É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom

Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro

 

Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.

O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.

O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.

Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.

Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).

A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.

“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.

O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.

Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.

“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.

“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.

Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.

A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.

Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [em Fulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.

“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.

“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.

Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.

“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.

O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.

Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.

Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

7 comentários em “É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom”

  1. Zema Ribeiro, um bom dia a você meu camarada!!
    Pela primeira vez participo do seu ilustre blog, cujo foco prnicipal agora é a Arte, mais precisamente à música popular maranhense. Obrigado por nos oferecer toda essa preciosidade que é a riqueza que a música maranhense!!!!!
    Horas, eu já ia me esquecendo de lhe perguntar: Meu nobre camarada ZemaRibeiro, você poderia me retratar verdadeiro caráter do “jornalista José Linhares Jr por favor?

    1. Magno, obrigado pela participação. Sobre a última pergunta, como bem ensinou Basílio Lopes Gama, o padre Carapuceiro, “dos vícios falar, não das pessoas”, prefiro não comentar. Abraço!

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