Mais que uma declaração de amor ao cinema

A forma da água. Frame. Reprodução. © 2017 Twentieth Century Fox Film Corporation

 

Antes de tudo, A forma da água [The shape of water, 2017], de Guilhermo del Toro, é uma declaração de amor ao cinema. Pelas qualidades próprias do filme – elenco, roteiro (Guilhermo del Toro e Vanessa Taylor), fotografia (Dan Laustsen) e trilha sonora (Alexandre Desplat), coalhada do jazz de nomes como Benny Goodman e Glenn Miller, impecáveis – e pelas várias citações que aparecem ao longo das duas horas da trama – que se passam sem que percebamos.

Para começo de conversa, é difícil classificar A forma da água. Estão ali elementos de comédia romântica, thriller, policial, aventura, cinema mudo (como a protagonista), fábula e musical.

Conta a história de Elisa (Sally Hawkins, em destacada atuação), faxineira de um laboratório americano em plena Guerra Fria, que acaba se apaixonando por um estranho ser (Doug Jones), uma bela espécie de homem-peixe, criatura fisgada em águas amazônicas, onde era tratado como um deus pelo povo do lugar. A criatura começa a ser estudada a fim de ser usada na corrida espacial – os russos (no meio disso tudo há um espião) já haviam colocado um cachorro em órbita.

Eis o mote para o desenrolar da trama. Elisa é uma garota simples. Muda, ajuda Giles (Richard Jenkins) um vizinho pintor, homossexual e seu confidente – e também a voz do narrador que aparece aqui e acolá. Enquanto ele pinta e conversam, a televisão em preto e branco está sempre ligada em musicais.

Os apartamentos em que moram, localizam-se sobre o Orpheum, um decadente cinema de rua, enorme, que já não angaria espectadores para suas sessões, mas que segue firme graças à paixão (e teimosia) de seu proprietário. Em uma das cenas os funcionários estão colocando os nomes dos filmes que entrarão em cartaz: A história de Rute [filme de Henry Koster, de 1960] e As noites de Mardi Grass [de Edmund Goulding, de 1958].

O filme homenageia O monstro da lagoa negra [de Jack Arnold, de 1954, também protagonizado por uma estranha criatura]. Há várias outras, mas identifiquei citações a Bonanza, Mr. Magoo, Cinderela, Uma noite no Rio [de Irving Cummins, de 1941, que abre com Carmen Miranda interpretando Chica chica boom chic (Harry Warren/ Mack Gordon)], A mascote do regimento [de David Butler, de 1935, a cena do sapateado na escada, que Elisa e Giles imitam batendo os pés no chão], além da dupla Fred Astaire e Ginger Rogers, na cena em preto e branco em que Elisa e a criatura dançam, quando A forma da água se transforma mais especificamente em um musical.

A melhor amiga de Elisa é a colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer), que comete pequenos delitos como fumar em local proibido (fora do alcance da vigilância das câmeras de segurança) e não hesita em embarcar na aventura da amiga.

De forma hábil, ao ter como protagonista uma criatura quase humana, A forma da água discute temas demasiadamente humanos como crueldade, racismo, machismo, misoginia, homofobia, intolerância, hierarquia (sobretudo a militar; o coronel Strickland, interpretado por Michael Shannon, é uma caricatura com fortes traços de outros temas desta lista), entre outros. Quem são mesmo os monstros?

A forma da água deve levar, merecidamente, diversas estatuetas do Oscar para casa – foi indicado em 13 categorias [Filme, Diretor, Atriz (Sally Hawkins), Roteiro original, Ator coadjuvante (Richard Jenkins), Fotografia, Atriz coadjuvante (Octavia Spencer), Direção de arte, Figurino, Edição, Trilha sonora, Mixagem de som e Edição de som]. O filme é uma celebração ao respeito às diferenças e ao amor, sobretudo o amor ao cinema, mas não só. Perceberá quem tiver olhos – e coração – para ver.

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Assista ao trailer:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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