de televisão, e principalmente de ordens militares, vão ter um pouquinho de problema pra ficar quietinho alienado.

A meu ver, Afastamento é um título natural para um disco teu, cuja vida, de algum modo, é feita de afastamentos: primeiro de sua terra natal, ao se aventurar por São Paulo, depois de Sérgio Sampaio, ídolo a quem chegou a dedicar um disco inteiro de covers. Esse seria apenas um comentário, não necessariamente uma pergunta, aí eu aproveito para emendar: qual a tua relação com Roberto Carlos e Rubem Braga, para citar outros capixabas famosos, adorados e motivos de orgulho para os conterrâneos?
Do Roberto eu gosto do projeto como um todo, aquelas gravações, aqueles arranjos, a ousadia dos primeiros discos, o Erasmo, o perfeccionismo, a grandeza. O Rubem tem aquela violência bonita, aquele jeito de sofisticar com palavras simples. Tentei absorver o melhor que pude dos dois também.

A exemplo de seus discos anteriores, Afastamento também foi disponibilizado para audição e download gratuito. O que te motiva a distribuir tua obra gratuitamente? Alguma convicção, sinal dos tempos ou a impossibilidade de lutar contra isso?
É aquela coisa. Quando é de graça o produto é o consumidor. Ou algo assim. Mas quando a pessoa se conecta à minha música, ela agrega valor ao meu trabalho com um todo. Continua tudo refém dos números. As moedas é que são outras.

Além da banda que tradicionalmente te acompanha, afastamento conta com a participação especial dos guitarristas cearenses Edson Van Gogh [de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes] e Fernando Catatau [do Cidadão Instigado], quase onipresente em se tratando da música pop contemporânea que vale a pena. Como se deram essas amizades e presenças no disco e como foi trabalhar com eles?
Conheci o Catatau desde que a Sil começou a trabalhar na produção do Cidadão Instigado. Vi o disco Fortaleza nascendo. A primeira vez que ouvi foi com ele cantando o disco em cima das bases gravadas, tipo karaokê. Muito emocionante. E desde o início ele foi me apresentando coisas e mais coisas. Mostrando referências de toda espécie. Durante o processo de gravação do [Nas estâncias de] Dzyan, eu já consultava muito ele. Trazer ele pro disco foi muito natural. E o Vang Gogh eu conheci na casa do Catatau também. Começamos a conversar lá e não paramos até hoje. A gente interrompe e quando se encontra, volta do mesmo lugar. Há anos.

*

Ouça Afastamento:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Nove perguntas para Juliano Gauche”

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