Fossa nova

Auê. Capa. Reprodução

 

Trilhas sonoras que ganham vida própria após os espetáculos para as quais foram criadas podem ser citadas aos montes. Para ficar em poucas, lembremos as de Yann Tiersenn e Miles Davis para cinema, as de Chico Buarque para teatro e as criadas por nomes como Tom Zé, Arnaldo Antunes e Lenine para espetáculos de dança do Grupo Corpo.

É nesta categoria que se insere o primoroso trabalho da Barca dos Corações Partidos em Auê [Sarau, 2016]. A execução da trilha sonora original do espetáculo dirigido por Duda Maia reúne um time de músicos de primeira linha: Adrén Alves (alfaia, maracas, pandeirola, saxofone, voz), Alfredo Del-Penho (flauta, violão de aço, violão, violão sete cordas, guitarra, baixo, percussão corporal, voz), Beto Lemos (guitarra, guitarra com arco, baixo, rabeca, alfaia, zabumba, triângulo, pandeiro, mineiro, voz), Eduardo Rios (sanfona, saxofone, voz), Fábio Enriquez (alfaia, trompete, flugelhorn, voz), Renato Luciano (violão de aço, guitarra, trombone, voz), Ricca Barros (baixo, saxofone, cavaquinho, voz) e Rick De La Torre (bateria).

Todas as músicas são composições de membros do grupo. As exceções são A barca dos corações partidos e Madeixa, ambas de Moyseis Marques, a primeira em parceria com Bena Lobo, a segunda com Vidal Assis – exibindo a nordestinidade do versátil sambista carioca, a primeira um belo baião, a segunda um inspirado xote.

Direta ou indiretamente, A Barca dos Corações Partidos cita diversas brasilidades, contemporâneas ou não. Desde a guitarrada em Gerais (Renato Luciano) aos cantores da era de ouro do rádio em Sem perceber (Alfredo Del-Penho), evocados por Ricca Barros. Passa por títulos que dão pistas do conjunto da obra: Versim de amor (Renato Luciano), Remédio (Renato Luciano), Ciúme (Rick De La Torre), Saudade (Beto Lemos).

Recitado pelo autor, Doideira de amor (Eduardo Rios), destaque em um disco de repertório de alto nível, é um poema de fôlego que lembra o melhor Cordel do Fogo Encantado: “se a minha tão bela amada/ ocupar a minha mente/ de maneira totalmente/ com seu rosto sorridente/ executo o meu plano/ tão logo rapidamente// Uma mão vai no meu bolso/ encaixa no meu facão/ a outra acha o meu peito/ desabotoa o botão/ deixando o caminho livre/ pra minha morte de paixão// Corto sem dó a minha pele/ abro os ossos da minha caixa/ enfio uma mão lá dentro/ logo ela tateia e acha/ o troço que faz “tum-tum”/ que põe minha vida em marcha”. Visceral. Literalmente.

Dom de um amor só (Eduardo Rios) tem a modéstia dos apaixonados, como a se desculpar por isso, como a pedir licença para transbordar, e novamente evocando brasilidade – desta vez uma unanimidade nacional: “nunca serei Chico Buarque/ pra rimar bem sua beleza/ meus versos são simples e rasos/ mas vêm do fundo da minha tristeza”. Ali (Renato Luciano), pelo timbre do autor, fecha o disco remetendo ao melhor Oswaldo Montenegro.

Um grupo chamado Barca dos Corações Partidos que faz um disco chamado Auê pode parecer contraditório. Talvez seja. Melodias vibrantes, pra cima, em versos em geral sobre dores, fins, amores desfeitos… corações partidos. Resumo da ópera, da peça, da trilha: Lupicínios do século XXI, este timaço reinventa a fossa e sua música remenda corações partidos.

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Veja a Barca dos Corações Partidos em Saudade (Beto Lemos):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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