Confluência de talentos celebra a atualidade do universo de Aracy de Almeida

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés. Capa. Reprodução

 

Cronista de primeira linha e um dos artífices do samba, Noel Rosa (1910-1937) deixou vasta obra a despeito de ter morrido de tuberculose aos 26 anos.

Aracy de Almeida (1914-1988), sua maior intérprete, companheira de boemia, foi a responsável pela preservação da memória do Poeta da Vila nas décadas seguintes a seu falecimento.

Hermínio Bello de Carvalho, testemunha ocular de acontecimentos importantes do samba e da música popular brasileira, enciclopédia e lenda viva, produtor de rara sensibilidade – não à toa foi o descobridor de Clementina de Jesus, para ficarmos num único exemplo –, segue na ativa.

Foi ele o inventor do encontro de Marcos Sacramento (voz) e Luiz Flavio Alcofra (violão e arranjos) no espetáculo Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés, que finalmente ganha o merecido registro em disco [Acari Records, 2018], ambos, a propósito, batizados por uma das alcunhas dadas à homenageada pelo próprio Hermínio.

O repertório não é dedicado exclusivamente à obra de Noel Rosa, embora ele seja o autor de nove das 17 músicas, registradas pela dupla (com a cuíca de Daniel Boechat em Triste cuíca [1935], de Noel Rosa e Hervé Cordovil, que abre o disco) em deliciosos medleys – somente Não sou manivela (Ary Barroso, 1953) e São coisas nossas (Noel Rosa, 1932) ganharam registro em faixas exclusivas.

Os arranjos caprichados de Alcofra e a interpretação vigorosa de Sacramento em um universo ao qual já está habituado – já havia gravado a faixa de abertura, por exemplo, no antológico Memorável samba [Biscoito Fino, 2003] – dão ideia da importância de Aracy de Almeida e seu legado para o samba e a música popular brasileira, embora costumeiramente ela seja lembrada simplesmente como uma jurada ranzinza de programas televisivos de calouros.

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés é um disco que faz justiça à sua memória e demonstra também a atualidade de inspirados cronistas, que versam sobre questões que ainda persistem no Brasil, que não consegue superar golpes e mazelas outras. Casos do Noel Rosa de Onde está a honestidade? [1933], sobre patrimônios sem origem em trabalho ou herança, e Século do progresso [1937], sobre o convívio brasileiríssimo de diversão e violência.

A alegria (apesar da miséria) do subúrbio é tema de Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Baptista e Ciro de Souza, 1941). Tenha pena de mim (Babahú e Ciro de Souza, 1937) torna ao tema da honestidade, essa espécie de atestado de otário em terra em que o crime compensa: “todos vivem muito bem/ só eu que vivo assim/ trabalho, não tenho nada/ não saio do miserê!”, lamenta a letra, arrematada pela perseverança (outra característica tão brasileira) do personagem em seguir no caminho certo: “eu vivo tão tristonho,/ fingindo-me contente/ tenho feito força/ pra viver honestamente”, finaliza.

*

Confira interpretação ao vivo para um dos medleys do disco: Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1942)/ Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Batista e Ciro de Souza, 1941):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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