Um mundo em extinção

Severina. Cartaz. Reprodução

 

Um sebista solitário, ermitão, com pretensões literárias permite a visita constante de uma cliente cujo único intuito é roubar livros. Atraído por sua beleza e por seu gosto literário, ele acaba se apaixonando pela mulher misteriosa, a despeito de logo descobrir não ser sua única vítima: ela tem um séquito de livreiros furtados e corações partidos. É esta paixão o mote de Severina [Brasil/Uruguai, 2018, drama; direção: Felipe Hirsch; em cartaz no Cine Lume], antes de qualquer coisa uma bela declaração de amor aos livros.

Parece falar sobre um mundo que não existe mais: os personagens dialogam com uma arquitetura tida como decadente, apenas em nome de um suposto conforto e segurança trazidos pela modernidade – a urbe tem papel destacado no filme, nos passeios a pé do casal protagonista, ou de bicicleta, quando ele sai à procura dela.

Parece falar sobre um mundo que não existe mais, no qual, por conta desta mesma suposta modernidade, não há mais espaço para sebos, livrarias de rua ou cinemas fora dos ambientes climatizados dos shopping centers e vizinhos de barulhentas praças de alimentação.

Mais que aos livros, Severina é uma declaração de amor à literatura, ao cinema, às artes em geral, e a um modo de vida infelizmente a cada dia mais tido como démodé, sem espaço para qualquer delicadeza.

A película mistura elementos de drama, comédia romântica e romance policial. O espectador, qual um detetive, se vê envolto num mistério, a começar por saber se o enredo aconteceu de fato (ainda que na ficção) ou se é tudo fruto da imaginação do protagonista.

Severina. Frame. Reprodução

 

Baseado no livro homônimo, do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, Severina percorre o convívio entre o sebista e a mulher misteriosa, loucuras de amor, o cotidiano de um casal que lê junto, e um velho em coma. Em tempo: o diretor é brasileiro, o casal protagonista argentino (Javier Drolas e Carla Quevedo) e o filme foi rodado em Montevidéu, no Uruguai.

Obviamente Severina é recheado de citações literárias, entre capas expostas no sebo, nas mãos dos leitores, trechos lidos em tertúlias ou sublinhados pelo livreiro, a vida imitando a literatura (e o cinema) e ajudando a construir a narrativa, de rara delicadeza poética.

A determinada altura, por exemplo, quando o livreiro oferece seu sebo para pagar uma dívida por furtos passados de sua companheira, outro sebista, já tendo aceitado o negócio, troca toda a livraria por um único exemplar, supostamente roubado por ela da biblioteca de Jorge Luis Borges, com anotações do escritor nas bordas do livro, gesto cuja grandeza somente será compreendida pelos devotados aos “objetos transcendentes”.

Bob Dylan, não exatamente um escritor, apesar de ter escrito livros, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, dado que não está em Severina. Dele lembro apenas para dizer do enorme prazer proporcionado, como se já não bastasse tudo isso, por citações a Hermeto Pascoal e João Gilberto.

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Veja o trailer:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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