Machado presente

Máximas, pensamentos e ditos agudos. Capa. Reprodução

 

Máximas, pensamentos e ditos agudos [Penguin Classics Companhia das Letras, Coleção Grandes Ideias, 2017, 102 p.; R$ 24,90; leia um trecho] “é composto de trechos selecionados da correspondência, das crônicas e dos textos críticos escritos por Machado de Assis durante meio século, de 1858 até as vésperas de sua morte, em 29 de setembro de 1908”, conforme anuncia o texto de apresentação, assinado pelo organizador Hélio Guimarães, respeitado machadófilo, enfatizando que a seleta não inclui a ficção machadiana.

No ano (eleitoral) de 2018, quando se completam 110 anos do falecimento do bruxo do Cosme Velho, o livro, lançado ano passado, soa bastante atual em mais trechos do que gostaríamos. “Muitas das frases são de uma espantosa atualidade, não porque o escritor previsse o futuro, mas porque entre o seu tempo e o nosso muita coisa permaneceu intacta, no Brasil e no mundo”, continua Guimarães, professor da Universidade de São Paulo, editor da Machado de Assis em Linha – Revista Eletrônica de Estudos Machadianos, autor de Machado de Assis, o escritor que nos lê [Unesp, 2017] e Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século XIX [Nankin/Edusp, 2012].

Separado em 12 pequenas seções, o livro perpassa comentários de Machado de Assis sobre si mesmo, o Rio de Janeiro, a política, costumes, livros, o ofício de escrever, vícios e virtudes, a posteridade e a glória, além de revelar admirações do escritor, entre outros temas.

“Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão” [“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 1º. de novembro de 1861] não é uma frase que parece talhada hoje, sob o regime golpista de Michel Temer e companhia?

Outros exemplos:

“Todas as crenças se confundem neste fim de século sem elas” [“A Semana”, Gazeta de Notícias, 19 de março de 1893].

“Pode dizer-se que o nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se leem […] [“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 24 de março de 1862].

“[…] As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata. [“História de Quinze Dias”, Ilustração Brasileira, 15 de agosto de 1876].

E uns conselhos (carapuças que caem bem a escritores e jornalistas, mas não só):

“A primeira condição de quem escreve é não aborrecer”. [“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 10 de março de 1864].

“Se és feliz, escreve; se és infeliz, escreve também”. [“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1864].

“Estilo, meus senhores, deitem estilo nas descrições e comentários; os jornalistas de 1944 poderão muito bem transcrevê-los, e não é bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro” [“A Semana”, Gazeta de Notícias, 13 de janeiro de 1895].

Até quando seguirá Machado sendo atual?

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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