A Jamaica no Brasil

O cantor Gregory Isaacs em foto exposta em Jamaica, Jamaica! Foto: Beth Lesser. Reprodução

 

SÃO PAULO – O quinto andar inteiro do Sesc 24 de Maio [Rua 24 de maio, 109, República, São Paulo/SP] está inteiramente ocupado com tudo o que diz respeito ao maior produto de exportação da Jamaica. É a mais abrangente exposição em cartaz sobre o reggae no Brasil.

Exemplares raros de compactos e LPs, equipamentos de estúdio, instrumentos musicais, sound systems, fotografias e manuscritos de Bob Marley e Peter Tosh mostram parte de um universo muito maior do que sonha a nossa vã filosofia.

Conectando um fone de ouvido é possível ouvir parte da história, através de gravações colocadas à disposição dos visitantes. A exposição conta, inclusive, com uma web rádio, que ficará no ar enquanto Jamaica, Jamaica! estiver em cartaz – até 26 de agosto, com entrada franca.

Por falar em cartaz, o cinema também é destaque: trechos de vários filmes são projetados, dando a exata dimensão da importância do reggae. Também são vistos por lá os cartazes original e o japonês de The harder they come (1971), estrelado por Jimmy Cliff, bem como a camisa preta com a estrela amarela de seis pontas usada pelo cantor-ator no filme de Perry Henzell, que no Brasil ganhou o título de Balada sangrenta – a música-título, em versão de Nando Reis, então nOs Titãs, virou Querem meu sangue.

Ao lado dos objetos já citados, maquetes reproduzem pedaços do país, o ambiente propício ao desenvolvimento de uma música feita para, mais que ouvida, ser sentida. Pinturas e esculturas resgatam elementos da religiosidade, algo a que o reggae sempre esteve muito ligado. Importante frisar esta característica da exposição: apesar do centro das atenções ser o reggae e outros gêneros musicais oriundos da Jamaica, antes e depois, como o mento, ska, rocksteady e dub, Jamaica, Jamaica! não se restringe à música, perpassando temas culturais, sociais, políticos e religiosos/espirituais.

O reggae – e seus derivados – é hoje um fenômeno mundial, embora outros nomes importantes para o gênero, lembrados na exposição, sejam ainda ofuscados pelo de Bob Marley, considerado o rei, o maior em todos os tempos. Em templo de tantas majestades, outro rei bastante lembrado é Lee “Scratch” Perry, ainda na ativa, bruxo fundamental para o desenvolvimento e popularização do dub – a que provavelmente faz referência o eco do título da exposição. Particularmente, penso também em sua abrangência e aí o nome da ilha caribenha poderia ser repetido indefinida e exaustivamente.

Ademar Danilo nos estúdios da Mirante FM, em meados da década de 1980. Reprodução

O Maranhão, como um dos terrenos brasileiros em que o reggae se tornou bastante popular, é lembrado com na exposição, através de panfletos turísticos, artigos de jornais e fotografias. Ademar Danilo, hoje diretor do Museu do Reggae do Maranhão, aparece, fotografado nos estúdios da Rádio Mirante FM, em meados da década de 1980, quando dividia com Fauzi Beydoun (que só depois viria a se tornar vocalista da Tribo de Jah), o comando do programa Reggae Night – hoje ele apresenta o África Brasil Caribe, aos domingos, das 10h ao meio-dia, na Rádio Timbira AM.

Também está lá, fotografado por Otávio Rodrigues (outra enciclopédia viva quando o assunto é o reggae e a Jamaica), Riba Macedo, colecionador pioneiro, um dos responsáveis pela popularização do fenômeno reggae por estas bandas.

Outro estado lembrado é a Bahia, onde o reggae se fundiu ao samba e o samba-reggae, espécie de avô da axé music, ganhou a força dos tambores de blocos como o Olodum. Um quadro intitulado Sound Systems de São Paulo também dá ideia da força que o reggae tem hoje na maior cidade da América Latina – certamente não à toa escolhida para abrigar a exposição.

Jamaica, Jamaica! chega maior ao Brasil, agregando elementos que ajudam a entender a força do fenômeno reggae no país, após ficar um ano em cartaz em Paris, concebida pela Cité de la musique – Philharmonie de Paris, com curadoria do jornalista e cineasta Sébastien Carayol. A abertura da exposição contou com a presença dos dois metros de altura de Nabii McIntosh, filho do ex-Wailers Peter Tosh.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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