Terra musical de todo mundo: um papo com Vitor Ramil

Campos neutrais. Capa. Reprodução

 

Este mês, na Emaranhado, coluna que assino mensalmente no site do Itaú Cultural, escrevi sobre o ótimo Campos neutrais [Satolep, 2017], disco novo de Vitor Ramil, com quem conversei sobre.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Retrato: Marcelo Soares. Divulgação

Homem de vícios antigosCampos neutrais dialoga com outras fases de tua carreira, mas não soa saudosista, embora revisite ídolos confessos como os Beatles e Bob Dylan, entre outros. É um disco aberto, embora a milonga ainda seja o eixo central. Você concorda? Como o definiria?
Vitor Ramil
– À parte a citação explícita a Strawberry Fields Forever, Beatles sempre aparecerá subliminarmente na minha música, bem como na música de todo mundo, porque eles foram fundamentais, estruturantes. Dylan é um compositor que às vezes eu gosto de versionar. É um desafio prazeroso para mim, que gosto de lapidar e me excito com o aspecto lúdico desse tipo de trabalho. A milonga está menos presente como gênero que como atmosfera e conceito em Campos Neutrais. Tens razão, o disco remete a algumas experiências dos meus discos anterior, mas o vejo fundamentalmente como um ponto a que cheguei depois de muita reflexão e muita prática. Considero o mais bem produzido, tocado, cantado, gravado etc. Fui muito criterioso, inclusive ao me sentir o mais livre e espontâneo possível durante as gravações. Trabalhei com figuras muito afinadas com a minha linguagem. A unidade é marcante no resultado. Tudo soa muito coeso, os arranjos, as performances.

É também o disco em que você mais se abre a parceiros. Como é colecioná-los e trabalhar com cada um/a deles/as? Da conterrânea Angélica Freitas, passando pelos nordestinos Chico César e Zeca Baleiro, até o paraense Joãozinho Gomes e o português António Botto, entre outros: a diversidade percebida no repertório de Campos neutrais se deve também a este leque de parceiros, não?
Sim, certamente. Essas parcerias foram acontecendo naturalmente ao longo do tempo. Com o Zeca já compus uma três musicas, com o Chico umas cinco. Mas são as primeiras colaborações nossas gravadas. Gosto muito do que conseguimos fazer juntos. Com a Angélica é um pouco diferente. Venho musicando a obra dela com o objetivo de gravar um disco dedicado à poesia dela, que é sensacional. O poema do Joãozinho musiquei depois de estar com ele em Macapá, e a canção nasceu pedindo tambores, aqueles tambores melancólicos do marabaixo. António Botto, quem diria, me fez compor um samba de corte clássico. É o inesperado das colaborações. Todas essas enriqueceram muito o disco e, de certa forma, justificaram a ideia dos campos neutrais como conceito do trabalho.

Em texto distribuído à imprensa você fala do projeto de gravar um disco inteiramente dedicado à poesia de Angélica Freitas, uma das poetas contemporâneas mais originais do Brasil. Sei que é cedo para falar em novo disco, Campos neutrais ainda tem uma estrada a percorrer e torço por que o show passe pelas terras de todos os parceiros, mas há previsão para a realização deste trabalho em parceria com ela?
Só não gravei ainda o álbum com a Angélica porque, depois de délibáb, dedicado às poesias de Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas, e de Foi no mês que vem, em que regravei 32 canções por ocasião do lançamento de um songbook, achei que precisava retomar minha trajetória autoral. Agora acho que o disco com poemas da Angélica pode ser a melhor escolha para um próximo trabalho, até porque o público já teve uma prova dessa colaboração com a música Stradivarius que está em Campos Neutrais, ou seja, nossos mundos já estão conectados.

Outro diálogo perceptível em Campos neutrais é o travado entre a estética do frio e certo calor nordestino, nortista, sobretudo a partir das parcerias com Chico César, Joãozinho Gomes e Zeca Baleiro. Você acredita que isto ajuda a te libertar de rótulos como os de “artista do frio” ou “dos pampas”, apesar de você ter inventado Satolep e viver nela?
Para quem olha superficialmente, talvez sim. O fato é que para mim não há essa oposição frio-calor. A estética do frio, em última instância, trata-se não de tentar estabelecer um conflito, mas de afirmar o sul-brasileiro através da imagem do frio, do frio tratado como símbolo de um lugar, do nosso clima de estações bem definidas (afinal de contas o Brasil, que se vê como “tropical”, nos associa ao frio) e como elemento de aproximação do sul do Brasil com Uruguai e Argentina. Quando falo em frio não estou defendendo uma racionalidade ou ausência de emoção. Longe disso. Falar em rigor, por exemplo, não é falar em rigidez. Há rigor em João Gilberto, há rigor em Elomar ou em João Cabral.

Você volta ao Dylan de Desire, vertendo Sara em Ana, como fez com Joey (Joquim), em Tango [1987]. O Dylan de 1976 é o seu preferido entre sua vasta discografia?
Sim, Desire é meu disco favorito do Dylan. Gosto também de Slow train coming, da fase religiosa, de onde versionei Um dia você vai servir a alguém (Gotta serve somebody). Costumamos escutar Dylan nas viagens de carro. Dylan, Miles [Davis], Alberta Hunter, Radiohead, Chet Baker ou Glenn Gould estão sempre conosco na estrada.

Palavra desordem é sobre os dias atuais, embora o verso “façam a revolução” evoque o oitentista RPM. É uma citação proposital? Você comprova a possibilidade de cantar sobre política sem soar panfletário. É um caminho urgente, possível e necessário no atual momento por que passa o Brasil?
Eu não me lembrava do “façam a revolução” do RPM. Se lembrasse, talvez não tivesse usado na música. Um sobrinho me chamou a atenção para isso e rimos muito. De fato, a retórica dessa música é revolucionária e ela pode ser interpretada desse modo, mas como um chamado à revolta profunda, não apenas política, feito às novas gerações. No entanto, o significado íntimo dela para mim é o de um chamado ao desassossego que fiz para mim mesmo. Eu tinha escrito uma letra que me pareceu muito obscura para um tema tão pungente e já um tanto complexo musicalmente. Achei a letra um pouco acomodada diante do desafio que a música exigia de mim. Então me indignei e cantei pra mim mesmo: “queimem os navios”…

Você canta em três línguas em Campos neutrais, o que tem a ver com a própria característica fronteiriça do Rio Grande do Sul evocada no título do álbum. O Brasil, vizinho de países de língua espanhola, em geral prefere cantar no inglês de terras distantes. Como você avalia esse distanciamento cultural do Brasil e seus pares do Mercosul, no sentido de que bandas argentinas, uruguaias etc., serem bem menos conhecidas por aqui que astros ingleses e americanos etc.?
O português e o espanhol respondem por essa fronteira do extremo sul. O inglês aparece como nas canções de toda parte. Os Beatles e a presença de sempre da cultura norte-americana e inglesa entre nós nos fazem volta e meia cantarolar em inglês. No caso do rock gaúcho, realmente o inglês é muito presente, ou foi. Algumas bandas ou artistas quando cantam português o fazem como se fossem estrangeiros cantando, com um certo sotaque. Acho engraçado. É que a influência do rock inglês dos anos 60 é imensa por aqui. Por que? Não sei. Talvez por ser uma região mais conservadora, onde o rock desde sempre aparece como afirmação e contraposição das novas gerações. Quando ao distanciamento do Brasil em relação aos países de língua hispânica, é mesmo muito grande. Lembro de quando vivíamos no Rio, nos anos 80. As pessoas lá achavam engraçado ouvir rock em castelhano, Charly Garcia, Fito Paez e poucos outros que chegavam. Riam. Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, os mesmos artistas eram ídolos. A língua e a cultura nos afastam mutuamente. E também o preconceito, o aculturamento, esse eterno bater cabeça para o que vem dos países de prestígio. Na Argentina não é muito diferente. Lá um artista norte-americano obscuro e fraco tem muito mais chance de despertar interesse da mídia que um artista brasileiro obscuro e genial. Igualzinho ao Brasil.

A exemplo de Foi no mês que vem, seu disco anterior, Campos neutrais também tem um respectivo songbook e foi financiado a partir de crowdfunding, o financiamento coletivo pela internet. A seu ver, o songbook facilita a apreensão de seu repertório por músicos que se interessem por tocá-lo? E o financiamento coletivo é uma saída nestes tempos sombrios que o Brasil atravessa, não apenas no campo cultural?
No meu caso, o songbook se mostrou de extrema importância, porque poucos conseguiam tocar as minhas músicas. Meus acordes em geral não são convencionais e ainda uso afinações preparadas. Muitas vezes, tocar uma música minha com os acordes simplificados fere a essência da composição de um modo que não parece ser a mesma música. Depois dos songbooks tenho ouvido muita gente tocar super bem as minhas canções, mesmo que essas versões incorporem novidades. Quanto ao financiamento coletivo é uma grande alternativa de produção. É bom para o público e para o artista. Uma espécie de resistência. Nesses tempos em que o disco já não vende e que montar um grande espetáculo é coisa apenas para artistas muito populares que arrastam multidões, o financiamento coletivo ajuda a viabilizar trabalhos de qualidade. E como observaste, essa forma de resistência não se limita à cultura. Se espraia pela sociedade de muitas maneiras, atendendo a inúmeras demandas.

Você é de uma família de músicos, irmão de Kleiton e Kledir, pai de Ian Ramil. Este disco tem a participação de sua sobrinha Gutcha, cantando um samba – e aqui voltaríamos ao tema da diversidade, já abordado. Qual a sensação de ser um elo desta genealogia musical?
É uma sensação muito boa, de toda a vida. Não sei como seria viver numa casa sem “muita” música. Estamos montando agora um show em família, homenagem à minha mãe, Dalva, de 92 anos. Vão estar todos os que citaste acima, mais o Thiago Ramil, irmão da Gutcha e o João Ramil, filho do Kledir. Fui muito influenciado pelos meus irmãos e adoro o que estão fazendo Ian, Gutcha, Thiago e João. Quero envelhecer vendo a gurizada tocando na minha volta.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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