O Divino e o guia

O Divino em mim. Frame. Reprodução
O Divino em mim. Frame. Reprodução

 

Vinicius Maciel é literalmente o guia de O Divino em mim [documentário, Brasil, 2018, 30 minutos]. Guia de turismo em Alcântara, o jovem chama a atenção pela enorme barba e grandes alargadores que usa nas duas orelhas – além do sorriso cativante, que ele mesmo destaca, longe de imodesto, em uma de suas falas.

É ele que a câmera de Luiza FC – que assina direção, roteiro, câmera e edição do documentário – segue ao longo de meia hora de filme, com depoimentos de outros personagens importantes da Festa do Divino de Alcântara, a mais tradicional e possivelmente a mais longeva do Brasil, como a bandeirinha Andressa, o coordenador Seu Moacyr, as caixeiras Marlene e Romana, entre outros.

Vinicius é narrador, mas o protagonista é o Divino Espírito Santo, a festa a ele devotada, exercício de fé em catolicismo popular que une sacro e profano.

Distante pouco mais de 22 quilômetros de São Luís, o município de Alcântara é cinematográfico e sobrenatural, o que por si só já garante belas imagens. Luiza FC opta pelo percurso que faz a maioria absoluta dos turistas que vai até o município: de barco, a partir do cais da Praia Grande, em São Luís, atravessando a Baía de São Marcos, em uma viagem de cerca de uma hora. Já durante a travessia Vinicius começa a falar de sua relação com o município e com a festa.

É um filme que abarca a importância dos festejos para a população local, para o turismo de Alcântara, da preservação da tradição e, de modo divertido, as relações desta com o dia a dia do lugar: os papéis de cada homem e mulher na sua realização – a Festa do Divino tem lugar certo no calendário religioso, mas mobiliza tarefas durante todo o ano – e o bom humor de quem a faz, entre doses de licor, cachaça e conhaque, doces de espécie (iguaria típica do lugar) e uma bandinha de metais e percussão tocando músicas religiosas e sambas e marchinhas como Trem das onze (Adoniran Barbosa) e O teu cabelo não nega (José Victor Valença, José Raul Valença e Lamartine Babo). Nunca é demais lembrar que é desse híbrido de sagrado e profano que surge a Dança do Cacuriá, cuja base rítmica é alicerçada nas caixas do Divino.

O documentário foi realizado pela maranhense Luiza FC como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da USP. Sábado passado (28), às vésperas do início de mais uma Festa do Divino, o filme foi exibido em Alcântara, no Café com Arte (Rua Grande, 76, próximo à Casa do Divino). Hoje (30), às 18h, O Divino em mim será exibido no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca.

As sessões do filme integram a Mostra Divino Tambor, junto com o documentário Coreiras, da documentarista também maranhense Júlia Antunes, com apoio da Unesp. Semana que vem os filmes terão exibições no Rio de Janeiro (serviço na imagem abaixo).

Divulgação

Provando do próprio veneno

Eu não sou um homem fácil. Frame. Reprodução

 

Eu não sou um homem fácil [Je ne suis pas un homme facile, 2018, 98 minutos, produção: Netflix] é uma comédia inteligente sobre a guerra dos sexos. Equilibra-se entre engraçadíssimo e caricato, mas propõe reflexões importantes e urgentes.

Seu protagonista, Damien (Vincent Elbaz), um machista contumaz (redundância intencional), bate a cabeça e acorda em um mundo em que os papéis se invertem e os homens passam a sentir na pele (literalmente) toda a opressão desde sempre relegada às mulheres: agora são os homens as vítimas de assédio, os que se preocupam com a barriga que o chope pode proporcionar, os que recebem cantadas nas ruas, os que precisam se depilar, já que “pelo é sinônimo de nojeira”, entre outras violências a que as mulheres sempre estiveram submetidas, supostamente em nome de padrões morais, estéticos e, por que não dizer?, machistas.

O filme faz pensar rindo (ou rir pensando), ao tocar de forma bem-humorada numa chaga social, infelizmente naturalizada, pois profundamente enraizada por diversas culturas, geografias e tempo afora. Eu não sou um homem fácil demonstra como seria ridícula essa troca de lugares de opressores/as e oprimidos/as.

A diretora Eleonore Pourriat já havia pautado o tema no curta-metragem Maioria oprimida [Majorité Opprimée, 2010], em que os papéis também se invertem e um homem é vítima de opressão pelo simples fato de ser homem.

Não chega a ser um libelo anti-machista, mas pode levar à desnaturalização de certos padrões nocivos de comportamento. Tanto que o protagonista, após voltar ao “mundo real”, de antes da pancada na cabeça, engaja-se numa passeata pelos direitos das mulheres. Como deveríamos fazer todos/as nós, homens e mulheres, na construção de uma sociedade justa e igualitária.

Liberdade e esperança pavimentam retorno do Cordel do Fogo Encantado

Foto: Tiago Calazans

 

Um dos mais interessantes grupos surgidos após o boom do movimento MangueBit, o Cordel do Fogo Encantado lançou três discos fundamentais – o homônimo Cordel do Fogo Encantado (2001), O Palhaço do Circo sem Futuro (2002) e Transfiguração (2006, produzido por Carlos Eduardo Miranda e Gustavo Lenza) – e retirou-se de cena.

Com referências teatrais – o nome da banda é herdado de um espetáculo de sucesso de uma companhia cujos membros do Cordel do Fogo Encantado integraram – e da literatura de cordel – escancarada também no nome do grupo, a trupe unia vigor musical e cênico, nos registros em disco e nas apresentações ao vivo.

Viagem ao Coração do Sol. Capa. Reprodução

Num tempo em que a derrocada da indústria fonográfica é cada vez mais apregoada – apesar das controvérsias – e o consumo de faixas soltas em serviços de streaming é a onda do momento, é tamanha a ousadia de um disco como Viagem ao Coração do Sol (2018), quarto título da discografia do Cordel do Fogo Encantado, por sua unidade poética e sonora (longe da monotonia), algo que por si só já mereceria loas.

O novo disco, cujo título evoca 20 Palavras ao redor do Sol (1979), estreia da paraibana Cátia de França, transforma a banda em, além de interessante, necessária, ao cantar a liberdade e a esperança, artigos raros hoje em dia. Lirinha (voz), Clayton Barros (violões e voz), Nego Henrique (percussões e voz), Emerson Calado (percussões e voz) e Rafael Almeida (percussões e voz) mantêm a força que caracterizou a sonoridade e a po/ética do grupo, com Viagem ao Coração do Sol soando como o que de fato é: um disco antenado com o atual momento do Brasil e do mundo reais e da Interlândia ficcional, terra metafórica cantada na geografia particularíssima do disco.

O cearense Fernando Catatau (guitarra tenor, samples, teclados, coral e violão de aço), da instigante Cidadão Instigado, acaba por tornar-se membro honorário do Cordel do Fogo Encantado: o músico participa de quase todas as faixas.

O disco abre com O sonho acabou (Lirinha), poema nem de longe pessimista: “O sonho acabou. E só assim saímos de dentro da Terra em direção ao Sol. O mundo agora é esse: precisamos falar com a filha do vento, a que chamam liberdade”, diz, anunciando o roteiro de Viagem ao Coração do Sol.

“Liberdade/ (Mas quem te ensinou o caminho dos poetas?)/ Liberdade amor/ (O teu nome é pouco)/ Liberdade/ (Passarinho louco)/ Aquele rio é vermelho…”, Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha) provoca os doentes de ódio, os que espumam ao ouvir palavras como a que dá título à música e/ou vermelho.

Pra cima deles passarinho ou Semente brilhante (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) dialoga diretamente com o Mário Quintana do célebre “eles passarão/ eu passarinho”. Tem uma carga simbólica fortíssima que nos leva a pensar “nas flores vencendo o canhão”, embora outros, ao contrário do Cordel do Fogo Encantado, não tenham conseguido manter a coerência. “Vai, vai, vai/ Mais forte vai, vai/ No seu caminho/ Pra cima deles passarinho”, atiça a letra.

Conceição ou Do tambor que se chama Esperança (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) enaltece a força de negros, mulheres, moradores das periferias brasileiras. Impossível não pensar em Conceição Evaristo e Marielle Franco. “Ninguém apaga a tua história/ Escrita por tuas guerreiras/ Na tinta negra da memória”, proclama.

Poema declamado com trilha, Eternal Viagem (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) é um diálogo entre homem (Lirinha) e mulher (Nataly Rocha, em participação especial), cuja letra incorpora versos de Manoel Filó, de imagem poética fortíssima – “Todo dia o sol mata a madrugada/ toda tarde vai preso novamente” – a um verso que parece servir de síntese ao momento de trevas por que passa o Brasil: “a nossa sorte é ter coragem”.

A instrumental Cavaleiro das Estradas do Sol (Clayton Barros) conta com as participações especiais de Catatau e Manassés, num diálogo intergeracional de cearenses de raro talento e habilidade nas cordas, em homenagem ao percussionista Naná Vasconcelos, produtor do disco de estreia do grupo, numa espécie de volta às origens ou fechamento de ciclo. Não esquecer o passado é chave para a construção de um futuro melhor. O Cordel do Fogo Encantado fez o seu dever de casa.

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Veja o clipe de Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha):

Um duplo (re)play feminino

Homem de vícios antigos, este blogue, completa hoje (28) 14 ininterruptos anos no ar.

Em clima de retrospectiva, ligeira e possível, mas anunciando novidades, torno a duas mulheres sobre cujas obras já escrevi por aqui.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

A primeira, a cantora mineira Titane e seu disco mais novo, Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, sobre o qual escrevi para a coluna Emaranhado, no site do Itaú Cultural, e cuja entrevista publiquei cá no blogue. A novidade é que desde ontem o disco está disponível nas plataformas de streaming, vale ouvir.

A segunda, Monique Moraes, diretora e roteirista de Mulheres que transformam a ilha, em cuja sessão de estreia tive a satisfação de estar presente. A novidade é que o documentário está disponível no youtube para quem quiser ver/rever:

Confluência de talentos celebra a atualidade do universo de Aracy de Almeida

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés. Capa. Reprodução

 

Cronista de primeira linha e um dos artífices do samba, Noel Rosa (1910-1937) deixou vasta obra a despeito de ter morrido de tuberculose aos 26 anos.

Aracy de Almeida (1914-1988), sua maior intérprete, companheira de boemia, foi a responsável pela preservação da memória do Poeta da Vila nas décadas seguintes a seu falecimento.

Hermínio Bello de Carvalho, testemunha ocular de acontecimentos importantes do samba e da música popular brasileira, enciclopédia e lenda viva, produtor de rara sensibilidade – não à toa foi o descobridor de Clementina de Jesus, para ficarmos num único exemplo –, segue na ativa.

Foi ele o inventor do encontro de Marcos Sacramento (voz) e Luiz Flavio Alcofra (violão e arranjos) no espetáculo Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés, que finalmente ganha o merecido registro em disco [Acari Records, 2018], ambos, a propósito, batizados por uma das alcunhas dadas à homenageada pelo próprio Hermínio.

O repertório não é dedicado exclusivamente à obra de Noel Rosa, embora ele seja o autor de nove das 17 músicas, registradas pela dupla (com a cuíca de Daniel Boechat em Triste cuíca [1935], de Noel Rosa e Hervé Cordovil, que abre o disco) em deliciosos medleys – somente Não sou manivela (Ary Barroso, 1953) e São coisas nossas (Noel Rosa, 1932) ganharam registro em faixas exclusivas.

Os arranjos caprichados de Alcofra e a interpretação vigorosa de Sacramento em um universo ao qual já está habituado – já havia gravado a faixa de abertura, por exemplo, no antológico Memorável samba [Biscoito Fino, 2003] – dão ideia da importância de Aracy de Almeida e seu legado para o samba e a música popular brasileira, embora costumeiramente ela seja lembrada simplesmente como uma jurada ranzinza de programas televisivos de calouros.

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés é um disco que faz justiça à sua memória e demonstra também a atualidade de inspirados cronistas, que versam sobre questões que ainda persistem no Brasil, que não consegue superar golpes e mazelas outras. Casos do Noel Rosa de Onde está a honestidade? [1933], sobre patrimônios sem origem em trabalho ou herança, e Século do progresso [1937], sobre o convívio brasileiríssimo de diversão e violência.

A alegria (apesar da miséria) do subúrbio é tema de Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Baptista e Ciro de Souza, 1941). Tenha pena de mim (Babahú e Ciro de Souza, 1937) torna ao tema da honestidade, essa espécie de atestado de otário em terra em que o crime compensa: “todos vivem muito bem/ só eu que vivo assim/ trabalho, não tenho nada/ não saio do miserê!”, lamenta a letra, arrematada pela perseverança (outra característica tão brasileira) do personagem em seguir no caminho certo: “eu vivo tão tristonho,/ fingindo-me contente/ tenho feito força/ pra viver honestamente”, finaliza.

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Confira interpretação ao vivo para um dos medleys do disco: Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1942)/ Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Batista e Ciro de Souza, 1941):

Cheiro de música

[release]

Batalhão de Rosas. Capa. Reprodução

 

Se música tem perfume, a de Lena Machado tem aroma de liberdade. As flores sempre marcaram presença em sua trajetória musical, iniciada em 2006, com Canção de Vida, título tomado emprestado de verso de Oração Latina, hino de Cesar Teixeira – compositor mais frequente no repertório de seus álbuns.

Em Samba de Minha Aldeia (2009), uma flor enfeitava o cabelo da moça da capa, a própria cantora. No aguardado Batalhão de Rosas (2018), as flores voltam ao centro das atenções. “Por meu destino encantado, eu vim/ venço o inimigo pra me sagrar/ os pés feridos de anjo noturno/ mas cheguei pra representar”, anuncia a letra da faixa-título, de Bruno Batista.

Vida e obra se confundem na coerência desta artista-cidadã, senhora de seus destinos, enquanto mulher e cantora, que tem dedicado seus trabalhos, nos campos social e artístico, a tornar o mundo melhor – ou ao menos mais leve o fardo da existência.

Após Canção de Vida, cujo repertório era dedicado a canções emblemáticas dos movimentos sociais brasileiros, e Samba de Minha Aldeia, inteiramente dedicado ao samba produzido por compositores maranhenses, Lena Machado alça, em Batalhão de Rosas, seu mais ousado desabrochar – em se tratando de arte tudo é possível, até mesmo uma flor desabrochar várias vezes.

Liberdade, palavra e sentimento tão necessários nestes tempos, é chave para entendermos o quão à vontade Lena Machado se sentiu para proporcionar a seu fã-clube – que certamente dirá que valeu a pena esperar (tanto) após ouvir o álbum – o prazer proporcionado por esta dúzia de canções, escolhidas a dedo, ouvidos, alma e coração.

Lena Machado grava gente daqui e de fora, entre músicas conhecidas e inéditas (Preta, de Fernanda Preta e Camila Cutrim, e Sete Ervas, de André da Mata e Zé Katimba), num passeio pelo Brasil e sua diversidade rítmica, em arranjos que deixam à mostra a herança ancestral da negritude africana com tempero latino que molda os ritmos da cultura popular do Maranhão, aqui tão bem desenhados por sua bela voz e emoldurados pelos inspirados arranjos de Wendell Cosme (cavaco, produção, direção musical e, com a cantora, seleção de repertório), Wesley Sousa (teclado, piano) e Israel Dantas (violão).

O time de músicos se completa, numa ponte São Luís-Rio de Janeiro, com Camilo Mariano (bateria), Jamil Joanes (contrabaixo), Jorginho do Trompete, JP (percussão), Marcelo Braga (saxofone), Pretinho da Serrinha (percussão), Rui Mário (acordeom) e Wanderson Silva (percussão), além dos vocais de Rohni Grato, Gil Costa e Cassiano Sobrinho, e as participações especiais de Nicolas Krassik (violino em Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira), Rogério Caetano (violão sete cordas em Caminho de Pescador, de Henrique Menezes, Flanelinha de Avião, de Cesar Teixeira, e Sete Ervas) e Yassir Chediak (viola caipira em Sete Ervas). À beleza musical se soma a do projeto gráfico, de Ronilson Freire, sobre fotos de Rivanio Almeida Santos, que capturam a cantora em meio às belezas naturais da praia do Caúra, em São José de Ribamar/MA.

Cabe destacar as compositoras mulheres – importante redundar, ainda mais no plural – de parte do repertório: Didã (Banca de Honestidade), Fernanda Preta e Camila Cutrim (Preta) e Alessandra Leão (Bom Dia).

“Deus brinca no mar maresia/ nadando num peixe e na pedra/ se brota semente não mente/ somente poeta e poesia”, diz a letra de De Deus (Bené Fonteles), sintetizando as reverências e referências ao sagrado – inserida aí a própria música – no trabalho de Lena Machado. “A noite é um quadro negro/ que ensina mais que a luz/ havia virtude em Judas/ havia vício em Jesus”, subverte a letra de Duas Ilhas (Zeca Baleiro e Swami Jr.), num disco em que a subversão é também uma marca, com as músicas quase sempre transformando-se (desabrochando?) durante sua execução, não raro hibridizando gêneros.

Sete Ervas, que encerra Batalhão de Rosas, resume o espírito do disco, a fé e a força (e a força da fé) da intérprete: “já falei que comigo ninguém pode/ sou pimenta, alecrim, manjericão/ quem tentar me atrasar leva sacode/ foi meu Pai quem firmou meus pés no chão”. Pés no chão e “a alma em pleno voo” (como na letra de Asas da Paixão, de Joãozinho Ribeiro, que abre o disco) e o coração “um passarinho solto” (como em Namorada do Cangaço).

Para cheirar com os ouvidos e perfumar a alma e o coração.

Após sucesso de Andarilho Parador, Djalma Chaves e Nosly levam turnê a municípios maranhenses

[release]

Nosly e Djalma Chaves percorrerão 10 municípios maranhenses com Andarilho Parador. Foto: Fafá Lago

 

Após uma turnê de sucesso que percorreu Imperatriz/MA e as capitais São Luís/MA, Belém/PA, Brasília/DF, Fortaleza/CE e Teresina/PI, realizada entre o fim de 2015 e o início de 2016, os músicos Djalma Chaves e Nosly retornam à estrada com Andarilho Parador, show que reúne no palco estes dois talentosos e versáteis artistas.

Desta vez, Andarilho Parador percorrerá 10 municípios maranhenses. A nova turnê tem início já neste fim de semana, quando os artistas percorrem Timon (28 de abril, às 21h, no Bar Sertão de Dentro – Av. Jaime Rios, 370, Parque Piaui), Caxias (29 de abril, às 19h, no Completo Turístico Memorial da Balaiada – Av. General Sampaio, 297-339, Cangalheiro) e Bacabal (1º. de maio, no Sesi – Rua Frederico Leda, s/nº., Centro). Neste último o show integrará as comemorações pelo Dia do Trabalhador. Ao público recomenda-se a doação de alimentos não perecíveis, que serão destinados às vítimas das enchentes no Maranhão.

No show, Djalma Chaves (violão e voz) e Nosly (violão, guitarra e voz) percorrem suas trajetórias artísticas, relembrando grandes sucessos seus, de conterrâneos, e nomes consagrados da música popular brasileira. A banda que os acompanha é formada por Murilo Rego (teclados e vocal), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo), Sued Richarllys (guitarra) e Fleming Bastos (bateria). A produção é de Tatiana Ramos.

Além dos três municípios deste fim de semana, até junho a turnê percorrerá ainda palcos em Barreirinhas, Pedreiras, Pinheiro, Rosário, Santa Inês e Vargem Grande, sendo encerrada em São Luís. Acompanhe a agenda na fanpage de Andarilho Parador.

“Estamos muito contentes em poder chegar, com este show, ainda mais perto do povo do Maranhão. Será literalmente uma grande viagem musical. João do Vale, um dos nomes lembrados no repertório, aprecia as paisagens numa viagem de trem numa conhecida música sua. Vamos fazer essa troca com o público: vamos apreciar essas paisagens que tanto nos inspiram e oferecer às plateias nossa melhor paisagem sonora”, comemora Djalma Chaves.

“Em time que está ganhando não se mexe. Em outros estados, outras capitais, a turnê Andarilho Parador foi exitosa. Estamos realmente muito felizes em poder proporcionar a nosso público querido estas apresentações, lembrando músicas nossas, de artistas conterrâneos, alguns nascidos em cidades pelas quais vamos passar, além, é claro, da alegria que é reencontrar estes parceiros de palco e vida, com quem tocar é sempre um enorme prazer”, completa Nosly.

O show Andarilho Parador toma emprestado os títulos dos discos mais recentes dos artistas: Andarilho, de Djalma Chaves, e Parador, de Nosly. A turnê tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

César Nascimento: a síncope-síntese

[release]

Violão de coreiro. Capa. Reprodução

Alguns dos convidados, gente graúda, que entende do riscado, apontam o caráter sui generis do violão de César Nascimento, em um dvd (e cd) misto de show (gravado ao vivo em estúdio), documentário, making of e antologia, não por acaso intitulado Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão.

O dvd/cd passeia pela trajetória artística de César Nascimento, por acaso nascido no Piauí, mas maranhense de alma e música – e título concedido pela Assembleia Legislativa do Estado, bem como à sua música Ilha magnética, espécie de hino paralelo de São Luís (não registrada no dvd/cd), tornada bem cultural do Maranhão por decreto legislativo.

César Nascimento é também cidadão ludovicense, em título concedido pela Câmara Municipal de São Luís. Por aqui aprendeu a percussão maranhense como coreiro do Tambor de Crioula de Mestre Felipe, que difunde na oficina “Crivador, matraca e pandeirão – uma viagem pelos ritmos do Maranhão”, que ministra onde quer que seja chamado desde 1996.

Mais que um título do tipo best of, Violão de coreiro perpassa os mais de 30 anos de carreira de César Nascimento, contados a partir de sua participação no histórico LP do Festival Viva de Música Popular do Maranhão, em 1985. O dvd/cd alterna hits radiofônicos de sua autoria, músicas menos conhecidas e a inédita, antenada e bem-humorada You no tube também (parceria com Almino Henrique), sempre valorizando as nuances de seu violão, longe de didático ou hermético.

Apaixonado pelos ritmos da cultura popular do Maranhão, o artista transpôs para as seis cordas a polirritmia dos diversos sotaques do bumba meu boi, o frenesi contagiante do tambor de crioula e a pulsação do reggae, entre outras levadas.

Gravado entre Rio de Janeiro e São Luís, entre o estúdio Aldeia e as ruas, terreiros e arraiais, há um clima junino, evocado no cenário e nas locações, mas César Nascimento não realiza um projeto datado, “de estação”: é como se espichasse os festejos juninos para o ano inteiro – embora também a “composição” de que fala o subtítulo de Violão de coreiro não se restrinja ao período em que se celebram Antonio, João, Pedro e Marçal.

Por falar em divindades, César Nascimento acerca-se de grandes nomes da música brasileira para revisitar o repertório autoral do dvd/cd. Cacau Amaral, Camaleão, Fauzi Beydoun, Gerson da Conceição, Guilherme Mará, Ícaro Gaspar, Manassés, Nelson Faria, Pandeiro Repique Duo, Paulo Calazans, Renata Gaspar, Santiago Batera, Trio Cazumbá e Zé Américo Bastos (em ordem alfabética) comparecem entre o ofício musical, depoimentos e bastidores, dividindo com o anfitrião o set list de Violão de coreiro.

Entre as faixas de Violão de coreiro estão Catirina e o mar, em cujos versos César Nascimento une os universos da cultura popular do Maranhão com outras expressões artísticas como a pintura e o cinema, em citações de Salvador Dali, Caribé e Neville d’Almeida, entre outros, Reggae sanfonado, também pródiga em citações – Bob Marley, Luiz Gonzaga, Paulinho da Viola e o Bloco Tradicional Os Foliões –, Maguinha do Sá Viana (parceria com Alê Muniz), O radinho e Sapato pra todo pé (parceria com Vicente Telles), entre outras.

O verso inicial de Catirina e o mar (que abre o dvd/cd) é um convite: “ê, Catirina, venha ver a pintura que acabei de conceber”. É literalmente uma pintura este mosaico musical de um artista radicado há 18 anos no Rio de Janeiro, que tem dedicado vida e obra a fazer ecoar por onde anda os tambores do Maranhão – e para isso, está mais que provado, precisa apenas de seu violão. De coreiro.

Ficha técnicaViolão de coreiro tem direção, roteiro e montagem de Felipe Hutter, direção musical e coordenação geral de César Nascimento, gravação e mixagem de Gabriel Tauk, masterização de Alexandre Rabaço, direção de arte de Davi Theo e Raquel Theo (que também assina o cenário), produção de Mariana Musse, imagens de Felipe Hutter, Gregori Bastos e Milosz Wieckowski, produção executiva de Wilson Zara, finalização e autoração de Cartola Studio. Cd, dvd, show de lançamento e oficinas têm patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Sectur), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Serviço – O dvd/cd Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão será lançado em show no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro, São Luís/MA), dia 4 de maio (sexta-feira), às 21h. Os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada ao Lar Pouso da Esperança.

É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom

Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro

 

Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.

O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.

O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.

Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.

Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).

A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.

“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.

O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.

Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.

“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.

“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.

Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.

A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.

Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [em Fulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.

“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.

“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.

Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.

“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.

O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.

Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.

Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.

Música com tempero certo

Foto: Veruska Oliveira

 

Poucas artistas nascem tão maduras quanto Alexandra Nícolas. Nascer é modo de dizer: até sua estreia fonográfica com Festejos [Acari, 2013] foram cerca de 20 anos de burilamento. O fato é que cinco anos após o debute, ela lança Feita na pimenta [2018, distribuição: Tratore], dando meia guinada.

Feita na pimenta. Capa. Reprodução

Festejos era dedicado ao universo do samba, embora com um pé no Nordeste e em seus ritmos característicos, em geral abrigados sobre o guarda-chuva do que se convencionou chamar de forró. Em Feita na pimenta ela pisa – literalmente – com os dois pés no salão, fazendo dançar agarradinho. Em comum entre os discos, o elogio ao universo feminino e à liberdade de a mulher ser e fazer o que bem entender. Como ela, que nos apronta esta maravilha.

O repertório é, como anuncia o título, apimentado, quente, vibrante. Como atesta em texto no encarte Zeca Baleiro, seu convidado em Teu (parceria dele com a lenda viva Anastácia): “Ouvir seu Feita na pimenta nos remete a um tempo de alegria e delicadeza da música popular, como se estivéssemos ouvindo o alto-falante de um arraial perdido na memória”.

Apropriadíssimo para o período junino, “Viva São João!”, como ela canta em Preta Chica (parceria de Roque Ferreira com Paulo César Pinheiro, autor da íntegra do repertório de seu disco de estreia, única faixa presente apenas no disco físico, não disponível nas plataformas digitais), Feita na pimenta é disco para ser ouvido em qualquer época. A faixa citada, a propósito, tem a letra tão hilariante que faz sorrir até mesmo o clarinete de Rui Alvim.

O repertório é alegre, faz dançar sem abrir mão de fazer pensar. Coco fulero (João Lyra e Zeh Rocha), que fecha o disco, primeiro single lançado, é antenadíssimo com o atual momento político vivido no Brasil. “Fulero voto mais não”, diz um verso, longe de pregar alienação nestes tempos.

A faixa-título, composta para a voz e a performance de Alexandra Nícolas por Marco Duailibe, é deliciosa e direta: “Menino tu não me atenta/ não mexe com quem tá quieta/ eu fui feita na pimenta/ sou mulher na dose certa/ eu sou palha com faísca/ sou fogo que não se apaga/ quando eu rodo minha crioula/ ninguém prende a minha saia”, diz a letra.

Alexandra Nícolas cavucou um repertório que, longe de soar saudosista, nos leva de volta a certa inteligência e delicadeza perdidas na música popular brasileira: duplos sentidos e trocadilhos com inteligência, emoldurados pelos arranjos inventivos de João Lyra, que toca violão, viola e guitarra e assina ainda a direção musical.

Na capa e encarte de Feita na pimenta, Alexandra Nícolas posa sorridente na comunidade quilombola de Itamatatiua, em Alcântara/MA, para fotos de Veruska Oliveira em projeto gráfico de Raquel Noronha, garantindo perfeita sintonia entre embalagem e conteúdo musical.

O sorriso da cantora transborda, como as pimentas malaguetas vermelhas com que contracena no tacho da casa de farinha da locação, e contagia: sua alegria é percebida no jeito de cantar, no registro da dúzia de músicas que compõe Feita na pimenta, e nas intervenções bem-humoradas que realiza aqui e acolá.

Ouvir o disco é criar intimidade imediata com Alexandra Nícolas, que canta cada vez melhor, como atesta a magistral interpretação de Chamego encantado, outra da lavra da dupla João Lyra e Zeh Rocha. “Olho no olho e chamego. Muito chamego”, como ela também escreve no encarte. Chamego, aliás, uma das palavras-chave do disco, seja o ritmo popularizado por Luiz Gonzaga (entre tantos outros abrigados sob o genérico rótulo de forró ou música nordestina), seja o sinônimo de namoro, carícia, excitação.

Alexandra Nícolas é maranhense e certamente motivo de orgulho para os conterrâneos, mas é artista que não cabe em rótulos, sequer geográficos. Canta para o Brasil e para o mundo, sem, no entanto, perder as referências do lugar de origem. Tanto que a Feita na pimenta comparecem os conterrâneos Betto Pereira (autor de Forrobodó e Tá pegando fogo, em que o forró conversa de igual para igual com o tambor de crioula) e César Nascimento (autor de Serenin, em parceria com Vicente Teles), ícones do que se convencionou chamar de música popular maranhense, há algum tempo, além de João Madson (O segredo do coco).

Mas as antenas de Alexandra estão apontadas para a frequência do que lhe dá alegria e prazer em cantar – talvez por isso ela faça tão feliz seu fã-clube, a atestar que a espera valeu a pena. Assim, coloca aqueles em diálogo com mestres como Anastácia (O sucesso da Zefinha) e João Lyra (Clichê de forró, em parceria com Adelson Viana), autores de faixas sobre o próprio universo do forró.

“Sanfoneiro toque toque toque/ toque toque toque/ pra gente dançar/ tua sanfona toca toca toca/ no meu coração” é o primeiro pedido que a cantora faz, em Sanfoneiro, toque, parceria de João Lyra com sua filha Joana Lyra. É também o primeiro reconhecimento ao talento do sanfoneiro Adelson Viana. Forró bom é forró bem tocado e além dos já citados, Alexandra Nícolas acerca-se de Antonio Rocha (flauta e flautim), Cassio Cunha (bateria), Cristóvão Bastos (piano elétrico e pad), Durval Pereira (percussão), Jamil Joanes (baixo), Rogério Caetano (violão sete cordas), Rui Alvim (sax alto e clarinete) e Zé Leal (percussão), além do coro de Ana Zinger, Jamil Filho, Marcio Lott e Viviane Godoy.

Forró bom é forró bem tocado. E neste caso, bem pensado. Bem dançado já é por sua conta!

Serviço

Feita na pimenta, o disco, tem patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Alexandra Nícolas está em turnê de lançamento e realiza os seguintes shows: hoje (13), no Clube dos Democráticos (Rio de Janeiro); amanhã (14), no Canto da Ema (São Paulo); e terça-feira (17), na Autêntica (Belo Horizonte), sempre às 22h.

Cliques firmes e posição clara

“Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo”. Foto: Pablo Albarenga
Enterro do agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos, Reserva Te’ykue, município de Caarapó. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guarani Kaiowá realizam vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, durante um protesto contra o Marco Temporal, uma interpretação da Constituição que busca modificar as regras para a demarcação de terras indígenas no Brasil. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guaraní Kaiowá. Foto: Pablo Albarenga

 

Não se sabe o que restará aos/dos indígenas numa eventual nova intervenção militar, conforme ameaçou um general da reserva em uma rede social. O Brasil deixou de fazer muitas lições de casa: não puniu sequer um agente da repressão, ao contrário de outros vizinhos latino-americanos que também viveram sob a égide de uma ditadura, e indígenas, infelizmente, ainda são lembrados apenas no 19 de abril quando nossas crianças têm o rosto pintado na escola.

Uma antológica reportagem de Laura Capriglioni, publicada no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em 11 de novembro de 2012, dá conta da violência ao quadrado praticada pela ditadura militar contra indígenas: a criação da Guarda Rural Indígena obrigava indígenas à prática da tortura entre si, com demonstrações públicas do pau de arara, brasileiríssima contribuição ao arsenal mundial de técnicas de tortura. O volumoso Os fuzis e as flechas – História de sangue e resistência indígena na ditadura [Companhia das Letras, 2017, 518 p.], do jornalista Rubens Valente, aprofunda a abordagem da relação do Estado brasileiro com os indígenas – foram centenas de mortes – durante os anos de chumbo.

O tempo passa e nada mudou. É o que demonstra a exposição conjunta Mantenho o que disse, da fotógrafa brasileira Ana Mendes e do fotógrafo uruguaio Pablo Albarenga, que será inaugurada no próximo dia 14 de abril (sábado), em Montevidéu, no Uruguai. Os 80 painéis fotográficos da dupla contam a vida dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ao lado das imagens, 15 frases de políticos brasileiros sobre a questão indígena, ditas publicamente.

“Vamos parar com a essa discussão sobre terra. A terra enche barriga de alguém?”; “Temos que produzir sustentabilidade. Ensinar a pescar”; e “Estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, estão aninhados ali”, são algumas das “pérolas” proferidas por quem legisla e fala sobre o que não entende.

Realização do Centro de Fotografia de Montevidéu (CDF), Mantenho o que disse fica em cartaz até 11 de junho na Fotogaleria Prado. A programação da exposição inclui bate-papo com os autores e oficina de fotografia com João Roberto Ripper [que assina o texto de abertura da exposição; leia tradução ao fim do post] – veja a programação completa no site do CDF.

Ana Mendes está cursando Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e é coautora de Ostreiros [Pitomba, 2016, 120 p.], com Bruno Azevêdo. Ela falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Ana Mendes em campo, na Aldeia Laranjeira Nhanderu, com o cacique Guarani Kaiowá Faride Mariano. Foto: Pablo Albarenga

Mantenho o que disse é fruto de três anos de trabalho. Suas idas às aldeias já imaginavam uma exposição ou você esteve lá por outro motivo e o material realizado acabou tornando-se esta exposição?
​​​Eu estive nos territórios por conta de reportagens que fiz pra alguns veículos, em especial a Amazônia Real, que em 2016 e 2017 se dedicou a acompanhar a questão dos Guarani e Kaiowá​. Mas como estratégia pra dar continuidade às documentações que estou fazendo, sempre aproveito o embalo de trabalhos e fico um tempo a mais nos locais. No Mato Grosso do Sul cada vez que ia ficava dois, três meses. E em duas dessas ocasiões estive nas aldeias com o Pablo. A gente se conheceu lá, na verdade, dividindo angústias, compartilhando medos e coragens. Ele é um fotógrafo uruguaio que nunca tinha documentado o Brasil, mas entrou de cabeça. E o convite pra fazer uma exposição partiu dele. Eu não acho que o trabalho esteja concluído, ao contrário, acho que é só o começo. Costumo dizer que faltam ainda 13 anos de documentação nos Guarani e Kaiowá. Isso porque fui formada enquanto documentarista pelo fotógrafo João Roberto Ripper e ele fotografou esse povo durante 16 anos.

Recentemente Walter Firmo esteve em São Luís, ministrando uma oficina. Em uma palestra inaugural, comentou a liberdade que passou a ter quando abandonou o fotojornalismo em 1985. Você é fotojornalista, atuando em veículos independentes. Como você avalia o cenário, nestes tristes tempos de fake news?
​Eu acho que na roupagem tradicional o jornalismo reprime mesmo as possibilidades de comunicar histórias múltiplas. Mas a reinvenção recente do jornalismo, que vem a partir da internet e da falência de certos jornalões, não nos permite mais pensar o jornalismo como prisão. Eu sou uma entusiasta da comunicação! E me encantam as experiências concretas de comunicação popular – quando os narradores das histórias são o próprio povo. Sobre fake news, acredito que isso não é novo, certo? Novas são as ferramentas. Mas os pregadores da moral e bons costumes sempre estiveram aí difamando as cabeças rebeldes e livres.

Na exposição que você divide com o Pablo, há um atrito entre as imagens e as legendas, estas retiradas de falas de políticos, em tese representantes do povo brasileiro, mas sempre negando direitos dos indígenas, ao contrário das fotografias, que re-afirmam estes mesmos direitos. Como surgiu a ideia e como foi desenvolvê-la até chegar a este resultado?
​Eu acho que certas experiências só têm porta de entrada. E esse é o nosso caso com a questão indígena. Uma vez que você testemunhou coisas profundamente tristes e coisas profundamente felizes ao lado de um povo, você troca as lentes com as quais vê o mundo. O sentido das coisas se inverte. A Dona Miguela, uma índia de quase 80 anos, nunca mais comeu guavira – porque a monocultura é o único horizonte da Terra Indígena Guyraroká, onde ela vive, no município de Caarapó. A saudade de um pé de planta, do gosto de uma fruta, nunca vai ter importância pra uma política de Estado. Mas o apagamento das memórias é o primeiro passo do genocídio de um povo. Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo. Prova disso são essas frases de cunho racista que incitam o ódio. Isso gera morte real, concreta. Por conta da gravidade dessa campanha anti-indígena que ocorre no país nos pareceu necessário trazer as frases, apontar quem disse o quê e quando. Não me lembro como a ideia surgiu, eu sei que o acervo de frases só cresce desde que começamos a pesquisar. Na exposição colocamos 15, mas existem muitíssimas mais, infelizmente.

O cenário ainda é bastante incerto no Brasil, mas há uma pré-candidatura à presidência da República que conta com a indígena Sônia Guajajara como candidata a vice, na chapa. O que você pensa a respeito?
Eu acho que Sônia pode fomentar o debate sobre a questão indígena, trazer o assunto finalmente pra pauta.  Mas eu sou bastante cética com a política partidária. Eu me afino mais com movimentos contra-hegemônicos. E acredito que alguns povos indígenas vêm ganhando autonomia, criando novos jeitos de fazer política. Os Ka’apor, também do Maranhão, são um exemplo. Não significa que não vá haver bons frutos pra se colher nesse momento de debate eleitoral com Sônia, uma liderança importante, uma mulher indígena. Com certeza estarei atenta aos passos de Sônia e vou vibrar se a candidatura dela causar incômodo e minimamente abalar as estruturas ocupadas há tantos séculos pelos mesmos nomes.

Verso do postal da exposição. Reprodução

MANTENHO O QUE DISSE

POR J. R. RIPPER

“Ana Mendes e Pablo Albarenga são fotógrafos com grande domínio técnico e conhecimento tanto do jornalismo quanto do documental. Estudam o tema que fotografam e tomam uma posição clara. Não ficam atrás das cercas nem empregam essa hipócrita imparcialidade que tanto se ensina nas escolas de jornalismo. Suas fotos proclamam a defesa dos direitos humanos e, em particular, dos direitos das comunidades indígenas.

Seu trabalho rende homenagem à história de grandes fotógrafos. “As pessoas são mais importantes que as fotos”, dizia [o fotógrafo Henri-Cartier] Bresson. Seu compromisso me recorda [os fotógrafos] Eugene Smith e Lewis Hine. Às vezes suas câmeras fotografam com o coração, noutras, colocam a cabeça em frente à câmera e não atrás, como dizia [o fotógrafo] Oliverio Toscani.

O trabalho que apresentam é fantástico. Desnuda o bruto e vigente genocídio que se está levando a cabo no Brasil e, com ele, a postura assassina que toma os poderes em meu país”. (Tradução: Zema Ribeiro)

Sem tirar de dentro

A ginga de Patativa ladeada por Philippe Israel e Cauê Veloso. Foto: Zema Ribeiro

 

Philippe Israel (pandeiro e voz) cantou dois sambas da Madre Deus à guisa de aquecimento: Araçagi, de Cristóvão Alô Brasil, e um de Luís de França, uma das muitas lendas do bairro, berço do gênero na capital maranhense.

Patativa chegou trajando seus indefectíveis chapéu e galho de arruda na orelha esquerda. A maioria em pé, um bom público já aguardava no pátio do Centro Cultural Vale Maranhão (Av. Henrique Leal, 149, Praia Grande). A pedreirense, que acabaria por tornar-se a mais madredivina entre as sambistas, inaugurava a temporada 2018 do programa Pátio Aberto, com shows semanais gratuitos, sempre às quintas-feiras, às 19h.

Foi apresentada pelo cordelista Moisés Nobre, que emendou, com personalidade, versos de alguns sambas de Patativa ao chamá-la ao palco. Esta não se fez de rogada e atacou com um tambor de mina, abrindo a apresentação que se equilibraria entre músicas inéditas e algumas gravadas em Ninguém é melhor do que eu [Saravá Discos, 2014], até aqui seu único registro fonográfico.

Casos da própria Ninguém é melhor do que eu, Santo guerreiro e Xiri meu – que invariavelmente é a mais pedida pelo público, que dança e canta em coro. Entre as inéditas, destaque para Feijoada incompleta. “Chico Buarque tem a Feijoada completa; Patativa fez a Feijoada incompleta”, provocou Philippe. “Essa é uma boa história. Um dia um amigo me chamou para um aniversário. Eu fui. Chegando lá, me serviram uma feijoada que era só feijão e água”, contou para risos da plateia.

No intervalo entre uma música e outra, virou-se para Cauê Veloso (cavaco e voz): “bóra, meu filho, três sem tirar de dentro, pra eu sair ligeiro”, brincou. A apresentação durou cerca de 45 minutos.

Além de Philippe e Cauê, a banda se completava com ​ Kit (violão), Marcão (percussão), Osvaldo (percussão) e Ricardo (percussão). O show acabou com outro medley madredivino, com sambas compostos pelos saudosos Henrique Sapo, Paletó e Bibi Silva para o bloco Fuzileiros da Fuzarca, do qual Patativa é integrante.

O bis ficou por conta de Babado na favela, outra autoral gravada em Ninguém é melhor do que eu. “O show não acabou. Todo mundo pra Fonte!”, convidou Philippe Israel, anunciando o esticar da noite no tradicional Samba na Fonte, na Fonte do Ribeirão, cartão postal da cidade, agora emoldurado de samba.

Re-Fellini

Ao descobrir o cinema de Fellini, Lucy tenta se corresponder com o ídolo. Frame. Reprodução

 

Federico Fellini (1920-1993) é como sarapatel: ou se ama ou se odeia.

Em busca de Fellini [In search of Fellini; EUA, drama/romance, 93 min; exibido esta semana no Cine Lume, Edifício Office Tower, Renascença] é uma linda homenagem ao cinema do italiano, autor de obras-primas como 8 ½, A doce vida, Amarcord, A estrada da vida e Noites de Cabíria, entre muitos outros – e por extensão, a música de David Campbell uma bela homenagem a Nino Rota, colaborador constante do homenageado.

O filme se passa em 1993, ano da morte de Fellini, e acompanha a viagem da americana Lucy Cunningham (Ksenia Solo) até a Itália, após descobrir o cinema felliniano e apaixonar-se pelo cineasta em um festival chamado Tutto Fellini – título de uma exposição ocorrida no Brasil em 2012 no IMS/RJ e Sesc Pinheiros.

Reverente, o filme não deixa de tirar onda: Claire (Maria Bello) e Kerri (Mary Lynn Rajskub), mãe e tia de Lucy, respectivamente, repetem o que comumente se ouve de quem não compreende o universo onírico de Fellini: “quem vê isso?”, perguntam-se, referindo-se aos filmes do diretor, tidos como “confusos”. É hilariante a cena em que uma diz: “essa é a parte que eu mais gosto”, enquanto a outra responde: “mas você ainda não viu isso”, e ouve de volta: “me refiro a ter chegado ao final”.

O filme de Taron Lexton é hábil ao entremear a obra de Fellini na jornada de Lucy, enquanto sua mãe definha, vítima de um câncer. “A vida é isso: seguir seus próprios sonhos”, diz um personagem a determinada altura. Mais felliniano impossível.

Aos 20 anos, Lucy deixa a bolha em que vivia, sob os cuidados da mãe superprotetora, para viver uma aventura idílica, recheada de atrasos, desencontros, fugas, perigos, paixões, fantasia e poesia.

“O visionário é o único realista”, nos ensina Fellini, em frase citada mais de uma vez em Em busca de Fellini. Mais do que nunca, nos tempos sombrios em que vivemos, o cineasta tem razão.

Para ver e se embriagar.

A faceta infantojuvenil de Josué Montello

O tesouro de D. José. Capa. Reprodução

 

Originalmente publicado em 1944, O tesouro de D. José e outros contos só ganhou nova edição já na década de 1980. Agora, por ocasião do centenário do autor (1917-2006) e iniciativa do escritor Wilson Marques, em parceria com a Casa de Cultura Josué Montello, o livro infantojuvenil ganha uma terceira edição pela editora Mercuryo Jovem [2017, 63 p.]. O caprichado volume tem ilustrações de Paola Brunelli.

Sete contos fantásticos apresentam aos leitores outra faceta de Josué Montello, realizados antes de ele se tornar o escritor consagrado como viria a ser reconhecido. Já estão ali marcas da prosa montelliana, a despeito dos verdes anos da juventude, às vezes desculpa para deslizes: prosa límpida e envolvente, sua terra natal como cenário, o cuidadoso tratamento literário dado a temas populares – ou simplesmente aos frutos puros de sua fértil imaginação.

“São pequenas histórias, muito bem escritas, lendas que se referem à terra maranhense, envolvendo homens e bichos. Josué resgatou estes causos, para não deixar que eles fossem tragados pelo esquecimento”, atesta na apresentação do livro o escritor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, em que ocupa a cadeira 18, cujo patrono é o também maranhense João Francisco Lisboa.

Em O tesouro de D. José e outros contos Josué Montello fantasia a origem do dourado das águas do Rio Itapecuru (o conto-título), conta a história de um macaco que queria ser homem, antecipando a discussão sobre autoaceitação, sobretudo na ditadura da publicidade (A ambição do macaco), discorre sobre a força do amor (A princesa Julieta e A rainha das águas), a origem das flores (A lenda das flores), das saúvas (O bruxo) e das construções subterrâneas das formigas (O palácio da formiga).

Por vezes crianças e jovens terão que recorrer ao dicionário para descobrir o significado de uma ou outra palavra mais rebuscada do vocabulário de Montello. Por vezes adultos também precisarão fazê-lo – talvez mesmo o livro seja para estes, embora mergulhe profundamente no universo da fantasia, em geral vinculada à infância, já que ao tornarmo-nos adultos perdemos a capacidade de nos encantar com princesas, fadas e bichos e plantas que falam.

O autor de Os tambores de São Luís é capaz de nos devolver este encanto – ao menos enquanto dura a leitura de O tesouro de D. José e outros contos.

Ficção barata

 

Os efeitos especiais são inversamente proporcionais à qualidade do roteiro. Como se uma dose exagerada daqueles pudesse sustentar a fragilidade deste.

De Uma dobra no tempo [Fantasia/ficção científica, EUA, 2018, 120 min.], megaprodução da Disney, salva-se apenas a mensagem para que crianças e adolescentes acreditem em seu potencial. E olhe lá! De resto, é uma mistura de ficção científica barata, aventura juvenil e autoajuda.

O argumento é frágil: o cientista Alex Murry (Chris Pine) desaparece ao descobrir a tal dobra no tempo do título do filme e fazer uma viagem no tempo e no espaço. Some sem deixar rastro, passando por pai desnaturado, deixando os filhos à mercê da gozação de colegas no colégio e diante do próprio sofrimento e da mãe, a também cientista Kate Murry (Gugu Mbatha-Raw).

É aí que, “acreditando em si próprios”, após visitas de estranhos seres mágicos dotados de erudição barata e nomes estranhos (Sra. Qual, interpretada por Oprah Winfrey; Quequeé, por Reese Witherspoon; e Sra. Quem, por Mindy Kaling), os filhos – Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), um superdotado de seis anos –, mais o colega Calvin (Levi Miller), partem em busca do próprio pai embarcando também na tal dobra do tempo.

Baseado no livro homônimo de Madeleine L’engle, ao filme da diretora Ava DuVernay não faria mal meia hora a menos. Para quem ainda não descobriu dobras no próprio tempo, melhor aproveitá-lo de maneira mais útil.