Kucinski, definitivamente grande

Pretérito imperfeito. Capa. Reprodução

 

Poucas estreias literárias foram tão surpreendentes quanto a de B. Kucinski, apenas aos 74 anos e com uma respeitável carreira como jornalista e professor universitário – sim, é o mesmo Bernardo Kucinski a que estávamos acostumados a ler sobre economia e política. A novela K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho] contava, com ares de ficção, a cruel realidade do desaparecimento de sua irmã, também professora da USP, mais um entre muitos episódios até hoje nunca esclarecidos da ditadura militar brasileira.

A K seguiram-se Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.], cujos contos passam-se também durante a ditadura militar, e Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], romance policial que trata das investigações do assassinato de uma professora da USP, e a novela Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], espécie de errata, em que um escritor recebe várias visitas em seu apartamento questionando este ou aquele aspecto de seu livro anterior [K], discordando de datas, episódios e imprecisões outras sobre acontecimentos do regime, em geral envolvendo parentes dos reclamantes.

Se em grande parte de suas obras anteriores o inferno é a ditadura militar, agora Kucinski aborda a conturbada relação entre um pai e um filho adotivo sobrevivendo noutro inferno: a dependência química. Com pleno domínio da linguagem, em prosa límpida e cerzida por referências nunca exageradas ou ocas, aborda outras literaturas de ficção produzidas a partir da busca por paraísos artificiais – expressão de Baudelaire –, além de pedagogia e psicanálise.

Pretérito imperfeito [Companhia das Letras, 2017, 151 p.; R$ 39,90, em média; leia um trecho] parte de uma carta escrita pelo pai (mas não revelada aos leitores), desresponsabilizando-se do filho problemático (no fundo, nunca se desliga por completo), a busca frenética deste pelos prazeres proporcionados por estados alterados de consciência (seja lá a substância que se use para obtê-los – ou, antes, com o que quer que se pague para obter estas substâncias), a cruzada em busca de regeneração, recaídas, passagens por presídios e centros de reabilitação.

Em sua ficção, Kucinski questiona a responsabilidade de casais em processos do que chama particularmente de adoção à brasileira, geralmente realizada para suprir alguma carência do casal – e não da criança.

O consumo de drogas é tema desde sempre por demais abordado em quaisquer campos da arte, não só no Brasil. Kucinski equilibra a elegância na escrita com o domínio do assunto, nunca prolixo, controlando qualquer tendência ao enciclopedismo barato, num exercício que o aproxima de mestres como Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna. Em suma: mesmo tendo estreado tardiamente – mais correto talvez seria dizer que estreou na hora certa – Kucinski o fez já como gente grande.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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