Fogo que não brinca

Limpam com fogo. Cartaz. Reprodução

 

A prática não é recente mas, convenhamos, tornou-se recorrente mais recentemente: incêndios criminosos em favelas como método barato de desapropriação ou reintegração de posse. Higienização e gentrificação, a gente vê por aqui, poderia dizer o slogan de uma rede de tevê, onde certamente nunca se verá Limpam com fogo [documentário, Brasil, 2016, 84 min.], título mais direto impossível.

O documentário conta o drama de diversos moradores de várias favelas paulistanas vítimas de incêndios, cujas investigações, com a construção de um discurso midiático a serviço de imobiliárias, construtoras e incorporadoras patrocinadoras de jornais e políticos, sempre aponta cinicamente para curtos-circuitos em gambiarras, panelas em fogões improvisados, o material utilizado no erguimento dos barracos ou qualquer outra desculpa que sirva para desresponsabilizar o poder público ou tirar o foco da especulação imobiliária, a real interessada em determinadas áreas.

O filme conta com depoimentos de especialistas como Ermínia Maricato, ex-secretária municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Paulo (1989-1992) e ex-secretária executiva do Ministério das Cidades (2003-2005), e Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), então ainda não alçado à condição de pré-candidato do PSol à presidência da república, colocando-os em diálogo com o drama das vítimas.

Em determinada altura, um dos entrevistados revela ter filmado um dos incêndios que consumiu a favela em que morava. Segundo ele, uma emissora de tevê ofereceu uma boa grana pelas imagens, mas ele preferiu não vender, por achar errado ganhar dinheiro em cima da tragédia alheia, no que o filme de Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira também acerta: não há exageros, pieguice ou exploração gratuita da desgraça alheia. As vítimas são retratadas em seus papéis, de protagonistas de suas próprias histórias, agentes políticos, com sua organização, sua relação afetiva com as comunidades, projetando discussões sobre a função social da propriedade, entre outros temas de direitos humanos – direito à moradia, direito à cidade, transporte público, trabalho etc. O filme foi realizado com recursos obtidos através de crowdfunding.

Temporalmente o documentário se localiza nas gestões municipais do petista Fernando Haddad (2013-2016), que aparece no filme, e do então democrata Gilberto Kassab (2006-2012), hoje no PSD, que se negou a gravar entrevista.

Limpam com fogo é um instantâneo de Brasil, retratando alguns episódios de uma tragédia entre tantas possíveis, que todos os dias acontecem cada vez mais, infelizmente.

O filme foi exibido no Festival Internacional Lume de Cinema, encerrado hoje (21), no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Por iniciativa dos professores Raoni Muniz, Rose Panet e Débora Garreto, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Limpam com fogo será exibido novamente amanhã (22), às 10h, no Cine Lume, para estudantes da instituição – a sessão extra é aberta ao público em geral. Os ingressos custam R$ 12,00.

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Veja o trailer de Limpam com fogo:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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