O Carvalho que merece culto

Filho da mesma terra que legou ao Brasil nomes como Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna e Wander Piroli, o mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) é um dos mais delirantes autores de nossa literatura em todos os tempos.

Em boa hora – teria completado 100 anos em novembro passado – a editora Autêntica (não por acaso também de Minas Gerais) vem recolocando sua obra à disposição de leitores interessados. Alvíssaras!

A tiragem média de um livro de ficção de autores brasileiros orbita entre 2 mil e 3 mil exemplares, o que é muito pouco num país com mais de 5 mil municípios e 200 milhões de habitantes. Ou seja: em média, há menos de um leitor por cidade, isso se não considerarmos o encalhe, e sabemos que nem toda a tiragem de uma obra é vendida, ou ao menos não o é imediatamente.

Na contramão destes números e apesar das trombetas insistirem em anunciar a morte do livro de papel, nunca se publicou tanto (em papel) no Brasil. A pergunta, neste país de escritores, é: quem lê?

A obra de Campos de Carvalho é fascinante. Basta um parágrafo de A lua vem da ásia [2016, 174 p., originalmente publicado em 1956; R$ 47,00] ou Vaca de nariz sutil [2017, 94 p., originalmente publicado em 1961; R$ 44,90] para ser fisgado pelos narradores que enumeram suas peripécias num hotel (ou hospício), no primeiro, ou na guerra, no segundo.

Não à toa indagaram-lhe se era louco pelo conteúdo surrealista de seus livros, o que contribuiu para um progressivo desaparecimento e consequente esquecimento.

Esteta com domínio absoluto da linguagem – redundo? – Campos de Carvalho escreve beirando o nonsense, sem nunca perder o bom humor – o narrador de A lua vem da Ásia evoca o machadiano Simão Bacamarte – tornando cada página, antes cada frase, uma experiência memorável. Dá vontade de fotografar cada trecho e compartilhar nas redes sociais (o que muito fiz durante sua leitura).

A despeito do pequeno número de leitores, cria-se (ou rearticula-se) uma pequena confraria ao redor da obra de Campos de Carvalho. Os próximos volumes a serem lançados pela Autêntica são A chuva imóvel [1963] e O púcaro búlgaro [1964], o livro preferido do escritor. É torcer para que não torne ao ostracismo, agora póstumo, este autor tão necessário. Ainda mais num tempo em que o absurdo do noticiário é forte concorrente para a literatura de ficção.

Leia trechos:

A lua vem da Ásia. Reprodução

“O melhor lugar para se comer, quando não se tem onde comer, ainda é um bom velório – em casa de família modesta e decente.

Esta filosofia da fome levou-me ontem à noite, debaixo de chuva e tudo, a procurar pela cidade, de bairro em bairro, uma porta aberta por onde pudesse divisar algum defunto sobre uma mesa, já que todos os restaurantes me batiam com a porta na cara e os dois ou três transeuntes a quem pedi uma esmola nem sequer se dignaram a fitar-me no fundo dos olhos.

Depois de muito perambular, com o estômago às costas para pesar-me menos, acabei descobrindo um velório mais ou menos no estilo do que eu desejava, num canto de uma rua escura e sem bondes, onde as casas eram todas iguais e não traziam sequer um número para identificá-las. Se eu tivesse procurado, talvez houvesse encontrado mais adiante algo melhor e mais convidativo, mas confesso que a essa altura minhas pernas já não me aguentavam mais e tive que contentar-me com o que tinha pela frente”.

(A lua vem da Ásia, p. 126)

*

Vaca de nariz sutil. Reprodução

“Minha lógica era perfeitamente lógica, e isso os desnorteava e a mim principalmente. Tinham me ensinado tanta e tanta coisa que eu me julgava um animal pensante, capaz de criar pensamentos para enfrentar esta ou qualquer vida, como um deus em miniatura, com alma imortal e tudo; de súbito fui virado pelo avesso, quem me virou não sei, o médico disse que fui eu mesmo, e as coisas mais simples se tornaram terrivelmente complexas, como viver por exemplo, ou dormir sobre o lado esquerdo, como havia feito desde sempre. Até copular, que era a minha distração predileta, tornou-se um problema sério, de quase impossível solução, e isso sem falar nas suas consequências mais remotas, que eu transferia aos fabricantes de preservativos ou de anjos, como fazia toda gente: o problema era saber como duas pessoas podiam fazer de conta que eram apenas uma, ou nenhuma, mesmo em se tratando de xifópagos, só porque se punham nuas uma sobre a outra, ou a outra sobre uma, com ou sem auxílio de vaselina. Tratava-se de um êxtase afinal de contas, e não de um êxtase metafísico ou religioso, mas de um êxtase segundo a carne, como o sonho ou o pesadelo, por isso mesmo incomunicável – e fazer dele partícipe, um estranho, era o mesmo que fazer alguém cúmplice de um nosso crime, nosso e de mais ninguém. O vício solitário passava a ser assim a virtude solitária, era-se hermafrodito por princípio e por fatalidade, o indivíduo tornava-se de fato indivíduo, nada de promiscuidade ou confusão. Foi a fase áurea do meu onanismo, bem diversa da que me impunha a trincheira ou a caserna, e cheguei mesmo a tentar uma espécie de ioga baseada estritamente na contemplação do falo e na sua, deste, autodidaxia, com implicações filosóficas do mais alto grau. Não fosse o avô ter-me descoberto um dia, qual um encantador de serpentes, com o pênis a um palmo da boca – mas isto é o fim do mundo! – é muito provável que a esta altura eu figurasse entre os dez maiores místicos do Ocidente, deste século pelo menos. O velho abriu a boca no mundo, veio um creio especialista em falos serpentinos, fui examinado dos pés à cabeça e da cabeça aos pés, houve o inefável conselho de família, decidiu-se pela minha extrema periculosidade. O Exército já sabia disso, tanto que me condecorou e me mandou para casa, mas um herói visto assim de frente e em pelo sempre impressiona muito mais: puseram-me de cama durante um mês, pés e mãos atados, com um enfermeiro encarregado de fazer-me urinar e apenas isso, como se se tratasse, o meu, de um sexo comum e irresponsável. Eu urinava, urinava, o cigarro no canto da boca, até que voltou o ferrabrás e ordenou: pode levantar-se. Eu ou o pênis?”

(Vaca de nariz sutil, p. 64-66)

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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