Receitas para a liberdade

Taurina. Capa. Reprodução

 

Anelis Assumpção não é uma vaca sagrada da MPB. Tampouco descende de uma – Itamar Assumpção – ou é casada com outra – Curumin. Operária e artesã, Taurina [Scubidu/ Natura Musical, 2017], seu terceiro disco solo, demonstra a consolidação de uma carreira pautada pela coerência.

Pintada por Camile Sproesser, Anelis Assumpção figura na capa com os seios à mostra, misto de mulher e vaca, animal de muitos significados, segurando os ingredientes com que preparará e servirá o banquete, coisa fina.

A cantora posa para a pintura da capa do disco. Foto: Caroline Bittencourt

Sozinha ou em parceria, Anelis Assumpção é autora das 13 das 14 faixas – a única exceção é Receita rápida, parceria de seu pai com Vera Motta –, ambientadas entre a cozinha e a feira, com seu Pastel de vento (título de uma das faixas), seus Caroços (I e II, sambas em parceria com Russo Passapusso), sua Água (parceria com Rodrigo Campos) e sua Moela.

Segunda a sexta, primeiro single lançado (ainda em janeiro), fala de um amor proibido, de forma bastante sutil, pontuado pelo trocadilho entre o dia da semana e o utensílio em que se carregam frutas e verduras: “Eu fui na feira pra te ver/ você ñ foi na feira ñ/ é de segunda a sexta/ é de segunda a sexta/ de segunda a sexta/ eu fui sozinha pra te ver/ alguém pegou na tua mão/ meu coração na cesta/ meu coração na cesta/ coração na cesta/ minha fruteira está vazia/ burocracia mandou avisar/ tão insalubre que essa vida/ anda/ com dia e hora para te encontrar”, diz a letra.

Em Chá de jasmim, parceria com a irmã Serena Assumpção (falecida em março de 2016), a quem ela dedica Taurina, canta: “joguei água na chaleira/ deitei a flor do jasmim/ naquele dia/ eu te dava na cozinha/ cê gozava e eu fingia/ que tinha amor ali”.

Anelis Assumpção subverte. A feira e a cozinha, às quais as mulheres sempre estiveram confinadas, torna-se o lugar em que elas estão por opção, fazendo o que bem entendem. Pastel de vento, por exemplo, brinca com a típica iguaria para falar de amor e prazer: “Pastel de vento/ silêncio no meio/ receio meu coração dentro/ nada de recheio no recreio/ coração ao meio/ é lento e ligeiro/ meio tensão/ meio tesão”, canta.

Sobre a liberdade de estar onde quiser e fazer o que quiser, Anelis Assumpção também canta em Amor de vidro (parceria com Russo Passapusso e Saulo Duarte): “Nosso amor é feito de vidro/ ½ dúzia de cervejas que tomamos/ num boteco ali na esquina/ frágil e delicado nosso amor pode quebrar/ uma ampola e dois cigarros/ e me entrego sem pestanejar”.

Ex-integrante do cult DonaZica (que também tinha Andréia Dias e Iara Rennó, para citarmos apenas as cantoras), é difícil falar em disco solo de Anelis Assumpção, ela que está sempre bem acompanhada. Em Taurina destacam-se as guitarras de Lelena Anhaia e Cris Scabello, mellotron, wurlitzer, violão e piano de Beto Villares (produtor do disco), os contrabaixos de Zé Nigro (coprodutor) e MAU, a bateria de Bruno Buarque, além da participação especial do Negresko Sis (Anelis, Céu e Thalma de Freitas) em Receita rápida.

Por falar em receita, nas de Anelis Assumpção todo ingrediente vira música: neste disco, áudios de whatsapp de amigos (Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Ava Rocha e Laís Sampaio em Chá de jasmim) dialogam com tudo o que está posto à mesa.

Merecem destaque ainda o reggae Paint my dreams e Escalafobética (parceria com João Donato), em que inventa palavras, num texto que evoca Graciliano Ramos para novamente falar da mulher – afinal de contas, pauta principal desta obra de arte.

O disco, aliás, abre com um convite: “senta aqui comigo nessa/ pedra/ descobre teu drama/ meu sangue/ rio escorre/ vamos dar um mergulho interior”, chama em Mergulho interior. Quem tiver apetite, curiosidade e sensibilidade não recusará.

*

Veja o lyric video de Segunda a sexta (Anelis Assumpção):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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