A maturidade de Luana Carvalho

Sul. Capa. Reprodução

 

Sul e Branco são o par de discos recém-lançados por Luana Carvalho, que surgem juntos, em formato de cd duplo, mas funcionariam bem se lançados independentes entre si. Aliás, o conjunto ultrapassa os limites do formato álbum, em que se convencionou embalar um punhado de canções.

Branco. Capa. Reprodução

Sul e Branco são verdadeiros tratados artísticos, extrapolando o universo musical. Por seus encartes – com projetos gráficos e ilustrações de Diego Limberti – comparecem textos da própria Luana Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Lenine, desenho de André Dahmer, artes plásticas de Tomás Cunha Ferreira, Kammal João, e poemas de Alice Sant’Anna, Eucanaã Ferraz, Sophia de Mello Breyner Andresen e António de Souza.

A cantora e compositora é filha de Beth Carvalho, mas a não ser pelo sobrenome que carrega, poderia prescindir do cartão de visitas. Isto é: não deveria ser necessário dizer de quem é filha para que se preste atenção ao talento. Não que seja crime ou pecado filha de peixe, peixinho ser: Luana Carvalho desponta madura. Entre outros filhos ilustres que comparecem aos discos estão João Cavalcanti (filho de Lenine), Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Moreno Veloso (filho de Caetano), herdeiros cujos talentos também vão além do DNA.

“Tudo é samba” e seus trabalhos têm os dois pés no gênero, que moderniza sem desconfigurar. Luana canta e toca violão, escoltada pela banda base formada por Pedro Sá (guitarra, contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria, percussão, teclado e mpc) e Moreno Veloso (percussão, violoncelo), que com ela assina a produção fonográfica de Sul – e sozinho de Branco, disco em que a eles se somam Alberto Continentino (contrabaixo), Alexandre Caldi (flauta), Altair Martins (trompete), Bebê Kramer (sanfona), Bruno di Lullo (contrabaixo, teclado), Davi Moraes (guitarra), Lucas Vasconcellos (guitarra, contrabaixo), Marcelo Caldi (sanfona), Marlon Sette (trombone), Pedro Luís (violão e percussão), Rafael Rocha (bateria e mpc) e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e wurlitzer).

Sul é completamente autoral – ela assina sozinha suas sete faixas. Em Branco, à sua lavra juntam-se Lucas Castello Branco (Garupa, parceria com Luana Carvalho), Pedro Luís (Luz do âmbar e Indivídua, parceria com João Cavalcanti), José Chagas (Palavra acesa, poema musicado por Fernando Filizolla), Domenico Lancellotti (Ar para jantar, parceria com André Dahmer), Caetano Veloso (Força da imaginação, parceria com D. Ivone Lara, que participa da faixa cantando e abençoando). Gravados em Nova York, ainda há espaço para a brasileiríssima Luana Carvalho esbanjar latinidade na regravação de Paloma negra (Janney Marin/ Joaquin Aguirre/ Tomas Mendez/ Julio Reyes).

Por e-mail, Luana Carvalho conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Atenção, produtores!: ela começa a conversa revelando sua vontade de voltar ao Maranhão, que muito visitou acompanhando sua mãe em turnês na infância. Suas respostas só reafirmam o que atestam seus discos: é artista que já nasceu pronta. Mesmo quando aparentemente se esquiva, não desconversa: ela desconcerta.

Foto: Tati Domais

Sul e Branco são dois discos independentes e diferentes entre si, que funcionariam se lançados separadamente. Por que a decisão de lançá-los como um álbum duplo?
Primeiro quero dizer que estou bastante feliz com esta entrevista. O Maranhão é um dos estados que mais gostava de ir quando acompanhava minha mãe em turnês na infância. Quero muito voltar aí. À pergunta: porque são dois organismos diferentes com o mesmo sangue. O Sul não existiria sem o Branco. Não no sentido cronológico natural de um trajeto, mas porque foi feito em estado de espera: enquanto o Branco corria pelas burocracias. Foi ouvir o Branco que me levou aos vazios onde construí o universo de composições do Sul. E por ser mais íntimo e o mais próximo de mim agora, era justo que chegasse primeiro. O Sul é o convite. O Branco é o endereço do baile.

Teus discos, aliás, ultrapassam o conceito de álbum, ao propor um diálogo entre diversas formas de expressão. Além da música estão lá a poesia, a prosa, as artes plásticas. Num tempo em que fala-se tanto na derrocada da indústria fonográfica e na morte do disco físico, é ousado valorizar tanto este suporte?
Não ouso ousar. Porque não acredito em rupturas. Acho que tudo é fluxo e contínuo e já foi visto em algum lugar. É cíclico: o preto e branco levam ao excesso de cores e brilho que levam ao preto e ao branco, o objeto leva à nuvem que leva ao objeto. Hoje prefiro o preto e o branco, amanhã não sei. Quanto ao disco físico, preciso do equilíbrio dos sentidos; ouvir o disco, tocar no disco, o cheiro do disco, o manuseio das páginas de um encarte. Também adoro poder dar dois ou três cliques e ouvir um álbum inteiro ou fragmentado, não deixa de ter tato e há um desafio interessante aí. Tanto pro artista quanto pro ouvinte. Portanto não se trata de saudosismo. Mas o objeto ainda me toca, me dá a sensação de todo da obra, de estar mais próxima do que realmente queria o artista com aquele trabalho incluindo o peso, a textura. As coisas têm vontade. Gosto de me debruçar sobre as coisas, reverenciá-las. Toda vez que me refiro ao meu disco acabo dizendo livro. Talvez pelo desejo de um dia escrever um. Acho que a necessidade de aferir à coisa algum valor equivalente pode ser a causa deste ato falho. O disco Livro [1997] do Caetano tem um dos melhores títulos que já conheci, pena que não pensei nisso antes [risos].

Qual o peso e a responsabilidade de ser filha de Beth Carvalho?
Tem cinco minutos ou a vida inteira?

E de ter a bênção de Dona Ivone Lara?
Isso é o tipo do acontecimento que faz diferença todos os dias naquele instantinho em que abrimos os olhos e revemos a vida inteira. É uma honra que carrego no dorso aonde quer que eu vá.

Em algumas músicas você evoca a Mangueira, escola de sua mãe, mas o álbum é tingido do azul e branco da rival Portela. De que torcida você faz parte?
Torço pelo carnaval.

Sua mãe é uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, mas quase nunca entra em qualquer lista do tipo, por ser rotulada de sambista. A seu ver, apesar dos avanços e da aceitação social que o gênero passou a ter ao longo dos anos, ainda há muito preconceito?
Como diriam o João Gilberto e o Pedro Sá: tudo é samba. Mas infelizmente nem todo mundo tem a sensibilidade musical de um João Gilberto ou de um Pedro Sá. A subestimação do samba é uma implicação sociopolítica. Muito mais complexa do que sou capaz de analisar. O João costumava dizer que minha mãe é a maior cantora do Brasil. Era o que ele dizia. E como também disse Augusto de Campos: João é João, nenhuma perda. Por acaso hoje, quando escrevo, é aniversário dele [10 de junho]. Viva o samba! Viva João!

“Se minha mãe mandar eu obedeço”, você canta em Oxum, minha mãe. Era inevitável ser artista? Gostaria que você comentasse um pouco o ambiente familiar e esta escolha.
Não era inevitável pelo ambiente familiar, podia ter desviado. É inevitável porque é o que mais gosto de fazer dos meus dias: música de toda poesia que percebo no mundo.

O que sua mãe achou dos discos?
Acho que ela gostou muito dos discos. Sinto o respeito de uma veterana pelo meu trabalho, mais do que uma reação amorosa de mãe. Isso me dá muita alegria. Mas aí só você perguntando a ela.

Em Sul e Branco você se cerca de uma geração relativamente nova, talentosíssima e onipresente: os caras tocam com todo mundo. Como se deu essa escolha e como foi gravar com eles estes dois discos?
Foi fácil e assustador. Porque os caras realmente entenderam tudo e isso facilita muito. E os caras realmente entenderam tudo e isso assusta mesmo. Muito por causa do Moreno, que soube me ouvir e conduzir tudo com profunda sensibilidade poética. Ele me emprestou a turma e eu nunca mais saí do pátio. Mas o caminho é mais complexo do que parece. Embora sejam realidades aparentemente próximas à minha, eu vim de longe para encontrá-los. E ainda bem que o fiz.

Suas releituras têm bastante personalidade, você imprime algo de autoral nas regravações que faz. É o caso, por exemplo, de Palavra acesa, do paraibano José Chagas, que acabou se tornando maranhense, já que foi aqui que viveu a maior parte de sua vida. Por que a escolha? Você conhece a obra de Chagas além desta música?
Obrigada! Conheço e amo a obra de Chagas, sim. “Violeiro sem viola”. Homem da palavra de repente. Compartilhamos a paixão por telhados e ripas: o interesse no que acontece sob eles. Palavra acesa é um poema lindíssimo! Na versão musicada seus autores parecem ter sentido o poema – como dizia Chagas sobre as pessoas diante do mundo – antes de compreendê-lo. Por isso a beleza da canção. Sinto muito os movimentos das horas antes de compreender. E a música que faço é só por causa da poesia, no sentido amplo do poético; aquele avião que passa e meu dia nunca mais será o mesmo, o cheiro impregnante da tangerina e do café, a plataforma que se ergue no mar sem que eu tenha me dado conta, os instantinhos. Este grande versificador paraíba-maranhense foi fundo na humanidade, sabia a poesia do mundo apesar do poema, a poesia que está além do poema, e chegou a dizer que haverá um dia em que não haverá mais o poema, porque só a música é verdadeiramente necessária. Não sei se há razão nisso, mas certamente há poesia. E onde houver poesia, minha música será possível.

Talvez seja cedo para falar em próximo disco, mas quando formos falar dele devemos nos referir ao segundo ou terceiro disco de Luana Carvalho?
Como vocês preferirem!

*

Ouça Indivídua (Pedro Luís/ João Cavalcanti):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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