O protagonismo de Torquato

Torquato Neto – Todas as horas do fim. Cartaz. Reprodução

 

A voz de Jards Macalé em sua parceria com Torquato Neto em Let’s play that (1972) e a voz de Jesuíta Barbosa no poema Cogito, cujo último verso dá título a Torquato Neto – Todas as horas do fim [documentário, Brasil, 2017; em cartaz no Cine Lume, sessão diária às 20h30], abrem o filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando, coalhado de referências, fazendo jus ao homem múltiplo e intenso que foi o tropicalista piauiense.

O primeiro anuncia: “quando eu nasci/ um anjo louco/ um anjo solto/ um anjo torto/ muito louco/ veio ler a minha mão”. E arremata: “vai bicho/ desafinar o coro dos contentes”. O segundo, voz que acompanhará o espectador por todo o filme, lê poemas, cartas e textos jornalísticos de Torquato Neto – cuja voz, de seu único depoimento gravado, de 1968, também é usada.

É um filme reverente, cuja montagem inteligente evoca todas as facetas de seu protagonista: poeta, letrista de música popular, jornalista, ator. Os depoimentos que ajudam a contar sua história são cobertos por trechos de filmes do cinema marginal e do cinema novo. As rápidas aparições de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé são filmadas em super oito, de modo a manter a estética da época e não destoar das imagens de arquivo – resultado semelhante ao de No, de Pablo Larraín.

Curioso é o depoimento de Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro, hoje ministro-chefe da secretaria-geral do governo do ilegítimo, nome ligado a escândalos na política nacional, apelidado pelo saudoso Brizola de Gato Angorá, primeiro amigo de infância de Torquato Neto.

Entre as inúmeras citações cinematográficas – uns mais conhecidos, outros mais raros – comparecem O bandido da luz vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos), Macunaíma (1969, de Joaquim Pedro de Andrade), Deus e o diabo na terra do sol (1964, de Glauber Rocha), Nosferato no Brasil (1971, de Ivan Cardoso, em que Torquato atua), O demiurgo (1970, de Jorge Mautner, em que Caetano atua), Apocalipopótese (1968, de Raymundo Amado), e Hitler terceiro mundo (1968, de José Agripino de Paula).

Se Gal Costa (uma das grandes intérpretes de Torquato) e Jards Macalé (um de seus muitos parceiros) não comparecem em depoimentos, aparecem cantando Mamãe, coragem (parceria com Caetano Veloso), ele tocando violão na banda dela. Não faltam composições como Pra dizer adeus (parceria com Edu Lobo), Geleia geral, A rua e Marginália II (as três com Gilberto Gil) e Deus vos salve esta casa santa (com Caetano), a dar ideia do quão relevante foi Torquato, não apenas para o Tropicalismo, apesar do suicídio aos 28 anos.

Torquato Neto escrevia compulsivamente. Foto: divulgação

A morte de Torquato Neto completou 45 anos em novembro passado e as homenagens que lhe têm sido prestadas ajudam a jogar novas luzes sobre sua obra. O piauiense foi o homenageado da última edição da Balada Literária, organizada pelo incansável Marcelino Freire – ano passado, além de São Paulo, seu território tradicional, chegou a Teresina, cidade natal de Torquato, e Salvador, para onde ele se mudou aos 16 anos e onde conheceu “o pessoal da Tropicália”.

A gaúcha radicada no Maranhão Isis Rost transformou seu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais (UFMA) no livro O risco do berro – Torquato Neto: morte e loucura [ed. da autora, 2017], cujo projeto gráfico evoca a Navilouca, revista de número único editada por Torquato com Waly Salomão (1943-2003), que no filme sintetiza o amigo como uma atualização de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Décio Pignatari. A autora foca, desde o título, em dois temas pouco presentes a Torquato Neto – Todas as horas do fim.

O documentário não especula, nem tira conclusões, mas faz bonito ao somar-se aos esforços de manter vivo o espírito de Torquato, protagonista da Tropicália, através de sua obra, vasta e diversa, para alguém que morreu tão jovem.

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Veja o trailer de Torquato Neto – Todas as horas do fim:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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