Lições de um guará

Esplêndido. Capa. Reprodução

 

2017 foi um ano de descobertas para Cláudio Lima. Artista sempre apontado como cantor talentoso, revelou-se compositor ao assinar, sozinho ou em parceria, a metade das faixas de Rosa dos ventos, seu terceiro disco. O ano que findou revelou ainda outra faceta de Cláudio Lima: a de escritor, autor do infanto-juvenil Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho [Gwará/ Sesc/ Oca/MA, 2017, 48 p.], ilustrado por Rosiane Bastos.

Claudio Lima não coloca no papel algo ouvido da tradição oral, nem reconta uma lenda ou algo que o valha. Ele parte de um argumento original e seu livro debate questões urgentes e fundamentais, todas pautadas em direitos humanos, como a preservação do meio ambiente, sabedoria indígena, solidariedade, bullying, igualdade, amizade, adoção, alimentação adequada etc.

Livro para ser lido por crianças de todas as idades, com o perdão do clichê, Esplêndido conta a história de um guará que é muito mais que um guará que não conseguia ficar vermelho. É a história de um guará que cai do ninho ao nascer, se perde de sua família original, se afeiçoa a um caranguejo chama-maré (base da alimentação da espécie) e é adotado por uma siricora.

Fábula de formação – acompanha os passos do guará do nascimento aos ensinamentos que nos deixa ao longo da leitura –, sua moral vem em forma de poesia, com referências sutis (à cantora Maysa, rainha da fossa, gênero a que Cláudio Lima já dedicou um disco) ou escancaradas (à poeta Cora Coralina, que empresta o nome à Siricora Coralina, mãe adotiva de Esplêndido).

O quanto temos em comum com o protagonista, muitas vezes querendo ser isto ou ter aquilo sem entender o sentido de determinadas buscas?

“Às vezes a gente tenta maquiar os problemas, achando que as aparências são o mais importante. Se tu quer uma transformação, ela tem que vir de dentro”, ensina-lhe/nos Pedro Bó, um macaco amigo. “Tu realmente acreditas que só os pássaros vermelhos são felizes? A felicidade tem tantas cores!”, disseram-lhe/nos árvores e nuvens em uníssono durante um sonho.

Viva a diversidade!, outro tema abordado por Cláudio Lima em seu livro de estreia, recheado de ensinamentos, longe da autoajuda que costumeiramente vira best-seller. Aquela voz (das nuvens e árvores no sonho), volta a se pronunciar: “às vezes o mundo com suas provocações te deixa desamparado e buscas alguma ilusão que te cega e deixas de tirar proveito da tua própria angústia. Vou te dar apenas dois conselhos: 1. Busque o amor dos outros do jeito que eles te sabem amar e retribua; 2. Busque conhecimento em todos os lugares onde tiveres acesso. Assim tuas dúvidas poderão transformar-se em sabedoria”.

Vale usar o próprio título do livro para elogiá-lo?

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

5 comentários em “Lições de um guará”

  1. Caro homem de vícios antigos. Sensacional,Esplêndido,Encantador…muitos poderiam ser os termos aplicados a obra “Lições de um guará .” Mas com certeza de elogios.Quero muito ler. Sucesso ao autor.

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