Cheiro de música

[release]

Batalhão de Rosas. Capa. Reprodução

 

Se música tem perfume, a de Lena Machado tem aroma de liberdade. As flores sempre marcaram presença em sua trajetória musical, iniciada em 2006, com Canção de Vida, título tomado emprestado de verso de Oração Latina, hino de Cesar Teixeira – compositor mais frequente no repertório de seus álbuns.

Em Samba de Minha Aldeia (2009), uma flor enfeitava o cabelo da moça da capa, a própria cantora. No aguardado Batalhão de Rosas (2018), as flores voltam ao centro das atenções. “Por meu destino encantado, eu vim/ venço o inimigo pra me sagrar/ os pés feridos de anjo noturno/ mas cheguei pra representar”, anuncia a letra da faixa-título, de Bruno Batista.

Vida e obra se confundem na coerência desta artista-cidadã, senhora de seus destinos, enquanto mulher e cantora, que tem dedicado seus trabalhos, nos campos social e artístico, a tornar o mundo melhor – ou ao menos mais leve o fardo da existência.

Após Canção de Vida, cujo repertório era dedicado a canções emblemáticas dos movimentos sociais brasileiros, e Samba de Minha Aldeia, inteiramente dedicado ao samba produzido por compositores maranhenses, Lena Machado alça, em Batalhão de Rosas, seu mais ousado desabrochar – em se tratando de arte tudo é possível, até mesmo uma flor desabrochar várias vezes.

Liberdade, palavra e sentimento tão necessários nestes tempos, é chave para entendermos o quão à vontade Lena Machado se sentiu para proporcionar a seu fã-clube – que certamente dirá que valeu a pena esperar (tanto) após ouvir o álbum – o prazer proporcionado por esta dúzia de canções, escolhidas a dedo, ouvidos, alma e coração.

Lena Machado grava gente daqui e de fora, entre músicas conhecidas e inéditas (Preta, de Fernanda Preta e Camila Cutrim, e Sete Ervas, de André da Mata e Zé Katimba), num passeio pelo Brasil e sua diversidade rítmica, em arranjos que deixam à mostra a herança ancestral da negritude africana com tempero latino que molda os ritmos da cultura popular do Maranhão, aqui tão bem desenhados por sua bela voz e emoldurados pelos inspirados arranjos de Wendell Cosme (cavaco, produção, direção musical e, com a cantora, seleção de repertório), Wesley Sousa (teclado, piano) e Israel Dantas (violão).

O time de músicos se completa, numa ponte São Luís-Rio de Janeiro, com Camilo Mariano (bateria), Jamil Joanes (contrabaixo), Jorginho do Trompete, JP (percussão), Marcelo Braga (saxofone), Pretinho da Serrinha (percussão), Rui Mário (acordeom) e Wanderson Silva (percussão), além dos vocais de Rohni Grato, Gil Costa e Cassiano Sobrinho, e as participações especiais de Nicolas Krassik (violino em Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira), Rogério Caetano (violão sete cordas em Caminho de Pescador, de Henrique Menezes, Flanelinha de Avião, de Cesar Teixeira, e Sete Ervas) e Yassir Chediak (viola caipira em Sete Ervas). À beleza musical se soma a do projeto gráfico, de Ronilson Freire, sobre fotos de Rivanio Almeida Santos, que capturam a cantora em meio às belezas naturais da praia do Caúra, em São José de Ribamar/MA.

Cabe destacar as compositoras mulheres – importante redundar, ainda mais no plural – de parte do repertório: Didã (Banca de Honestidade), Fernanda Preta e Camila Cutrim (Preta) e Alessandra Leão (Bom Dia).

“Deus brinca no mar maresia/ nadando num peixe e na pedra/ se brota semente não mente/ somente poeta e poesia”, diz a letra de De Deus (Bené Fonteles), sintetizando as reverências e referências ao sagrado – inserida aí a própria música – no trabalho de Lena Machado. “A noite é um quadro negro/ que ensina mais que a luz/ havia virtude em Judas/ havia vício em Jesus”, subverte a letra de Duas Ilhas (Zeca Baleiro e Swami Jr.), num disco em que a subversão é também uma marca, com as músicas quase sempre transformando-se (desabrochando?) durante sua execução, não raro hibridizando gêneros.

Sete Ervas, que encerra Batalhão de Rosas, resume o espírito do disco, a fé e a força (e a força da fé) da intérprete: “já falei que comigo ninguém pode/ sou pimenta, alecrim, manjericão/ quem tentar me atrasar leva sacode/ foi meu Pai quem firmou meus pés no chão”. Pés no chão e “a alma em pleno voo” (como na letra de Asas da Paixão, de Joãozinho Ribeiro, que abre o disco) e o coração “um passarinho solto” (como em Namorada do Cangaço).

Para cheirar com os ouvidos e perfumar a alma e o coração.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

7 comentários em “Cheiro de música”

  1. Salve Lena Machado , ela é divina, sou sua fã , tô levando cds dela p Sampa, p divulgar lá juntamente c o de César Teixeira e Joãozinho Ribeiro Viva a música popular brasileira !! Viva os cantores e compositores maranhenses !!

  2. Lena Machado, bela voz, bela mulher, encanta todos nós em seu mais recente CD “Batalhão de Rosas”, com belas canções de grandes compositores maranhenses, vale a pena conferir … parabéns Lena Machado, torcendo p seu sucesso !!!

  3. Que CD gostoso de se ouvir. Melhor ainda passeando pelo Centro Histórico de São Luís, num fim de tarde.
    Gostei muito da regravação da música Banca de Honestidade da compositora Didã, um clássico da Vida é Uma Festa.
    Para os mais jovens e “antenados” já está disponível para se ouvir na plataforma digital Deezer, segue o link:

    https://www.deezer.com/fr/album/62484022

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