Por dentro do boi, para além do espetáculo

Nas entranhas do bumba meu boi. Capa. Reprodução

 

Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018, 112 p.; R$ 25,00, à venda na Banca do Dácio (Estacionamento da Praia Grande) e na Feira da Tralha (Edifício Colonial, próximo ao Teatro Arthur Azevedo)] é justamente o que o título anuncia: um mergulho visceral nos bastidores de um dos mais tradicionais grupamentos da manifestação cultural: o Boi da Liberdade (ou de Leonardo).

Publicado com apoio da Fapema, o livro é a dissertação de mestrado da autora, Marla Silveira, em Cultura e Sociedade, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Um texto leve, agradável e em certas passagens bem humorado, para ser lido dentro e fora do ambiente acadêmico, por interessados, apaixonados e curiosos em geral.

Além do próprio convívio da pesquisadora com o grupo ao longo de vários anos, Marla se vale de teóricos da cultura popular – destaque para a saudosa Maria Michol Pinho de Carvalho – e da administração para compreender as dificuldades e estratégias para “botar o boi na rua”, suas relações com o sagrado e com instituições públicas e privadas, mantendo-se fiel às tradições, num tempo em que a “modernização”, para inglês ver, é quase uma exigência.

O Boi de Leonardo (ou da Liberdade) foi fundado em 1956, como pagamento de uma promessa de seu fundador a São João. É do sotaque de zabumba ou Guimarães, município litorâneo de origem do mais antigo dos sotaques de bumba meu boi.

A herdeira – e atual ama do boi – Cláudia Regina Avelar, quinta filha de Leonardo Martins dos Santos (1921-2004), acompanhou os passos da manifestação desde a infância, mas de longe. Nunca havia dançado no boi ou no Tambor de Crioula Poderoso Padroeiro (a outra manifestação que integra esta Sociedade Junina).

Com a morte de seu fundador, ela assumiu a direção, num processo cheio de percalços. Não faltou quem a acusasse de “salto alto”, de prever que ela acabaria com o que o pai construiu ou mesmo que estava ali apenas para ganhar dinheiro. Nas entranhas do bumba meu boi é também uma história de empoderamento feminino e superação de preconceitos.

O livro de Marla demonstra também que o Boi de Leonardo é um dos mais organizados do Maranhão, apto a receber e movimentar recursos públicos de qualquer esfera – é Ponto de Cultura, através de convênio firmado com o Ministério da Cultura (MinC) –, servindo de exemplo a outros grupos, sobretudo de um sotaque erroneamente tido como menos importante, já que supostamente menos atrativo a turistas.

Entre uma visão mais “conservadora”, “dos tempos de Leonardo”, quando o boi era mais fechado com base na opinião “dos antigos”, e a atual, que dialoga com ferramentas da modernidade e com a juventude, o reconhecimento do esforço de se manter viva uma tradição, da qual muitas vezes conhecemos apenas uma nesga que descortinamos por entre 40 minutos e uma hora – tempo médio de uma apresentação num arraial.

Serviço

O pré-lançamento de Nas entranhas do bumba meu boi acontece hoje (31, sábado de aleluia), às 22h, no Ponto de Cultura Boi de Leonardo (Rua Alberto de Oliveira, 150, Liberdade).

O lançamento acontece dia 4 de maio, às 19h, durante a reinauguração do Memorial Cristo Rei (Praça Gonçalves Dias, Centro).

Dos terreiros e arraiais aos salões de reggae

George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01. Capa. Reprodução

 

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos ensinou o mestre Inaldo Bartolomeu, na toada Luzes e estrelas (1997), do Bumba-meu-boi Mocidade de Rosário, George Gomes aprendeu bem a lição.

Ex-Legenda, banda que era considerada a “radiola viva” do Maranhão, o que estava para além de mero slogan, George Gomes integra um seleto time de músicos com rara desenvoltura: o dos bateristas que cantam, o que lhe faz par de astros como Ringo Starr (Beatles), Phil Collins (Genesis), Serginho Herval (Roupa Nova) e Don Henley (Eagles), para citar uns poucos.

Em George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01, o artista torna reggae 10 toadas clássicas do período junino no Maranhão. As toadas deixam os terreiros e arraiais para frequentar os salões dos clubes de reggae. O resultado é curioso e agradável.

Boi de lágrimas (Raimundo Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), Engenho de flores (Josias Sobrinho), Tempo de guarnicê (Gerude, Omar Cutrim e Ronald Pinheiro, no disco creditada apenas ao último), Urro do boi (Coxinho), Estrela do chão (Gerude e João Marcus), Lua cheia (Luís Bulcão e Zé Pereira Godão, no disco creditada apenas ao primeiro), Catirina (Josias Sobrinho), Mimoso (Ronald Pinheiro) e A natureza (Lobato), na ordem em que figuram no disco, pintam de verde, amarelo e vermelho o couro do boi.

George Gomes (produção, bateria, percussão e voz) acerca-se de um time que ele chama de Radiola Viva: Edinho Bastos (guitarra), Jayr Torres (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Jesiel Bives (teclados), Gabriel Fernandes (flauta) e Rui Mário (sanfona).

Hoje socialmente aceitos, tanto o bumba-meu-boi quando o reggae foram alvos de preconceitos em seus surgimentos por estas plagas: o primeiro era “coisa de negros”; o segundo também, e mais que isso, produto “importado”, portanto “ilegítimo”. Atualmente, são elementos da identidade do povo do Maranhão, com parcelas da população orgulhando-se de um e de outro.

O que George Gomes faz é fundi-los, talvez assim ampliando os horizontes de quem porventura ainda acredite que é preciso negar um para afirmar o outro. Se o nome disco termina em Volume 01, já há a ansiedade por um segundo volume, num futuro tomara que breve. Torno à lição de Inaldo Bartolomeu, que o artista aprendeu, mesmo sem gravá-lo de saída: “o orvalho da miscigenação/ madrugando costumes e compassos/ mestiçando Jamaica e Maranhão”.

A Jamaica no Brasil

O cantor Gregory Isaacs em foto exposta em Jamaica, Jamaica! Foto: Beth Lesser. Reprodução

 

SÃO PAULO – O quinto andar inteiro do Sesc 24 de Maio [Rua 24 de maio, 109, República, São Paulo/SP] está inteiramente ocupado com tudo o que diz respeito ao maior produto de exportação da Jamaica. É a mais abrangente exposição em cartaz sobre o reggae no Brasil.

Exemplares raros de compactos e LPs, equipamentos de estúdio, instrumentos musicais, sound systems, fotografias e manuscritos de Bob Marley e Peter Tosh mostram parte de um universo muito maior do que sonha a nossa vã filosofia.

Conectando um fone de ouvido é possível ouvir parte da história, através de gravações colocadas à disposição dos visitantes. A exposição conta, inclusive, com uma web rádio, que ficará no ar enquanto Jamaica, Jamaica! estiver em cartaz – até 26 de agosto, com entrada franca.

Por falar em cartaz, o cinema também é destaque: trechos de vários filmes são projetados, dando a exata dimensão da importância do reggae. Também são vistos por lá os cartazes original e o japonês de The harder they come (1971), estrelado por Jimmy Cliff, bem como a camisa preta com a estrela amarela de seis pontas usada pelo cantor-ator no filme de Perry Henzell, que no Brasil ganhou o título de Balada sangrenta – a música-título, em versão de Nando Reis, então nOs Titãs, virou Querem meu sangue.

Ao lado dos objetos já citados, maquetes reproduzem pedaços do país, o ambiente propício ao desenvolvimento de uma música feita para, mais que ouvida, ser sentida. Pinturas e esculturas resgatam elementos da religiosidade, algo a que o reggae sempre esteve muito ligado. Importante frisar esta característica da exposição: apesar do centro das atenções ser o reggae e outros gêneros musicais oriundos da Jamaica, antes e depois, como o mento, ska, rocksteady e dub, Jamaica, Jamaica! não se restringe à música, perpassando temas culturais, sociais, políticos e religiosos/espirituais.

O reggae – e seus derivados – é hoje um fenômeno mundial, embora outros nomes importantes para o gênero, lembrados na exposição, sejam ainda ofuscados pelo de Bob Marley, considerado o rei, o maior em todos os tempos. Em templo de tantas majestades, outro rei bastante lembrado é Lee “Scratch” Perry, ainda na ativa, bruxo fundamental para o desenvolvimento e popularização do dub – a que provavelmente faz referência o eco do título da exposição. Particularmente, penso também em sua abrangência e aí o nome da ilha caribenha poderia ser repetido indefinida e exaustivamente.

Ademar Danilo nos estúdios da Mirante FM, em meados da década de 1980. Reprodução

O Maranhão, como um dos terrenos brasileiros em que o reggae se tornou bastante popular, é lembrado com na exposição, através de panfletos turísticos, artigos de jornais e fotografias. Ademar Danilo, hoje diretor do Museu do Reggae do Maranhão, aparece, fotografado nos estúdios da Rádio Mirante FM, em meados da década de 1980, quando dividia com Fauzi Beydoun (que só depois viria a se tornar vocalista da Tribo de Jah), o comando do programa Reggae Night – hoje ele apresenta o África Brasil Caribe, aos domingos, das 10h ao meio-dia, na Rádio Timbira AM.

Também está lá, fotografado por Otávio Rodrigues (outra enciclopédia viva quando o assunto é o reggae e a Jamaica), Riba Macedo, colecionador pioneiro, um dos responsáveis pela popularização do fenômeno reggae por estas bandas.

Outro estado lembrado é a Bahia, onde o reggae se fundiu ao samba e o samba-reggae, espécie de avô da axé music, ganhou a força dos tambores de blocos como o Olodum. Um quadro intitulado Sound Systems de São Paulo também dá ideia da força que o reggae tem hoje na maior cidade da América Latina – certamente não à toa escolhida para abrigar a exposição.

Jamaica, Jamaica! chega maior ao Brasil, agregando elementos que ajudam a entender a força do fenômeno reggae no país, após ficar um ano em cartaz em Paris, concebida pela Cité de la musique – Philharmonie de Paris, com curadoria do jornalista e cineasta Sébastien Carayol. A abertura da exposição contou com a presença dos dois metros de altura de Nabii McIntosh, filho do ex-Wailers Peter Tosh.

A fome e outros dramas humanos

Cena de Caranguejo Overdrive no programa da peça. Reprodução

 

SÃO PAULO – O ambiente é enfumaçado, ajudando a criar certo clima de podridão, durante pouco mais de uma hora em que o público vai conviver com o drama de Cosme, homem-caranguejo, para evocar o clássico do pernambucano Josué de Castro, uma das inspirações de Caranguejo Overdrive, peça de Pedro Kosovski (autor da ótima Cara de Cavalo), com Aquela Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, em cartaz no Teatro Caixa Cultural (Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo/SP), de quinta a domingo (até 1º. de abril), às 19h15, com entrada franca (os ingressos podem ser retirados no dia das apresentações, a partir das 9h).

Um power trio – guitarra, baixo e bateria – executa a trilha sonora ao vivo, reverenciando Chico Science e Nação Zumbi, como de resto todo o movimento MangueBit, as outras referências fundamentais de Caranguejo Overdrive. O texto e as atuações são fortes, num roteiro carregado de denúncia social contra toda uma ordem de desmandos dos poderosos.

Cosme é um ex-combatente do exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando volta a seu lugar de origem, onde havia sido catador de caranguejo, o mangue não existe mais, aterrado em nome do progresso. Qual os bichos que outrora lhe deram sustento, Cosme não tem mais como viver. É um personagem à beira de um colapso, entre policiais insensíveis (quase uma redundância) e uma prostituta – personagens típicos de zonas (perdão do trocadilho) portuárias.

O espetáculo é bem humorado – seria cômico se não fosse trágico – ao refazer a trajetória do Brasil desde a abertura, apontando idiossincrasias de nossos governantes e dos que os rodeiam. Ao biografar o país, os atores dAquela Cia. fazem verdadeiras caricaturas ao vivo de todos os ocupantes do Palácio do Planalto. De José Sarney ao ilegítimo, ninguém escapa do humor ferino e da crítica afiada de Kosovski.

Em cena, um homem se transforma literalmente em caranguejo, o corpo nu coberto de lama, que ele mesmo prepara durante o desenrolar dos acontecimentos. É importante frisar: sempre há ao menos duas ações transcorrendo simultaneamente em Caranguejo Overdrive, o que exige atenção e escolhas por parte da plateia. E, portanto, participação.

“Vocês pensam que é confortável ficar tanto tempo assim?”, ele indaga à plateia, referindo-se à posição incômoda em que se mantém durante certo tempo, demonstrando ótimo preparo físico, mas no fundo fazendo uma metáfora à fome e à inanição a que o personagem foi condenado. “Este corpo de lama que tu vê é apenas a imagem”, volta a Chico Science.

O dedo cavouca uma ferida que o Brasil havia superado, a fome, a cujo mapa o país foi devolvido pelos golpistas de plantão, que tomaram o poder de assalto. A fome, cujo primeiro tratamento sociológico e acadêmico foi dado justamente por Josué de Castro, autor de, entre outros, Geografia da fome e da ficção Homens e caranguejos. O texto do programa, aliás, afirma o desejo da companhia de que esta temática abordada em Caranguejo Overdrive se torne datada.

Com a pose prolongada do ator, a peça também debate, de modo sutil, o próprio fazer teatral: emular um caranguejo é dureza, como escrever e encenar espetáculos consistentes, longe do riso fácil e/ou de artistas consagrados em emissoras de televisão.

Caranguejo Overdrive é dinâmica e, como a lama metafórica de sua concepção e execução, incorpora os detritos sociais que são, afinal, elementos de denúncia do texto de Kosovski. À encenação a que assisti (sexta-feira, 23), por exemplo, já comparecia o assassinato brutal e covarde da vereadora carioca Marielle Franco, num dos momentos mais impactantes (e não são poucos) da peça.

Um fotógrafo na contramão

Pixinguinha em Ramos/RJ, em 1968, fotografado por Walter Firmo, uma das imagens de O Brasil que o Brasil merece. Reprodução

 

O apagão que se abateu sobre 13 estados brasileiros na tarde de quarta-feira passada (21) atrapalhou, mas ainda que no escuro e no calor, tem algo de mágico ver esse conjunto de 170 imagens, de famosos e anônimos.

O título da exposição deve trazer alguma ironia: será que o Brasil merece um fotógrafo como Walter Firmo? A treta virou esporte nacional, o ódio uma religião e a corrupção uma espécie de câncer que nos consome. Será que merecemos Walter Firmo e sua obra?

O fato é que há uma ancestralidade no que ele capta com suas lentes, ainda mais em uma exposição dedicada à negritude (outra ironia, num tempo em que ódio, preconceito, intolerância e o desrespeito à memória de mortos/as são soprados aos quatro ventos). Dá uma espécie de intimidade.

Quando ela, a meu lado, disse apontando para um biombo com um conjunto de fotografias, “essas são famosas”, indaguei-me se de fato as fotografias eram conhecidas ou se é a impressão que Walter Firmo é craque em nos fazer íntimos dos retratados que escolhe.

É claro que há fotografias, eu ia dizer por demais conhecidas, mas devo dizer conhecidas por aqueles que se interessam por música popular, como as que viraram capas de discos de Pixinguinha, Paulinho da Viola e Clementina de Jesus, mas mesmo entre os anônimos temos a sensação de conhecer as pessoas, os lugares, as circunstâncias em que cada foto foi feita.

O Brasil que o Brasil merece, este o nome da exposição, é abrangente, tem fotos desde 1957 (Garrinha tomando banho num vestiário do Maracanã), até fotos realizadas nesta década (a festa do bumba-meu-boi no São João maranhense). No meio disso tudo, a Festa do Divino, em Alcântara/MA, na década de 1970, e o compositor Cartola no Morro de Mangueira no ano de seu falecimento.

Walter Firmo trabalhou em veículos importantes do jornalismo brasileiro. Citarei apenas a mítica O Cruzeiro. Abandonou o fotojornalismo em 1985. Displays na exposição, ao situar sua relevância, enumeram uma infinidade de prêmios conquistados em décadas de carreira.

É o homem certo, no lugar certo, na hora certa, munido do equipamento e sensibilidade ideais. Walter Firmo está com 80 anos. É carioca filho de paraenses e foi casado com uma maranhense por mais de 20 anos.

O apagão atrapalhou o primeiro dia de uma oficina de três que ele ministrou na programação de abertura da exposição (em cartaz até 20 de junho no Centro Cultural Vale Maranhão – Av. Henrique Leal, 149, Praia Grande. Entrada franca). No escuro e no calor, falou a uma plateia lotada (o CCVM destinou 40 vagas, para desespero do fotógrafo, que disse que o ideal, para a ida ao campo, era trabalhar com no máximo 20) e interessada. Respondeu perguntas, deu opiniões sobre curadoria (atualmente, infelizmente, há curadores que querem ser mais importantes que os fotógrafos) e sua carreira, entre o fotojornalismo e a independência.

Acabei não participando da oficina, por conta de uma viagem: só podendo participar do primeiro dia, preferi abrir mão da inscrição que já havia realizado, para não tirar a vaga de outro/a interessado/a que pudesse participar integralmente.

Simpático, Walter Firmo usava uma camisa com motivos de janelas de São Luís, dessas que se vendem em lojinhas de lembranças para turistas – que com certeza seriam fotografadas na atividade extraclasse.

Serviço:

Divulgação

Música sem fronteiras

A música se chama Marabaixo, ritmo típico do Amapá. Mas o grande homenageado é o tambor de crioula do Maranhão. A dupla Prettos, formada pelos cantores e instrumentistas Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, seus autores, gravou o segundo videoclipe do disco Essência da origem (2017) entre os Lençóis Maranhenses e o Centro Histórico da capital maranhense.

Magnu e Maurílio, ex-integrantes do Quinteto em Branco e Preto, grupo com relevantes serviços prestados à música brasileira e à preservação da memória de gigantes do universo do samba como Adoniran Barbosa e Ataulfo Alves, entre outros, fazem uma música sem amarras ou limites, sejam rítmicos ou geográficos.

Conheceram o marabaixo numa visita ao Amapá com a cantora Beth Carvalho, apaixonaram-se pelo tambor de crioula no Maranhão e, além dos dois ritmos das culturas populares locais, a faixa, batizada pelo primeiro, é um samba com pitadas de forró.

Beleza musical, beleza feminina: o clipe é estrelado por Deise D’anne, Miss Maranhão 2016, além das bailarinas Thalyta e Isabela Sousa e das coreiras do Tambor de Crioula da Alemanha – o duo Prettos gravou uma apresentação do grupo no São João maranhense, colocando a parelha em diálogo cênico com o cavaquinho e o pandeiro que emolduram versos como “olha a nega é bonita e faceira/ e tem muita tradição/ marabaixo, tambor de crioula de São Luís do Maranhão/ ela gosta de samba de roda, de dançar forró no Cachuera/ ai, meu Deus! Umbigada com ela é brincadeira”.

Sobram ginga e malemolência em samba bonito de ver e ouvir.

Veja o clipe de Marabaixo:

Ousadia e atualidade

Maria e o Cristo, morto e nu. Foto: Valdeir Limaverde/ Divulgação

 

Paixão segundo nós é um espetáculo ousado. Se já o era quando de sua primeira encenação, há quase 30 anos, o momento político nefasto que atravessa o Brasil torna-o ainda mais.

O espetáculo gira em torno do julgamento de Cristo (Luís Ferrara), com Pôncio Pilatos (Domingos Tourinho) entre a angústia e o desespero da sentença que condena o protagonista.

Tácito Borralho (texto, direção e cenografia), sobre textos de Gibran Khalil Gibran, do Evangelho segundo Mateus e dos Evangelhos apócrifos, traz inevitavelmente o martírio de Cristo para a reflexão sobre as fake news (no fundo um eufemismo para mentiras) e a inversão de valores que se tornou comum em nossos tempos.

O espetáculo da Coteatro humaniza o Cristo, como trazendo-o à nossa realidade. Em ano de Copa do Mundo, mas não só, costumeiramente se apregoa por aí que Deus é brasileiro. Em Paixão segundo nós, mais que nunca: Cristo é negro, o diabo é homem (Raimundo Reis) e mulher (Isa Everton), Maria (Lúcia Gato), mãe de Cristo, também é negra.

A dramaturgia de Tácito Borralho corajosamente nos faz lembrar que o filho de Deus era, no fundo, um defensor das minorias – ou dos direitos humanos, expressões que causam reações quase sempre virulentas nos que se dizem cidadãos de bem.

ServiçoPaixão segundo nós estreou hoje (27), Dia Mundial do Teatro, e fica em cartaz amanhã (28) e quinta-feira santa (29), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia entrada para estudantes e demais casos previstos em lei).

Dadivosa música

Foto: Zema Ribeiro

 

SÃO PAULO – O Palacete Teresa [Rua Quintino Bocaiúva, 22, Sé, São Paulo/SP] abriga a Casa de Francisca, bar que rapidamente se tornou literalmente um templo da boa música. O respeito pela prática é tanto que o serviço de bar e cozinha é suspenso durante as apresentações musicais.

Resultado: conferi a seco o bom show da cantora e sanfoneira Lívia Mattos, com participação especial de Ceumar, que a casa recebeu no último sábado (24) – também é proibido fotografar e, do mezanino, tive que me tornar um contraventor para garantir a foto que ilustra este post, ossos do ofício.

A artista subiu ao palco em uma roupa que lembra o figurino da capa de Vinha da ida, título de seu primeiro disco solo, lançado no fim do ano passado pelo programa Natura Musical – na capa do disco, a sanfona, seu instrumento, é a extensão do corpo de Lívia Mattos, artista de origem circense, como comenta ao longo da apresentação.

Ela é acompanhada de Maurício Paes (guitarra baiana e violão tenor), Rafael dos Santos (bateria) e Jefferson Babu (tuba), formação inusitada cuja soma de talentos converte o palco em picadeiro, para deleite da plateia.

Logo no começo, após um tema instrumental para aquecer banda e público, bota este para fazer o coro “uh, uh!” do refrão de Vou lá (parceria dela com o acordeonista franco-português Loïc Cordeone). Lívia vem da Bahia, onde bebeu nas fontes do circo, da antropofagia, do Tropicalismo e do universo de Glauber Rocha, como ela mesmo revela.

Melodia-a-dia (Lívia Mattos) ela oferece a “todos os circenses”. A música é um tango (circense, frise-se) que versa sobre os ofícios do circo, com o charme da tuba lembrando bandas em coretos de praças de cidades do interior.

Dessa herança circense é que provavelmente vem a força cênica de Lívia Mattos. Sua música é versátil, no tema e na melodia. “Deixa passar o que tiver de passado/ deixa ficar o que restou de sagrado”, diz a letra do xote Deixa passar (Lívia Mattos). Antes de cantar Sabia pouco do sal, gravada com a participação do pianista pernambucano Zé Manoel, contou a história da composição: “a música é a cara dele, eu acho que eu só fiz o download antes. Eu achava que só tinha feito uma parte da música, mandei para parceria, ele disse que tava pronta. Aí eu o convidei pra gravar comigo”.

Sob o céu, sobre o chão (Lívia Mattos) fecha com incidental de Alguém me avisou (Dona Ivone Lara).

Ao chamar Ceumar ao palco, sua convidada especial da noite, lembrou o show que fizeram juntas em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com repertório inteiramente dedicado a compositoras. Ao violão, Ceumar cantou Avesso (Alice Ruiz/ Ceumar), com Lívia Mattos na sanfona, dividindo os vocais. A banda volta a ser ouvida na segunda parte da música.

A anfitriã revela que o bolero Olhos de Teresa (Lívia Mattos) são uma homenagem à sua vó. “Na identidade o nome dela é Teresinha, mas meu avô a chamava de Teresa”, contou, lembrando algumas histórias de um funcionário do cartório local que “acabou com o mapa astral de muita gente”, para gargalhadas da plateia.

“Minha avó era um ano mais velha que meu avô, então na hora do casamento ele alterou a data de nascimento, por que era feio a mulher ser mais velha do que o homem. Um irmão meu nasceu no mesmo dia de outro, anos depois; ele pensou: aniversário no mesmo dia, vai dar confusão, vamos botar que ele nasceu uns dias depois”, contou, sorrindo e fazendo sorrir.

Xote inédito de Ceumar, composto em Petrolina/PE, Você e eu deu prosseguimento ao show, com ela e Lívia Mattos descendo do palco para cantarem dançando mais próximo ao público, ocasião em que a mineira brincou com a longa cauda do vestido da baiana. O público cantou junto o refrão: “ao som do coco, do reisado e do maracatu, maracatu, maracatu/ eu fui dançando e nessa dança eu só pensava em tu, pensava em tu, pensava em tu”.

Finda a participação de Ceumar, Lívia cantou Amarear (Lívia Mattos), faixa que fecha Vinha na ida, ali gravada com a adesão de Chico César – o paraibano, cuja banda a anfitriã integra, estava na plateia, prestigiando o show.

Não presente ao disco, ela cantou ainda Floricanto, da canadense Lhasa de Sela (1972-2008). Em Mais eu (Lívia Mattos/ Jurandir Santana), um provocante diálogo de sanfona e tuba, antes do retorno de Ceumar ao palco após os tradicionais pedidos de “mais um”. Encerrando o show, cantaram juntas O que eu quero levar (Lívia Mattos/ Loïc Cordeone) – cujos versos “viver é dívida/ promessa é dúvida/ o amor é dádiva” bem servem de sinopse do show e da própria dedicação da artista (bacharel em Ciências Sociais) à música – e Vou lá, com a plateia novamente fazendo coro.

Cine MIS exibirá Manuel Bernardino: o Lenin da Matta

[release]

A cineasta Rose Panet. Foto: Zema Ribeiro

 

O documentário Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta franco-brasileira Rose Panet, será exibido no Cine MIS, dia 24 de março (sábado), às 18h, evento do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (Av. Europa, 158, Jd. Europa, São Paulo/SP) – entrada gratuita, retirada de ingressos uma hora antes da sessão, na recepção do MIS.

O telefilme, de 52 minutos, remonta a trajetória do líder camponês, socialista, vegetariano e espírita Manuel Bernardino, que ganhou a alcunha de Lenin da Matta dos jornais “Diário de São Luís” e “A Pacotilha”, na primeira metade do século XX.

A estrutura do roteiro é construída a partir do depoimento do protagonista em uma delegacia de polícia de São Luís em 1921 – o filme é narrado por Zeca Baleiro.

Personagem pouco conhecido, Manuel Bernardino arregimentou cerca de 200 homens para a Coluna Prestes quando da passagem das tropas do “cavaleiro da esperança” pelo Maranhão, talvez o maior contingente do movimento tenentista.

Em 2014 Manuel Bernardino: o Lenin da Matta foi selecionado em edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e está à disposição das emissoras públicas de tevê do Brasil.

O filme foi finalizado e lançado em 2017, já tendo sido exibido pelas tevês UFPE, UFMA, Assembleia (MA) e Rede Minas (MG). Em abril estreará também na TV Senado. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta também vem fazendo carreira em festivais: participou da mostra paralela Cinema contra o Golpe, na programação do Curta Canoa, em Aracati/CE, e recebeu menção honrosa no Mumbai International Film Festival, na Índia.

Sobre Rose Panet – Paraibana radicada no Maranhão, Doutora em Antropologia pela École Pratique des Hautes Études (Paris, França), professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a cineasta realizou mais de 15 curtas-metragens didáticos sobre a questão indígena para a Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc). Finalizou recentemente o curta-metragem Amniogênese, sua estreia na ficção, filme convidado do 5º. Festival Internacional Lume de Cinema, encerrado ontem (21) no Cine Lume. Sua participação no debate após a sessão no Cine MIS tem apoio cultural da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur).

Sobre o Cine MIS – O Cine MIS tem por objetivo criar um espaço permanente de lançamento de filmes, de todos os gêneros, captados em qualquer formato, sem limite de duração (curtas, médias e longas-metragens), que ainda não tenham sido exibidos em circuito comercial. Mensalmente são selecionados e exibidos no MIS de dois a cinco filmes realizados por diretores brasileiros, em datas selecionadas pelo Museu.

O micróbio da poesia

Os poetas Severina Branca e Jorge Filó em cena de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras. Frame. Reprodução

 

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Muita gente pode lembrar uma não rara desastrada experiência escolar, quando professores tentam empurrar goela abaixo, e pior, fazer decorar versos que ao aluno e seu entorno fazem nenhum sentido. Outros pensam em coisa de iluminados, gente com inspiração divina para cometer versos ou coisa parecida.

Dessacralizar o universo da poesia é justamente o que faz o documentário O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras [documentário, Brasil, 2016, 78 min.], do serra-talhadense Petrônio Lorena (que assina também a trilha sonora), que estreia hoje (22) no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Literalmente um baita título, síntese de dor e delícia de ser poeta.

Dessacralizar talvez nem seja bem o termo: a poesia continua sendo sagrada. O que o filme mostra, no entanto, é que pode ser fruto da cabeça (e coração) de qualquer reles mortal. Há uma cena em que um poeta, num bar (uma das locações mais constantes do documentário), advoga a favor do uso de álcool e outras drogas – em nome da poesia.

Geograficamente, o filme se localiza na divisa entre Paraíba e Pernambuco, em Ouro Velho e Prata, naquela, e São José do Egito, neste, lembrando mitos da poesia nordestina, entre vivos e mortos, privilegiando depoimentos de poetas em vez de especialistas – comparecem histórias de, entre outros, Lourival Batista e Biu de Crisanto.

Sobra bom humor em constantes exercícios de memória: não raro um poeta lembra uma glosa bem humorada, contextualizando a situação em que o verso foi composto, a tiração de onda de um repentista para com outro, a resposta deste àquele, e por aí vai. No fundo, a gente se sente bebendo entre amigos, a relembrar velhos causos, e rindo.

O longo e poético título é mote dado por Severina Branca a Didi Patriota. De poeta a poeta, ela também boêmia e prostituta, é uma das personagens mais interessantes do longa-metragem, considerada por muitos a Eleanor Rigby do Nordeste.

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Para alguns, ela significa a própria vida e sina.

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Veja o trailer de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras:

Fogo que não brinca

Limpam com fogo. Cartaz. Reprodução

 

A prática não é recente mas, convenhamos, tornou-se recorrente mais recentemente: incêndios criminosos em favelas como método barato de desapropriação ou reintegração de posse. Higienização e gentrificação, a gente vê por aqui, poderia dizer o slogan de uma rede de tevê, onde certamente nunca se verá Limpam com fogo [documentário, Brasil, 2016, 84 min.], título mais direto impossível.

O documentário conta o drama de diversos moradores de várias favelas paulistanas vítimas de incêndios, cujas investigações, com a construção de um discurso midiático a serviço de imobiliárias, construtoras e incorporadoras patrocinadoras de jornais e políticos, sempre aponta cinicamente para curtos-circuitos em gambiarras, panelas em fogões improvisados, o material utilizado no erguimento dos barracos ou qualquer outra desculpa que sirva para desresponsabilizar o poder público ou tirar o foco da especulação imobiliária, a real interessada em determinadas áreas.

O filme conta com depoimentos de especialistas como Ermínia Maricato, ex-secretária municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Paulo (1989-1992) e ex-secretária executiva do Ministério das Cidades (2003-2005), e Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), então ainda não alçado à condição de pré-candidato do PSol à presidência da república, colocando-os em diálogo com o drama das vítimas.

Em determinada altura, um dos entrevistados revela ter filmado um dos incêndios que consumiu a favela em que morava. Segundo ele, uma emissora de tevê ofereceu uma boa grana pelas imagens, mas ele preferiu não vender, por achar errado ganhar dinheiro em cima da tragédia alheia, no que o filme de Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira também acerta: não há exageros, pieguice ou exploração gratuita da desgraça alheia. As vítimas são retratadas em seus papéis, de protagonistas de suas próprias histórias, agentes políticos, com sua organização, sua relação afetiva com as comunidades, projetando discussões sobre a função social da propriedade, entre outros temas de direitos humanos – direito à moradia, direito à cidade, transporte público, trabalho etc. O filme foi realizado com recursos obtidos através de crowdfunding.

Temporalmente o documentário se localiza nas gestões municipais do petista Fernando Haddad (2013-2016), que aparece no filme, e do então democrata Gilberto Kassab (2006-2012), hoje no PSD, que se negou a gravar entrevista.

Limpam com fogo é um instantâneo de Brasil, retratando alguns episódios de uma tragédia entre tantas possíveis, que todos os dias acontecem cada vez mais, infelizmente.

O filme foi exibido no Festival Internacional Lume de Cinema, encerrado hoje (21), no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Por iniciativa dos professores Raoni Muniz, Rose Panet e Débora Garreto, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Limpam com fogo será exibido novamente amanhã (22), às 10h, no Cine Lume, para estudantes da instituição – a sessão extra é aberta ao público em geral. Os ingressos custam R$ 12,00.

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Veja o trailer de Limpam com fogo:

Vozes imprescindíveis

As cantoras Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões. Foto: divulgação

 

Sempre me causou certa angústia o ineditismo em disco de Milla Camões e Tássia Campos, cantoras de raro talento, cuja trajetória acompanho mais ou menos de perto há algum tempo.

Ambas já premiadas em categorias distintas no saudoso Prêmio Universidade FM, outrora uma espécie de termômetro da produção musical local.

Já há algum tempo também, a elas se juntou Camila Boueri, formando o Trio 123 (lê-se “um dois três”), que a julgar pelos talentos individuais, dispensa apresentações e maiores comentários – o grupo levou o troféu de melhor show também no Prêmio Universidade FM, em 2016.

Ouvir seu EP de estreia, intitulado simplesmente 123, explica parte da reclamação com que abro este texto. Teria sido fácil cada uma fazer qualquer coisa de qualquer jeito. Mas não é isso que as move. E isso também ajuda a explicar a qualidade do trabalho.

123 é soma. A soma dos talentos das envolvidas, não à toa eu já ter chamado, em texto, Tássia Campos de “recompositora” – o que também vale para suas parceiras.

É a soma de suas inquietações, suas posturas diante de um mundo em que elas têm andado na contramão, nadado contra a corrente, remado contra a maré.

Tais posturas estão demonstradas na escolha do repertório, de recados diretos, sem soar panfletário. Em quatro faixas elas revisitam e reprocessam o Choro de Lera (domínio público), A carne (Marcelo Yuka/ Seu Jorge/ Wilson Cappellette) e Geni e o zepelim (Chico Buarque).

O 123 é acompanhado por Márcio Glam (guitarra), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Rui Mário (teclados), Thierry Castelo Branco (bateria em Geni e o zepelim e Choro de Lera), Fofo Black (bateria em A carne), Thiago Guerra (bateria em 123),

A única faixa inédita, que dá título ao EP, parceria de Herih e Andréa Frazão, também mete o dedo na ferida, sem rodeios, mas sem perder a delicadeza: “Eu sou feminina, quero a verdade/ minha poesia é o tesouro que me vale/ sei pra onde vou e de onde venho/ quem cola comigo sabe a força que eu tenho/ sigo meu caminho, faço a minha história/ desenho certinho o amanhã e o agora/ nossa canto ecoa, faz estremecer/ é canção de vida, é mulher divina e vou mostrar por quê”, diz a letra, que sintetiza as aventuras por que o trio passou até o EP – disponibilizado nesta quinta-feira (22) em plataformas digitais como Spotify, Deezer, Itunes e Google Play, entre outras.

Cachês de shows e pontos de rifas ajudaram a acalentar um sonho, cuja realização é fruto da força destas três mulheres e do fã-clube que colou com elas, não deixando a peteca cair.

O 123 não se curvou ante as adversidades e nos dá algumas lições com o EP homônimo: cantar afinado é importante, mas não basta; é cada vez mais necessário arregaçar as mangas – do que elas nunca se esquivaram.

A arte, em Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos, está a serviço de várias causas, combatendo preconceitos, ajudando a compreender melhor determinadas situações, num mundo cada vez mais dominado por discursos de ódio, e a superar opressões cristalizadas.

Tudo isso com rara beleza poética e melódica, num exercício pleno de liberdade e emancipação, artística e feminina.

“Uma é pouco, duas é bom, três é bem melhor”, dizia o título do show que deu origem a tudo, em 2015, quando o Brasil ainda era presidido por Dilma Rousseff. No país do golpe, que tira não apenas o poder de uma presidenta legitimamente eleita, mas a vida de Marielle Franco, as vozes do 123 são imprescindíveis – a ousadia de sua soma precisa ser multiplicada.

Em tempo: em breve o Trio 123 anuncia uma temporada em São Paulo, assunto a que o blogue voltará oportunamente.

Filme de Sérgio Ricardo abriu ontem Festival Internacional Lume de Cinema

Antonio Pitanga e Osmar Prado durante as gravações de Bandeira de retalhos. Foto: divulgação

 

Sérgio Ricardo é mais conhecido como autor das trilhas sonoras de Deus e o diabo na terra do sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha, e pelo episódio em que, ao interpretar Beto bom de bola, música de sua autoria em um festival da TV Record, em 1967, irritado, quebrou o violão e atirou pedaços do instrumento contra a plateia.

Um lado seu que pouca gente conhece é o de cineasta. Sua mais recente realização, após mais de 40 anos longe das claquetes, o longa-metragem Bandeira de retalhos [drama, Brasil, 2018, 90 min.] foi exibido ontem (15), no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), na abertura do 5º. Festival Internacional Lume de Cinema.

O filme parte de um episódio real, a tentativa de despejo de moradores do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, em 1977. A partir deste mote, Sérgio Ricardo desenvolve um roteiro com elementos que mostram o quão pouco o Brasil mudou em quatro décadas.

A trama costura o típico morro para gringo ver, com seus encantos, roda de samba e alegria, com o morro típico de tragédias como a que recentemente vitimou Marielle Franco, vereadora do PSol no Rio de Janeiro.

Sérgio Ricardo é sagaz ao questionar “quem é bandido?”, se um perseguido pela polícia, cria daquela favela, que viu os pais serem assassinados, ou se os poderosos de terno e gravata (ou com a farda cheia de divisas), a extorquir e agir a serviço da especulação imobiliária e do poder político e econômico – quase sempre uma coisa só.

É uma obra de ficção (embora baseada em fatos reais), mas qualquer semelhança com a realidade, e com o Brasil sob a égide dos golpistas, não é mera coincidência – e justifica o retorno de Sérgio Ricardo, aos 85 anos, ao cinema.

O diretor resgata imagens em preto e branco do noticiário da época, com depoimentos de moradores e autoridades, mesclando-as à trama, em que os atores mais conhecidos são Antonio Pitanga (João da Lua, um cego que é a memória viva do morro) e Osmar Prado (o deputado Délio dos Santos). De baixíssimo orçamento, o filme foi realizado com recursos captados através de crowdfunding.

O roteiro é bem urdido e podemos dizer que se trata de um filme de final ao mesmo tempo feliz e triste. No campo social, a comunidade vence a batalha. Já ao terreno do amor o destino não reserva a mesma sorte.

Serviço

O 5º. Festival Internacional Lume de Cinema segue até a próxima quarta-feira (21). Veja a programação completa.

A ficção retrata a vida

Rua Augusta. Frame. Reprodução

 

Primeira série de ficção produzida pela TNT Brasil (em parceria com a O2 Filmes), Rua Augusta [classificação indicativa: 16 anos] é uma adaptação da série israelense Allenby Street, e terá todos os episódios da primeira temporada disponibilizados amanhã (15) na plataforma Now/Net – Homem de vícios antigos assistiu aos dois primeiros episódios.

Como indica o título, o desenrolar das ações do núcleo central se dá em torno da famosa Rua Augusta, onde fica a boate Hell, palco de duas tentativas de assassinato em uma única noite.

Tecnicamente bem realizada, a câmera se movimenta bem em cenas dentro e fora da boate, mostrando o agito da noite paulistana, com seus personagens típicos. A série aponta para uma trama policial, cujo enredo inclui a certeza da impunidade por parte da playboyzada que acha que pode tudo, grandes poderes de figurões do empresariado, em conluio com autoridades para passar por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer, corrupção (policial) e sede de vingança, em vez de justiça – qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais no Brasil do golpe não deve ser mera coincidência.

Rua Augusta tem como protagonista a misteriosa prostituta Mika, interpretada por Fiorella Mattheis, num elenco que no geral dá conta do recado. O time se completa com Lourinelson Vladimir (Alex, proprietário da Hell), Milhem Cortaz (o segurança Raul), Rui Ricardo (o segurança Dimas), Rodrigo Pandolfo (Emílio, um jornalista trapalhão quase inverossímil, capaz de perder a notícia sob suas barbas), Pathy de Jesus (Nicole, stripper de vida dupla, talvez, ao menos nestes episódios iniciais, a interpretação mais artificial da trama), Jonathan Haagensen (Bruno, namorado de Nicole), Carlos Meceni (o empresário Maurício Amaral) e Zemanuel Piñero (Cézar, pau mandado de Amaral).

Rua Augusta tem direção de Pedro Morelli e Fábio Mendonça. O roteiro é assinado por Ana Reber, Jaqueline Vargas e Julia Furrer, o que deve garantir o olhar por um ângulo privilegiado à protagonista e ao núcleo feminino da série. A conferir.

Alegria na contramão

Herih. Capa. Reprodução

 

Há força, frescor e originalidade na música de Heriverto Nunes, que agora assina simplesmente Herih – “estou em busca de mais leveza”, afirmou em entrevista a este resenhista e Gisa Franco, no Balaio Cultural de sábado passado (10), na Rádio Timbira AM (1290KHz), programa que apresentamos semanalmente ao meio dia.

Herih tem os dois pés fincados no terreiro, que remete à sua infância, embora sua obra não se limite ao rico universo da mãe África e das religiões de matriz africana – a Herih, o disco, comparecem, por exemplo, o samba (a autoral Só me lembra você (Samba de esquecer) e Bermuda, parceria com Lauande Aires) e o bolero (Do nada o amor, com Tiago Máci).

Herih, o disco, é uma espécie de antologia, dividia em quatro partes: Unplugged, com 10 faixas em que é acompanhado apenas do violão e guitarra de João Simas (que assina arranjos e produção); Olha Pemba, título de seu EP anterior (cujas cinco faixas aparecem aqui na íntegra), com direção musical e violão de João Eudes; Tambor de Mina, com pontos autorais (Nossa Senhora das Graças, Pedra preta, Arranca toco, Marinheiro e Cabocla braba) e de familiares, creditados como Tio Cristiano (Banzeiro do mar e Vovô Artur), Vovó Alenice (Princesa Maria) e Tia Dalvina (Preto velho do Ariri). Nestas nove faixas (gravadas ao vivo, com som captado por Beto Ehongue), o artista conta com a percussão de Mestre Eliezer e Banda Ajayô, além dos vocais de Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos (o Trio 1, 2, 3, que dia 23 lança EP nas plataformas digitais), além de Mirna Voz. “Amigo é pra essas coisas. Botei as amigas pra cantar uma macumbinha”, agradeceu faceiro, na mesma entrevista.

Completam o rol de 27 faixas os bônus Pra sereia (Banco de areia) (Herih) e Pomba gira cigana, esta adaptada por Herih, incluindo um remix pelo dj Marcone Cutrim.

Na mesma entrevista, ele lembrou-se de um episódio de preconceito, sofrido ao apresentar uma música, por whatsapp, a um interlocutor não identificado que reagiu com um “Deus me livre”, “cruz credo” ou coisa que o valha. Era Seu tranca rua, música de sua autoria, que abre Herih, o disco que lança em show nesta quinta-feira (15), às 19h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), com participações especiais de Milla Camões, Tiago Máci, Alex Ferr e Mestre Eliezer – o couvert artístico custa R$ 15,00.

Em tempos de preconceito, ódio e intolerância, a voz, a ginga e as criações de Herih se insurgem contra este triste estado de coisas. Ele personifica o espírito do brasileiro, que não deixa de fazer festa mesmo quando tudo parece conspirar contra.

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Veja o clipe de Olha Pemba (adaptação de Herih):