Vozes imprescindíveis

As cantoras Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões. Foto: divulgação

 

Sempre me causou certa angústia o ineditismo em disco de Milla Camões e Tássia Campos, cantoras de raro talento, cuja trajetória acompanho mais ou menos de perto há algum tempo.

Ambas já premiadas em categorias distintas no saudoso Prêmio Universidade FM, outrora uma espécie de termômetro da produção musical local.

Já há algum tempo também, a elas se juntou Camila Boueri, formando o Trio 123 (lê-se “um dois três”), que a julgar pelos talentos individuais, dispensa apresentações e maiores comentários – o grupo levou o troféu de melhor show também no Prêmio Universidade FM, em 2016.

Ouvir seu EP de estreia, intitulado simplesmente 123, explica parte da reclamação com que abro este texto. Teria sido fácil cada uma fazer qualquer coisa de qualquer jeito. Mas não é isso que as move. E isso também ajuda a explicar a qualidade do trabalho.

123 é soma. A soma dos talentos das envolvidas, não à toa eu já ter chamado, em texto, Tássia Campos de “recompositora” – o que também vale para suas parceiras.

É a soma de suas inquietações, suas posturas diante de um mundo em que elas têm andado na contramão, nadado contra a corrente, remado contra a maré.

Tais posturas estão demonstradas na escolha do repertório, de recados diretos, sem soar panfletário. Em quatro faixas elas revisitam e reprocessam o Choro de Lera (domínio público), A carne (Marcelo Yuka/ Seu Jorge/ Wilson Cappellette) e Geni e o zepelim (Chico Buarque).

O 123 é acompanhado por Márcio Glam (guitarra), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Rui Mário (teclados), Thierry Castelo Branco (bateria em Geni e o zepelim e Choro de Lera), Fofo Black (bateria em A carne), Thiago Guerra (bateria em 123),

A única faixa inédita, que dá título ao EP, parceria de Herih e Andréa Frazão, também mete o dedo na ferida, sem rodeios, mas sem perder a delicadeza: “Eu sou feminina, quero a verdade/ minha poesia é o tesouro que me vale/ sei pra onde vou e de onde venho/ quem cola comigo sabe a força que eu tenho/ sigo meu caminho, faço a minha história/ desenho certinho o amanhã e o agora/ nossa canto ecoa, faz estremecer/ é canção de vida, é mulher divina e vou mostrar por quê”, diz a letra, que sintetiza as aventuras por que o trio passou até o EP – disponibilizado nesta quinta-feira (22) em plataformas digitais como Spotify, Deezer, Itunes e Google Play, entre outras.

Cachês de shows e pontos de rifas ajudaram a acalentar um sonho, cuja realização é fruto da força destas três mulheres e do fã-clube que colou com elas, não deixando a peteca cair.

O 123 não se curvou ante as adversidades e nos dá algumas lições com o EP homônimo: cantar afinado é importante, mas não basta; é cada vez mais necessário arregaçar as mangas – do que elas nunca se esquivaram.

A arte, em Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos, está a serviço de várias causas, combatendo preconceitos, ajudando a compreender melhor determinadas situações, num mundo cada vez mais dominado por discursos de ódio, e a superar opressões cristalizadas.

Tudo isso com rara beleza poética e melódica, num exercício pleno de liberdade e emancipação, artística e feminina.

“Uma é pouco, duas é bom, três é bem melhor”, dizia o título do show que deu origem a tudo, em 2015, quando o Brasil ainda era presidido por Dilma Rousseff. No país do golpe, que tira não apenas o poder de uma presidenta legitimamente eleita, mas a vida de Marielle Franco, as vozes do 123 são imprescindíveis – a ousadia de sua soma precisa ser multiplicada.

Em tempo: em breve o Trio 123 anuncia uma temporada em São Paulo, assunto a que o blogue voltará oportunamente.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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