Solidão e ironia

Todos nós. Capa. Reprodução

 

Carlos Careqa é um dos artistas mais incompreendidos, e consequentemente injustiçados, do Brasil. Problema do Brasil.

“Feito às próprias custas. Este disco não recebeu nenhum incentivo fiscal”. O recado no encarte atesta a necessidade de fazer música, fina ironia e um eco de Itamar Assumpção, a quem Careqa dedica Morrer ainda vai ser um bom negócio, faixa que, citando verso do próprio Itamar, encerra Todos nós [Barbearia Espiritual Discos, 2018], seu novo álbum.

“Mas a canção me fez refém por uma vida inteira. Me casei com a música. A musa de todas as horas. Difícil analisar o próprio trabalho assim de chofre, mas quero deixar rastros pelo caminho percorrido. Alguém vai escutar”, anota em texto no encarte. Azar o dos que não o fizerem.

Marcio Nigro (violões, teclados, contrabaixo) é citado nominalmente por Careqa neste mesmo texto, como aquele “que entende um pouco minhas propostas e transforma tudo em algo mais mastigável”. O núcleo central do disco se completa com Thiago Big Rabello (bateria) e Luiz Guello (percussão).

Fernanda Takai canta com Careqa na divertida Karma Wall, com metade da letra em inglês, sobre um carnaval no Japão. Em Canção de autoajuda (parceria com Delia Fisher), destila ironia sobre o que comumente é considerado sucesso. “Eu vou fazer uma canção de autoajuda/ uma canção que seja fofa/ uma canção que seja muda”, provoca a letra.

A faixa-título ganha os reforços de Luiz Amato (violino) e Fabio Tagliaferri (viola) ao versar sobre uma contradição característica de nossa época: a solidão em tempos de hiperconectividade. A bela letra de Mãe não é tudo (parceria com Chico César) louva a dedicação das mulheres a seus filhos em qualquer tempo e circunstância.

“Enquanto você faz mil acordes/ para explicar sua canção/ a minha única intenção/ é repousar meu coração”, Careqa puxa o cartão de visitas em Da bolacha ao farelo, faixa que abre Todos nós. Quem o acha complicado certamente o faz sem tê-lo ouvido. “Alguém vai escutar”. Hora apropriada para ser esse alguém.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s