Uma releitura tinindo trincando

Foto: Zema Ribeiro

 

Há alguns anos uma enquete da revista Rolling Stone Brasil elegeu Acabou chorare (1972), dos Novos Baianos, o melhor disco da música brasileira em todos os tempos. A história é por demais conhecida: após uma estreia mais roqueira em Ferro na boneca (1970), a trupe de Moraes Moreira, Luiz Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e companhia deu uma guinada rumo à brasilidade após uns encontros com o papa João Gilberto.

O conterrâneo (de Juazeiro, como Galvão) já havia revolucionado a música mundial como um dos inventores da Bossa Nova, com seu violão e seu canto sui generis. Ao encontrar o bando em um apartamento no Rio de Janeiro apresentou-lhes Assis Valente, compositor de sucessos de antigos carnavais, já falecido. A ele, os Novos Baianos somaram cavaquinho, bandolim e percussão: nA Cor do Som da comunidade hippie Jacob do Bandolim caiu no rock, Jimi Hendrix no choro.

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”. O Brasil pandeiro do também baiano (de Santo Amaro) abre o que viria a se tornar um clássico – não à toa o bom público presente ao Fanzine Rock Bar na noite de ontem (14) cantou a íntegra de seu repertório a plenos pulmões. A Calabar, banda responsável pelo belo tributo, não se limitou a Acabou chorare.

A influência de João Gilberto não pararia por ali, no entanto. A faixa-título também tem seu dedo: Moraes Moreira e Luiz Galvão escreveram-na após ouvir a história contada por aquele a quem Caetano Veloso já se referiu como “melhor do que o silêncio”. Bebel Gilberto, filha de João, então uma criança, havia caído e chorou. Depois de superar a dor e enxugar as lágrimas, mandou em um latim infantil e particular: “acabou chorare”, inspirando o baiano de Ituaçu e seu parceiro de Juazeiro.

Surgida mais ou menos recentemente, a banda Calabar havia se notabilizado no cenário ludovicense ao estrear com um show-tributo ao mítico Transa (1972), de Caetano Veloso, que contava entre outros feitos com o violão de Jards Macalé e o trazia primeiro registro fonográfico de Angela Ro Ro, que toca gaita em Nostalgia (That’s what rock’n roll is all about), faixa que encerra o álbum.

O nome do grupo é inspirado na peça de teatro musicada Calabar: o elogio da traição (1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra. Se “tradução é traição”, como atestam experts no assunto, está explicada a química no palco: não há cavaquinho ou bongô, por exemplo, é como se os Novos Baianos decidissem refazer Acabou chorare com a pegada de Ferro na boneca.

A Calabar é formada por Fernando Marques (contrabaixo, um monstro que parece ter saído de uma banda inglesa), Fernando Moreira (bateria), Paulo Muniz (guitarra e violão), Rômulo Rodrigues (guitarra) e Cláudio Leite Filho (voz, filho de Cláudio Leite, famoso na noite da Ilha sobretudo pelas releituras de Chico Buarque), e ontem contou com o reforço de Jéssica Góis (voz), que já havia feito uma apresentação inteira com a Pédeginja, um dos shows de abertura da noite, que teve ainda Marcos Magah e Tiago Máci (que este repórter não viu) – rouca por volta das duas da manhã, bateu o recorde de Juninho Paulista, que em 1994 disputou duas partidas pelo São Paulo Futebol Clube no mesmo dia.

O show da Calabar refez a íntegra do repertório de Acabou chorare – a banda não se preocupou com a ordem das faixas no disco, o que certamente seria óbvio demais, nem com os vocais masculinos e femininos divididos entre Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo. A faixa-título, por exemplo, no disco interpretada por Moreira, foi relida por Jéssica Góis no show de ontem. É preciso ter personalidade para certas ousadias.

Ainda que fora da ordem, um show apenas com o repertório de Acabou chorare seria curto e a Calabar espraiou-se por outras fases da carreira do grupo, lembrando clássicos como Samba da minha terra (Dorival Caymmi) e Na cadência do samba (Ataulfo Alves/ Paulo Gesta/ Matilde Alves), mais heranças joãogilberteanas.

“Mais um, Bahia”, pede o hino do tricolor baiano, cuja letra é emendada, em Cosmos e Damião (Luiz Galvão/ Moraes Moreira) ao Bim Bom de João Gilberto (ele de novo!), ao que a Calabar mixou, ao vivo, A rã (João Donato/ Caetano Veloso), Quando você chegar (Luiz Galvão/ Pepeu Gomes) e Bananeira (João Donato/Gilberto Gil).

Outra extra que não está em Acabou chorare, Dê um rolê (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), recentemente abertura de novela na interpretação de Pitty, e seu mantra “eu sou amor da cabeça aos pés” era um pouco o resumo da comunhão das almas apreciadoras de boa música presentes ao Fanzine, reverenciando o frescor de um disco lançado há 45 anos. Não à toa, a festa, encerrada com Preta pretinha (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), se chamava Baile tropical.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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