Absurdo: realidade ou ficção?

Ninguém na Praia Brava. Capa. Reprodução

 

Ademir Assunção é um caso raro: poeta, jornalista e escritor, é dono de uma obra consistente nas três áreas, tendo vencido o Jabuti de poesia em 2013 com A voz do ventríloquo [Editora Edith, 2012], e é autor do fundamental Faróis no caos [Edições Sesc/SP, 2012]. Digo raro por que nem sempre alguém consegue se embrenhar por tantas veredas e fazê-lo com qualidade em todas, ele que ainda lança discos de poesia e faz shows com sua banda Fracasso da Raça (entre meus nomes de bandas preferidos, ao lado de Isca de Polícia e Fábrica de Animais).

O autor transita com desenvoltura entre essas diversas praias, carregando elementos de uma a outra. Quando veio à Feira do Livro de São Luís, disse-me em entrevista: “fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética”, frase que usei como manchete, à época.

Seu romance – ou não-romance ou antirromance – Ninguém na Praia Brava [Patuá, 2016] é uma demonstração desse trânsito. O livro mescla ficção e realidade, elementos da cultura de massa e poesia, tudo isso, de algum modo, matéria-prima do jornalismo, de que Ademir Assunção acabou exilado, por não compactuar com a mediocridade das redações.

Com domínio absoluto da linguagem e de todo o arcabouço teórico sobre aquilo que convencionamos chamar romance, o autor mergulha num vasto universo de referências, sem tornar o livro hermético a quem porventura não as conheça. Kurt Vonnegut e Billy Pilgrim, por exemplo, são personagens. Há viagens no tempo e na galáxia – ao planeta de Tralfamador. O livro é explicitamente uma homenagem ao autor de Matadouro 5 [L&PM, 2005].

Se nem na chamada vida real Ademir Assunção, no exercício do jornalismo, hesitou em dar sua contribuição para o fim do mito da imparcialidade jornalística, quanto mais numa ficção: ele deixa claras suas preferências e seus desprezos por nomes do star system. Ao primeiro time comparecem, entre outros, Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Noel Rosa, Jards Macalé e Henry Miller; ao segundo, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Preta Gil, para citar uns poucos.

Uma provocação desde o título: os que compram livros (apenas) pela capa podem imaginar tratar-se de uma praia deserta. Ledo engano: Ninguém é o nome do protagonista, em um livro em que há personagens como Nada, Nunca e Alguém. Há sexo – intergaláctico, sem trocadilho –, violência – com besouros e gafanhotos morrendo esmagados – e a tiração de onda, com certezas – poesia não dá dinheiro nem rende sete milhões em adaptações ao cinema –, com a indústria do entretenimento – uma obsessão de Ninguém é ver seu romance adaptado em Hollywood, por Sean Penn ou Francis Ford Coppola – e com os próprios leitores e críticos, em recados com endereço certo ao longo da narrativa delirante e por vezes hilariante.

Em Ninguém na Praia Brava Ademir Assunção aprofunda a experiência radical de A máquina peluda [Ateliê Editorial, 1997] e Adorável criatura Frankenstein [Ateliê Editorial, 2003]. O enredo desenrola-se como um diário, que acompanha os dias de “ócio criativo” de um escritor na praia do título, entre caipirinhas, cachorros e tralfamadorianos, em busca de escrever seu novo livro, embora o narrador advirta (e aí já não sabemos se se trata do autor, do protagonista ou de outro personagem) que não é um livro sobre um escritor em crise, mas um livro sobre o tempo. Crise, essa espécie de palavra-chave do Brasil sob a égide do ilegítimo, que, de algum modo explica também a minha demora em ler e escrever sobre este certeiro petardo literário.

O diário de Ninguém acompanha dois meses de escrita deste que também podemos chamar de metarromance, que se equilibra em linha tênue entre a realidade (cada vez mais absurda sobretudo no Brasil) e a (fértil) imaginação do autor, baseada em seu arsenal de referências, explícitas ou atiradas como iscas aos mais atentos ao longo do livro, de resto irrotulável e desaconselhável a carolas e partidários do politicamente correto.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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