Dos terreiros e arraiais aos salões de reggae

George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01. Capa. Reprodução

 

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos ensinou o mestre Inaldo Bartolomeu, na toada Luzes e estrelas (1997), do Bumba-meu-boi Mocidade de Rosário, George Gomes aprendeu bem a lição.

Ex-Legenda, banda que era considerada a “radiola viva” do Maranhão, o que estava para além de mero slogan, George Gomes integra um seleto time de músicos com rara desenvoltura: o dos bateristas que cantam, o que lhe faz par de astros como Ringo Starr (Beatles), Phil Collins (Genesis), Serginho Herval (Roupa Nova) e Don Henley (Eagles), para citar uns poucos.

Em George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01, o artista torna reggae 10 toadas clássicas do período junino no Maranhão. As toadas deixam os terreiros e arraiais para frequentar os salões dos clubes de reggae. O resultado é curioso e agradável.

Boi de lágrimas (Raimundo Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), Engenho de flores (Josias Sobrinho), Tempo de guarnicê (Gerude, Omar Cutrim e Ronald Pinheiro, no disco creditada apenas ao último), Urro do boi (Coxinho), Estrela do chão (Gerude e João Marcus), Lua cheia (Luís Bulcão e Zé Pereira Godão, no disco creditada apenas ao primeiro), Catirina (Josias Sobrinho), Mimoso (Ronald Pinheiro) e A natureza (Lobato), na ordem em que figuram no disco, pintam de verde, amarelo e vermelho o couro do boi.

George Gomes (produção, bateria, percussão e voz) acerca-se de um time que ele chama de Radiola Viva: Edinho Bastos (guitarra), Jayr Torres (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Jesiel Bives (teclados), Gabriel Fernandes (flauta) e Rui Mário (sanfona).

Hoje socialmente aceitos, tanto o bumba-meu-boi quando o reggae foram alvos de preconceitos em seus surgimentos por estas plagas: o primeiro era “coisa de negros”; o segundo também, e mais que isso, produto “importado”, portanto “ilegítimo”. Atualmente, são elementos da identidade do povo do Maranhão, com parcelas da população orgulhando-se de um e de outro.

O que George Gomes faz é fundi-los, talvez assim ampliando os horizontes de quem porventura ainda acredite que é preciso negar um para afirmar o outro. Se o nome disco termina em Volume 01, já há a ansiedade por um segundo volume, num futuro tomara que breve. Torno à lição de Inaldo Bartolomeu, que o artista aprendeu, mesmo sem gravá-lo de saída: “o orvalho da miscigenação/ madrugando costumes e compassos/ mestiçando Jamaica e Maranhão”.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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